Monthly Archives: março 2005

Filmes do Chico, dois anos

A internet subverte muita coisa. Uma delas é a velha máxima de que “o futuro é a gente que faz”. No mundo online, o passado também pode ser construído. Então, tal qual o Zelig de Woody Allen, estou, aos poucos, refazendo o passado deste blogue. O Filmes do Chico surgiu no dia 29 de janeiro de 2003, há dois anos e dois meses, pelo versão brasileira do Blogger. Sua segunda versão, já pelo Blogspot, teve início em março de 2003. Os posts do endereço antigo estão sendo cuidadosamente trazidos para o passado deste blogue. Preciosismo, mania de coleção. Agora, mais de dois meses depois do aniversário que eu não comemorei porque estava atolado de trabalho – pelo menos ganhei algumas horas extras -, deixo aqui a lista dos meus filmes favoritos nestes mais de dois anos de brincadeira cinéfila.

1 Elefante, de Gus Van Sant.

O grande filme da década até que surja um concorrente à altura. Van Sant espiraliza o tempo, faz as narrativas se inteferirem, desromanceia a violência. É o ser humano em processo de criação, onde não há certo nem errado.

2 Antes do Pôr-do-Sol, de Richard Linklater.

Fodam-se as expectativas. Foda-se o que poderia ser. Linklater promove um reencontro nostálgico, à base da palavra, mas sem lamentações. Tudo é simples, tudo é pequeno. Porque quer, porque é para ser assim.

3 Gangues de Nova York, de Martin Scorsese.

Bill the Butcher, o maior personagem desta década. Ele é a América, aquela que aterroriza quem está contra ela, mas que se construiu enorme, devastadora. Um diretor excepcional que tem muito a dizer sobre o país onde nasceu.

4 Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino.

Esqueçamos a divisão. Que suma a parte dois. Tudo que interessa no último trabalho de Tarantino está neste primeiro volume, que revela um criador fiel a sua obra, mas em evolução. Some a verborragia e aparece finalmente o cinema.

5 O Pântano, de Lucrecia Martel.

O filme mais perturbador dos últimos tempos. Martel assume a rudeza e a rispidez, maltrata os personagens para maltratar a falida família, para reclamar de seu país. A Argentina, para a criadora, merece ser esmurrada com força. Do caos surge a flor.

6 A Última Noite, de Spike Lee.

Spike Lee esquece a cor e fala do seu país. Faz um filme sobre reunir cacos, se reconstruir. Mesmo que para isso seja preciso apontar uma arma para as mais variadas direções, menos para a sua cabeça. É preciso achar um culpado.

7 X-Men 2, de Bryan Singer.

As HQs provavelmente nunca vão ganhar uma leitura tão plena. Bryan Singer fez um filme sobre o poder do preconceito. A coisa mais bonita que existe nos X-Men é o que povoa cada milímetro da tela: não há diferença.

8 A Viagem de Chihiro, de Hayao Miyazaki.

Miyazaki abre as portas da percepção. Abandona os pontos de referência, os parâmetros, e cria. Sua fábula é mágica não tem mensagem, não tem lições. Há apenas o deslumbramento das possibilidades da mente de uma criança.

9 Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola.

Um homem e uma mulher que se encontram, se conhecem, se apaixonam. Não há sexo. Amor de verdade pode viver sem ele. Há apenas a certeza do encontro e do ponto de encontro. Da descoberta, da identificação.

10 O Prisioneiro da Grade de Ferro (Auto-Retratos), de Paulo Sacramento.

O fim do autor? Não, autor que é autor divide esta função com seus personagens. A criação é coletiva, a visão menos unilateral. Um documentário onde não existe a incansável busca pela verdade. Porque ela não existe.

