Monthly Archives: maio 2004

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ

O MUNDO… PERDIDO.

Uma onda gigantesca acaba de levar a minha criatividade para um subtítulo

Existe uma lógica pouco lógica nos filmes-catástrofe. Eles passeiam entre o objetivo de envolver o espectador fazendo-o acreditar que o drama vivido pelos personagens da tela pode também ser o seu e a criação pura e simples de seqüências de ação que proporcionem o deleite com a fantasia. Há mais mistério entre a tragédia e a aventura do que possam supor os criadores destes produtos. O filme-catástrofe fascina, embora muitas vezes seus roteiristas pequem pelo tratamento rarefeito dado aos textos, o que, em quase todas as últimas investidas no gênero, tem resultado em filmes catastróficos.

O Dia Depois de Amanhã, a mais recente (mas não derradeira) tentativa de encher cofres às custas de desastres, coloca o holandês despatriado Roland Emmerich mais uma vez no piloto de uma aventura de proporções planetárias – a última vez foi com o esquecível e, se a gente pensar bem, esquecido Independence Day (96). O roteiro, escrito pelo próprio diretor, mergulha e acelera nas teorias sobre o aquecimento global e o derretimento das calotas polares, o que provoca, você sabe, uma onda de destruição pelo planeta. Justificativa perfeita para os milhões de dólares gastos nos efeitos visuais do filme.

Catástrofe escolhida, pouco a acrescentar. Emmerich saca do bolso a cartilha dos longas do gênero e escolhe seu herói, cercando-o dos coadjuvantes padrão, que preenchem todas as formas (fôrmas e não fórmas) de personagens deste tipo de filme. A primeira hora do filme é reservada para a exibição da tecnologia: ondas gigantes e tornados furiosos deliciosos. Na segunda hora, o que conta é a reprodução da fórmula de missão do protagonista. Tudo muito corretinho, com piadinhas, sacrifícios e mais algumas boas cenas de destruição, com todas aquelas pequenas atrocidades à lógica que a gente perdoa.

Não. Eu não vou discutir a incoerência ética da filmografia o diretor, muito menos compará-lo a ativistas políticos em voga no cinema atual. Também não parece relevante investigar a moda ou a saída politicamente correta de alfinetar os Estados Unidos. Por fim, não vejo problema de ter histórias padrões e personagens clichês se eles cumprem seu papel. Acho bobagem questionar a verossimilhança de qualquer coisa que seja num filme deste tipo. Ou cobrar diálogos mais significativos. Por mais que tente parecer (e ele tenta) um filme engajado, com preocupações sócio-ambientais, O Dia Depois de Amanhã segue com muito prazer, sua sina para o entretenimento. Pena que não morra tanta gente assim…

O DIA DEPOIS DE AMANHÃ
The Day After Tomorrow, EUA, 2004.

Direção: Roland Emmerich.

Roteiro: Roland Emmerich e Jeffrey Nachmanoff.

Elenco: Dennis Quaid, Jake Gyllenhaal, Emmy Rossum, Dash Mihok, Jay O. Sanders, Sela Ward, Austin Nichols, Arjay Smith, Tamlyn Tomita, Sasha Roiz, Ian Holm, Robin Wilcock, Jason Blicker, Kenneth Moskow, Tim Hamaguchi, Glenn Plummer, Adrian Lester, Richard McMillan, Nestor Serrano, Perry King, Mimi Kuzyk.

Fotografia: Ueli Steiger (e Anna Foerster). Montagem: David Brenner. Direção de Arte: Barry Chusid. Música: Harald Kloser (com música adicional de Thomas Wanker.. Figurinos: Renée April. Produção: Roland Emmerich e Mark Gordon.

nas picapes: It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine), REM.

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TRÓIA

AS INVASÕES BÁRBARAS

O poema de Homero perde a benção divina e vira filme de estrelas

Numa luta de gregos e troianos

Por Helena, a mulher de Menelau

Conta a história que um cavalo de pau

Terminava uma guerra de dez anos

Menelau, o maior dos espartanos

Venceu Páris, o grande sedutor

Humilhando a família de Heitor

Em defesa da honra caprichosa

Mulher nova bonita e carinhosa

Faz o homem gemer sem sentir dor

(Otacílio e Zé Ramalho)

Tirando o fato de que seus protagonistas resolveram tirar férias da arte de interpretar justamente durante a gravação das cenas do filme, Tróia até que tem seus bons momentos. A luta que abre o filme é empolgante, com um salto fatal provavelmente ajudado pelos computadores. Cortesia de Wolfgang Petersen, que já foi muito melhor antes de se entregar à máquina hollywoodiana (O Barco, 82, é um filme excepcional). Nesta megaprodução de batalhas sanguinárias (poderiam ser bem mais pelo que eu li sobre a época), o mais legal mesmo é a ação.

