Monthly Archives: agosto 2004

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU VI EM CASA

A DAMA DE SHANGAI (The Lady from Shangai, 1947, EUA, direção de Orson Welles) – há alguns hiatos na montagem que o harmonizam com o conjunto dos filmes noir. Rita Hayworth está luminosa no papel, mas quem dá um banho é Everett Sloane, que traz um personagem indefinível. Welles, cercado dos colaboradores habituais, mantém sua assinatura fresca. E a cena mais famosa ? a da sala de espelhos – é, com o perdão da obviedade, de uma competência assombrosa, típica de gente que deixou o nome escrito na história da arte.

GRANDE HOTEL (Grand Hotel, 1932, EUA, direção de Edmound Goulding) – bem melhor do que o esperado, com edição bem eficiente, bom desenvolvimento dos personagens (e boa direção de atores), e uma fotografia calculada, apesar de desperdiçar as muitas possibilidades do cenário por quase não explorar a profundidade. O destaque do elenco é Joan Crawford, que dá um banho na caricatura sem expressão de Greta Garbo, que diz aqui uma das frases mais famosas do século vinte: “I want to be alone”.

JALLA, JALLA (Jalla, Jalla!, 2001, Suécia, direção de Josef Fares) – uma bobagem com raríssimos momentos realmente relevantes, que mais uma vez explora o tema recorrente e desgastado no cinema atual de casamentos arranjados.

MEDÉIA (Medea, 1967, Itália, direção de Píer Paolo Pasolini) – Pasolini e seus atores sem talento. O esplendor visual da fotografia e dos figurinos desta adaptação da tragédia de Eurípedes se perde no limitado poder de interpretação da diva Maria Callas e de seus coadjuvantes. No entanto, o que mais incomoda é que o filme sofre com os problemas sérios de roteiro, com buracos grotescos e repetições assustadoras (a seqüencia da vingança de Medéia se repete inexplicavelmente com desfechos e diálogos diferentes. Isso era proposital? Eu achei lastimável).

A PROMESSA (The Pledge, 2003, EUA, direção de Sean Penn) – trabalho mais que correto de Sean Penn atrás das câmeras (o episódio de 11 de Setembro continua sendo sua melhor direção), com um Jack Nicholson que, cada vez mais se mostra pronto para assumir a velhice. A multidão de bons atores se perde um pouco em pequenos papéis, mas há momentos memoráveis como a visita à psicóloga interpretada por Helen Mirren. O maior trunfo do filme é justamente desviar o foco inicial para um desfecho inesperado e trágico.

UMBERTO D. (Umberto D., 1951, Itália, direção de Vittorio De Sica) – o velhinho protagonista poderia ser melhor. Sua frágil interpretação, num filme que conta a história de seu personagem, enfraquece o monumental poder de narração de Vittorio De Sica. Ícone dos filmes sobre a velhice, perde feio para Morangos Silvestres (Ingmar Bergman, 57) e o recente As Confissões de Schmidt (Alexander Payne, 02). Ainda assim, De Sica, com a habilidade usual, passeia por uma Roma sem esperanças, menos bonita, mais real.

ZELIG (Zelig, 1983, EUA, direção de Woody Allen) – uma revisão revela que o pseudo-documentário de Woody Allen é muito mais poderoso do que se insinua. O diretor constrói um padrão de reconstrução da realidade, que viria a ser usado novamente com o aval do Oscar em Forrest Gump (Robert Zemeckis, 94), com exímia desenvoltura na concepção de fotografia e edição. O filme tem um texto inteligente e ainda traz as valiosas intercessões de intelectuais do porte de Susan Sontag.

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Microtextos

A Dama de Shangai EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Lady from Shangai, 1947, EUA, direção de Orson Welles]Há alguns hiatos na montagem que o harmonizam com o conjunto dos filmes noir. Rita Hayworth está luminosa no papel, mas quem dá um banho é Everett Sloane, que traz um personagem indefinível. Welles, cercado dos colaboradores habituais, mantém sua assinatura fresca. E a cena mais famosa ? a da sala de espelhos – é, com o perdão da obviedade, de uma competência assombrosa, típica de gente que deixou o nome escrito na história da arte.

