Monthly Archives: março 2004

Com o bloqueio do meu antigo blogue pela graciosa Globo.com, meus textos publicados lá – muitos, em mais de um ano de blogue – focaram perdidos no ciberespaço. Por algum motivo, eu consegui recuperá-los por inteiro. Aproveitando o mote da estréia em circuito de Sob a Névoa da Guerra, reposto aqui o texto-comentário sobre este filme e Na Captura dos Friedmans, ambos vistos durante a Mostra de Cinema de São Paulo, no ano passado.

Mas daí, surge uma dúvida: textos antigos devem ser repostados, caso haja justificativa, neste espaço? Que tal vocês me ajudarem a decidir?

a) não, Chico, de jeito nenhum. Este espaço só deve ter textos novos; coloca os antigos num outro lugar;

b) sim, Chico, por quê não? Os textos são seus, se houver algum motivo para repostá-los, não vejo problema;

c) Chico, cai na real, ninguém quer ler textos velhos; joga tudo fora.

Enquanto vocês me ajudam a decidir:

FILMES DO CHICO reloaded

DAS VERDADES E DAS MENTIRAS

Dois documentários apostam no formal como arma narrativa para estabelecer a a forma mais pura de uma história

Nos últimos anos, o conceito de documentário tem, cada vez mais, sido revisto e ampliado. Os documentaristas evitam a perseguição da imparcialidade (amplamente discutida e acertadamente desacreditada), deixando os filmes mais pessoais e menos jornalísticos, o que, ao mesmo tempo, enriquece as possibilidades de narrativa e de concepção e pode enfraquecer a função básica de um documentário: informar. A questão aqui não é tentar ser neutro, mas oferecer ao espectador todos os elementos necessários para que ele chegue a uma conclusão. O documentário mais famoso dos últimos anos – e um dos mais polêmicos da história – Tiros em Columbine é o exemplo perfeito. Na ânsia de fazer um filme contundente, Michael Moore apostou numa narrativa rica e cheia de desdobramentos, mas comete pecados capitais: se intromete na informaçãoo fazendo de si mesmo uma espécie de anti-herói dono da verdade. Seu filme, excepcionalmente bem idealizado e editado, sofre então uma queda de credibilidade porque defende com tanto radicalismo suas idéias que se torna questionável. Afinal, onde está o foco?

Na Captura dos Friedmans, do ex-compositor Andrew Jarecki, resgata o conceito do documentário desgastado com o passar do tempo. Aqui, não há revoluções narrativas ou engenhosas criações estéticas, o alvo é apenas contar uma história. Jarecki escolhe a fantástica epopéia da fam?lia Friedman, que aparentemente se apresenta como uma família normal, mas aos poucos revela a instabilidade das relações e dos comportamentos dentro de uma mesma casa. O pai, professor conhecido e respeitado, é acusado, junto com o filho mais novo, de pedofilia e abuso sexual. É aí que o diretor mostra sua habilidade. A perversão dos atos e fatos fica dúbia o tempo inteiro. Jarecki apenas fornece as informações para que o espectador decida no que acreditar. E faz isso com uma impressionante habilidade para colher e editar depoimentos. O grau de desequilíbrio de cada integrante da família Friedman, inclusive daqueles que não foram acusados de crime algum, é revelado em cada entrevista. Jarecki consegue, sem malabarismos e com inteligência, cumprir o papel de um documentarista. E é isso que faz de Na Captura dos Friedmans um filme muito melhor do que parece. E que faz o espectador sair pesado do cinema.

De outro lado, Errol Morris acredita que um personagem é o suficiente para a construção de um documentário. Sob a Névoa da Guerra tem um bom personagem: o ex-secretário de Defesa dos Estados Unidos, Robert McNamara. Seus depoimentos são o mote para se contar anos da história militar norte-americana. A partir daí, Morris elabora um filme sobre bastidores de fatos políticos, com um grande trabalho de pesquisa para conseguir imagens sobre todos os períodos citados. As entrevistas são polêmicas e contundentes, mas o fato de centrar o filme na verdade de um homem apenas enfraquece muito a informaçãoo. Não seria melhor uma entrevista no tradicional formato pingu-pongue? No conjunto, o filme sofre por ter sido dirigido de uma maneira velha, perdida no tempo. Parece muito com um daqueles documentários que você assiste por acaso num canal a cabo. O formato quadrado também deixa o filme chato. O mérito é jogar luz sobre aspectos ainda sombrios de cenas importantes da história. Mas filme mesmo, faltou.

