Monthly Archives: novembro 2004

Microtextos

Eu que Amo Você Estrelinha½, Olga Stolpovskaya

Filme visto no Mix Brasil. Bombinha russa travestida de filme inteligente. O clima é daquelas comédias alemãs contemporâneas tipo Doris Dörrie. Apela para elementos mágicos e amalucados e não chega a lugar nenhum.

Garoto Propaganda Estrelinha, Zack Tucker

Típico exemplo dos malefícios que a câmera digital tem trazido. Segundo e último filme visto (até a metade, onde foi possível suportar) no Mix Brasil. A estrutura é de um filme erótico, com uma entrevista como ponto de partida para flashbacks. Alguns com sexo, outros com uma tentativa tosca de se tornar cult. Serviu para ver Karen Allen, a heroína do primeiro Indiana Jones, bem envelhecida e perdida no tempo e no espaço.

Lado Selvagem EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Sebastien Lifshitz

Um grande filme visto numa pré-estréia em São Paulo. O diretor consegue a tarefa difícilima de equilibrar extrema sensibilidade com cenas fortes, sem se render a clichês e panfletarismo. A história do travesti que leva os dois namorados para cuidar da mãe moribunda é muito bem narrada (toda em flashback), profunda e nunca óbvia.

Spartan EstrelinhaEstrelinha½, David Mamet

Tem seus momentos, mas a mente maquiavélica de David Mamet abusou desta vez. Com a desculpa de revirar a trama e, conseqüentemente, invadir os meandros da política norte-americana, fzendo um raio-x em seus personagens, Mamet gastou tempo demais no militarismo e deixou seu filme chato e pouco instigante. A parte final, a melhor, salva o resultado, mas não garante uma média boa. Val Kilmer está muito acima da média.

O Clã das Adagas Voadoras EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Zhang Yimou

Depois do absolutamente fake Herói, Zhang Yimou finalmente acerta a mão ao voltar ao universo das artes marciais e da história da China. Se o filme anterior apelava para a abstração visual para conquistar um público de gigantes, agora o foco é numa pequena história, bem contada e com efeitos menos espetaculares e mais críveis. Infelizmente, depois de O Tigre e o Dragão, nada mais é novidade.

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Microtextos

Capitão Sky e o Mundo do Amanhã EstrelinhaEstrelinha½, Kerry Conran.

O visual farsesco é espetacular, no sentido de espetáculo mesmo. E nos remete para uma volta bem agradável ao clima dos filmes de detetive dos anos 40. Jude Law, Gwyneth Paltrow e Giovanni Ribisi, ótimo, se entregam aos personagens e se deixam levar pela trama. O problema maior é que o diretor Kerry Conran não acredita muito no seu universo e faz questão de deixá-lo artificial o tempo inteiro. Se fosse diferente, mais que divertido, Capitão Sky e o Mundo do Amanhã seria delicioso. Coisa de leitor de quadrinhos.

Celular – um Grito de Socorro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½ , David R. Ellis.

A pipoca mais bem paga do ano. A história é de Larry Cohen (diretor do clássico Nasce um Monstro), que transforma inverossimilhança em diversão e adrenalina. Kim Basinger embarca total na brincadeira. Uma delícia.

Voltando para Casa Estrelinha, Agnieska Holland

Impressionantemente ruim. Completamente ruim, rendido a clichês, com atuações equivocadas e um roteiro artificialesco, com momentos medíocres. Difícil entender como Agnieska Holland, uma diretora que tem tantos méritos na carreira, fez um filme tão vagabundo.

O Agente da Estação EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Tom McCarthy

De cara, já chama atenção por ser protagonizado por um anão. O diretor-roteirista tem bastante carinho com a história, mas não arredonda muito os personagens, que são essencialmente boas pessoas. No entanto, o filme tem um clima de calmaria do interior que conquista aos poucos. Os atores, todos bem, inclusive o grandão- bobão-melhor-amigo, driblam com prazer as armadilhas fofinhas do roteiro. O final é o melhor possível.

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Microtextos

Eu Não Tenho Medo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Gabriele Salvatores

A fotografia deste filme é uma das mais belas do ano, sem dúvidas. Os quadros produzidos pela paisagem natural do interior da Itália são lindos e emolduram bem a pequena história de um garoto (bom ator) que descobre um segredo numa casa escondida. O final deixa meio a desejar, assume características policialescas, mas até lá, a paisagem já extasiou o espectador.