Grande Hotel EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Grand Hotel, 1932, EUA, direção de Edmound Goulding]

Bem melhor do que o esperado, com edição bem eficiente, bom desenvolvimento dos personagens (e boa direção de atores), e uma fotografia calculada, apesar de desperdiçar as muitas possibilidades do cenário por quase não explorar a profundidade. O destaque do elenco é Joan Crawford, que dá um banho na caricatura sem expressão de Greta Garbo, que diz aqui uma das frases mais famosas do século vinte: “I want to be alone”.

Jalla, Jalla EstrelinhaEstrelinha
[Jalla, Jalla!, 2001, Suécia, direção de Josef Fares]

Uma bobagem com raríssimos momentos realmente relevantes, que mais uma vez explora o tema recorrente e desgastado no cinema atual de casamentos arranjados.

Medéia EstrelinhaEstrelinha
[Medea, 1967, Itália, direção de Pier Paolo Pasolini]

Pasolini e seus atores sem talento. O esplendor visual da fotografia e dos figurinos desta adaptação da tragédia de Eurípedes se perde no limitado poder de interpretação da diva Maria Callas e de seus coadjuvantes. No entanto, o que mais incomoda é que o filme sofre com os problemas sérios de roteiro, com buracos grotescos e repetições assustadoras (a seqüencia da vingança de Medéia se repete inexplicavelmente com desfechos e diálogos diferentes. Isso era proposital? Eu achei lastimável).

A Promessa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Pledge, 2003, EUA, direção de Sean Penn]

Trabalho mais que correto de Sean Penn atrás das câmeras (o episódio de 11 de Setembro continua sendo sua melhor direção), com um Jack Nicholson que, cada vez mais se mostra pronto para assumir a velhice. A multidão de bons atores se perde um pouco em pequenos papéis, mas há momentos memoráveis como a visita à psicóloga interpretada por Helen Mirren. O maior trunfo do filme é justamente desviar o foco inicial para um desfecho inesperado e trágico.

Umberto D. EstrelinhaEstrelinha½
[Umberto D., 1951, Itália, direção de Vittorio De Sica]

O velhinho protagonista poderia ser melhor. Sua frágil interpretação, num filme que conta a história de seu personagem, enfraquece o monumental poder de narração de Vittorio De Sica. Ícone dos filmes sobre a velhice, perde feio para Morangos Silvestres (Ingmar Bergman, 57) e o recente As Confissões de Schmidt (Alexander Payne, 02). Ainda assim, De Sica, com a habilidade usual, passeia por uma Roma sem esperanças, menos bonita, mais real.

Zelig EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Zelig, 1983, EUA, direção de Woody Allen]

Uma revisão revela que o pseudo-documentário de Woody Allen é muito mais poderoso do que se insinua. O diretor constrói um padrão de reconstrução da realidade, que viria a ser usado novamente com o aval do Oscar em Forrest Gump (Robert Zemeckis, 94), com exímia desenvoltura na concepção de fotografia e edição. O filme tem um texto inteligente e ainda traz as valiosas intercessões de intelectuais do porte de Susan Sontag.

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PEQUENO GRANDE HOMEM

Diretor argentino transforma folhetim clássico em filme delicioso

Valentin, ninguém queira se enganar, é uma novela mexicana. No caso, argentina. O filme do diretor Alejandro Agresti consome todos os clichês caros ao típico folhetim sul-americano: uma criança adorável como protagonista, uma velha ranzinza, mas de alma boa como contraponto, e a história de uma pequena tragédia pessoal como roteiro a seguir. Valentin, o homem, é um menino vesgo, escondido atrás de enormes óculos com muitos e muitos graus, abandonado pela mãe e criado pela avó por vontade do pai, que vive trocando de namorada, mas nunca encontra uma que agrade ao filho.

O que transforma o longa de Agresti no belíssimo filme que se vê é o cuidado com o desenvolvimento da história. Enquanto apresenta o cotidiano do seu pequeno protagonista apaixonado por música pop argentina, Agresti impressiona na capacidade de saltar do humor ingênuo e inteligente que não raro faz a platéia explodir para seqüências dramáticas extremamente bem resolvidas, como a do telefonema que anuncia uma partida. O diretor insinua solucionar todas questões abertas na trama e caminhar para um desfecho óbvio e redondinho, mas mal faz o espectador acreditar que caiu numa armadilha, encerra sua pequena história deixando a imaginação trabalhar.

