Monthly Archives: abril 2005

Ou foi o mundo então que cresceu?

O cinema do Brasil ainda fala pouco sobre o Brasil. Em vez de perder tempo com uma lição de casa – mal feita – de estudante universitário que precisa destilar revolta como Cama de Gato (Alexandre Stockler, 2001), o cineasta brasileiro bem que poderia se dedicar a um tema rico como os anos da ditadura militar. Muito além da luta armada, da violência, das discussões por vezes utópicas sobre o idealismo patriótico, a busca da liberdade, o assunto é cenário para ricas histórias pessoais. Dois filmes que chegaram quase juntos aos cinemas brasileiros abordam esse ponto de vista da batalha que fez história.

Quase Dois Irmãos, novo longa de Lúcia Murat, foi o que menos deu certo, sem ser um filme ruim. A composição de época é mais que correta, mas a opção foi de não ter apenas um plano temporal, o que travou o desenvolvimento das personagens. Caco Ciocler e Flávio Bauraqui recebem muito bem os dois quase-amigos que se reencontram numa penitenciária. Um é um preso comum, pobre, negro, outro é preso político, classe média, branco. O confronto entre as duas realidades é o que mais chama a atenção principalmente quando elas se misturam e passam a interferir uma na outra. É o momento onde as prioridades mudam e o que se acredita acompanha essa transformação.

O filme erra quando tenta estabelecer conexões entre as épocas. O plano factual é dispensável apesar de bem fotografado. A versão contemporânea dos dois protagonistas não tem fôlego. E o filme-denúncia que se desenha quando Maria Flor sobe a favela, além da falta de originalidade, não traz nada de muito relevante ou pertinente para o que o longa se propunha de início. Apesar da irregularidade, Murat prestou um enorme serviço a sua imagem, deixando para o limbo seu filme anterior, Brava Gente Brasileira (2001), um dos piores da safra mais recente do cinema brasileiro.

Toni Venturi, diretor de Cabra-Cega, conseguiu um resultado muito melhor. O encontro entre o ativista político e uma companheira que o ajuda na clausura forçada rendeu um bom filme, que não sofre o mal das ideologias desgastadas pelo tempo. Venturi – junto com o roteirista Di Moretti – conseguiu não perder o foco no pessoal e, pela lupa, apresentou uma bela história de descoberta e identificação. Mais que isso, as personagens projetam o que lhes falta uma nas outra. Mesmo sem se aprofundar na relação, o filme é tão delicado com os dois protagonistas que seus pequenos pecados, como não valorizar os coadjuvantes, viram detalhes.

O diretor tomou a acertadíssima decisão de deixar de lado o magoado ranço derrotista para com a ditadura, praxe em filmes com essa temática. Cabra-Cega não é ressentido, apesar de reproduzir “um ideal revolucionário”. Isto está muito claro na bela interpretação de Leonardo Medeiros, um dos grandes atores do Brasil, cuja personagem tem o espírito de combatente da liberdade, mas não se prende a uma interpretação contaminada. Por sinal, o reencontro de Medeiros com Débora Duboc é um exemplo de interação. A dupla que já havia feito o belo (belo mesmo) curta de Bel Bechara e Sandro Serpa, Onde Quer que Você Esteja (2003), dá textura às duas personagens.

Fernanda Porto, geralmente muito chata, fez bonito na trilha sonora, recuperando Chicos Buarques clássicos. A versão da maravilhosa Roda Viva é feia, apesar dos vocais divididos com o autor, mas a releitura de Construção é muito boa. As músicas embalam cenas que mostram um cineasta amadurecido em relação ao insípido Latitude Zero (2000), seu filme anterior. Há o ônibus, há o sexo, há Jonas Bloch prendendo o choro. e há a belíssima cena final, onde pela primeira vez se forma um grupo de verdade a partir de um silencioso pedido de perdão.

QUASE DOIS IRMÃOS
Quase Dois Irmãos, Brasil, 2005.
Direção: Lúcia Murat.
Roteiro: : Lúcia Murat e Paulo Lins.
Elenco: Caco Ciocler, Flávio Bauraqui, Maria Flor, Marieta Severo, Fernando Alves Pinto, Werner Schünemann, Renato de Souza, Luiz Melodia, Babu Santana.
Fotografia: Jacob Sarmento Solitrenick. Montagem: Mair Tavares. Direção de Arte: Luis Henrique Pinto. Música: Naná Vasconcellos. Produção: Aílton Franco e Branca Murat.