Ouro Carmim EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Jafar Panahi
História de Abbas Kiarostami, que segundo ele mesmo em 10 sobre Dez, não gosta muito de filmar roteiros muito fechados e termina entregando-os para os amigos. Panahi, que já tinha feito o mesmo com O Balão Branco (95), dirige com correção a história do ex-militar que entrega pizzas e não consegue mais se adequar ao mundo onde vive.

Retrato de Teresa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Pastor Vega

Típico filme social para mostrar a força de uma mulher cubana. Poderia ser apenas um programa chato, mas é muito bom de assitir. Vega ambienta tudo na periferia e sua Teresa é mulher linda, quase brasileira de tão bela e auto-confiante. Não tem muita novidade, mas é bem feitinho. E tem uma cena em que uma loirinha está no sofá ao som de “Yolanda”, de Pablo Millanés.

Primavera, Verão, Outono, Inverno… Primavera Estrelinha, Kim ki-Duk

Ao contrário de muita gente, eu adorei A Casa Vazia, novo filme do diretor, exibido na Mostra de São Paulo. Fico me perguntando se minha opinião teria mudado caso tivesse visto esta obra anterior primeiro. Esquemático até o último fio da careca dos monges, é um filme que se vende tentando construir a beleza fake a partir dos costumes e paisagens orientais. A relação de causa e efeito permeia o filme inteiro, que trabalha com conceitos bem velhinhos como culpa e redenção. O pior de tudo é o clima meio mágico que o diretor tenta impor.

Amor à Tarde EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Eric Rohmer

Pois bem, logo eu que não sou dos maiores fãs de Rohmer adorei este filme. Uma obra avassaladora sobre os sentimentos de um homem casado pela ex-namorada de um amigo seu. Desde o passeio pelos vários tipos de mulheres nas ruas de Paris (um texto maravilhoso) até o final petrificante, tudo é inteligente e inesperado neste filme.

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Gosto de Sangue

Uma cena deletada, uma cena reduzida. Enquanto George Lucas enche seus filmes antigos de novos e novos efeitos, a versão reloaded de Gosto de Sangue tem três minutos a menos que a original, mas ganhou uma deliciosa abertura-piada, que brinca com a carreira comercial do filme. Curioso é constatar que, apesar dos inegáveis muitos êxitos em vinte anos de cinema, nunca os irmãos Coen foram tão bons quanto em seu longa de estréia.

O noir caipira da dupla é a materialização perfeita de suas boas idéias. O roteiro obedece às regras do gênero, mas não se limita quando quer reescrevê-las. O ponto de partida é a descoberta de uma traição. A seu favor, os Coen contaram com uma inteligentíssima fotografia de Barry Sonnenfeld e uma trilha tão bonita quanto assustadora, cortesia do habitué Carter Burwell. Se Frances McDormand já dava indícios da grande atriz em que viria a se transformar, Dan Hedaya e o impagável detetive de M. Emmett Walsh tiveram aqui os melhores momentos de suas carreiras. O som remasterizado da nova versão valoriza silêncios e insinuações. Gosto de Sangue é um filme delicado, calculado, bem pensado, mas nunca esquemático. Algo bem perto da perfeição.

Gosto de Sangue EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Blood Simple, Joel Coen, 1984]

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Casa de Areia e Névoa

Tudo é muito intenso no filme de estréia de Vadim Perelman. Tão intenso, tão intenso que ultrapassa os limites do exagero. A proposta é sufocar o espectador com a história da disputa por uma casa. Uma mulher em crise não abre suas correspondências e descobre tarde demais que vai ser despejada – injustamente – do lugar onde mora, herança do pai. A casa vai a leilão e é comprada por uma família iraniana, capitaneada por um ex-coronel fugitivo. Tem início o duelo. O ponto de partida até promete, mas a estilização extrema do filme (desde o visual até a direção dos atores) deixa muito a desejar.