VALENTÍN
Valentín, Argentina, 2002.
Direção e Roteiro: Alejandro Agresti.
Elenco: Rodrigo Noya, Julieta Cardinali, Carmen Maura, Jean Pierre Noher, Mex Urtizberea, Alejandro Agresti, Carlos Roffé, Lorenzo Quinteros, Marina Glezer, Stéfano Di Gregorio, Fabián Vena.
Fotografia: Jose Luis Cajaraville. Montagem: Alejandro Brodersohn. Direção de Arte: Floris Vos. Figurinos: Marisa Urruti. Música: Luis Salinas e Paul M. van Bruggen. Produção: Julio Fernández, Thierry Forte, Laurens Geels, Massimo Vigliar e Pablo Wisznia. Site Oficial: www.uolsinectis.com.ar/buenavista/valentin/indexf.htm.

nas picapes: El Justiciero, Mutantes.

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BONITINHO, MAS ORDINÁRIO

Mais uma animação desanimada da Disney coloca em risco o futuro do desenho tradicional

É bem melancólico ter que anunciar que a falta de criatividade e, talvez o mais grave, de ousadia dos roteiristas podem decretar o fim da animação tradicional. Nem que a Vaca Tussa é o exemplo perfeito de que os estúdios de cinema cada vez dão menos atenção ao gênero para, provavelmente, poder se dedicar mais aos filmes criados em computador. A fórmula é a mesma de sempre: o bem vence o mal, sendo o bem encarnado numa vaquinha campeã de torneios e metida a besta e o mal, um ladrão de gado. Está tudo lá: os coadjuvantes fofinhos e engraçadinhos, o trajeto de dificuldades para percorrer e a falta de imaginação para se reescrever os estereótipos. Procurando Nemo, uma animação digital, por exemplo, também tem coadjuvantes fofinhos e engraçadinhos. Também lança um trajeto de dificuldades para seus protagonistas percorrerem, mas, além da força da magnífica criação visual, dribla os clichês com um texto inteligente e uma lição de moral muito menos óbvia que seus antepassados. Em Nem a Vaca Tussa, simpatiquinho como o quê, a lição é outra: a união deve fazer a forca do bom e velho filme de animação.

NEM QUE A VACA TUSSA
Home on the Range, Estados Unidos, 2004.
Direção e Roteiro: Will Finn e John Sanford.
Elenco: G.W. Bailey, Roseanne, Steve Buscemi, Judi Dench, Joe Flaherty, Cuba Gooding Jr., Estelle Harris, Randy Quaid, Jennifer Tilly, Sarah Jessica Parker, David Burnham,Charles Dennis, Janet Du Bois,Gregory Jbara.
Direção de Arte: David Cutler. Música: Alan Menken. Produção: Alice Dewey. Site Oficial: disney.go.com/disneyvideos/animatedfilms/homeontherange/main.html.

nas picapes: That’ll Do, Peter Gabriel.

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EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Filme pós-adolescente recupera o velho tema de poder mudar o passado

Efeito Borboleta está bem acima da média dos filmes com que se parece. Apesar de habitar o terreno muitas vezes pantanoso da imaginação fértil, faz isso com um certo tratamento nostálgico que evoca filmes como Conta Comigo (Rob Reiner, 86) e The Dangerous Lives of Altar Boys (Peter Care, 03), ao equilibrar humor e tragédia. Ashton Kutcher surpreendentemente não faz feio na pele do jovem cujos hiatos de memória da infância retornam como portais para o passado já na vida adulta. O tratamento dado à trama evita a potencialidade inerente de flerte com o ridículo e abre possibilidades muito curiosas. O filme, mesmo que sem centrar foco nisso, evoca a velha discussão do “o que aconteceria se…”, que já foi até título de revista da Marvel Comics. A dupla de diretores nem sempre consegue não ser refém do labirinto que criou de idas e voltas no tempo, mas o resultado é bem mais que interessante.