CABRA-CEGA
Cabra-Cega, Brasil, 2005.
Direção e Produção: Toni Venturi.
Roteiro: : Di Moretti, baseado num argumento de Fernando Bonassi, Roberto Moreira e Victor Navas.
Elenco: Leonardo Medeiros, Débora Duboc, Jonas Bloch, Michel Bercovitch, Bri Fiocca, Odara Carvalho, Milhem Cortaz, Renato Borghi, Walter Breda e Elcio Nogueira.
Fotografia: Adrian Cooper. Montagem: Willem Dias. Direção de Arte: Cláudia Minari. Música: Fernanda Porto. Figurinos: Carolina Li. Site Oficial: www.cabracega.com.br.

rodapé: Dois anos sem telefone celular acabaram. E o sossego também.

nas picapes: Roda Viva, Chico Buarque.

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O dia em que deus descansou

No dia que deus escolheu para descansar é quando acontecem as tragédias. Tragédias como aquela em que dois irmãos de meia-idade promoveram um massacre numa pequena aldeia espanhola. Carlos Saura, o diretor da quase obra-prima Tango (1998), foi buscar nesta cena a inspiração para seu último filme, O Sétimo Dia. Para tanto, remodelou perfis e passados das personagens envolvidos, reinventou a história, erguida sobre a égide do ódio primata entre duas famílias, que começa com um amor não correspondido.

A falha de Saura é no desenvolvimento. Tanto da história quanto das personagens. Apesar de pontuar o filme com os fatos cronologicamente situados para impor o crescimento do sentimento que move as famílias, não sabe transformar essas situações em momentos catalisadores. Falta acontecer o ódio. Victoria Abril, mais que eficiente, sofre com a falta de cuidado do roteiro com sua personagem, a mais importante para a trama. O texto, correto, é incapaz de provocar envolvimento, de dar credibilidade ao que se vê. Tudo parece acontecer sem muito motivo. E com um mundo de clichês: o personagem maluquinho virou obrigatório em filmes chicanos.

Quando a pequena tragédia familiar acontece, o espectador sente pouco. Ele não se apaixonou pelas personagens, não mergulhou em seu cotidiano de brincadeiras, não acompanhou a relação entre elas. Então, presenciar assassinatos de gente tão próxima perde força porque essa não foi desenhada a intimidade entre quem assiste e quem está na tela. Essa precariedade não parece opção, mas falha mesmo. Saura precisaria de mais duas horas para desenvolver o texto e os agentes. A sensação é de incompletude, de nunca chegar à superfície.

O SÉTIMO DIA
El Séptimo Día, Espanha, 2004.
Direção: Carlos Saura.
Roteiro: Ray Loriga.
Elenco: Juan Diego, José Luis Gómez, José Garcia, Victoria Abril, Yohana Cobo, Eulalia Ramón, Ramón Fontserè, Carlos Hipólito, Oriol Vila, Ana Wagener, Juan Sanz, Elia Galera, Carlos Caniowski.
Fotografia: François Lartigue. Montagem: Julia Juaniz. Direção de Arte: Rafael Palmero. Música: Roque Baños. Figurinos: María José Iglesias. Produção: Andrés Vicente Gómez. Site Oficial:

rodapé: O Grande Prêmio do Cinema Brasileiro anunciou os indicados ontem. O melhor filme de ficção do ano, Filme de Amor, de Júlio Bressane, não está indicado na categoria principal – e em nenhuma outra!!! Outra omissão lastimável é a de Silvia Lourenço, de Contra Todos, entre as atrizes coadjuvantes. Há algo a se comemorar: o belo número de indicações de Narradores de Javé e a ausência de Olga entre os filmes do ano. Para ajudar na escolha dos acadêmicos brasileiros, que tal dar seu voto? É só desbloquear o pop-up que abre assim que essa página é acessada.

nas picapes: Made of Stone, The Stone Roses.