Como faz pouco para substanciar o conflito, Perelman recorre ao infalível escapismo do piscológico. Jennifer Connelly, mais linda que nunca (já acorda com sombra nos olhos e tudo), vaga pelas entranhas da depressão enquanto Ben Kingsley, o étnico por natureza (seja árabe, hindu ou judeu), guarda todo o rancor bárbaro no seu coração de bom iraniano. Shoreh Aghgdashloo, simpática iraniana de verdade que faz a clássica esposa estrangeira – submissa, porém forte – que ainda não sabe falar muito bem a língua do novo país. Os três, bons atores, se prendem às imperfeições da direção de Perelman, que trata de estereotipar tudo apesar da embalagem moderninha do filme.

Na medida do possível, o trio tenta fazer bonito, mas empaca nas embromações de um roteiro que tenta ser poético com tom de tragédia e melancolia artificial, convertido em imagens extremamente originais, como flashbacks em slow motion à beira-mar e nuvens aceleradas para mostrar que o tempo está passando. O clímax, então, é uma coisa.

Casa de Areia e Névoa EstrelinhaEstrelinha
[House of Sand and Fog, Vadim Perelman, 2003]

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O Abraço Partido

VIDAS SEM RUMO

Novo filme de Daniel Burman acompanha personagem à procura de explicações

E Ariel entra em cena para apresentar seus coadjuvantes: homens e mulheres que trabalham na galeria onde esta a loja que ele toma conta junto com a mãe. Herança de um pai que partiu para uma guerra da qual nunca mais voltou, deixando-o ainda bebê. Não voltou porque não quis. Para Ariel, sobrou o ressentimento e uma queda para a abstração. Ele não consegue gostar da vida que leva e acha que aproveitar sua descendência polonesa pode mudar alguma coisa.

Quem gosta de fazer associações pode enxergar que Daniel Burman, que mais uma vez se associa ao ator Daniel Hendler, utiliza as nebulosas perspectivas de seu protagonista para alegorizar a falta de perspectivas de seu país. Câmera na mão, caminha com Ariel pelas ruas de uma Buenos Aires que não está nos cartões postais. Desfila um caos coordenado de personagens entre a conformação e a apatia. Ou cujo grande movimento de suas vidas perdeu o significado num estalar de dedos. O filme é montado em capítulos que obedecem certa ordem cronológica, mas não seguem padrões estrturais. Falta explicação. Falta fechar as arestas. É justamente esse caos que faz de O Abraço Partido um belo filme.

O ABRAÇO PARTIDO
El Abrazo Partido, Argentina/França/Itália/Espanha, 2004.

Direção: Daniel Burman.

Roteiro: Daniel Burman e Marcelo Birmajer.

Elenco: Daniel Hendler, Adriana Aizemberg, Jorge D’Elía, Sergio Boris, Rosita Londner, Diego Korol, Silvina Bosco, Isaac Fajm, Melina Petriella, Atilio Pozzobon, Mónica Cabrera, Franco Tirri, Luciana Dulizky, Eloy Burman, Juan José Flores Quispe, Francisco Pinto, Eduardo Wigutow, Arnoldo Schmidt, Catalina Cho, Pablo Kim.

Fotografia: Ramiro Civita. Montagem: Alejandro Brodersohn. Música:: César Lerner. Direção de Arte: Maria Eugenia Sueiro. Figurinos: Roberta Pesci e Natalia Zubeldía. Produção: José María Morales. Site Oficial: www.ocean-films.com/lefilsdelias.

rodapé:

Eu saía de um filme chato. Era uma sessão de meia-noite no Espaço Unibanco. O cabelo prateado (ou algo assim) me chamou atenção. Ela estava numa mesa de bar, a única que ainda restava. A mesa se dividia em núcleos de conversa. Ereta, dava uma tragada num cigarro. Os dois que estavam ao seu lado conversavam entre si. Quando eu passei, ela me olhou. Elke Maravilha sorriu pra mim.

nas picapes: Dura na Queda, Elza Soares.