EFEITO BORBOLETA
The Butterfly Effect, Estados Unidos, 2004.
Direção e Roteiro: Eric Bress e J. Mackye Gruber.
Elenco: Ashton Kutcher, Melora Walters, Amy Smart, Elden Henson, William Lee Scott, John Patrick Amedori, Irene Gorovaia, Kevin Schmidt, Jesse James, Logan Lerman, Sarah Widdows, Jake Kaese, Cameron Bright, Eric Stoltz, Callum Keith Rennie.
Fotografia: Matthew F. Leonetti. Montagem: Peter Amundson. Direção de Arte: Douglas Higgins. Música: Michael Suby. Figurinos: Carla Hetland. Produção: Chris Bender, A.J. Dix
e Anthony Rhulen. Site Oficial: www.butterflyeffectmovie.com.

nas picapes: Ontem Eu Sambei, Wado.

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Microtextos

Planeta Vermelho EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Red Planet, Antony Hoffmann, 2000]

Planeta Vermelho é uma bela surpresa. Baseado em idéias que parecem cientificamente bem palpáveis (mesmo que não sejam), abre mão de vários lugares comuns sobre Marte e lança o foco nos integrantes de uma missão tripulada ao planeta. Escorado num bom conflito entre os personagens, fica bem além da expectativa.

Reino de Fogo EstrelinhaEstrelinha
[Reign of Fire, Rob Bowman, 2002]

Reino de Fogo, tão elogiado aos quatro ventos, não é tão bom quanto se pretende, mas não deixa de ser uma bela diversão. Seu maior mérito é mergulhar sem concessões na fantasia de um mundo com dragões, demonstração de coragem. Seu maior defeito é, muita vezes, parecer uma versão reloaded de Mad Max (George Miller, 79). O saldo é animador, mas a dupla de protagonistas poderia ser mais eficiente.

Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra EstrelinhaEstrelinha

[Pirates of the Caribbean: The Curse of the Black Pearl, Gore Verbinski, 2003]

Johnny Depp tem toda uma aura em torno de si mesmo, mas é um ator visivelmente limitado a uma série de trejeitos recorrentes. Sua interpretação afetada em Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra não guarda tantas diferenças dos personagens que viveu em Ed Wood ou A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (ambos Tim Burton, 94 e 99). O filme em si é divertido, mas vira pó assim que os créditos sobem. E Orlando Bloom comprova que, sem uma direção boa, ele não funciona.

Homens de Preto II EstrelinhaEstrelinha
[Men in Black II, Barry Sonnenfeld, 2002]

Homens de Preto II, este sim, é bem engraçado. Apesar de reprisar piadas, Barry Sonnenfeld consegue bons momentos. A vilã de Lara Flynn Boyle parece saída daqueles filmes de ficção-científica trash dos anos 70. Uma delícia à parte.

Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, José Mojica Marins, 1967]

E Zé do Caixão é filosofia pura. Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, o segundo filme do personagem, viaja sobre questões tão amplas quanto culpa e pureza. José Mojica Marins criou um personagem que vai muito além da imagem demoníaca: é um idealista, um sonhador, um visionário. O filme sofre, obviamente, da falta de profissionalismo da maioria dos atores e da rendição redentora cristã, mas suas qualidade superam e muito seus defeitos.

Ringu EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Ringu, Hideo Nakata, 1998]

Agora, assistir a Ringu deixa claro que seu refilmagem nos Estados Unidos, apesar de eficaz, é cópia simples e pura. Há cenas em que os planos parecem os mesmos do que os criados para o filme japonês. Este original não assusta mais nem menos que o remake, o que pode ser considerado um problema, mas não deixa de ser um bom filme.

Scanners – Sua Mente Pode Destruir EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Scanners, David Cronenberg, 1981]

É impressionante perceber que um filme feito há mais de vinte anos, como Scanners, de David Cronenberg, resiste ao tempo apesar das restrições técnicas que claramente teve. Hoje, com tecnologia e dinheiro a seu favor, o cineasta canadense poderia fazer misérias com a proposta que o filme lança. Misérias no bom e no mau sentido já que muito do charme da história dos telepatas e telecinéticos imaginados por Cronenberg reside nas imperfeições que o filme permite. Algumas até de roteiro, que, por vezes, parece escrito às pressas. Nada que macule a atmosfera de terror absoluto criada pelo diretor.

