Monthly Archives: julho 2005

Sin City

Sin City

Um homem e uma missão. Este é Hartigan, policial obstinado a salvar uma garotinha de 11 anos das mãos de um assassino estuprador. Outro homem e outra missão. Marv quer vingar a morte da única mulher que ignorou sua aparência monstruosa. Um terceiro homem, mais uma missão. Dwight precisa evitar que um grupo de prostitutas seja atacada por um bando de malfeitores. A vida tem poucas cores em Basin City, lugar dominado por personagens com um firme propósito: sobreviver. O ambiente criado por Frank Miller reproduz o universo escuro dos filmes noir, onde corrupção, crimes e violência estão intrinsecamente ligados ao que move o dia-a-dia.

Traduzir para o cinema as histórias de Hartigan, Marv e Dwight foi a missão de um quarto homem: Robert Rodriguez. Cineasta extremamente irregular, ele optou pela inverossimilhança para ser o mais fiel possível à obra original. Rodriguez, que dividiu o cargo de diretor com o próprio Miller (e foi expulso do Directors Guild of America por causa disso), decidiu estilizar ao máximo seu filme, artificializando a fotografia em preto-e-branco (estourando a luz, trabalhando com fundos azuis e cenários virtuais, destacando os mínimos elementos coloridos). A tática, acusaram, deixou o filme perigosamente próximo às graphic novels, quase uma prisão formal.

Bobagem. As técnicas usadas por Rodriguez são impressionantes. Capturaram o “movimento” das HQs. Nunca houve um filme que reproduzisse com tanta eficiência e fidelidade a linguagem dos quadrinhos. Revolução, sim. Revolução que não merece o nome de obra-prima, mas revolução. Mas Sin City se dedica a essa preocupação estética com o mesmo empenho com que cuida de suas personagens, todos mergulhados em pequenas crises pessoais e tratados como peões de um mundo noir, ressaltado pela narração em off.

Para condenar a violência, que vem em dose excessiva porque é ela que conduz a história, é preciso um argumento muito bom porque os três protagonistas, ainda que procurem métodos questionáveis, têm motivos justos, que quase sempre esbarram na defesa de inocentes. O mais violento de todos, Marv, ganhou um intérprete apaixonado em Mickey Rourke. Longe de um papel decente havia anos, o ator se entrega completamente ao anti-herói deformado que quer vingar seu único e fugaz amor. É comovente pensar que isso pode ser fruto de uma identificação com a aparência monstruosa do ator. Quem pode ter certeza? Ninguém. Em Sin City, não há muitas verdades.

Sin City – A Cidade do Pecado EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Sin City, Robert Rodriguez & Frank Miller, 2005]

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Elogio à criação

O poder de criação de uma criança é algo sem limites. Numa cultura em que a idéia de que a saúde nasce apenas de uma pelada ou de uma brincadeira de esconde-esconde, os jogos solitários dos meninos solitários, onde se criam personagens, mundos, poderes, são condenados a pequenas punições em prol do bem-estar, do desenvolvimento, da sociabilidade. A tesoura que inibe a criatividade ganhou um feroz adversário. Seu nome é Racer Max, 7 anos, profissão: filho de cineasta.

Racer é o criador da história original que se transformou em As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl em 3-D, que seu pai, o diretor Robert Rodriguez resolveu fazer nos intervalos de filmagens de Sin City. O conceito de múltiplas possibilidades de realidade surgindo da cabecinha de um garoto de 7 anos é genial. Pouco importa se há tantas idéias reaproveitadas: redistribuir funções às personagens, por exemplo, é algo que David Lynch, mal comparando, utiliza até hoje em seus filmes.

O visual tosco, tão comum aos filmes em 3-D, esconde um pensamento elaborado sobre manipulação de realidades e co-existência de dimensões paralelas, sob a forma de conto moral infantil. A história escrita por Racer louva o poder da imaginação a partir da belíssima constatação de que a automutilação de sua criativadade é algo ruim. Nada muito original, caso não surgisse de uma criança. O pai de Racer, nesse sentido, também merece créditos já que apostar nesta idéia, inocente mas nunca ingênua, é um pequeno elogio à criação. Triste do menino que nunca criou seu super-herói.