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Reencarnação

Reencarnação é um filme estranho. Estranho porque não faz força alguma para explicar seu próprio mistério e porque se dedica a trabalhar com suas repercussões. A escolha desta linha revela uma narrativa bem mais interessante do que a que era insinuada. A atmosfera é muito mais de investigação psicológica de que de thriller sobrenatural. E para isso, o filme aposta numa construção visual blasé pouco comum a um filme com um tema assim. A fotografia (Harris Savides, calculado e elegante) investe em takes demorados, câmeras estáticas ou travellings imensos. Cada quadro é tratado com imensa delicadeza. Tudo meio artificial, sim. Tudo muito interessante por ser artificial.

A composição do filme reflete certas características da protagonista, encarnada com distanciamento por Nicole Kidman: fria, neutralizada, quase fake. Por isto mesmo, o filme de Jonathan Glazer é muito coerente. Glazer não nega sua verve de esteta. Muitos de seus videoclipes – entre eles o ótimo Karma Police, do Radiohead – subvertem a chamada linguagem MTV. Esta estética comum aos clipes do diretor está pintada em toda a tela de Reencarnação, o que dá mais um ponto para o filme. A cena inicial de Anne Heche é dirigida com rara eficiência e belo final em frente ao mar remete às cores (ou à falta delas) de Interiores (Woody Allen, 1978), outro filme em que ninguém sabe lidar com os problemas de ninguém.

A construção européia do filme muito se deve ao roteiro ser assinado pelo grande Jean-Claude Carrière, que revela no meio de uma trama de aparente suspense, uma personagem imensamente romântica que não conseguiu superar a ausência do amor mesmo dez anos depois. O elenco está muito bem, todos muitos discretos, como exige o texto. A condução da interpretação de Cameron Bright, que revela potencial, é que parece inadequada, forçada, exibicionista. Era também a personagem mais complicada de cristalizar. Na ânsia de dar volume a sua performance, o diretor realmente passou do ponto. Mas isso não faz de Reencarnação uma bela surpresa, um filme no mínimo interessante.

Reencarnação EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Birth, Jonathan Glazer, 2004]

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Robôs

O VELHO E O NOVO: TUDO DE NOVO

Robôs sofre com sua falta de pretensão

É curioso que um filme onde tudo é futuro, desenvolvimento, tecnologia consiga ser tão velho. Esse é o caso de Robôs, que a dupla Chris Wedge e Carlos Saldanha nos entrega nesta temporada. A história do robôzinho que vai à cidade grande para realizar seu sonho de se transformar em inventor recicla um monte de textos conhecidos sobre superação, união-faz-a-força, bem-contra-o-mal. Ah, é pra criancinhas, eu sei, mas desde os Animaniacs as criancinhas não são mais tão bobinhas. Há o herói idealista, o vilão malvado, o vilão bundão, o personagem engraçadinho, a mocinha – bem, aqui há duas mocinhas, ora vejam só. Um insinuado triângulo amoroso metálico para crianças.

O visual é esplêndido, com retoques e detalhes que deixam os robozinhos fofos mais interessantes, como a ferrugem, que toma conta de boa parte do personagens (pobres). Mas o cenário é desperdiçado com um texto que não tem nenhuma graça, nem é inteligente e muito menos bonito, como o filme anterior dos diretores, A Era do Gelo (cuja continuação, por sinal, mereceu um trailer). A única piada realmente boa é a aparição do Homem de Lata, de O Mágico de Oz. No fim, Robôs não tem pretensão, não quer ser nada, significar nada. A luta do bem contra o mal já foi bem mais interessante. Mesmo na sua versão para crianças.

ROBÔS
Robots, Estados Unidos, 2005.
Direção: Chris Wedge, com co-direção de Carlos Saldanha.
Roteiro: Lowell Ganz e Babaloo Mandel, a partir da história de Jim McClain e Ron Mita.
Elenco: Ewan McGregor, Dianne Wiest, Robin Williams, Halle Berry, Jim Broadbent, Mel Brooks, Amanda Bynes, Paula Abdul, Jennifer Coolidge, Lowell Ganz, Paul Giamatti, Dan Hedaya, Greg Kinnear, Jay Leno, Tim Nordquist, Natasha Lyonne, Stephen Tobolowsky, Stanley Tucci, Chris Wedge, James Earl Jones.
Direção de Arte: William Joyce. Montagem: John Carnochan. Música: John Powell. Produção: Jerry Davis e John C. Donkin. Site Oficial: http://www.robotsmovie.com.