NA CAPTURA DOS FRIEDMANS
Capturing The Friedmans, EUA, 2003

Direção: Andrew Jarecki.

Elenco: Arnold Friedman, Elaine Friedman, David Friedman, Seth Friedman, Jesse Friedman, Howard Friedman, John McDermott, Frances Galasso, Joseph Onorato, Judd Maltin, Abbey Boklan, Ron Georgalis, Scott Banks, Debbie Nathan, Jerry Bernstein, Peter Panaro, Lloyd Doppman, Jack Fallin.

Fotografia: Adolfo Doring. Edição: Richard Hankin. Direção de Arte: Nava Lubelski. Música: Andrea Morricone. Produção: Andrew Jarecki e Marc Smerling.

SOB A NÉVOA DA GUERRA
The Fog of War: Eleven Lessons from the Life of Robert S. McNamara, EUA, 2003

Direção: Errol Morris.

Elenco: Robert McNamara.

Fotografia: Peter Donahue. Montagem: Doug Abel, Chyld King e Karen Schmeer. Direção de Arte: Ted Bafaloukos. Música: Philip Glass. Produção: Julie Bilson Ahlberg, Errol Morris e Michael Williams.

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O TUDO E O NADA

Diretor perde a mão e desperdiça bons atores numa salada de gêneros confusa, boboca e pseudocriativa

O cinema britânico tem subgêneros bem definidos. Um deles, que vem ganhando força desde a segunda metade da década passada, é o que conta histórias simples de gente simples em pequenas cidades do interior da Grã-Bretanha. Geralmente, apostando no ritmo muitas vezes delicioso do humor inglês, este tipo de filme já gerou algumas pequenas pérolas, como A Fortuna de Ned (Kirk Jones, 98) e O Barato de Grace (Nigel Cole, 00), com Brenda Blethyn encabeçando o elenco e fumando maconha. Pois bem, a volta da atriz ao gênero não deu muito certo.

Em Túmulo com Vista, ela vive a mulher de um vereador de uma cidadezinha, homem que deu o golpe do baú ao se casar com ela, o que deixou seu verdadeiro amor, um agente funerário tímido e solitário cada vez mais tímido e solitário. Se ficasse só no bonitinho, talvez o filme desse mais certo, mas o diretor-roteirista quis brincar com os musicais dos anos 30 e os pastelões, numa mistura que não dá liga. Christopher Walken está patético e Naomi Watts não soube transformar sua personagem em algo válido. O final, no pior estilo terrir parece os piores momentos dos Trapalhões.

TÚMULO COM VISTA
Plots with a View, Grã-Bretanha/Estados Unidos/Alemanha, 2003.

Direção: Nick Hurran.

Roteiro: Frederick Ponzlov.

Elenco: Brenda Blethyn, Alfred Molina, Robert Pugh, Christopher Walken, Naomi Watts, Lee Evans, Jerry Springer, Padrig Owen Jones, Miriam Margolyes, Ena Cohen.

Fotografia: James Welland. Montagem: John Richards. Direção de Arte: Keith Maxwell. Música: Rupert Gregson-Williams. Figurinos: Ffion Elinor. Produção: Michael Cowen, Suzanne Lyons, Jason Piette e Kate Robbins.

nas picapes: Automatic Stop, The Strokes.

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A ÉPOCA DA INOCÊNCIA

Um pequeno tratado sobre a idade onde não se pode controlar o corpo e a alma

Não existe nada de realmente especial neste filme lindo. Ele só é lindo pelo mesmo motivo que faz Conta Comigo (Rob Reiner, 86) ser um filme lindo. Ele é um filme sobre as pequena coisas, aquelas as quais nós mal conseguimos falar, sobre as quais só os grandes sabem ou podem escrever. The Dangerous Lives of Altar Boys (piedade para o tradutor que ainda virá) é mais um exemplar do cinema independente que se volta para o interior dos Estados Unidos em busca de histórias simples. Narra as aventuras de quatro amigos pré-adolescentes (na verdade, dois amigos e dois colegas destes amigos) entre o colégio e o que há além dele. Garotos que começam a crescer e enfrentar o que a vida apresenta, enquanto se divertem aprontando por aí.