Petersen tenta dar credibilidade ao filme com seus coadjuvantes de luxo. Peter O’Toole, bem desgastado pelo tempo, consegue a melhor cena do filme, quando o rei Príamo vai reclamar pelo corpo do filho morto. Cena que ficaria bem melhor caso Brad Pitt estivesse bem dirigido e disposto a interpretar. Dos protagonistas, apenas Eric Bana está bem. E só. Orlando Bloom é bem fraquinho, mas nesta área perde feio para Diane Kruger. A mulher mais linda do mundo é linda mesmo, mas não tem um sopro de talento dramático. Julie Christie faz uma ponta boba e sem motivo. Brian Cox, no entanto, mesmo caricato com seu Agamenon, dá um banho nos colegas de elenco.

A Ilíada, que ajudou a criar os princípios da cultura grega, foi pro brejo no roteiro “humanizado” do filme, que reserva aos deuses papéis sem rosto na trama: eles só aparecem nas citações, algumas vezes até atéias, dos personagens. Como o poema épico de Homero é a única fonte possível (até hoje) para a história que se vê na tela, dizimar a interferência divina na Guerra de Tróia parece blasfêmia das mais graves. Se nem as divindades resistem à tesoura do mercado, o que dizer do romance entre Aquiles e Pátroclo ou mesmo a duração original da guerra (dez anos que viraram doze dias)? Mesmo assim, Tróia ainda é grande demais para um filme com pouco a dizer.

TRÓIA
Troy, EUA, 2004.

Direção Wolfgang Petersen.

Roteiro: David Benioff, inspirado no poema épico A Ilíada, de Homero.

Elenco: Brad Pitt, Eric Bana, Orlando Bloom, Brian Cox, Brendan Gleeson, Sean Bean, Peter O’Toole, Diane Kruger, Julie Christie, Rose Byrne, Saffron Burrows, Nigel Terry, Tyler Mane, Garrett Hedlund, Jacob Smith, John Shrapnel.

Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Direção de Arte: Nigel Phelps. Música: James Horner (e a canção Remember Me). Figurinos: Bob Ringwood. Produção: Wolfgang Petersen, Diana Rathbun e Colin Wilson.

nas picapes: Mulher Nova Bonita e Carinhosa Faz o Homem Gemer Sem Sentir Dor, Amelinha.

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RÁPIDAS ANOTAÇÕES SOBRE TRÊS FILMES SEM PONTOS CONVERGENTES

Ou sobre como é possível criar um subtítulo quando não há unidade nos temas do texto

Hayao Miyazaki é o maior animador do cinema oriental, responsável por filmes que se tornaram clássicos, como o recente A Viagem de Chihiro (02). Seu cinema mistura um elaboradíssimo trabalho de concepção visual com a fantasia épica que habita a mitologia japonesa. Há exatos vinte anos, quando a ecologia ainda não era moda e o planeta não sonhava em discutir seu assassinato, fez um trabalho engajadíssimo a serviço da preservação ambiental, sem perder as características de sua obra. Náusica do Vale dos Ventos mostra a saga da princesa que batiza o filme num mundo devastado pelos efeitos da depredação. Parece burocrático, mas Miyazaki tem uma capacidade única para estruturar uma aventura sobre premissa com que trabalha. Ainda longe da eficiência narrativa de seu último e mais famoso longa, o cineasta esboça aqui a semente de uma cinema feito para crianças das mais diversas idades.

Narc merece a fama que teve. É um belo filme do estreante Joe Carnahan, que trabalhou com a premissa mais velha do cinema policial – a da dupla de métodos diferentes – e obteve um resultado exemplar, surpreendente. Narc acerta ao apostar no menos óbvio, nas soluções imagéticas de fotografia e montagem, criadas para dar o diferencial na narrativa, e na escolha dos protagonistas. Ray Liotta, bem acima da média do que costuma apresentar, e um Jason Patric entregue a um personagem com um tom difícil de encontrar – o que ele faz com precisão. Mas o ponto central aqui é que o filme é muito bem escrito, dribla os clichês e consegue uma eficiência impressionante. A cena que abre o filme, com câmera em movimento (que já não é nenhuma novidade, eu sei), é particularmente impressionante, de uma força visual incomum no atual cinema do gênero. Talvez a solução para o filme policial seja reiventar os clichês.