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Baforadas de existencialismo

Um filme em episódios é sempre um risco. Os quadros que compõem o painel existencial pintado por Jim Jarmusch em Sobre Café e Cigarros sofrem pelo desequilíbrio. Os primeiros são muito fracos, quase que sem nada a dizer. Exercícios retóricos imbuídos de um espírito intelectualóide pretensioso, refém dos clichês dos filmes indie. O amigo de Jarmusch, Roberto Benigni, deve ter guardado para si o que quis dizer no episódio de abertura. E nem a presença de Steve Buscemi conseguiu salvar do zero a zero o duelo entre os irmãos de Spike Lee. Há também a sensação de desperdício de Tom Waits e Iggy Pop no meio de um “nada a declarar”.

Mas as coisas mudam e a segunda metade do filme revela discussões bem mais interessantes, mesmo quando os assuntos não existem propriamente. O melhor episódio é o que promove o encontro entre o famoso Alfred Molina e o desconhecido Steve Coogan, ambos com timing perfeito. A troca das popularidades dos dois atores permitiu uma deliciosa brincadeira. O nonsense do quadro com os White Stripes também garante um momento interessante. Cate Blanchett, sempre boa atriz, se divide em duas, mas o texto cansa em determinado momento. Mas é quando os rappers RZA e GZA descobrem a verdadeira identidade de seu garçom que o filme fica mais inteligente, sem perder sutileza e coerência.

SOBRE CAFÉ E CIGARROS
Coffee and Cigarettes, EUA, 2003.
Direção e Roteiro: Jim Jarmusch.
Elenco: Cate Blanchett, Alfred Molina, Steve Coogan, Steve Buscemi, Joie Lee, Cinqué Lee, Steven Wright, Roberto Benigni, Bill Murray, RZA, GZA, Vinny Vella, Vinny Vella Jr., Joseph Rigano, Tom Waits, Iggy Pop, Renee French, E. J. Rodriguez, Alex Descas, Isaach De Bankolé, Jack White, Meg White, William Rice, Taylor Mead.
Fotografia: Tom DiCillo, Frederick Elmes, Ellen Kuras e Robby Müller. Direção de Arte: Mark Friedberg, Tom Jarmusch e Dan Bishop. Montagem: Jay Rabinowitz, Melanie London, Jim Jarmusch e Terry Katz. Canções: Richard Berry e Tom Waits. Produção: Rudd Simmons, Jim Stark, Jason Kliot, Birgit Saudt, Joana Vicente. Site Oficial: www.coffeeandcigarettesmovie.com.

rodapé: E morreu o George Pan Cosmatos. Deve ter alguém triste por aí já que virou moda celebrar cineastas medíocres como grandes criadores. Dizer que o desconhecido é melhor, mesmo que não seja verdade, chama muito, mas muito mais atenção.

nas picapes: Ruby Tuesday, The Rolling Stones.

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RANKING MARÇO

Depois de Godard e Scorsese, vejam quem apareceu em primeiro na lista dos melhores filmes do mês no blogue da liga.

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Cannes 2005

Last Days, de Gus Van Sant, integra a seleção deste ano do Festival de Cannes. Michael Pitt vai ter a chance de provar se é bom na pele de Kurt Cobain. A lista deste ano aposta, quase que totalmente, no consagrado. Tem Cronenberg, os irmãos Dardenne, Jim Jarmusch, Hou Hsiao-Hsien, os queridinhos Amos Gitaï e Atom Egoyan, Lars Von Trier, Michael Haneke e até Wim Wenders. Sin City, de Robert Rodriguez e Frank Miller, também ganhou uma vaguinha.

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Post reciclado I: os filmes de elenco

No ano passado, durante a Mostra de Cinema de São Paulo, eu vi muitos filmes. Filmes que somente nos últimos tempos chegaram aos cinemas. Aqui, reposto os comentários que fiz sobre alguns deles à epoca do festival com alguns adendos:

MARIA CHEIA DE GRAÇA
Maria Full of Grace, Colômbia/Estados Unidos, 2004.
Direção: Joshua Marston.