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Top 10: Mostra SP 2004

Listinha, sabem vocês, é comigo mesmo. Segue aqui uma lista (com idas vindas, mudanças de opinião, análise sobre análise) com os filmes de que eu mais gostei nos dias que passei na Mostra de Cinema de São Paulo. Em breve, posto aqui uma lista coletiva, com as opiniões de outros colegas. Lucrecia Martel é a minha diretora favorita hoje em dia.

melhores filmes

1 La Niña Santa, de Lucrecia Martel

2 Zatoichi, de Takeshi Kitano

3 A Casa Vazia, de Kim ki-duk

4 Caçados por Sonhos, de Buddhadeb Dasgupta

5 Whisky, de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll

6 O Quinto Império, de Manoel de Oliveira

7 Sarabanda, de Ingmar Bergman

8 Família Rodante, de Pablo Trapero

9 Tartarugas Podem Voar, de Bahman Ghobadi

10 Maria Cheia de Graça, de Joshua Marston

melhor direção

Lucrecia Martel, em La Niña Santa

melhor ator

Erland Josephson, em Sarabanda

melhor atriz

Mirella Pascual, em Whisky

melhor roteiro

Caçado por Sonhos

melhor fotografia

Família Rodante

melhores montagem, música e sonoplastia

Zatoichi

melhor direção de arte

Herói

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Mostra SP 2004: dia 10

Terra Prometida, de Amos Gitaï.
[Promised Land, França/Israel, 2004]

Contrabando de mulheres do Leste Europeu para Israel. Amos Gitaï acerta no tratamento dado ao tema. A prostituição ganha tom documental, tanto na fotografia digital (finalmente uma câmera digital acertada) quanto na quase abolição do diálogo. A maioria das poucas palavras que se houve é ruído e não um diálogo feito para que o espectador ouça. Este assume uma posição de voyeur natural, como se não houvesse filme.

Questão de Imagem, de Agnès Jaouï.
[Comme une Image, França, 2004]

A velha história do homem de negócios muito ocupado, preocupado com os negócios, o dinheiro, a badalação, e displicente com a família e os amigos. Tudo isso travestido de comédia moderna francesa, com diálogos ágeis e bons atores. Pois é, O Gosto dos Outros (2000) era melhor.

Edukators, de Hans Weingarten.
[Edukators, Alemanha/Áustria, 2004]

O que transforma este filme num belo filme é que ele é tão convicto de suas ideogogias que se torna quase ingênuo, adolescente. A presença do mesmo Daniel Bruhl de Adeus, Lênin (2003) no elenco reafirma essa idéia. O personagem dele e mais um colega invadem mansões, rearrumam os móveis e deixam bilhetes para assustar os riquinhos. Até que alguma coisa dá errado. Na melhor cena do filme, surge a pergunta: como você, com um passado destes, se transformou no que você é? Resposta: acontece sem a gente sentir. Não precisava de “Hallellujah” três vezes no final (a trilha já é boa o suficiente), anunciando redenção. Não precisava do bilhetinho na parede. Os Educadores faz parte de um cinema alemão que não é chato. Isso já é bastante coisa.

Herói, de Zhang Yimou.
[Hero, China/Hong Kong, 2002]

Não há como dizer outra coisa: Herói é um filme fraco. A intervenção de Zhang Yimou no mundo das artes marciais e dos filmes históricos orientais ficou anos-luz aquém do que Ang Lee fez em O Tigre e o Dragão (2001). Com um roteiro mal amarrado, cheio de buracos narrativos e com tom nacionalista desnecessário, Yimou se sustenta no esplendor visual que pretende criar. Mas comete novo pecado. Na intenção de fazer o filme mais bonito do cinema, carrega na artificialidade de combates (cujo tom nunca é o da fantasia, mas o da inverossimilhança), no cálculo exarcebado na construção da fotografia (as belíssimas cores ganham a redundância dos cenários e o degradê beira o exagero), e nos elementos kitsch, como o vento que faz os figurinos esvoaçarem mais que em comercial de Molico à beira-mar. É uma pena, mas Herói é o filme mais fake do ano.

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Mostra de Cinema 2004, dia 9:

Tae Guk Gi , de Je-gyu Kang.

(idem, Coréia do Sul, 2004)

Este filme é realmente único. Uma megaprodução cheia de efeitos visuais que veio da Coréia do Sul. Um épico com ares de clássico norte-americano dos anos 30, moldado com o que a tecnologia mais atual tem a oferecer: a fotografia naquele tom de reality show, edição rápida, sonoplastia acentuada, violência sem limites, feita pra chocar mesmo (para mostrar os horrores da guerra, sabe?). E é por se aproximar com tanta fúria do cinema dos Estados Unidos que a história dos dois irmãos mandados para a Guerra da Coréia parece artificial e não convence. É um cinema que nasce vendido, entregue, chupado do que o filme norte-americano tem de pior. O uso da trilha chega a ser imoral. Os protagonistas interpretam como se estivessem em Hollywood. Talvez seja por isso que a Coréia do Sul espera concorrer ao Oscar com este filme aqui.