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Nesta sessão, dois trailers me chamaram a atenção: Quarteto Fantástico tem um elenco muito incomôdo, mas deve ser algo divertido e a segunda versão do trailer de A Vingança dos Sith tem todo o jeito de que este terceiro episódio dá de dez a zero nos dois anteriores, sem bem que isso não é muito difícil…

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Eterno Amor

A PLÁSTICA E O PLÁSTICO

Diretor se repete e manda Amélie Poulain ao maravilhoso mundo da guerra

Houve um tempo em que eu ainda acreditava em Jean-Pierre Jeunet. Gostava da mistura de encantamento e bizarrices que ele propunha em seus primeiros filmes, mas, hoje, quase quinze anos depois de sua estréia no cinema, Jeunet se afirma como um criador de plástico. O maior mérito de seu filme anterior – e maior sucesso de sua carreira – O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, odiado com muita raiva por muita gente, era usar esse mundo de plástico para criar abstração. Quilos de filtros na câmera, cenários estilizados em último grau, música doce, suave e triste, e uma atriz com jeito de menina inocente encarnando uma mocinha máxima. Foi essa idealização completa que cativou a platéia.

Pois bem, maior sucesso da carreira, né? Jeunet não resistiu a sua fórmula – fácil, digamos – e, em seu novo longa, Eterno Amor, volta a se apropriar dela para narrar um pequeno drama situado na Segunda Guerra Mundial. Apaixonado por suas versões coloridas do mundo, o diretor pinta a tela mais uma vez das cores mais improváveis para dar textura a sua fantasia. E de novo clipa a montagem. E mais uma vez insere um milhão e meio de efeitos visuais. E como se não bastasse faz Angelo Badalamenti criar sua trilha sonora mais popularesca. Tudo para idealizar a plástica, uma plástica que fala, que tem função, que serve para cristalizar a farsa.

O grande – imenso – problema é que esta é uma história bem mais palpável que a de Amélie Poulain e o tom parece muito artificial o tempo todo. Eterno Amor, do começo a o fim (e o fim demora para chegar), fica na encruzilhada entre o factual e o romanceado, a drama de guerra e a brincadeira visual. E o golpe final de Jeunet foi escalar Audrey Tautou como protagonista. Corrompida pelo material, a atriz reprisa a personagem que a tornou estrela com absoluto insucesso. Sua Mathilde não consegue se acomodar à história e a repetição dos tiques e trejeitos provoca um imenso incômodo em quem está assistindo.

ETERNO AMOR
Un Long Dimanche de Fiançailles, França/Estados Unidos, 2004.
Direção: Jean-Pierre Jeunet.
Roteiro: Jean-Pierre Jeunet e Guillaume Laurant, baseados no livro de Sébastien Japrisot.
Elenco: Audrey Tautou, Gaspard Ulliel, Jean-Pierre Becker, Dominique Bettenfeld, Clovis Cornillac, Marion Cotillard, Jean-Pierre Darroussin, Julie Depardieu, Jean-Claude Dreyfus, André Dussollier, Ticky Holgado, Tchéky Karyo, Jérôme Kircher, Denis Lavant, Chantal Neuwirth, Dominique Pinon, Jean-Paul Rouve, Michel Vuillermoz, Sandrine Rigault, Rufus, Albert Dupontel, Jodie Foster.
Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Hervé Schneid. Direção de Arte: Aline Bonetto. Música: Angelo Badalamenti. Figurinos: Catherine Boisgontier e Madeline Fontaine. Produção: Bill Gerber e David Puttnam. Site Oficial: wwws.warnerbros.fr/movies/unlongdimanche.