Os quatro se imaginam super-heróis. Cada um desenha sua aparência fantástica e traça a personalidade e as habilidades especiais do personagem que toma para si. O diretor materializa a fantasia com inserções em animação das aventuras do grupo, que escolhem como rival a professora-freira, vivida por Jodie Foster. A brincadeira funciona em parte, mas não se sustenta quando passa a metaforizar os dramas vividos pelos garotos no celulóide. No entanto, a delicadeza evidente no tratamento dado ao roteiro faz com que o texto fuja dos lugares-comuns (exceto no passado excessivo criado para Jena Malone) para transcender o estigma de filme sobre adolescentes.

A melhor trilha sonora do ano embala o sofrimento do rito de passagem: verdades e mentiras, segredos e fofocas, decisões e indefinições, amadurecimento e infância; todos os capítulos da época das incertezas. O jovem protagonista surpreende com sua interpretação, mas o personagem mais cativante nos é entregue pelo cada vez melhor Kieran Culkin, que, em agonia secreta, guarda toda a beleza e a tristeza de uma idade onde é preciso sacrificar a própria pureza para conseguir passar a próxima fase do jogo.

THE DANGEROUS LIVES OF ALTAR BOYS
The Dangerous Lives of Altar Boys, Estados Unidos, 2003.

Direção: Peter Care.

Roteiro: Jeff Stockwell e Michael Petroni, baseados no livro de Chris Fuhrman.

Elenco: Emile Hirsch, Kieran Culkin, Jodie Foster, Vincent D’Onofrio, Jena Malone, Jake Richardson, Tyler Long, Arthur Bridges, Scott Simpson.

Fotografia: Lance Acord. Montagem: Chris Peppe. Direção de Arte: Gideon Ponte. Música: Marco Beltrami (e Joshua Homme). Figurinos: Marie France. Produção: Jodie Foster, Meg LeFauve e Jay Shapiro.

nas picapes: There She Goes, The La’s.

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PRESO NO PRÓPRIO LABIRINTO E DEVORADO PELO MINOTAURO

Documentário sobre Glauber Rocha não é apenas didático, é velho, retrógrado e parece ter sido lançado há trinta anos

A quantidade de documentários feitos no Brasil todos os anos é admirável. A profícua produção gerou uma busca natural por novas formas de construção dos filmes, o que é extremamente louvável. Do cinema demasiado humano de Eduardo Coutinho ao trabalho de investigação de Onde a Terra Acaba e Ônibus 174, a linguagem do documentário brasileiro ganhou diversidade e ficou mais contemporânea, incorporando táticas seja do jornalismo televisivo, seja do vídeo, mais livre de prisões formais. Assistir a Glauber, o filme – Labirinto do Brasil, então, é decepcionante. Os motivos são vários. Muito se falou sobre o quão didático é o filme que retrata um artista tão renovador. Mas o pecado mais mortal do longa de Sílvio Tendler é outro: ele é velho, muito velho. Parece um daqueles documentários que eram exibidos para os alunos do primário no início dos anos 80. E o motivo não passa nem perto da idade de muitas das imagens, bem antigas. Mas da tática que o cineasta adotou para conduzir seu filme.

Para Tendler, Glauber Rocha, mais que o maior cineasta do Brasil, era um artista inquestionável, um ser humano incomparável, muito além de qualquer colega de profissão ou de qualquer pessoa que com quem ele esbarrou na vida. Um ser tão genial que sua obra permanece enigmática para a maior parte dos espectadores. As legendas dos primeiros quinze minutos do filme são deprimentes. De uma reverência só. As frases comprometem a idoneidade do filme, demérito menor já que o longa nunca teve a intenção de ser idôneo. Demonstram ainda uma visão ingênua do documentarista, que já deveria ter idade para uma avaliação mais madura de uma figura histórica de tal porte. Tendler se propõe a traçar um perfil limpo de Glauber: o de pensador de vanguarda. E constrói seu filme nesse propósito, sem nunca questionar o mito. Até a tentativa de aproximação entre o cineasta e o Regime Militar é vendida como uma opinião pessoal do diretor, o que é reforçado pelas entrevistas. Muitas delas, por sinal, não se justificam nunca.