Psicopata Americano não merece a fama que teve. Não encontra o equilíbrio entre o policial sério que insinua ser e a comédia macabra em que parece tentar querer se transformar. O universo rico de Wall Street é artificial, os personagens são (mal) calculados e tom de sua meia hora final termina sendo tosco. Nem a tão comentada interpretação de Christian Bale, deformado pelos músculos que ganhou, cumpre sua função. Bale oscila e vacila entre o sarcástico e o patético, provavelmente prejudicado pelo personagem mal desenhado que recebeu. Realmente difícil identificar um caminho a seguir. E sendo assim, como seu protagonista, o filme não chega muito a lugar nenhum. Nem quando quer invadir uma personalidade doentia. Nem quando quer rir de todas as discussões que lançou.

NÁUSICA DO VALE DOS VENTOS
Kaze no Tani no Naushika/Nausicaä of the Valley of the Winds, Japão, 1984.

Direção e Roteiro: Hayao Miyazaki.

Elenco: Sumi Shimamoto, Mahito Tsujimura, Hisako Kyôda, Gorô Naya, Ichirô Nagai, Kôhei Miyauchi, Jôji Yanami, Minoru Yada.

Fotografia: Hideshi Kyonen. Montagem: Naoki Kaneko, Tomoko Kida e Shôji Saka. Direção de Arte: Mitsuki Nakamura. Música: Joe Hisaishi. Produção: Isao Takahata.

NARC
Narc, EUA, 2002.

Direção e Roteiro: Joe Carnahan.

Elenco: Jason Patric, Ray Liotta, Krista Bridges, Alan Van Sprang, Karen Robinson, Dan Leis, Lloyd Adams, Lina Felice, Alan C. Peterson, Chi McBride, Booth Savage, Busta Rhymes.

Fotografia: Alex Nepomniaschy. Montagem: John Gilroy. Direção de Arte: Greg Beale e Taavo Soodor. Música: Cliff Martinez, com música adicional de Tobias Enhus e Dan Kolton. Figurinos: Gersha Phillips. Produção: Michelle Grace, Ray Liotta, Diane Nabatoff e Julius R. Nasso.

PSICOPATA AMERICANO
American Psycho, EUA/Canadá, 2000.

Direção: Mary Harron.

Roteiro: Mary Harron e Guinevere Turner, baseado no livro de Bret Easton Ellis.

Elenco: Christian Bale, Justin Theroux, Josh Lucas, Bill Sage, Chloë Sevigny, Reese Witherspoon, Samantha Mathis, Matt Ross, Jared Leto, Willem Dafoe, Cara Seymour, Guinevere Turner, Stephen Bogaert, Monika Meier.

Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Andrew Marcus. Direção de Arte: Gideon Ponte. Música: John Cale. Figurinos: Isis Mussenden. Produção: Christian Halsey Solomon, Chris Hanley e Edward R. Pressman.

nas picapes: L’Âge D’Or, Legião Urbana.

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EM NOME DE DEUS

O BOM É BOM, O MAU É MAU

Peter Mullan faz de seu filme-denúncia um arremedo involuntário de estereótipos

Peter Mullan aprendeu com seu diretor em Meu Nome é Joe (98), Ken Loach, que o cinema pode ser uma arma de denúncia. Em seu segundo longa-metragem atrás das câmeras, ele invade um dos conventos irlandeses onde eram depositadas as mocinhas consideradas mais avançadas pela sociedade paternalista da ilha de Sinéad O’Connor; adolescentes que pecavam algumas vezes apenas porque sorriam excessivamente para os garotos da época ou que tinham o azar de serem estupradas pelos primos. Os conventos eram lugares para se esconder a sujeira dos bastidores familiares. O tema é bastante atrativo, sobretudo pela lógica reacionária do pensamento de quem manda a própria filha para um lugar deste tipo: Em Nome de Deus acompanha como três destas garotas foram parar na sua prisão e abraça uma quarta personagem já dentro do convento.

Mas Mullan carrega nas cores do seu filme e exagera nos estereótipos. Das quatro protagonistas, apenas aquela que não consegue conter sua própria sensualidade ganha uma composição realmente abrangente. Pena que seja a mais fraquinha do elenco e não consiga sustentar a sutileza necessária para um papel do porte. As demais são ingênuas e boas ao extremo ou ainda demonstram desvios psicológicos evidentes, o que corroboraria para entender seu comportamento “mundano”. Não parecem personagens reais. Ou inteiramente reais. Mas é a composição das freiras o que mais é problemático no filme: as irmãs são pessoas tão impuras de coração que mais parecem vilãs de contos de fada. O texto destinado à madre superiora por pouco não torna todo o filme um ingênuo e risível espetáculo onde há pouco o que valorizar. A cena da urtiga ainda é o melhor do irregular trabalho de Peter Mullan como diretor.

