Monthly Archives: janeiro 2005

Closer

Amor, sexo, desejo, traição. Com temas assim, as possibilidades são muitas na hora de fazer um filme. Mas o veterano Mike Nichols, bem longe de seus áureos tempos de A Primeira Noite de um Homem, um dos melhores filmes da década de sessenta, preferiu o blá-blá-blá. A adaptação da peça de Patrick Marber para o cinema aposta na qualidade do texto original e na desenvoltura dos atores para interpretá-lo. Isso já havia dado certo com o próprio Nichols, em seu filme de estréia, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, mas não se repetiu na nova investida do diretor.

A primeira questão a se discutir é justamente a base de todo o filme, o texto. Na ânsia de causar impacto com os temas já citados aqui, Marber apelou para lugares comuns como os diálogos com respostas rápidas e engraçadinhas ou a aparentemente ousada decisão de verbalizar nomes chulos para órgãos, personas e ações sexuais ou palavrões. Ousada talvez somente na terra que reelegeu o vaqueiro como presidente. Num país sexualizado como o Brasil – e isso não é uma crítica, o texto de Marber tem alguma graça. Pouca.

Outro problema fundamental: diferentemente do primeiro filme do cineasta, os atores aqui – todos bons atores, por sinal – nunca são grandes atores, sequer têm grandes momentos. Julia Roberts, que merece crédito por aceitar falar sacanagem no cinema, não é Elizabeth Taylor, e Jude Law não consegue encontrar o equilíbrio entre o jocoso e o patético. É o pior na tela. As tão aclamadas performances de Natalie Portman, alçada à merecida condição de ninfeta da vez, e Clive Owen não passam do correto.

Portman é a melhor do quarteto, mas sua personagem enfraquece pela falta de definição. Owen tenta fazer o grandalhão alucinado e obsessivo, mas esbarra em suas limitações como ator e no texto, ruim, que lhe deram para decorar. A cena de sexo virtual é curiosa, mas o fotógrafo Stephen Goldblatt deve ter dormido por ali já que a seqüência, como quase todo o filme, não parece cinema, mas teatro. No único momento em que Nichols resolve fazer cinema de verdade, Natalie Portman aparece em toda sua beleza. Pouco para um filme inteiro, onde a direção se acomodou (ou se acovardou) na adaptação da linguagem do texto original, resumindo a tradução à reprodução. E isso é quase nada quando o texto é ruim como aqui.

Closer – Perto Demais EstrelinhaEstrelinha
[Closer, Mike Nichols, 2004]

Compartilhe!

1 Comment

Filed under Resenha, Uncategorized

Três novatos brasileiros

Pois bem, vejam só: o cara tinha 25 anos e já era um revolucionário. Fez polêmica no teatro, fez a ficção invadir as casas das pessoas no rádio e, por fim, migrou para o cinema para redefinir tudo. Boa parte dos cineastas dos anos 60 para cá devem amaldiçoar a figura do diretor de Cidadão Kane. Depois que o longa, a estréia do geniozinho, começou a encabeçar as listas de melhores filmes da história, a cobrança pelo primeiro trabalho em celulóide (ou digital ou o que quer que seja) é cada vez maior.

No Brasil, há o agravante do ranço histórico deixado pela cinema novo: a necessidade de posicionamento social do cineasta. O autor precisa ser engajado. É isso que tentam três novos diretores brasileiros, que fizeram suas estréias em longa-metragem em 2004. Roberto Moreira, Heitor Dhalia e Alexandre Stockler tentam ser definitivos, explorando, sobretudo, a miséria e a falta de perspectivas do país em que vivem.

O exemplo mais perfeito é o de Amarelo Manga, onde o pernambucano Cláudio Assis, sob a égide da denúncia, propõe abrir as entranhas da “sociedade burguesa, porca e capitalista”, mas se cristaliza como propaganda para o diretor. Neste sentido, Contra Todos, do professor da USP Roberto Moreira, bebe da mesma fonte. Tem o que se pode chamar de espírito universitário, aquela vontade maior que tudo de ser revolucionário, de revelar, de se revoltar contra a mediocridade do mundo de hoje.