Glauber, o filme é sobre um cara que fumava maconha e andava pelado e que todos achavam muito divertido porque ninguém era igual a ele. As entrevistas dos amigos de Glauber não contribuem para que se mostre sua relevância enquanto criador, mas para ressaltar sua estranheza perante o brasileiro comum. Mas o crédito para Tendler existe. Está numa quantidade bem farta de material filmado. O problema é que o documentarista nunca sabe o que fazer com o que tem. Desperdiça a maior parte beijando os pés do homem morto. Um iniciante na obra de Glauber Rocha vai achar que ele era um cara muito louco e só. Tendler se conforma com o fato de que o cinema do seu personagem era para poucos e não faz muito para questionar isso. Glauber parece um filme dirigido por uma comadre da figura retratada, tipo “veja só como era o meu amigo Glauber”. Além do aspecto ideológico, o longa tem sérios problemas técnicos: é mal editado – não há uma conclusão razoável do filme – e a materialização do labirinto do cineasta é tão tosca que seu objetivo metafórico (que desde cedo é despropositado) ganha segundo plano.

GLAUBER, O FILME – LABIRINTO DO BRASIL
Glauber, o filme – Labirinto do Brasil, Brasil, 2004.

Direção, Roteiro e Montagem: Silvio Tendler.

Fotografia: Fernando Duarte e Walter Carvalho. Música: Eduardo Camenietzki. Produção e Pesquisa: Arthur Angeli, Carolina Paiva, Silvio Arnaut, Terêncio Pereira Porto e Fernanda Guimarães.

nas picapes: Hotel Yorba, The White Stripes.

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QUANDO O CLICHÊ FAZ A DIFERENÇA

O melhor de Do Jeito Que Ela É é quando o filme tenta não surpreender

O plot é de uma obviedade só: a filha rebelde que saiu de casa e prepara um almoço de Ação de Graças para a família depois que descobre que a mãe está morrendo de câncer. Tramas (ou dramas) familiares, mea culpa, me interessam, mas os estereótipos pincelados logo no início do filme já me deixaram com um pé atrás. A narrativa se desenvolve sobre uma montagem paralela: Katie Holmes tenta arrumar um vizinho amigo para assar o seu peru depois que o forno quebrou e encontra seres estranhos no prédio onde um vive, num bairro barra-pesada de Nova York. Enquanto isso, seus pais, irmãos e avós colocam o pé na estrada para seguir a seu encontro.

Filmado com câmera digital, o roteiro vai tentando criar situações menos óbvias, o que gera muita bobagem engraçadinha ou esquisitinha de filme independente norte-americano. A discussão sobre as diferenças é tosca, mas há momentos interessantes no filme, sobretudo graças a Patricia Clarkson, que, apesar dos muitos clichês do texto que precisa proferir, se mostra uma grande atriz. O mais curioso é que Do Jeito Que Ela É (mais um nocaute no bom gosto dos tradutores de títulos brasileiros) só tem sucesso quando aposta no óbvio. A cena final, filmada como um álbum de fotografias, é o chavão supremo, mas não deixa de ser eficiente.

DO JEITO QUE ELA É
Pieces of April, Estados Unidos, 2003.

Direção e Roteiro: Peter Hedges.

Elenco: Katie Holmes, Patricia Clarkson, Derek Luke, Oliver Platt, Allison Pill, John Gallagher Jr., Alice Drummond, Lillias White, Isiah Whitlock Jr., SisQo.

Fotografia: Tami Reiker. Montagem: Mark Livolsi. Direção de Arte: Rick Butler. Música: Stephen Merritt. Figurinos: Laura Bauer. Produção: Alexis Alxanian, John S. Lyons e Gary Winick.

nas picapes: Alec Eiffel, Pixies.