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QUEM BATE À MINHA PORTA?
O filme de estréia de Martin Scorsese tem todos os maneirismos de quem acabou de sair de uma escola de cinema. E mais: de quem esse filme foi trabalho de conclusão de curso. Haja zoom, take longo, plano-seqüência, câmera inusitada, montagem intensa. Há algum excesso nessa exibição de conhecimento. Tudo é muito universitário, digamos, mas tudo em seu devido lugar na versão comercial do filme, que já revela muito do que Scorsese viria a mostrar na sua carreira. E é deliciosa a enorme vontade de se explicitar a cinefilia do diretor, com um diálogo maravilhoso sobre Rastros de Ódio (John Ford, 1956) e uma explícita homenagem a um dos meus filmes favoritos, Onde Começa o Inferno (Howard Hawks, 1959), dois westerns, por sinal. E há Harvey Keitel dando uma dica do bom ator que é.

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Constantine

DEUS E O DIABO NA TERRA

Constantine transfigura personagem, mas consegue ser um filme bom

Em comparação com outra adaptação recente de um personagem do selo Vertigo, da DC Comics (Hellboy, para ser mais preciso, grande filme de Guillermo Del Toro), Constantine deixa e muito a desejar, mas a transposição do anti-herói de Hellblazer para o cinema saiu bem melhor que qualquer um poderia esperar (ainda mais com um protagonista como Keanu Reeves, que para meu completo espanto não está mal). O diretor estreante Francis Lawrence não se rende ao ritmo de videoclipe que garantiu seu pão antes de sua estréia em tela maior. Por sinal, Lawrence tem uma mão boa para contar uma história. E a de John Constantine já era suficientemente interessante.

O detetive que vai ao inferno e volta – e que passa boa parte do tempo tentando impedir seu retorno definitivo para as profundezas – é um grande personagem. Frágil, hábitos esquisitos, morrendo por causa do cigarro, combatendo demônios para garantir passaporte para o paraíso. Garth Ennis sabe bem como explorar o estranho. Na sua versão para o cinema, Constantine ficou fisicamente desfigurado, mas seu espírito está mantido. Os coadjuvante são um achado: Tilda Swinton, Shia LaBeouf e o melhor Satanás em muito, muito tempo, Peter Stormare. Os efeitos são bons, mas às vezes se excedem no artificialismo. Parece haver uma intenção do estúdio em fazer referência ao visual de Matrix (Irmãos Wachowski, 1999), mas o que prevalece em Constantine é o clima. Francis Lawrence acredita no que está filmando e conduz com estilo a história. E isso é bem importante.

Poupando tempo:

- O que você achou do Gavin Rossdale (vocal do Bush) como Balthazar?
- Ah, era ele?

CONSTANTINE
Constantine, Estados Unidos, 2005.
Direção: Francis Lawrence.
Roteiro: Kevin Brodbin e Frank Cappello, baseados no personagem de quadrinhos criados por Garth Ennis e Jamie Delano.
Elenco: Keanu Reeves, Rachel Weisz, Tilda Swinton, Shia LaBeouf, Djimon Hounsou, Pruitt Taylor Vince, Peter Stormare, Max Baker, Gavin Rossdale, Jesse Ramirez.
Fotografia: Philippe Rousselot (e Jeff Cutter). Montagem: Wayne Wahrman (e Nicholas Hasson). Música: Klaus Baldet, Billy Howerdel e Brian Tyler. Direção de Arte: Naomi Shohan. Figurinos: Louise Frogley. Produção: Lorenzo DiBonaventura, Akiva Goldsman, Benjamin Melniker, Lauren Shuler Donnen, Erwin Stoff e Michael E. Uslan. Site Oficial: www.constantinemovie.warnerbros.com.

rodapé:
DESVENTURAS EM SÉRIE
a versão para cinema dos livrinhos caça-níqueis de criancinhas que amam Harry Potter é riquíssima visualmente. Direção de arte, figurinos e maquiagem criativos – os mais criativos dos últimos tempos. Mas roda feio toda vez que seu vilão semi-protagonista entra em cena. A caracterização de Jim Carrey, que reprisa as caras e bocas de todos os seus filmes chatos e sem graça (Ace Ventura, em primeiro lugar), dá uma dica de que só quer chamar atenção para si mesmo e estraga todo o ritmo de suspense infanto-juvenil misturado com fantasia potteriana que o material original pretende criar.

nas picapes: Don’t Give Up on Us, com Owen Wilson.