AS AVENTURAS DE SHARKBOY E LAVAGIRL EM 3-D
The Adventures of Sharkboy and Lavagirl in 3-D, Estados Unidos, 2005.
Direção: Robert Rodriguez.
Roteiro: Robert Rodriguez e Marcel Rodriguez, a partir da história de Racer Max Rodriguez.
Elenco: Cayden Boyd, Taylor Lautner, Taylor Dooley, George Lopez, David Arquette, Kristin Davis, Jacob Davich, Sasha Pieterse, Rico Torres, Rebel Rodriguez, Racer Rodriguez, Rocket Rodriguez.
Fotografia e Montagem: Robert Rodriguez. Música: John Debney, Graeme Revell e Robert Rodriguez. Produção: Elizabeth Avellan e Robert Rodriguez. Site Oficial: As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl em 3-D. Duração: 93 min.

rodapé: Salvador deve aderir às cinemaratonas. O circuito Sala de Arte, que controla três salas com a melhor programação da cidade (há sempre uns sete, oito filmes “alternativos” em cartaz) já estuda onde acontecerá a maratona semanal. A princípio, a sala do Clube Bahiano de Tênis seria a escolhida. A idéia é reprisar o que já acontece nos eventos do Cine Odeon, no Rio, e do Espaço Unibanco e Cine Belas Artes, em Sampa. A comunidade cinéfila da cidade já está agitada.

nas picapes: Mais uma Canção, Los Hermanos.

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Gasolina adulterada

Lindsay Lohan é muito fofinha e tudo mais, mas nem o sorrisão da ruivinha salvou a “reimaginação”, palavra de ordem em Hollywood, do fusquinha vivo Herbie da falta de idéias. O roteiro que tem assinatura de gente famosa, com a dulpa Alfred Gough e Miles Millar (autores da história de Homem-Aranha 2, 2004), sofre de ausência de vontade de existir. Não há sombra do charme do filme original (nem de suas seqüências). Por sinal, o conceito todo do Herbie parece não caber no século XXI, pelo menos agora: a inocência da “personagem” soa completamente deslocada hoje em dia, o que diminui imensamente a idade do público-alvo do filme. Essa prisão nostálgica do filme, somada a uma direção sem expressão, a um roteiro francamente ruim – com texto muito ruim – e ao desperdício de atores como Michael Keaton e Matt Dillon, pouco inspirados em papéis pouco inspirados, nada sobra além da vontade (pequena) de rever Se Meu Fusca Falasse (Robert Stevenson, 1968).

HERBIE: MEU FUSCA TURBINADO
Herby: Fully Loaded, Estados Unidos, 2005.
Direção: Angela Robinson.
Roteiro: Thomas Lennon, Ben Garant, Alfred Gough e Miles Millar, baseado em estória de Thomas Lennon, Mark Perez e Ben Garant e nos personagens criados por Gordon Buford.
Elenco: Lindsay Lohan, Michael Keaton, Matt Dillon, Breckin Meyer, Justin Long, Cheryl Hines, Jimmi Simpson, Jill Ritchie, Thomas Lennon, Jeremy Roberts, Peter Pasco, Mario Larraza, Patrick Cranshaw, Scoot McNairy.
Fotografia: Greg Gardiner e Daniel C. Gold. Montagem: Wendy Greene Bricmont e Edward A. Warschilka. Direção de Arte: Daniel Bradford. Música: Mark Mothersbaugh. Figurinos: Frank Helmer. Produção: Robert Simonds. Site Oficial: Herbie: Meu Fusca Turbinado. Duração: 101 min.

nas picapes: Motorway To Roswell, Pixies.

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É o lobo! É o lobo! Ah, é?

Wes Craven é cineasta multifuncional. Serve para fazer filmes bons; serve para fazer filmes ruins. A expectativa, desta vez, era bem boa: o diretor, retomando a parceria com o roteirista da delícia chamada Pânico (de 1996, que gerou uma seqüência ótima e outra medíocre) num filme de lobisomens, estrelado pela musa indie Christina Ricci, que há tempos não faz nada que preste. Mas o alarme era mais falso do que os avisos que desacreditaram Pedro, o do lobo. Amaldiçoados é ruim que dói.

Veja bem, filmes com lobisomens têm uma grande probabilidade de serem porcarias: Mike Nichols, pra citar apenas um diretor com certo prestígio, há 11 anos, tentou fazer um longa sério sobre o tema, Lobo, e conseguiu apenas desperdiçar Jack Nicholson e Michelle Pfeiffer. Algo parecido acontece com a pobre Christina Ricci, que ganha a pele de uma executiva de TV e vive fardada como tal.