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PARA O ALTO E AVANTE…

Ou como fazer uma câmera voar sem bater asas

Um documentário sobre as aves que têm que voar quilômetros e quilômetros todos os anos para procurar alimento. Globo Repórter sobre bichinhos ninguém agüenta mais, mas este filme aposta na força de sua fotografia para conquistar a atenção do espectador. Migração Alada é um vasto trabalho de pesquisa e de registro sobre a jornada dos bandos de várias espécies de aves em vários lugares do planeta. Com poucas legendas e quase sem narração, os diretores deixam o espectador saborear as fantásticas imagens que os mais de dez câmeras conseguiram captar. Imagens onde é difícil (ou impossível) determinar como foram feitas. Aves em pleno vôo a centenas de metros de altura. Câmeras que mostram detalhes de suas asas ou que se espantam frente à vastidão dos grupos encontrados. Há momentos em que a câmera praticamente voa junto com os bichos. Imagens que enchem a tela do cinema e que fazem aquela máxima conhecida valer muito bem.

MIGRAÇÃO ALADA
Le Peupe Migrateur, França/Itália/Alemanha/Suíça/Espanha, 2003.

Direção: Jacques Cluzaud, Michel Debats e Jacques Perrin.

Roteiro: Stéphane Durand, Jacques Perrin e Francis Roux, a partir de uma idéia de Valentine Perrin.

Fotografia: Olli Barbé, Michel Benjamin, Sylvie Carcedo-Dreujou, Laurent Charbonnier, Luc Drion, Laurent Fleutot, Philippe Garguil, Dominique Gentil, Bernard Lutic, Thierry Machado, Stéphane Martin, Fabrice Moindrot, Ernst Sasse, Michel Terrasse, Thierry Thomas. Montagem: Marie-Josèphe Yoyotte. Direção de Arte: Régis Nicolino. Música: Bruno Colulais. Figurinos: ?. Produção: Christophe Barratier e Jacques Perrin. Narração: Jacques Perrin.

nas picapes: God Only Knows, Beach Boys.

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Gosto dos Outros: Vaquinha Eugênia

Lista, lista, lista. Eu sempre adorei fazer listas. Elas são injustas, limitadas, extremamente questionáveis. Mas fazê-las sempre foi extremamente prazeroso (ainda que todo prazer envolva um pouco de dor, já diriam os masoquistas…). Na versão anterior do Filmes do Chico, eu criei uma seção onde eu perguntava para os companheiros no amor pelo cinema sobre seus favoritos. Muitos me amaldiçoam até hoje pela tarefa cruel. Agora, na versão reloaded do meu blog, uma seção antiga, remasterizada. Para a estréia, uma conhecida personagem no mundo blogueiro cinematográfico.

Gosto dos Outros: Vaquinha Eugênia

“Se uma vez por dia nos dispuséssemos a fazer uma lista dos filmes prediletos, a cada dia ela sairia de um jeito diferente. E nossa dupla personalidade esquizofrênica teria que enfrentar duros embates internos diariamente. Bom, mandamos então uma lista de filmes que vieram a nossa cabeça agora, mas temos certeza que tem vários de fora e que amanhã já estaremos lendo o post e pensando: Por que não pusemos tal filme em vez de tal filme??? E o Hitchcock? Como pudemos deixar o Hitchcock de fora?”.

Luzes da Cidade (31), Charles Chaplin

Difícil escolher entre os filmes do Chaplin, com toda a sua genialidade e poesia. Mas este é um dos que mais nos emociona.

A Regra do Jogo (39), Jean Renoir

Ritmo, atuação, direção.

Anjo Exterminador (62), Luis Buñuel

Um filme que sempre nos volta à cabeça. Com um ponto de partida absurdo que, tratado com muita verdade, tem força suficiente para construir toda uma progressão narrativa e construir uma crítica muito irônica à burguesia.

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (77), Woody Allen

A verdade sobre as comédias românticas.

Noites de Cabíria (57), Federico Fellini

Tá certo, existem outros Fellini muito mais elaborados. Mas a Cabíria da Giulietta Masina é fantástica e o filme é lindo.

Gritos e Sussurros (72), Ingmar Bergman

Direção de atores perfeita, atrizes maravilhosas, fotografia precisa.

Persona (67), Ingmar Bergman

Toda a densidade dramática do Bergman no filme em que ele mais explora a experimentação de linguagem, tanto na fotografia quanto na montagem.

Memórias de Um Estrangulador de Louras (71) Júlio Bressane

Estrangule você também sua loura!

Alphaville (65) Jean-Luc Godard

Um mundo com uma lógica diferente, com relações de causa-consequência diferentes, fomas de comunicação diferentes. Soluções inventivas que soam, apesar de tudo, incrivelmente coerentes. Um filme inesquecível, que não envelheceu. É outra referência estética muito importante.