Eis um belo filme, sem esforço. A história de Maria, a colombiana que sonha em melhorar de vida e, mesmo grávida, vira mula do tráfico de drogas para os Estados Unidos, tinha tudo para partir para o apelativo, mas faz a direção contrário. Examina com distanciamento político, social e religioso os caminhos do imigrante ilegal e do homem comum em busca de alguma coisa melhor. O diretor é norte-americano, mas dribla a visão viciada da questão. Os personagens são sólidos, coerentes. A protagonista Catalina Sandino Moreno, linda, está perfeita. A atriz que faz a irmã da moça que morre é muito boa também. Vem cá, a Gloria Perez vai na Mostra, é?

O LENHADOR
The Woodsman, EUA, 2004.
Direção: Nicole Kassell.

É impressionante como o tempo fez bem a Kevin Bacon. O ex-adolescente que estrelou filmes pipoca e que cresceu fazendo bobagens foi, aos poucos, virando ator sério. Neste filme, ele consegue seu papel mais corajoso e o interpreta com intensidade. A diretora Nicole Kassell faz um trabalho digno de aplauso ao extrair os clichês de uma trama de reaceitação. E não há certezas sobre os efeitos do eco que crime e castigo fazem nos ouvidos do homem que ficou 12 anos preso por molestar crianças.

FEMINICES
Feminices, Brasil, 2004.
Direção: Domingos de Oliveira.

Domingos de Oliveira recupera seu humor depois do ponto contra de Separações (2003), chato e sem graça. Este filme é uma belíssima surpresa, escorado no timing imoral do diretor para a comédia e nas deliciosas interpretações do quarteto fantástico de atrizes, com destaque para Clarice Niskier, autora da pessoa que baseia o filme, e a fofíssima Dedina Bernadelli, que me fez voltar à infância e às novelas da Globo nos anos 80 – por sinal a piada da série da Globo é ótima. Curioso que o que mais poderia dar errado (os comentários dos homens sobre as mulheres de 40) funciona muito bem.

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Post reciclado II: os filmes modernos

EDUKATORS
The Edukators, Alemanha/Áustria, 2004.
Direção: Hans Weingarten.

O que transforma este filme num belo filme é que ele é tão convicto de suas ideogogias que se torna quase ingênuo, adolescente. A presença do mesmo Daniel Bruhl de Adeus, Lênin (2003) no elenco reafirma essa idéia. O personagem dele, junto com um colega, invade mansões, rearruma os móveis e deixa bilhetes para assustar os riquinhos. Até que alguma coisa dá errado. Na melhor cena do filme, surge a pergunta: como você, com um passado destes, se transformou no que você é? Resposta: acontece sem a gente sentir. Não precisava de “Hallellujah” três vezes no final (a trilha já é boa o suficiente), anunciando redenção. Não precisava do bilhetinho na parede. Edukators faz parte de um cinema alemão que não é chato. Isso já é bastante coisa.

QUESTÃO DE IMAGEM
Comme une Image, França, 2004.
Direção: Agnès Jaouï.

A velha história do homem de negócios muito ocupado, preocupado com os negócios, o dinheiro, a badalação, e displicente com a família e os amigos. Tudo isso formatado de comédia moderna francesa, com diálogos ágeis e bons atores. Não fosse esse diferencial seria mais difícil de aturar. Pois é, O Gosto dos Outros (2000) era melhor.

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Post reciclado III: os filmes étnicos

CONTRA A PAREDE
Gegen Die Wand, Alemanha, 2004.
Direção: Fatih Aik.

Moderno mesmo, hoje em dia, é quem tem sotaque. Efeitos da globalização. Explicação para que este filme, cuja temática é decendente direta da mesma do fraco Casamento Grego(2002) e do meia-boca Casamento Arranjado (2001), travestido de filme contemporâneo. A fórmula é simples: soma-se câmera digital trêmula, sexo, drogas, rock’n’roll e violência. O resultado é filme velho com cara de novo. Com alguns bobões que ainda compram a idéia e dão prêmio em festival importante, carreira assegurada.

MACHUCA
Machuca, Chile/Espanha, 2004.
Direção: Andrés Wood.