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Microtextos

DA POSSE DE UM CONTROLE REMOTO E OUTROS VÍCIOS

Geraldine Page, em Interiores

Meu Tio (58), de Jacques Tati.

Algo bem perto de um filme perfeito. Tati é o elo perdido entre Chaplin e Jerry Lewis com sotaque francês. Bem… caso a gente ouvisse o Monsieur Hulot… Sua paixão pela mistura de ensaio sobre o cotidiano com crítica à sociedade tecnológica rendeu um filme cujo esplendor visual é raro. A intenção de se tornar apaixonante é evidente, mas longe de ser um pecado, já que a trilha e o carisma tímido do protagonista e de seus coadjuvantes absurdos desviam nossos olhos e ouvidos de qualquer coisa.

Interiores (Interiors, Estados Unidos, 1978), de Woody Allen.

Há dez, doze anos, quando vi esse filme pela primeira vez, ainda no berço do meu interesse por cinema, confesso que pouco vi no mais Bergman dos Woody Allen, além de um filme chato. Hoje, revisitando este trabalho não me acanho em dizer que estava completamente errado. Interiores é, sem dúvida, um dos melhores filmes de Allen, um dos maiores filmes de sua década. É impressionante o domínio completo de Allen sobre o filme. Do silêncio claustrofóbico da ausência de trilha sonora até os desenhos de cada personagem, gente que envelheceu à beira das neuroses da megalópole. Diane Keaton, Mary Beth Hurt e a (soberba interpretação de) Geraldine Page são retratos de uma decadência pessoal, particularmente urbana. Não bastasse essa eficiência verbal, textual, Allen se cercou de uma equipe que criou uma das mais coesas concepções visuais (inclusive associadas ao que pretende o roteiro) vistas em muito tempo. A fotografia de Gordon Willis é escandalosamente linda e a pasteurização dos cenários e figurinos (o então futuro cineasta Joel Schumacher assina o vestuário) traduz personagens e situações. Talvez o melhor filme de Woody Allen. Bom para eu calar a boca.

Morte Ao Vivo (Tesis, 1996, Espanha), de Alejandro Amenábar.

O longa de estréia de Amenábar é um belo filme sem recursos. Com uma boa idéia na cabeça, o diretor foi econômico ao máximo para torná-la filme. Câmera esperta, montagem ágil, mas sem chiliques, e um talento especial para criar ambientes de suspense dão forma à história da universitária que descobre uma rede de snuff movies dentro de sua escola. Amenábar recorre tantas vezes ao velho recurso das reviravoltas que consegue revigorá-lo e provocar dúvida.

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Histórias Extraordinárias

TRÊS OLHOS SOBRE EDGAR ALLAN POE

Fellini, Malle e Vadim lançam olhares sobre o escritor em filme irregular

Histórias Extraordinárias (1968), de Roger Vadim, Louis Malle e Federico Fellini.

Três diretores de peso e três histórias de Edgar Allan Poe, adaptadas com altos e baixos para o cinema. Roger Vadim assina a primeira delas, Metzengerstein, sobre a nobre fútil e mundana e sua relação de amor e ódio com o primo. O mais provocante é justamente o fato da insinuação incestuosa entre Jane e Peter Fonda, mas Vadim trata de dar um tom apático e distante à história – talvez como queria acreditar que era sua personagem principal. O resultado é que o filme não se assume como uma adaptação de Poe. Parece, inclusive, ter vergonha disso.

A incursão de Louis Malle é a mais eficiente na instalação do mistério e também a leitura mais fiel ao espírito da obra do escritor. William Wilson, personagem que inspirou a alcunha de um dos integrantes da Liga dos Blogues, respira Poe na caracterização de Alain Delon e no ritmo lento porém contínuo que Malle imprime à história. Do começo ao fim, o filme se pretende simples e discreto, sem muito adorno para dar o tom fantástico. Essa linha quase ríspida ajuda a dar uma textura macabra e assustadora ao episódio.