EM NOME DE DEUS
The Magdalene Sisters, Grã-Bretanha/Irlanda, 2002.

Direção e Roteiro: Peter Mullan.

Elenco: Geraldine McEwan, Anne-Marie Duff, Nora-Jane Noone, Dorothy Duffy, Eileen Walsh, Mary Murray, Britta Smith, Frances Healy, Eithne McGuinness, Phyllis MacMahon, Rebecca Walsh, Eamonn Owens, Chris Simpson, Sean Colgan, Daniel Costello e Peter Mullan.

Fotografia: Nigel Willoughby. Montagem: Colin Monie. Direção de Arte: Mark Leese. Música: Craig Armstrong. Figurinos: Trisha Biggar Produção: Frances Higson.

nas picapes: Someone To Watch Over Me, Sinéad O’Connor.

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CINEMA CATÁSTROFE

CINEMA CATÁSTROFE

Van Helsing traz de volta às telas um gênero clássico do cinema: o filme ruim

Existe uma bela dezena de razões que fazem de um filme, um filme ruim. Uma delas, talvez a maior, é a qualidade do texto que vai parar na tela. O roteiro é a matéria-prima do cinema, mesmo que o que o envolva (fotografia, edição, interpretações, direção de arte, música e, por fim, a direção em si) chame mais atenção e “signifique” mais quando o assunto é criação cinematográfica. Se o texto é ruim, o filme, invariavelmente, vai pelo mesmo caminho. Diálogos não precisam ser críveis ou rebuscados (a fantasia, a bobagem ou as referências não são necessariamente garantias de um filme bom), mas um texto bem escrito é a base para qualquer bom material fílmico. Quando o roteiro em questão é um roteiro adaptado, a exigência de qualidade é maior. E se a obra de referência é conhecida, cultuada e reconhecidamente bem escrita, a responsabilidade do roteirista torna-se imensa: fazer um bom texto e respeitar a competência do original.

Em nome da liberdade artística, expressão que virou justificativa para deturpações de tamanhos variados em textos diversos, não são poucos os pecados registrados na recente história do cinema mundial. Van Helsing, novo filme de Stephen Sommers que vem ganhando enxurradas de dinheiro pelo mundo afora, não se baseia numa obra específica, mas reaproveita um personagem clássico num versão reloaded hi-tech. Van Helsing, o original, é, em poucas palavras, o homem que caça Drácula, o conde vampiro criado por Bram Stoker no romance homônimo do final do século 19 (que ganhou uma versão definitiva para o cinema com Francis Ford Coppola, em 92). Drácula, assim como outros “monstros” legendários, ganhou uma força impressionante nas primeiras décadas de Hollywood. Nos anos 30, o vampiro virou ícone do cinema de terror. Um tipo de filme que fez muito dinheiro e fascinou gerações inteiras, entre elas a do cineasta Stephen Sommers.

Trabalhando para a Universal, dona dos direitos para o cinema das principais criações dos filmes de terror, Sommers resolveu reunir num mesmo filme três dos maiores mitos do gênero: o monstro criado pelo Dr. Viktor Frankenstein, o lobisomem e o próprio Drácula. Para juntar os personagens num só pacote, o diretor/roteirista escolheu a figura de Van Helsing como algoz das criaturas e protagonista do filme. O resultado é um arranjo malfeito que, não apenas deturpa as criações originais (criando novos perfis e “passados” para os personagens e apresentando outros personagens que rearranjam toda a história), mas os coloca no meio de uma trama tosca, com toques de ficção-científica, tão mal escrita que um dos adjetivos mais fiéis ao espírito do filme seria ridículo. Os diálogos são tão constrangedores que os próprios atores (Hugh Jackman já foi um ótimo Wolverine) embarcam no tom engraçadinho da trama e uniformiza o resultado: tudo é absolutamente ruim em Van Helsing.

A questão não é o respeito ao original em si. Mas a qualidade da deturpação. Nem os efeitos visuais, que visivelmente (entendeu? entendeu?) são o que conduz o filme, conseguem fazer o produto final valer. A virtualidade suprema virou justificativa para se criar efeitos cada vez mais perceptíveis onde não importa a trama, mas o efeito em si. Hoje, mais vale um lobisomem babão que pula pra todo lado que uma frase bem escritinha. O armamento de Van Helsing é tão ruim quanto a palhaçada que Sommers criou para explicar a “vida eterna” do personagem. O tom mezzo comédia encontrado pelo diretor tem sua melhor cristalização no Drácula de Richard Roxburgh e no Sancho Pança de David Wenham, mas nem eles conseguem algo além do mediano. O único consolo é que o filme sempre assume o que é. A cena final, com direito a final feliz nas nuvens, é mais patética já escrita nos últimos vinte anos. O mais legal é perceber que um filme deste porte ainda pode despertar um tipo de reflexão: se era pra fazer um estrago nessa proporção, não dava para se criar os próprios personagens em vez de destruir os dos outros?