Regras da Atração EstrelinhaEstrelinha
[The Rules of Attraction, Roger Avary, 2003]

Por fim, Regras da Atração sofre do mal do cinema de edição rápida, base de sua narrativa para investigar retalhos das vidas dos jovens atuais. Roger Avary utiliza várias idéias roubadas de filmes como Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 94), que co-escreveu, e Trainspotting (Danny Boyle, 96), mostrar o caos de propósitos que é a cabeça de um universitário norte-americano. O filme é retórico, não se resolve e artificializa os personagens, que para o diretor e para o cara que escreveu o livro em que ele se baseou (sim, há um livro) estão fadados a um destino reservado para cada estereótipo.

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O MONSTRO, O SAGRADO E O CINEMA

Num pacote só, Tim Burton homenageia Bela Lugosi e o “pior cineasta do mundo”

Bela Lugosi era um ator muito ruim; um poço de caricatura. Mas existia algo de mágico no húngaro expatriado. Algo de encantador e de horripilantemente macabro que fez sua interpretação em Drácula (e nas peças teatrais na qual o filme se baseou) deixar platéias em pânico e mulheres desmaiadas. Lugosi tinha punch. Sua mão estendida hipnotizava e provocava calafrios. Drácula, de Tod Browning, somente deu certo justamente por essa mistura entre a canastrice do ator e seu carisma incontestável. O filme sofre do mal dos diretores de talento mediano nos primeiros anos do cinema falado: a falta de habilidade com a palavra. Por isso, várias seqüências do longa não têm falas.

O talento de Browning não era exatamente farto. O culpado pela competência visual do filme era de outra pessoa: a história, que respeita a estrutura do romance de Bram Stoker, é valorizada pelo grande trabalho de câmera de Karl Freund, um dos maiores diretores de fotografia da época. Com movimentos de câmera, uso de trilhos e uma preocupação grande com o uso da luz, ele conseguiu dar a dimensão do pavor provocado pelo mundo de escuridão do personagem. Neste ambiente perfeito, Lugosi elaborou o personagem que fez por anos nos palcos da Broadway, o conde vampiro sedutor que o transformou em astro. Mas a decadência chegou aos poucos para o ator, que acabou a carreira fazendo filmes menores, como os de um jovem e empolgado cineasta.

Ao contrário de Lugosi, que conheceu os holofotes, triste foi a sina a de Edward D. Wood Jr. Ficou famoso porque era ruim, muito ruim, no que escolheu para fazer, no escolheu para ser. Seus filmes, com grande carga dramática embutida, transformavam-se em involuntárias comédias por causa dos absurdos que o cineasta permitia em seus roteiros e na sua forma de dirigir. Tudo reforçado pela absoluta falta de recursos. Wood, redescoberto depois de elegerem Plano 9 do Espaço Sideral como o pior filme da história, ganhou status cult porque passou a ser classificado com um cineasta de intenções, um homem apaixonado pelo seu trabalho, apesar de desprovido do talento para executá-lo.

Seu filme mais famoso é pior do que se possa imaginar. Além de ser um ineficaz resultado da simbiose entre filme de vampiros e ficção-científica, é costurado com retalhos de tudo o que Wood conseguia reunir: de restos de filmes a tomadas particulares de astros de outrora feitas para outros fins. O resultado supera os limites do tosco e consegue apenas provocar os efeitos contrários aos pretendidos pelo diretor. A redescoberta de suas obras rendeu fãs e a recuperação de boa parte de sua filmografia, da qual Plano 9 do Espaço Sideral é a obra máxima. Um filme absolutamente ruim.

A homenagem que Tim Burton fez à paixão de Wood deu muito mais certo que os filmes do homenageado. O diretor mais fantástico da Hollywood atual fez seu filme mais pé-no-chão. Ed Wood é um dos mais belos filmes feito sobre o cinema, apesar da particularmente caricata interpretação de Johnny Depp (o que não significa que seja uma má interpretação), Burton trata a história com tanto carinho que é impossível não se identificar com a tentativa ingênua do personagem principal em superar as próprias limitações e tentar completar um filme. Sua obstinação o fez completar vários, entre trabalhos feitos para televisão e investidas longas e curtas no cinema.