Contra a Parede , de Fatih Aik.

(Gegen Die Wand, Alemanha, 2004)

Moderno mesmo, hoje em dia, é quem tem sotaque. Efeitos da globalização. Explicação para que este filme, um decendente de Casamento Grego (2002) e Casamento Arranjado (2001) travestido de filme contemporâneo. A fórmula é simples: soma-se câmera digital trêmula, sexo, drogas, rock’n’roll e violência. O resultado é filme velho com cara de novo. Com alguns bobões que ainda compram a idéia e dão prêmio em festival importante, carreira assegurada.

Sarabanda , de Ingmar Bergman.

(Saraband, Suécia, 2003)

Não existe um diretor de atores como Ingmar Bergman. O reencontro dos personagens de Liv Ullmann e Erland Josephson em Cenas de um Casamento (78) é um palco para grandes interpretações. Bergman usa um cenário estritamente teatral, fechado, com não mais que dois personagens em cena. Mas quando o espectador acha que a força do filme está apenas no texto e nos atores – o que já não seria pouca coisa já que o filme se debruça mais uma vez nos murmúrios bem guardados de uma família – o cineasta surge com um plano absolutamente lindo. Bergman agora só faz TV, mas nunca deixou de fazer cinema.

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Mostra de Cinema 2004, dia 8:



Feminices, foto ruim para um filme bom

10 sobre Dez , de Abbas Kiarostami.

(10 on Ten, Irã/França, 2003)

Interessantíssimo documentário para se entender a dinâmica do cinema de Abbas Kiarostami. O diretor se aproveita da estrutura do seu então último filme, Dez (2002), para dar “aulas” do seu cinema. O filme tem um endereço certo, os estudantes de cinema ou cineastas aspirantes, mas é uma bela janela para quem quer conhecer melhor a lógica do cinema do iraniano (a pouca utilização de música, a busca pela naturalidade, o apego aos não-atores). Apesar de terminar revelando uma certa animosidade com o cinema norte-americano, 10 sobre Dez revela algumas das verdades invisíveis dos filmes de Kiarostami.

Visões da Europa , de vários.

(Visions of Europe, União Européia, 2004)

Um filme que é a colagem de 25 curtas dificilmente teria um resultado uniforme. A primeira desigualdade foi a de temas: uns preferiram a política (praticamente todos têm um visão bastante pessimista da União Européia), muitos resolveram falar da imigração (com resultados bastante irregulares) e outros preferiram a abstração. Entre cineastas desconhecidos e consagrados, o britânico Peter Greenaway é quem consegue o melhor resultado. Seu The European Showerbath é uma metáfora simples e eficiente (e muito bem filmada) para a confusão da UE. O grego Constantine Giannaris, com Room for All, faz o melhor dos filmes sobre a imigração: inteligente, bem editado e original. O holandês Euroquiz, de Theo Van Gogh, com seu game show absurdo, e Euroflot, de Arvo Iho, da Estônia, são os mais engraçados. O finlandês Aki Kaurismaki vai a Portugal, na aldeia de Bico, e mostra que a Europa ainda é medieval. E o esloveno Damjan Kozole acerta na simplicidade e faz de seu Evropa o mais sutil dos episódios.

Feminices , de Domingos de Oliveira.

(idem, Brasil, 2004)

Domingos de Oliveira recupera seu humor depois do ponto contra de Separações (2003). Este filme é uma belíssima surpresa, escorado no timing imoral do diretor para a comédia e nas deliciosas interpretações do quarteto fantástico de atrizes, com destaque para Clarice Niskier, autora da pessoa que baseia o filme, e a fofíssima Dedina Bernadelli, que me fez voltar à infância e às novelas da Globo nos anos 80 – por sinal a piada da série da Globo é ótima. Curioso que o que mais poderia dar errado (os comentários dos homens sobre as mulheres de 40) funciona muito bem.

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