E Moreira vai mais além. Enquanto o filme de Assis ainda tem méritos enquanto cinema, enquanto filmagem, enquanto criação, Contra Todos se pretende realista, urbano, verdadeiro. E para isso se prende a uma das mais furadas táticas dos últimos tempos: a câmera na mão virou uma maldição. E a de Moreira é uma câmera digital, mais, digamos, livre de filtros, seca, dura, naturalista, tosca. O retrato de uma família que vive na periferia paulista vira espetáculo de estripulias visuais rasteiras de menino revoltado. Parece gratuito quase o tempo todo. Não fosse os desempenhos dos atores (salvo o fraquíssimo, fraquíssimo, fraquíssimo protagonista) seria quase nulo. E a falta de foco, a falta de objetivo é o que mais impressiona. O filme é sobre nada ou o diretor acredita que a vida à margem das grandes cidades é nada.

Heitor Dhalia, diretor de Nina, tem uma visão parecida sobre quem vive no coração das metrópoles: a falta de propósito é regra para a motivação dos personagens. E no filme o que não falta é personagem. Os coadjuvantes da protagonista são tantos que você não consegue entender muito bem qual o motivo de eles estarem lá, além de vender o filme com as participações de atores globais. A intervenção de Matheus Natchergaele e Lázaro Ramos é risível. A de Guilherme Weber, latindo para a porta, não funciona.

Além disso, Nina é um filme de plástico. Não tem nenhum sabor. Histriônica e com uma expressão só (veja a foto), Guta Stresser, a chatinha do seriado A Grande Família, se perde no limbo dos personagens alternativos. Moderninha, não faz nada na vida e não faz nada para mudar isso, posa de sofredora dos abusos da dona do apartamento onde aluga um quarto, vivida pela boa Miriam Muniz, que morreu recentemente. Tudo no filme é construído para impressionar: a fotografia usa filtros demais, a montagem tenta significar demais (e não consegue), a cenografia é artificial demais. Nada funciona muito enquanto reforço dramático, já que a adaptação livre de Crime e Castigo, de Dostoiévski, não passa de pesadelo light de neuróticos da grande cidade. Sobra somente o inegável talento do desenhista Lourenço Mutarelli, única grande sacada do filme.

E há Cama de Gato. Alexandre Stockler cometeu o filme mais equivocado dos últimos tempos no cinema brasileiro. Um filme digno de estudante secundarista que ganhou uma câmera digital do papai riquinho. Rodado com a única intenção de dizer que tudo não presta e que o jovem da classe média brasileira é um acéfalo, se apóia numa história pobre repleta de situações absurdas, travestidas de pequenas revoluções tipo “cada um faz a sua parte”. Um desserviço para o cinema do Brasil e, ouso arriscar, para o Brasil.

O golpe da criação do T.R.A.U.M.A., inspirado na fracassada tentativa do Dogma 95, nem merece ter a sigla desvendada. È uma armadilha que não captura nem pombo lerdo. A construção dramática do texto é uma piada sem graça. Para justificar suas idéias preconceituosas sobre a geração perdida dos jovens brasileiros (nesse ponto, Stockler se aproxima em perigosa velocidade de Larry Clark), o filme é aberto e encerrado com sonoras coletadas nas ruas de São Paulo. Para o diretor, a imbecilidade é regra, o mundo não tem mais jeito e, a única saída é faturar em cima da pobreza de idéias que emerge como pobreza de criação. O pior filme do mundo.

Cama de Gato Estrelinha
[Cama de Gato, Alexandre Stockler, 2002]

Contra Todos EstrelinhaEstrelinha½
[Contra Todos, Roberto Moreira, 2004]

Nina Estrelinha
[Nina, Heitor Dhalia, 2004]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Top 20: melhores filmes de 2004

1 Elefante, de Gus Van Sant

2 O Pântano, de Lucrecia Martel

3 Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino

4 Homem-Aranha 2, de Sam Raimi

5 O Prisioneiro da Grade de Ferro, de Paulo Sacramento

6 Filme de Amor, de Júlio Bressane

7 Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll

8 Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola

9 Lado Selvagem, de Sébastien Lifshitz

10 Escola de Rock, de Richard Linklater

11 Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, de Michael Gondry

12 Swimming Pool, de François Ozon

13 Dogville, de Lars Von Trier

14 Ser e Ter, de Nicolas Philibert

15 Meninos de Deus, de Peter Care

16 Hellboy, de Guillermo Del Toro

17 O Retorno, de Andrei Zvyagintsev

18 Mestre dos Mares: o Lado Distante do Mundo, de Peter Weir

19 Madrugada dos Mortos, de Zack Snyder

20 Os Incríveis, de Brad Bird

Leave a Comment

Filed under Listas