Mas a dedicação e a competência de todos os envolvidos no filme de Burton são eclipsadas pelo talento de Martin Landau. O ator consegue dar a densidade necessária à interpretação de Bela Lugosi de tal forma, que rouba todo o filme. Em momentos antológicos, Landau chega perto de arrancar lágrimas da platéia pelo tratamento impecável que dá ao personagem. Na cena em que se joga na água para fazer um polvo mecânico quebrado se mover ou quando vemos as marcas do vício em seu braço, Landau conquista por humanizar a figura de Lugosi sem recorrer a fórmulas fáceis que fizeram a fama de seu homenageado.

DRÁCULA
Dracula, Estados Unidos, 1931.

Direção: Tod Browning.

Roteiro: Garrett Fort, baseado na peça de John L. Balderston e Hamilton Deane, a partir do romance de Bram Stoker. Com diálogos adicionais de Louis Bromfield, Tod Browning Max Cohen, Dudley Murphy, e Louis Stevens.

Elenco: Bela Lugosi, Helen Chandler, David Manners, Dwight Frye, Edward Van Sloan, Herbert Bunston, Frances Dade, Joan Standing, Charles K. Gerrard, Tod Browning (voz), Michael Visaroff.

Fotografia: Karl Freund. Montagem: Milton Carruth. Direção de Arte: John Hoffman e Herman Rosse. Música: Philip Glass (composta para a restauração do filme em 1999). Figurinos: Ed Ware e Vera West. Produção: Tod Browning e Carl Laemmle Jr..

PLANO 9 DO ESPAÇO SIDERAL
Plan 9 from Outer Space, Estados Unidos, 1959.

Direção, Montagem, Produção e Roteiro: Edward D. Wood Jr.

Elenco: Gregory Walcott, Mona McKinnon, Duke Moore, Tom Keene, Carl Anthony, Paul Marco, Tor Johnson, Dudley Manlove, Joanna Lee, John Breckinridge, Lyle Talbot, Conrad Brooks, Vampira, Bela Lugosi, Criswell e Edward D. Wood Jr.

Fotografia: William C. Thompson. Música: Edward D. Wood Jr., Trevor Duncan, Van Phillips, Franz Mahl, Wolf Droyson. Figurinos: Dick Chaney. Efeitos Visuais: Tommy Kemp.

ED WOOD
Ed Wood, Estados Unidos, 1994.

Direção: Tim Burton.

Roteiro: Scott Alexandere Larry Karaszewski, baseados no livro Nightmare of Ecstasy, de Rudolph Grey.

Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Sarah Jessica Parker, Patricia Arquette, Bill Murray, Jeffrey Jones, Lisa Marie, G.D. Spradlin, Vincent D’Onofrio, Mike Starr, Max Casella, Brent Hinkley, George ‘The Animal’ Steele, Juliet Landau.

Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Chris Lebenzon. Direção de Arte: Tom Duffield. Música: Howard Shore. Figurinos: Colleen Atwood. Produção: Tim Burton e Denise Di Novi.

nas picapes: Bela Lugosi is Dead, Bauhaus.

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O MODERNINHO E O ENGAJADO

Ou: quando dois bons cineastas pisam na bola

Era uma vez dois diretores de cinema. Um era norte-americano; o outro, inglês. Um ganhou Cannes com seu primeiro filme e anos depois levou o Oscar; o outro foi da Escócia proletária à Inglaterra vitoriana atuais para contar grandes histórias. Mas chegou o dia em que o prestígio do passado não foi suficiente para bancar suas apostas mais particulares: em 2002, Steven Soderbergh dirigiu Full Frontal, coletânea de pequenas histórias de pessoas que se cruzam nos Estados Unidos. Em 2003, Stephen Frears lançou Coisas Belas e Sujas, coletânea de pequenas histórias de pessoas que se cruzam numa Londres periférica. Soderbergh fez um filme pequeno, mais um exercício de linguagem com a ajuda de astros amigos. Frears fez um filme de denúncia, relatando as mazelas dos imigrantes numa cidade estranha.