Craven, que não lançava um longa novo havia cinco anos, resolveu levar seu filme menos a sério. O roteiro abre espaço para dezenas de piadas – quase todas sem a mínima graça – e as verdades sobre os lobisomens ganham adaptações abestalhadas. O roteirista Kevin Williamson, tão criativo outrora, resgata fórmulas tão gastas – e que nunca funcionam muito – de forma tão inocente (quero crer que aquilo não tenha sido intencional), que esculhamba qualquer tentativa de fazer o filme vingar.

E, olha, nem há essa tentativa.

Na saída da sessão, há a real impressão de que o filme foi deliberadamente feito para ser ruim. Não uma brincadeira boboca, despretensiosa, nem um produto com pretensões de virar cult pelo lado trash – esse lado mal existe. Amaldiçoados é ruim porque não faz esforço nenhum para ser bom nem para ser ruim. Entregar pontas a Shannon Elizabeth (ótima na performance de seus seios em American Pie, irmãos Weitz, 1999) ou para aquela cantorazinha daquele tipo de musicazinha que domina as paradazinhas dos Estados Unidos é um recurso tão zero-a-esquerda que você deseja que Freddy Kruger apareça a qualquer momento para estralhaçar todo mundo: dos lobos ao diretor.

AMALDIÇOADOS
Cursed, Estados Unidos, 2005.
Direção: Wes Craven.
Roteiro: Kevin Williamson.
Elenco: Christina Ricci, Jesse Eisenberg, Joshua Jackson, Portia de Rossi, Mya, Shannon Elizabeth, Daniel Edward Mora, Kristina Anapau, Scott Baio, Milo Ventimiglia, Jonny Acker, Eric Ladin, Michael Rosenbaum, Judy Greer, Derek Mears e o cão Solar.
Fotografia: Robert McLachlan. Montagem: Gregg Featherman, Patrick Lussier e Lisa Romaniw. Direção de Arte: Chris Cornwell e Bruce Alan Miller. Música: Marco Beltrami. Figurinos: Alix Friedberg. Produção: Marianne Maddalena e Kevin Williamson. Site Oficial: Amaldiçoados. Duração: 96 min.

nas picapes: World Leader Pretend, REM.

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Simplesmente amor

De Repente é Amor é uma gracinha, uma bela surpresa. Vamos aos fatos:

fato 1: o diretor Nigel Cole trouxe das suas comédias interioranas inglesas (o ótimo O Barato de Grace, 2000, e o simpático Garotas do Calendário, 2003) um tratamento que dá ao filme um tom charmoso (e algo inteligente);

fato 2: apesar de não fugir muito das fórmulas do gênero (o filme é essencialmente uma bobagem), consegue ser extremamente desprendido ao repetir os lugares comuns; nunca quer ser um tratado sobre “alma gêmea”, “destino” ou conceitos afins, mas se mantém como uma brincadeira sobre os encontros e desencontros de um casal;

fato 3: a trilha sonora, que, às vezes, toma espaço demais é a mais interessante e nostálgica entre as comédias românticas recentes, que tentam a todo custo fazer este túnel do tempo funcionar; a cena do carro, com If You Leave Me Now, do Chicago, invadindo uma discussão entre os dois protagonistas sintetiza esse encantamento pelo simples que o filme promove;

fato 4: o filme nunca é apenas um veículo para Ashton Kutcher, que, por sinal, está além de qualquer expectativa no papel (a melhor coisa dele desde That ’70s Show); os coadjuvantes também estão muito à vontade e Amanda Peet, com aqueles dentões, é encantadora.

DE REPENTE É AMOR
A Lot Like Love, Estados Unidos, 2005.
Direção: Nigel Cole.
Roteiro: Colin Patrick Lynch.
Elenco: Amanda Peet, Ashton Kutcher, Taryn Manning, Aimee Garcia, Tyrone Giordano, Melissa van der Schyff, James Read, Molly Cheek, Gabriel Mann, Kathryn Hahn, Ali Larter, Amy Aquino, Josh Stamberg, Jeremy Sisto.
Fotografia: John de Borman. Montagem: Susan Littenberg. Direção de Arte: Tom Meyer. Música: Alex Wurman. Figurinos: Alix Friedberg. Produção: Armyan Bernstein e Kevin J. Messick. Site Oficial: De Repente é Amor. Duração: 107 min.

nas picapes: Big Exit, PJ Harvey.