VAN HELSING
Van Helsing, Estados Unidos, 2004.

Direção e Roteiro: Stephen Sommers.

Elenco: Hugh Jackman, Kate Beckinsale, Richard Roxburgh, David Wenham, Shuler Hensley, Elena Anaya, Will Kemp, Kevin J. O’Connor, Alun Armstrong, Silvia Colloca, Josie Maran, Tom Fisher, Samuel West, Robbie Coltrane e Stephen Fisher.

Fotografia: Allen Daviau. Montagem: Bob Ducsay e Kelly Matsumoto. Direção de Arte: Allan Cameron. Música: Alan Silvestri. Figurinos: Gabriella Pescucci. Produção: Bob Ducsay e Stephen Sommers.

nas picapes: Needle in the Hay, Elliott Smith.

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O QUE PASSOU, PASSOU…

O QUE PASSOU, PASSOU…

Porque o tempo não perdoa quem ousa desafiá-lo

O passado morreu. É isso que Denys Arcand tenta dizer com seu O Declínio do Império Americano (86), filme que voltou aos cinemas brasileiros depois do sucesso de bilheteria que As Invasões Bárbaras (03) revelou ser. Como boa parte dos espectadores, eu fiz o caminho inverso com os filmes de Arcand. Vi a continuação antes do original e, para minha surpresa, percebi que esta ordem permite uma leitura ainda mais clara e metafórica do cinema do diretor. Em As Invasões Bárbaras, Arcand retoma as trajetórias de personagens criados por ele mais de 15 anos antes para falar do fim das utopias e da derrota de um modo de pensar. O cineasta gasta belos diálogos para fazer valer sua versão de que os rebeldes eram nada mais que inocentes e que o tempo faz coisas então importantes perderem seu significado.

Eu, ao contrário de boa parte dos meus colegas que escrevem sobre cinema no universo dos blogues, gostei de As Invasões Bárbaras. Se ele é esquemático e engenhosamente construído para defender a visão do diretor, não vejo grandes problemas nisso já que a visão do diretor não me parece tão equivocada quanto outros textos fizeram crer. A questão, opinião infinitamente pessoal, é enxergar a idéia do filme não como uma constatação sobre as verdades do mundo, mas como uma discussão sobre o tempo e as prioridades de cada época e de cada geração. Muito mais manipulador e maniqueísta, se a questão é essa, é A Paixão de Cristo (04), de Mel Gibson, filme cujos textos a favor, poucos, diga-se de passagem, são tão escrotos quanto as intenções maléficas (poucas vezes eu vi algo tão perverso) quanto a de seus realizadores.

No entanto, retomando a questão inicial, ver O Declínio do Império Americano depois de sua continuação permite perceber que o discurso do filme (bastante provocador em 1986) se esvaiu quase que por completo nos dias de hoje. Os diálogos, quase que completamente voltados para a revolução sexual do anos 80, com mulheres mais altivas e homens mais descaradamente despudorados, ficaram muito velhos, perderam o impacto e, muitas vezes, o sentido. É interessante perceber que as discussões de As Invasões Bárbaras são não apenas mais amplas, como o texto do filme é bem melhor cuidado e mais inteligente. O Declínio do Império Americano passou. Virou passado e, por pouco, não virou poeira.

P.S.: desisti de fazer um texto maior sobre este filme (e sobre seu filhote) porque o tempo passou, o calor do momento virou frente fria e a vontade acabou. Talvez porque, como Denys Arcand tenta dizer em seus filmes, independentemente da forma que usa para tanto, o passado morreu e se revelou sem muita importância.

O DECLÍNIO DO IMPÉRIO AMERICANO
Le Déclin de L’Empire Américain, Canadá, 1986.

Direção e Roteiro: Denys Arcand.

Elenco: Dominique Michel, Dorothée Berryman, Louise Portal, Pierre Curzi, Rémy Girard, Yves Jacques, Geneviève Rioux, Daniel Brière e Gabriel Arcand.

Fotografia: Guy Dufaux. Montagem: Monique Fortier. Direção de Arte: Gaudeline Sauriol. Música: Handel. Figurinos: Denis Sperdouklis. Produção: Roger Frappier e René Malo.