O filme de Soderbergh é pura elocubração intectualóide. Pessoas muitos inteligentes, levemente (ou não) neurotizadas pelo dia-a-dia do mundo atual, promovem encontros estranhos onde há muita verborragia e pouca criação. Julia Roberts e Brad Pitt são o chamativo para uma história independente, quase um tratado do diretor para mostrar que não é escravo em tempo integral do stablishment. Soderbergh só esqueceu de deixar seu longa menos exaustivo. As brincadeirinhas narrativas funcionam até a segunda página. Não evoluem e nem significam muita coisa. Sofrem de um mal estar terrivelmente em moda nos dias de hoje, o do nada a dizer. O diretor até tenta impor esta condição a alguns personagens, mas há muito cálculo para algo que parece mais ser um brinquedo.

O filme de Frears não vai muito além. Apesar de um esforçado protagonista, o longa soa sindicalista depois da primeira meia hora, quando se descobre que a intenção do diretor é mostrar a situação dos estrangeiros na Londres atual. Todos os personagens são imigrantes: há turcos, africanos, coreanos, libaneses, russos. Faltou um brasileiro para melhorar o caldo. Até os policiais da imigração são não-ingleses. Todos sofrem com o tratamento dispensado pelas autoridades locais e com sua invisibilidade perante a população. Frears covardemente esconde suas denúncias como drama romântico e filme policial, parece não querer deixar que o espectador perceba sua tática. Mas a capacidade inventiva do roteirista atinge níveis tão estratosféricos que é impossível não perceber aquele negócio… como é que chama mesmo? Ah, a tal da “ferida aberta”…

FULL FRONTAL
Full Frontal, Estados Unidos, 2002.

Direção: Steven Soderbergh.

Roteiro: Coleman Hough.

Elenco: Julia Roberts, Blair Underwood, David Duchovny, Nicky Katt, Catherine Keener,

Brian Krow, Mary McCormack, David Hyde Pierce,

Enrico Colantoni, Erika Alexander, Tracy Vilar, David Fincher, Jerry Weintraub, Cynthia Gibb, Coleman Hough, Terence Stamp, Brad Pitt, Camille Wainwright, Shirley Jones, Steven Soderbergh.

Fotografia: Peter Andrews (Steven Soderbergh). Edição: Sarah Flack. Música: Jacques Davidovici. Produção: Gregory Jacobs e Scott Kramer. Site Oficial: video.movies.go.com/products/2865003.html.

COISAS BELAS E SUJAS
Dirty Pretty Things, Grã-Bretanha, 2003.

Direção: Stephen Frears

Roteiro: Steven Knight.

Elenco: Chiwetel Ejiofor, Audrey Tatou, Sergi López, Sophie Okonedo, Benedict Wong,

Zlatko Buric, Jeffery Kissoon, Kenan Hudaverdi,

Damon Younger, Paul Bhattacharjee, Darrell D’Silva,

Sotigui Kouyaté, Norma Dumezweni, Adrian Scarborough.

Fotografia: Chris Menges. Edição: Mick Audsley. Direção de Arte: Hugo Luczyc-Wyhowski. Figurinos: Odile Dicks-Mireaux. Música: Nathan Larson (e música adicional de Christian Henson). Canção: David Byrne (“Glass, Concrete and Stone”). Produção: Robert Jones e Tracey Seaward. Site Oficial: www.go-underground.com.

nas picapes: Iko Iko, Cyndi Lauper.

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UM FILME DE FAMÍLIA

Duas atrizes transformam texto retórico num encontro sem concessões

Ingmar Bergman sempre foi um cineasta da palavra. A força motora de seus filmes está na combinação texto + a interpretação desse texto. Sonata de Outono pode ser considerado, então, uma obra clássica do cinema do diretor sueco. É um filme estruturado no diálogo de duas mulheres, mãe e filha, que se encontram depois de uma ausência de sete anos: um encontro que reabre as crateras da relação entre as duas. Apesar da fotografia do colaborador fiel, Sven Nykvist, não perder a competência habitual, não existe privilégio para a imagem que, depois de dividir o papel de protagonista com o roteiro em filmes anteriores da dupla, aqui é apenas coadjuvante, embalagem, sem valor sígnico.