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Irmãos

Irmãos

Fala-se muito na relação entre mãe e filho, sobre o algo mágico que une estes dois papéis. Mas de certa forma há um certo desprezo, ou descaso, com o laço invisível entre dois irmãos, talvez uma das maiores formas de reconhecimento de um homem com sua história. Irmão é aquele com quem se partilha a infância (o sonho, a imaginação, a formação). Há alguns anos, quando meu irmão sofreu um acidente e quase morreu, comecei a pensar como seria a vida sem o conforto de alguém que cresceu ao seu lado, mesmo que hoje ele more longe.

Os corredores de um hospital podem ser mais assustadores do que muito filme de terror. No melodrama hospitalar dirigido pelo francês Patrice Chéreau, estes corredores são os responsáveis por reunir dois irmãos afastados sem notícias um do outro havia alguns anos. Bruno Todeschini é Thomas. Ele descobriu que tem uma grave doença no sangue que destrói sua resistência imunológica. Quando tem que voltar ao hospital, Thomas pede a ajuda e a companhia do irmão Luc, papel de Éric Caravaca, com quem havia perdido o contato durante um bom tempo porque suas vidas tomaram rumos bem diferentes.

A partir desta situação fartamente explorada na ficção, Chéreau se dedica a dar nuances à parceria entre Thomas e Luc e, reiventando a cronologia de sua história recente, nos oferece golpes do amor entre os dois irmãos. Mas o diretor – e, antes dele, o autor do livro, – se esquiva de uma visão reducionista e conciliatória desse reencontro. O amargo é o sabor mais difícil de ser depurado e o francês não sabe ser tão latino na sua entrega, o que seria mais acolhedor a princípio. Por isso, parece muito real a história contada no filme.

A crueza/crueldade, o amor contido, a presença que nega toda a diferença sem verbalizá-la. Mora no irmão distante a calmaria, a fortaleza. Sem flashbacks, pelo simples poder da palavra, ou pela sugestão da companhia, a história de um dois homens se reergue na frente do espectador. Dois homens que se amam e que podem estar muito próximos de se separar. Eles querem apenas brincar mais uma vez.

Irmãos  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Son Frère, Patrice Chéreau, 2003]

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Parque de diversões macabro

Há filmes que, menos por méritos cinematográficos (ou artísticos mesmo) e mais por importância na nossa história pessoal, ganham tremendo espaço em nossos corações cinéfilos. Filmes a que assistimos na infância ou adolescência; filmes que ocupavam nossas tardes e nos conquistavam porque, mesmo tão fantasiosos, nos pareciam tão próximos por serem tão hábeis em conquistar nossa imaginação. Vajam o caso de A Fantástica Fábrica de Chocolate, filme que Mel Stuart dirigiu no longínquo ano de 1971 e que se transformou num dos maiores clássicos da Sessão da Tarde, da TV Globo, na época em que a Sessão da Tarde exibia algumas pérolas. Este filme é um dos preferidos de toda uma geração. Geração da qual eu faço parte. Praticamente todas as pessoas da minha faixa etária que eu conheço amam este filme.

Menos eu.

Não que eu me sinta orgulhoso de estar à parte deste grupo e parecer, digamos, original. Meus motivos não são tão nobres. Eu não gosto de A Fantástica Fábrica de Chocolate tanto quanto meus amigos e colegas porque eu nunca consegui suportar Gene Wilder, seu protagonista. Não sei o que é. É meio difícil de entender. Reconheço o talento dele, especialmente para a comédia, mas nunca consegui olhar muito para a cara dele. Coisa de maluco mesmo. No entanto, essa condição, a de não estar preso a uma memória afetiva mais forte em relação ao longa, me dá uma postura diferenciada agora, quando o assunto é a refilmagem comandada por Tim Burton. O argumento de “nunca vai chegar aos pés do original” não significa nada para mim.

Primeiro, é preciso ressaltar: Tim Burton é um criador reconhecido, com obra facilmente identificada, um autor com universo de atuação delimitado, diferentemente de Mel Stuart. E o livro de Roald Dahl se encaixa perfeitamente neste universo. Burton, por sinal, já havia se aventurado em outro texto de Dahl na bela animação James e o Pêssego Gigante (1996), produzida por ele. Nesta nova incursão, o cineasta reprisa seus temas (sobretudo o que move seu cinema: o limite entre realidade e fantasia) sem perder uma gota do conceitual de sua obra. Pelo contrário, Burton serve tão bem ao livro quanto o livro serve a Burton.