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UM BLOG COM PASSADO

Meu poder mutante é mudar a ordem dos acontecimentos históricos. Eu posso reordenar o tempo e inserir fatos no meu passado. Não é um poder tão ficcional assim. O único passado que eu consigo mudar é o deste blogue. Existe uma ferramenta no Blogger.com que permite mudar a data dos novos posts, que se tornam antigos posts. Meu blogue de cinema foi criado no dia 29 de janeiro de 2003. Sua segunda versão, no Blogger estrangeiro, surgiu no dia 2 de março deste ano. Os posts do blogue anterior estão todos salvos nos meus arquivos pessoais. Desde ontem, passei a criar um passado anterior a esta última data para o Filmes do Chico. Os posts estão sendo reeditados e reformatados aos poucos e inseridos nos arquivos deste blogue. A idéia é poder compilar tudo num lugar só.

Os dois primeiros posts são resultados de visitas minhas ao Centro Cultural São Paulo, quando eu ainda morava na capital paulista, no início do ano passado. São dois posts sobre os seis filmes que eu vi numa mostra dedicada ao cineasta francês Robert Bresson. No primeiro, são quatro filmes: Les Dames Du Bois De Boulogne (45), Pickpocket (59), Ao Azar, Balthazar (67) e Lancelot Du Lac (74). O post seguinte é sobre O Dinheiro (83) e O Processo de Joana D’Arc (62).

À medida que eu vá alimentando meu passado, vou deixar pistas aqui no presente. E quando eu conseguir descobrir como se coloca links para posts específicos, pretendo deixar estas pistas mais visíveis, além de retomar a coluna de links para os filmes comentados, o que muita gente cobra.

Enquanto isso, uma listinha dos filmes resenhados neste blogue até agora:

Alguém Tem Que Ceder, de Nancy Meyers

Anti-Herói Americano, de Robert Pulcini e Shari Springer Berman

Ao Azar, Balthazar, de Robert Bresson

Aqui Favela, o Rap Representa, de Júnia Torres e Rodrigo Siqueira

Benjamim, de Monique Gardenberg

As Bicicletas de Belleville, de Sylvain Chomet

Confidence – O Golpe Perfeito, de James Foley

Les Dames Du Bois De Boulogne, de Robert Bresson

The Dangerous Lives of Altar Boys, de Peter Care

Diários de Motocicleta, de Walter Salles

O Dinheiro, de Robert Bresson

Do Jeito Que Ela É, de Peter Hedges

Elefante, de Gus Van Sant

Glauber, o Filme – Labirinto do Brasil, de Silvio Tendler

A Janela Secreta, de David Koepp

Kill Bill: Vol. 1, de Quentin Tarantino

Lancelot Du Lac, de Robert Bresson

Lugar Nenhum na África, de Caroline Link

Migração Alada, de Jacques Cluzaud e Michel Debats

Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki

O Outro Lado da Rua, de Marcos Bernstein

A Paixão de Cristo, de Mel Gibson

Peixe Grande, de Tim Burton

Pickpocket, de Robert Bresson

O Processo de Joana D’Arc, de Robert Bresson

Sob a Névoa da Guerra, de Errol Morris

Swimming Pool, de François Ozon

Túmulo com Vista, de Nick Hurran

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MEDO E DELÍRIO

O vilão interior ataca novamente, mas, mais uma vez, não funciona muito bem

David Koepp tem uma carreira até grandinha no cinema de mistério. No currículo, entre outros, o roteiro de O Quarto do Pânico (02) e a direção de Ecos do Além (99), um filme improvavelmente bom. Sua associação a um texto de Stephen King chama atenção, mas não consegue efeitos realmente significativos. A história do escritor atormentado por um leitor que se diz plageado por ele recorre a um certo tipo de vilão cada vez mais comum no filmes de suspense e terror: um vilão intimamente ligado a sua vítima. A construção narrativa do filme – bem melhor acabado do que as obras do gênero ultimamente – é meio óbvia, apesar da preocupação visível com a plástica do longa. O problema maior talvez seja como o cinema de suspense está exausto. Um gênero cansado, com poucas idéias verdadeiramente novas, e com plots e soluções muito, mas muito gastas. O mesmo King que rendeu grandes filmes de suspende como It (90) e Louca Obsessão (90) inspirou um texto pouco além do razoável para sua última adaptação cinematográfica.