Se Malle é fiel e Vadim não consegue traduzir Poe, Fellini deturpa tudo. Utiliza o fio condutor do texto original para criar seu Toby Dammit, onde Terence Stamp aparece num de seus melhores momentos, como o astro meio decadente que vai à Itália para filmar um western católico. Fellini abusa do nonsense e da estilização visual (fotografia, direção de arte, figurinos excelentes) para se apropriar da trama de Poe e fazer um filme ?de Fellini?. Não faz concessões ao fácil entendimento e não se constrange em complicar ainda mais. Decisão sábia porque transforma este filme num espetáculo impressionante.

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Mostra Panafricana de Arte Contemporânea 2005

Começou na sexta-feira, em Salvador, a Mostra Panafricana de Arte Contemporânea. Dentro dela, acontece a exibição de um ciclo de filmes africanos, coisa bem rara no dia-a-dia. Meu horário de trabalho vai resumir – e muito – minhas investidas neste festival, mas o fim-de-semana já garantiu três filmes. O primeiro nasceu deste lado do Atlântico mesmo: Filhas do Vento, de Joel Zito Araújo, estrelado por um elenco quase que totalmente negro. Os outros dois integraram a seleção do Festival de Ouegadougou, no Burkina Faso. Todos os três foram apresentados pelos diretores.

Filhas do Vento (idem, Brasil, 2004), de Joel Zito Araújo.

É, pelo menos, um trabalho corajoso. Assume sua condição de filme negro, sem ser um filme racial. O grande mérito mora justamente em como trabalha com naturalidade uma trama universal que poderia ser vivida por atores brancos, azuis ou cor-de-rosa. É um passo. O longa é bem cuidado, fotografia bonita, direção de arte eficiente, mas o que não consegue é se sustentar enquanto história. Tudo é muito sem substância, meio mal escrito mesmo, com cenas forçadas, artificiais, que deixam os atores em situações constrangedoras. Duro é agüentar Milton Gonçalves ser pai de Ruth de Souza e Léa Garcia, apesar de que é bom vê-las num filme. Filhas do Vento foi o protagonista do lamentável episódio envolvendo o presidente do júri do Festival de Gramado do ano passado, Rubens Ewald Filho, que atribuiu os muitos prêmios do longa à cor da pele de seus atores. Curioso é que essa associação é justamente o que Joel Zito gostaria de evitar com seu filme. A questão do preconceito aparece, mas não é a base, como na maioria absoluta dos desenhos de personagens negros. Não é panfleto. É tão negro que não tem cor.

Em Busca da Felicidade (En Attendant le Bonheur – Heremakono, Mauritânia, 2002), de Abderrahmane Sissako.

O diretor fez um discurso enorme, sobre engajamento social e político, antes da projeção. E Sissako é um diretor que tem realmente muito a dizer. Seu filme se revela muito lentamente. A princípio, não dá para entender seus motivos, mas, embalados pela trilha bonita e enquadrados pela fotografia riquíssima (apesar das limitações cromáticas do digital), os vários personagens vão se cristalizando aos poucos e mostrando suas motivações, como esperança e mudança. O melhor dos personagens é o do jovem estrangeiro que não faz o mínimo esforço para aprender a língua da cidade onde está morando porque quer mesmo é sair dali e ir tentar a vida na Europa. Estar ali não quer dizer nada. É apenas o meio do caminho. Outro personagem maravilhoso é pequenino eletricista Khatra, tratado com imenso carinho pela câmera de Sissako. Seu sonho de consumo é um macacão que o torne mais profissional, mais adulto, mais homem. É da solidão de seus personagens que surge a beleza deste filme.

Senhora Brouette (Madame Brouette, Senegal, 2002), de Moussa Sene Absa.