A concepção visual, espetacular, mais uma vez parece ser o foco, mas é apenas uma arma do cineasta para cooptar a história para si. O diretor trata de, mesmo diante de uma obra de alcance infanto-juvenil, dar mais idade ao texto, ressaltando seus aspectos mais cruéis e mórbidos. Johnny Depp, que recentemente resolver assumir para sempre a afetação a suas interpretações (desde Pirata do Caribe a A Janela Secreta, passando pelo macabro Em Busca da Terra do Nunca), consegue se encaixar perfeitamente ao tom que Burton busca. Seu Willy Wonka é perturbado, agressivo, vingativo, impiedoso. A comparação com o Wonka de Wilder é impossível para mim. Diante disso, Depp está mais que satisfatório, está adequado.

O tom mais duro adotado por Burton, apoiado no psicótico criado por Depp, é o grande trunfo dessa versão. É quase um “pague para entrar, reze para sair”. Não posso me aprofundar em comparações, mas com um diretor mais perverso, o material parece funcionar melhor. A despeito das alusões pedófilas que muitos insistem em ver – que eu acho viagem pura -, a fábula recontada aqui é de redenção, cheia de lições de moral das mais simples, mas até chegar ao fim, as criancinhas sofrem um bocado.

A FANTÁSTICA FÁBRICA DE CHOCOLATE
Charlie and the Chocolate Factory, Estados Unidos, 2005.
Direção: Tim Burton.
Roteiro: John August, baseado no livro de Roald Dahl.
Elenco: Johny Depp, Freddie Highmore, David Kelly, Noah Taylor, Helena Bonham-Carter, Missi Pyle, James Fox, Deep Roy, Christopher Lee, Adam Godley, Franziska Troegner, Annasophia Robb, Julia Winter, Jordon Fry, Philip Wiegratz, Liz Smith, Eileen Essell, Nitin Chandra Ganatra, Shelley Conn, Chris Cresswell, Philip Philmar, Harry Taylor, Francesca Hunt.
Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Chris Lebenzon. Direção de Arte: Alex McDowell. Música: Danny Elfman, com canções compostas por Roald Dahl musicadas por Elfman. Figurinos: Gabriella Pescucci. Produção: Brad Grey e Richard D. Zanuck. Site Oficial: A Fantástica Fábrica de Chocolate.

nas picapes: Lady Jane, The Rolling Stones.

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A comédia em golpes certeiros

Sempre me impressionou bastante a harmonia que os filmes de kung fu conseguem entre ação e comédia. Os longas estrelados por Bruce Lee, por exemplo, têm um timing invejável que supera muitas vezes alguns dos comediantes atuais do cinema norte-americano. Mas este Kung-fusão vai além desse talento natural. O filme de Stephen Chow é um pastiche de referências, que vão desde aos westerns spaghetti ao desenho do Papaléguas. Na sua mistura saudável, Chow consegue manter um tom despretensioso que dá imenso charme ao filme. Incorpora os efeitos visuais absurdos como extensão natural da trama e cria personagens de fácil identificação (alguns, por sinal, bem originais como o alfaiate ou menino com a bunda-de-fora). Mas quem domina as cenas em que aparece é a “senhora proprietária”, que homenageia algumas grandes mamas. A fórmula de Chow funciona bem demais, mas tem data de validade. A certo ponto, o filme parece longo e, apesar de manter fôlego até o final (ecos de Chaplin por ali), termina sem a empolgação inicial. Mas não deixa de ser uma pérola.

KUNG-FUSÃO
Gong Fu, China, 2004.
Direção: Stephen Chow.
Roteiro: Stephen Chow, Tsang Kan Cheong e Chan Man Keung.
Elenco: Stephen Chow, Leung Siu Lung, Yuen Wah, Yuen Qiu, Dong Zhi Hua, Chiu Chi Ling, Xing Yu, Huang Sheng Yi, Feng Xiao Gang, Chan Kwok Kwan, Lam Tze Chung, Tin Kai Man, Lam Suet, Jia Kang Xi, Fung Hak On.
Fotografia: Poon Hang Sang. Montagem: Angie Lam. Direção de Arte: Oliver Wong. Música: Raymond Wong. Figurinos: Shirley Chan. Produção: Stephen Chow, Chui Po Chu e Jeff Lau. Site Oficial: Kung-Fusão.

nas picapes: Starman, Seu Jorge.