Do que serve um filme de terror ou de suspense se ele não provoca medo? Parece uma visão bastante imediatista, mas se considerarmos que esse tipo de cinema é imediatista isto é o mínimo que se pode pedir. Sem muito interesse pela trama, tempo para prestar atenção em alguns detalhes sobre. Philip Glass surge com uma trilha sonora deliciosa, à antiga, única coisa realmente inspirada na concepção narrativa no filme. Escondida num papel limitado, Maria Bello, muito correta, mostra o sexy uma mulher com olheiras profundas pode ser. John Turturro não diz a que veio. Um bom ator vestindo a carapuça de um personagem tão caricato que chega a ser constrangedor. De resto, o que há de mérito vai para Johnny Depp, que, desde o início – e até a mudança de rumo do seu personagem -, dá ao protagonista um roupagem tão particular que se torna a grande atração do filme, que acontece muito menos do que deveria num gênero onde acontecer é basicamente tudo.

A JANELA SECRETA
Secret Window, Estados Unidos, 2004.

Direção e Roteiro: David Koepp, baseado na novela Four Past Midnight: Secret Window, Secret Garden, de Stephen King.

Elenco: Johnny Depp, Maria Bello, John Turturro, Timothy Hutton, Charles Dutton, Len Cariou, Joan Heney, John Dunn-Hill, Vlasta Vrana.

Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Jill Savitt. Direção de Arte: Howard Cummings. Música: Philip Glass. Figurinos: Odette Gadoury. Produção: Gavin Polone.

nas picapes: Elephant Stone, The Stone Roses.

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ANTES DA REVOLUÇÃO

Ou quando Che Guevara pôs o pé na estrada e descobriu a América Latina

Che Guevara é o personagem mais pop da história da América Latina. Camisetas estampadas com o rosto do revolucionário argentino são artigos básicos no guarda-roupa dos pré, pós e dos ainda-adolescentes. É cool ter a cara do homem que virou mito político retratada em alguma peça do vestuário. Mesmo que não se tenha muita idéia de quem ele foi ou do quê ele fez. Diários de Motocicleta, o novo filme de Walter Salles, é sobre o que veio antes. Ou sobre algo que veio antes. E antes de virar Che, Ernesto Guevara foi um estudante de medicina, que junto com um amigo, se lançou pelas estradas da América do Sul em cima de uma moto no início dos anos 50. Diante do hype em torno da figura de Guevara, a escolha do cineasta por uma história do Che pré-revolução parece bem mais interessante do que mostrar a ação política do personagem.

Guevara e seu amigo Alberto Granado não têm grandes ambições quando começam sua viagem. Há algo de brincadeira e de aventura – e é nesse ritmo que o filme segue por boa parte de seu percurso, cheio de namoradas, vacas, paisagens bonitas e quedas de moto. Gael García Bernal mais uma vez entrega um personagem cativante, tarefa que tem desempenhado com destreza desde que surgiu no cinema, mas, num cenário amplamente favorável, é Rodrigo de La Serna que enche a tela com um Sancho Pança bonachão e sorridente. Sem interesses maiores para dra trabalho, Walter Salles tem tempo para fazer o que melhor domina: estetizar seu filme. Trabalha a fotografia em filtros e movimentos, e solta seus personagens ao sabor de uma bela trilha sonora. Durante mais de uma hora, Diários de Motocicleta é um filme sem pretensão, bom de assistir. Depois, ele começa a virar filme sério.

A idéia de uma “viagem transformadora” é um recurso bastante usual em qualquer narrativa, seja cinematográfica ou não. Nada muito original, mas também nada que fuja muito dos efeitos reais de uma jornada, em qualquer nível que ela aconteça. Até a ida à padaria da esquina pode transformar alguém. A passagem entre os dois tons do filme é meio brusca, o que é bem perceptível na narrativa, mas também nunca é ofensiva, o que alguns textos quiseram fazer crer. As primeiras demonstrações do que viria a ser o líder político Che Guevara são um desfecho bastante previsível, mas parecem necessárias ou mesmo fundamentais quando se apresenta um personagem do porte deste. Seria impossível não se contaminar pelo retratado? Provavelmente sim. Mas a contaminação no filme de Walter Salles é, guardando as devidas proporções, bem menor do que a do cartunista Harvey Pekar no cultuadozinho Anti-Herói Americano (Robert Pulcini e Shari Springer Berman, 03), onde os diretores/roteiristas são totalmente dependentes do personagem.