Surpreendente – talvez visão preconceituosa minha – a quantidade de boas interpretações neste filme. Da protagonista até sua adoravelmente furiosa filhinha, quase todos estão muito bem nesta mistura de comédia de costumes e crônica social do diretor senegalês, que também fez uma apresentação política de seu filme no festival. Absa costura uma trama que começa com um assassinato com um ensaio sobre o cotidiano no lado mais pobre de uma cidade da África urbana. O humor pontua o filme inteiro, mas não mais que a música. Um coral intervém o tempo inteiro na ação. Tanto que o longa aparece, muita vezes, um musical. Essa indefinição de gênero é muitíssimo bem-vinda. A saga da Madame Brouette é encantadora até mesmo quando quer fazer crítica.

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Microtextos

CONFISSÕES DE UMA POLTRONA NA SALA DE ESTAR


Tabu (idem, Estados Unidos, 1931), de F. W. Murnau.

Começa completamente Robert Flaherty, co-autor do roteiro, com ares de documento (o que não é pouca coisa diante do nome citado), até se entregar ao maior diretor do filme mudo. A falta de atores profissionais dá ao longa de Murnau um misto de pureza e precariedade. A segunda some com rapidez quando o fotógrafo Floyd Crosby deixa a beleza da luz nas águas para encher a tela com closes dos protagonistas, nos remetendo a A Última Gargalhada ou quando usa sua técnica de dar a forma aos sonhos num engenhoso artifício de montagem, como era em Aurora. O encantamento reina absoluto desde a invasão de canoas no mar de Bora-Bora até a primeira (e veloz) aparição do guardião das pérolas. O amor proibido nunca ganhou realizadores tão delicados.

À Meia-Noite Levarei Sua Alma (idem, Brasil, 1963), de José Mojica Marins.

Há que se elogiar muito este filme. Zé do Caixão, um dos personagens com maiores motivações filosóficas na filmografia brasileira, é uma bela criação. Um ser maléfico que ama as crianças e busca a pureza perdida. E o filme, ainda que parco em muita coisa (atuações precárias e técnicos iniciantes) tem uma fotografia bem acima da média. O problema maior talvez seja mesmo a compulsão onanista do astro-diretor, que cria seqüências enormes sem função apenas para garantir solos de interpretação, o que, convenhamos, ninguém merece. De resto, é um belo filme cujo final desacredita um pouco sua continuação, que às vezes é até melhor (como na cena colorida no inferno).

Barbarella (idem, Estados Unidos, 1968), de Roger Vadim.

Nada como rever um filme assim. Em 1968, fazer um longa inteiro sobre sexo não deveria ser lá grande coisa. Mas a embalagem ultrapop que Roger Vadim imprimiu a sua Barbarella é colírio e delírio. Jane Fonda nunca foi tão linda (e boa atriz). Sua performance deliciosamente ingênua e sacana ganhou um palco multicolorido e explosivo. E do striptease em carrossel da abertura até o vôo final do anjo sem expressão, esses cenários explodem junto com os multifigurinos da heroína futurista. Engraçado como o exagero da direção de arte esconde a inteligente fotografia, cheia de idéias mirabolantes – quase todas dando muito certo. A trilha sonora, que vai do sexy ao etéreo, é perfeita para momentos de celebração do infinito, viagens espaciais ou adoráveis desvios no sistema neurológico.

Nelson Freire (idem, Brasil, 2004), de João Moreira Salles.

João Moreira Salles está entre os melhores cineastas brasileiros em atividade. É impressionante como ele domina os filmes que dirige com tanta propriedade. O documentário que biografa o pianista baixinho perde para Entreatos apenas porque o retratado no segundo tem alcance maior. Salles picota todas suas intervenções na vida de Nelson Freire para, a seguir, promover o diálogo de uma com outra. Longe de ser refém de desfechos, o diretor prefere a desordem cronológica como base de sua criação. Salles cria na mesa de edição. Nas mãos de pessoas erradas, isso pode ficar gratuito ou mesmo ruim. Nas mãos dele, é bom cinema.

P.S.: entrar à noite no trabalho pode garantir experiências assustadoras como ver trechos do primeiro capítulo de América.

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