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A Vida Marinha com Steve Zissou

A Vida Marinha com Steve Zissou

Existem cineastas que precisam delimitar seus universos para trabalhar. Mais que isso, precisam construi-los, moldá-los para que eles sirvam a seus fins. O universo onde acontecem os filmes de Wes Anderson está em algum lugar melancólico entre a nostalgia e a comédia. Anderson usa cenários, figurinos e música para compor o mosaico onde irá lançar seus personagens. À medida que seu prestígio aumenta, o cineasta se permite mais. A Vida Marinha com Steve Zissou radicaliza as experiências de seus filmes anteriores. Não abre concessões. O que se restringia a um ambiente colegial (Três é Demais, 1999) ou familiar (Os Excêntricos Tenenbaums, 2001) ganha dimensões multiplicadas neste novo trabalho. Em Zissou, o mundo inteiro é filtrado aos olhos do autor.

Somente neste mundo inteiro multicolorido, estilizado, triste, os dramas de Steve Zissou conseguem tomar forma mais precisa. Sem a preocupação com verossimilhança e plausibilidade (que talvez sejam temerosas para o diretor), é que Anderson pode dissertar – mais uma vez – sobre orfandade, perdão e família, seus temas mais caros. Zissou descobre o seu filho perdido (?) havia 30 anos e se retira: Life on Mars?, de David Bowie, é a trilha sonora para um momento de isolamento, reflexão. A família inventada pelo mergulhador havia ganho um integrante mais legítimo do que todos os outros. E a chegada dele faz Zissou questionar a relevância de sua vida. E faz alguns acharem que concluíram suas missões.

É curioso perceber que Bill Murray esteve nos três últimos filmes de Anderson, mas só agora ganha um protagonista. E Murray talvez seja quem melhor encarna o espírito desse vácuo onde o diretor situa seu universo. Ele tem a velocidade, os trejeitos, a essência dos filmes de Wes Anderson. Sua interpretação aqui está no limite entre o dramático e o cômico, o realista e o fantasioso, o comum e o exagerado. E é dessa indefinição que Murray se apropria para inventar seu Zissou. A brincadeira com essas fronteiras está por toda parte, desde a concepção do navio (a cena do passeio pelos cômodos é particularmente muito boa) até as intervenções de Seu Jorge, cantando Bowies em português. O absurdo é subterfúgio para Anderson (assim como o corroteirista Noah Baumbach) se esconder. Algo genial é a utilização dos efeitos visuais para reforçar a abstração.

A velocidade alterada e o estabelecimento de uma aura fantástica limitam e muito o alcance do filme sobre a platéia. Anderson filma para poucos e não está preocupado com isso. Trabalha na criação de uma narrativa própria: aqui ele monta seu filme como diário de viagem (assim como Tenenbaums assumia forma de livro). É capaz de trocar o tom a toda hora (a cena final dos invasores no navio é quase uma homenagem àquelas comédias malucas dos anos 60), e é um ás em congelar a ação para criar momentos onde assume sua tristeza e pede presença. Assim como Bill Murray (e boa parte do elenco, em escala menor) se alimenta desse campo estranho e completamente novo para se criar dentro do filme, é aí que Anderson conquista seus não muitos espectadores. A identificação surge de algo muito pouco provável, mas extremamente entendível. Estranho, né?

A Vida Marinha com Steve Zissou EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Life Acquatic with Steve Zissou, Wes Anderson, 2004]

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Alfie, o Sedutor (2004), de Charles Shyer.

Fica bem aquém do original com Michael Caine, mas não chega a ser ruim. O recurso de conversar com o espectador não funciona mais tão bem quanto no filme dos anos 60. Jude Law está bem, mas a comparação com Caine, inevitável, deixa sua performance menos atraente. As garotas de Alfie estão todas muito bem, sem destaques. Mas Alfie, mesmo metrossexualizado para o século 21, não encontra mais muito espaço. Parece velho, ultrapassado, gasto.

O Assalto (2001), de David Mamet.

Funciona menos como filme de golpe e mais com estudo comportamental, área de atuação bem cara ao diretor. A resolução da trama recorre a reviravoltas cansativas e pouco satisfatórias. O que sobra é a relação entre Gene Hackman e seu grupo e entre Hackman e o mundo. Os diálogos são bons, o roteiro busca explorar situações que raramente surgem em filmes do gênero.

O Galante Mr. Deeds (1936), de Frank Capra.

Um Capra bem clássico: homem simples contra o mundo feroz. Gary Cooper, irrepreensível, entre a doçura e simplicidade. O cara interpretava com o olhar; impressionante. Capra constitui uma fábula moderna (para a época), situando historicamente seu filme (que se passa logo após o crack da bolsa de Nova York). O diretor tem uma capacidade única para dar uma aura mágica a suas histórias de exaltação pessoal. É a mão do cineasta que transforma isso aqui num belo filme.

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