Difícil é concordar com o que muita gente tem falado por aí – de que este é o melhor filme do cineasta – algo bastante complicado de afirmar. Não porque ela seja bom ou ruim, mas porque o cinema de Salles tem um defeito que supera todas as suas boas qualidades: é um cinema com pouca emotividade. Mesmo no poço de lágrimas que pretende ser Central do Brasil (98), o excesso de cálculo atrapalha o efeito dramático. Os filmes do diretor parecem estar todos no mesmo nível (exceto o esquemático Abril Despedaçado, 02), trabalhos feitos com competência técnica e uma tentativa às vezes tola de humanizar os personagens. Nesse sentido, Diários de Motocicleta parece bem mais honesto que os outros, já que desde o início há a intenção clara de mostrar alguém que ainda é um rascunho do homem que viria a ser.

DIÁRIOS DE MOTOCICLETA
Diarios de Motocicleta, Estados Unidos/Grã-Bretanha/Alemanha/Argentina, 2004.

Direção: Walter Salles.

Roteiro: Jose Rivera, com base nos livros Con el Che por America Latina, de Alberto Granado, e Notas de Viaje, de Ernesto Guevara.

Elenco: Gael García Bernal, Rodrigo De la Serna, Jaime Azócar, Ulises Dumont, Facundo Espinosa, Susana Lanteri, Mía Maestro, Mercedes Morán, Jean Pierre Noher, Gustavo Pastorini.

Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Daniel Rezende. Direção de Arte: Carlos Conti. Música: Gustavo Santaolalla. Figurinos: Beatriz De Benedetto e Marisa Urruti. Produção: Michael Nozik, Edgard Tenenbaum e Karen Tenkhoff.

nas picapes: A Letter To Memphis, Pixies.

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ENCONTROS E DESENCONTROS

O que será, que será, que filmam os cineastas mais delirantes?

Benjamim é um filme como há muito eu não via no cinema brasileiro. Um filme muito mal escrito. A história, baseada no livro de Chico Buarque, nas telas é um mosaico de cenas que não se explicam direito e que, pior, são muito mal desenvolvidas. A história do encontro de Benjamim, um Paulo José muitas vezes perdido com as indefinições de seu personagem, com Ariella é uma história mal contada. Não dá para determinar bem que é o culpado. Não li o livro, assim como nenhum outro de Chico Buarque, que considero o melhor letrista da música brasileira. Não sei se foi ele quem não soube amarrar sua narrativa desordenada ou se ela foi mal transposta pelos três roteiristas (entre eles o geralmente eficiente Jorge Furtado). Muito menos vi o único filme anterior de Monique Gardenberg (Jenipapo, 96) para poder comparar seu desempenho de criação. A ignorância referencial no entanto me entrega Benjamnim completamente nu e tudo o que eu consigo enxergar no filme é um propósito de fazer diferente sem a capacidade de fazer diferente.

A trama é um drama e depois se revela algo entre o policial e o suspense, mas isso também não importa. Os personagens são mal definidos, suas motivações, confusas (o que não deve ser encarado como um problema, mas que termina sendo) e, no final, banais (não porque eles não tivessem grandes motivações ou que não ter grandes motivações seja necessariamente ruim, mas porque elas não parecem vir a cristalizar algo que realmente justifique a existência da trama). Benjamim começa a perseguir, no bom sentido, uma garota que parece muito com uma mulher por quem ele foi apaixonado trinta anos antes. A relação entre as duas se revela aos poucos, numa narrativa repleta de flashbacks que não chega a incomodar, mas que é formada por cenas que não fluem, onde a ação não vira algo crível, possível, plausível porque não se cria as situações para tanto (ou tão pouco?). De nada adiantam os filtros e a trilha bem cuidada. O fim chega, com mais vontade de fazer barulho que qualquer coisa, e você não sabe bem porque estava ali se não havia uma história para ser contada nem uma experiência sensorial para ser vivenciada. Benjamim não tem motivo.

Mas há que se fazer justiça: Cléo Pires é linda. Absurdamente linda. E está bem melhor do que poderia se esperar. Para ela, a estrela solitária deste post.

BENJAMIM
Benjamin, Brasil, 2004.

Direção: Monique Gardenberg.

Roteiro: Jorge Furtado, Glênio Póvoas e Monique Gardenberg, com base no livro de Chico Buarque.

Elenco: Paulo José, Cléo Pires, Danton Mello, Chico Diaz, Rodolfo Bottino, Nelson Xavier, Guilherme Leme, Micaela Góes, Mauro Mendonça, Ernesto Piccolo, Miguel Lunardi, Pablo Padilha, Dada Maia, Ana Kutner, Ivone Hoffman, Wando, Zeca Pagodinho.

Fotografia: Marcelo Durst. Montagem: João Paulo Carvalho. Direção de Arte: Daniel Flaksman. Figurinos: Marcelo Pies. Produção: Paula Lavigne e Augusto Casé.

nas picapes:

Buddy Holly, Weezer

Hash Pipe, Weezer.

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