Essa história, quem não viu? Amigos de classes sociais diferentes que se aproximam em tempos de mudança. O país é o Chile, a época são os últimos meses do governo de Salvador Allende. Gonzalo conhece Pedro e há identificalção imediata, mas o abismo que existe entre eles pode falar mais lto. Dirigido com correção, é um filme bonito e tem momentos com texto inteligente. Anos-luz do nosso filme político do ano, Olga (Jayme Monjardim, 2004), peca por seus pequenos clichês, como a cena em que praticamente reproduz Sociedade dos Poetas Mortos (Peter Weir, 1989), mas tem vigor e, apesar de uma conclusão fatalista, não deixa de ser um belo filme pequeno.

A VIDA É UM MILAGRE
Zivot Je Cudo/Life is a Miracle, Iugoslávia/França, 2004.
Direção: Emir Kusturica.

A volta à guerra trouxe um Emir Kusturica dividido entre a beleza de sua já clássica incursão pelas possibilidades do fantástico, do circense e sua prisão na própria armadilha ao se embrenhar pelo pastelão excessivo. Slavko Stimac é o melhor em cena, como o engenheiro que vê a proximidade do conflito desestruturar sua família. Na visão de Kusturica (que já nos entregou uma obra-prima sobre a guerra, Underground, 95), essa história permite brincar com os limites entre o real e o surreal embalado pela música composta por ele mesmo. Dos elementos mágicos que insere em seu longa, o burro apaixonado é, de longe, o melhor.

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Pequena história de guerra

Ser recrutado à força pelo exército ou se oferecer como mão-de-obra para a guerrilha. As opções não são nada boas para os garotos às vésperas de completar doze anos em El Salvador. Em mais de uma década de guerra civil, muitas histórias tristes. Uma delas é a de Oscar Torres, que ganhou versão cinematográfica romanceada em Vozes Inocentes, filme roteirizado por ele mesmo. Histórias reais muitas vezes rendem bons filmes, tocam o espectador. Este filme, com a inocência perdida de suas criancinhas, se equilibra entre o tom emocional e o sentimentalismo barato.

Os lugares comuns começam na cena de abertura, com um grupo de garotos sendo conduzidos como prisioneiros de guerra. A narração em off já clama pelo choro: frases esparsas, respiradas, melancólicas. Toda a introdução acontece embaixo de chuva. Chuva que se repete em várias cenas tristes ao longo do filme. A câmera lenta é usada para prolongar o sofrimento dos personagens. A trilha, ora bonita, ora chorosa, cortesia do brasileiro André Abujamra, ajuda a dar o tom imposto pelo diretor Luis Mandoki.

Mas há méritos em Vozes Inocentes: seqüências bem resolvidas, como a música que some quando o rádio é atirada na água, ou a criação do ambiente familiar suburbano e miserável do povoado onde acontece a trama. Existe também um protagonista mirim com talento suficiente para segurar a história e uma preocupação, mesmo que muito rápida, em adotar um posicionamento político (se bem que ver Mandoki alfinetar os Estados Unidos parece bem estranho quando se conhece a base de sua filmografia).

O que causa grande incômodo no filme é esse tom intermediário, que confunde sentimentalismo e encantamento típicos a uma pequena história. Não é o caso de minimizar o sofrimento de ninguém. Por si só, a trama teria um belo impacto emocional, mas nas mãos de Mandoki ganhou uma infinidade de lugares comuns para forçar o choro do espectador. Não fosse tão maniqueísta às vezes, Vozes Inocentes funcionaria muito melhor.

VOZES INOCENTES
Voces Inocentes, China/Hong Kong, 2004.
Direção: Luis Mandoki.
Roteiro: Oscar Torres e Luis Mandoki.
Elenco: Carlos Padilla, Leonor Varela, Gustavo Muñoz, José Maria Yapzik, Ofelia Medina, Daniel Gimenez Cacho, Jesús Ochoa.
Fotografia: Juan Ruiz Anchía. Direção de Arte: Antonio Muño-Hierro. Montagem: Aleshka Ferrero. Música: André Abujamra. Produção: Lawrence Bender, Luis Mandoki e Alejandro Soberón Kuri. Site Oficial: www.vocesinocentes.com .

rodapé: longa vida a Richard Linklater. Escola de Rock, revisto recentemente, não perdeu nenhum miligrama do frescor. É um filme pro resto da vida. Um belíssimo filme sobre amor. Amor que passa de pai para filho.

nas picapes: Frank Sinatra, do Cake.

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