Com o texto sob os holofotes, Bergman se muniu de duas grandes atrizes: a então companheira Liv Ullmann e uma lenda, Ingrid Bergman, que, apesar de conterrânea, não guarda parentesco com o cineasta. O texto acha então o tom certo, frio e cruel, na excelência das intérpretes. A evolução do filme, em virtude da competência da dupla, é gritante: começa como exercício retórico e se transforma enfim numa obra de referência, onde a palavra de Bergman se despe de um cunho estritamente intelectual-psicológico para virar um belo e difícil acerto de contas entre mãe e filha.

SONATA DE OUTONO
Höstsonaten, França/Alemanha Ocidental/Suécia, 1978.

Direção e Roteiro: Ingmar Bergman.

Elenco: Liv Ullmann, Ingrid Bergman, Lena Nyman, Halvar Björk, Marianne Aminoff, Arne Bang-Hansen, Gunnar Björnstrand, Erland Josephson, Georg Løkkeberg, Mimi Pollak, Linn Ullmann.

Fotografia: Sven Nykvist. Edição: Sylvia Ingmarsdotter. Direção de Arte: Anna Asp. Figurinos: Inger Pehrsson. Música: peças de Johann Sebastian Bach, Frédéric Chopin, Georg Friedrich Händel e Robert Schumann. Produção: Katinka Faragó, Lew Grade e Martin Starger.

nas picapes: Blue Valentine, Tom Waits.

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Hellboy

Desde que Blade (Stephen Norrington, 98) reinaugurou as bem-sucedidas adaptações para o cinema dos heróis de quadrinhos, os olhos dos produtores se voltaram com gula para os grandes heróis: vieram os X-Men, o Homem-Aranha, o Hulk e, em breve, ressurge o Batman. As estrelas das HQs cobraram os holofotes, deixando personagens menos conhecidos no escuro. Guillermo Del Toro, o mexicano que já havia comandado a segunda aventura de Blade no cinema, resolveu atacar na área dos quadrinhos independentes. Foi aí que um certo demônio vermelho sessentão apareceu.

Nas mãos de Del Toro, a transcrição de Hellboy, personagem criado por Mike Mignola, para o cinema se transformou numa obra impressionante, que guarda suas origens à medida que tem o mérito de não se prender a elas quando muda de linguagem. Mais que qualquer coisa, Hellboy é um filme bonito. Uma história de confinamento e solidão. E, sem mergulhar nos lugares comuns do tema, uma obra sobre diferenças e afinidades. O diretor recria os personagens com cuidado e muita atenção na concepção de cada um: do doutor Abraham Sapien ao agente Myers.

A destreza visual é um grande ponto a favor, mas o dono do filme é mesmo Hellboy. O demônio, que chegou a Terra numa operação nazista para servir de portal para a vinda de seres malignos e se transformou num detetive a serviço do governo norte-americano contra ameaças paranormais, é um achado. Um misto de justiceiro solitário – violento e cruel – e herói capaz de pequenas delicadezas, o personagem ganhou um intérprete improvavelmente perfeito: Ron Perlman já está na minha lista de melhores atores do ano.

HELLBOY
Hellboy, EUA, 2004.

Direção e Roteiro: Guillermo del Toro, baseado na história escrita com Peter Briggs a partir dos personagens criados por Mike Mignola.

Elenco: Ron Perlman, Selma Blair, John Hurt, Rupert Evans, Karel Roden, Jeffrey Tambor, Doug Jones, Brian Steele, Ladislav Beran, Bridget Hodson, Corey Johnson, Mike Mignola e David Hyde Pierce (voz).

Fotografia: Guillermo Navarro. Montagem: Peter Amundson. Direção de Arte: Stephen Scott. Música: Marco Beltrami. Figurinos: Wendy Partridge. Produção: Lawrence Gordon, Lloyd Levin e Mike Richardson. Site Oficial: www.hellboymovie.com.

nas picapes: Dry the Rain, The Beta Band.

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