8 e meio (63), Federico Fellini

A memória e o cinema.

Uma Mulher para Dois (61), François Truffaut

O triângulo amoroso típico de Truffaut, em um de seus filmes mais marcantes.

Encouraçado Potemkim (25), Eisenstein

Exploração máxima da montagem cinematográfica.

O Inquilino (76), Roman Polanski

Ficamos sempre na dúvida sobre o que é viagem da cabeça do protoganista e o que é realidade. O final é genial.

Ser ou Não Ser (42), Ernest Lubitsch

Teatro cinema teatro.

2001 (68), Stanley Kubrick

Uma superprodução que vai além da ficção científica, com um final cheio de reflexão e poesia. E o Hal-9000 é inesquecível.

Ladrões de Bicicleta (48), Vittorio de Sica

Chora, garoto!

Nós que nos Amávamos Tanto (74), Ettore Scola

Belíssimo filme sobre relacionamento entre amigos. Muito legal o recurso “metacinema” de congelar a cena e o personagem olhar para a câmera, revelando ao espectador seu subtexto daquele momento.

Uma Mulher é uma Mulher (61), Jean-Luc Godard

Anna Karina e Godard no auge.

Festa de Família (98), Thomas Vintenberg

O roteiro, a atuação, e principalmente a fluidez da câmera e da montagem, tudo é muito bom. O melhor dentre os filmes do Dogma95.

A Marca da Maldade (57), Orson Welles

O melhor plano da história. E é só o primeiro!

A Vaquinha Eugênia, blogueira, cinéfila, 28 anos. A base de operações de suas atividades bovinas e cinematográficas é São Paulo, a capital.

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Maioridade no cinema

Filmes com protagonistas sexagenários não são tão comuns, mas quase todos giram em torno de um mesmo tema: onde acaba a vida? Um trabalho exemplar nesta quesito é o de Alexander Payne, em As Confissões de Schmidt, onde Jack Nicholson – que nunca havia enfrentado a questão com tanta intensidade – assume o velho que é e busca uma função no mundo depois da aposentadoria. Um filme sobre a passagem do tempo e as lacunas que ela deixa abertas para sempre.

Um ano depois, um paralelo interessante surge com Alguém Tem Que Ceder, escrito e dirigido por Nancy Meyers. No filme, Nicholson interpreta um conhecido seu no cinema: o coroa espertinho que gosta de garotas mais novas, talvez como forma de driblar a velhice iminente. Depois da proposta do trabalho anterior, o novo filme parece um retrocesso, mas o longa tem algumas boas qualidades. A primeira é a de confrontar o ator com uma rival a altura: Diane Keaton, que vive a mãe de sua namoradinha.

Enquanto o empresário do hip hop azara as mocinhas, a dramaturga de sucesso amarga a solidão. Nada muito diferente da vida real. Homem pode, mulher não. Nancy Meyers, com todo direito, quer defender seu sexo e promove um revés na trama do filme: a velha desperta o interesse de um rapaz bonitão, um médico bem-sucedido e muito mais novo. O mote para Keanu Reeves entrar em cena é o mesmo que faz o personagem de Nicholson começar a olhar sua sogra com outros olhos.

A discussão, a princípio, parece ser sobre a idade certa para um par perfeito, mas o filme vai além, debate a solidão de alguém que sofreu o golpe do passar dos anos. Os diálogos não têm nada de inovadores, mas são bem escritinhos e o melhor deles é quando, depois de uma noite de amor, Diane Keaton, espertíssima no papel, diz às lágrimas que achava que já tinha encerrado “aquela atividade”. Não importa quem era o sujeito ao lado. O que importava para a personagem era continuar. Era a plenitude que o tempo vai levando, o que, numa comédia romântica sem compromisso, já é bastante.

O que dizer então de um drama? Existem muitos sobre os tais velhinhos. Filmes que se sustentam na emotividade para conquistar platéias às custas de fazer penar os personagens (lembra da novela que já foi pro saco e que ganhou ares de produto de relevância social?). Pois bem, existe o caminho paralelo. Marcos Bernstein gosta de velhinhos. Do bom Central do Brasil ao intragável Oriundi, seus roteiros invadem o universo microscópico da idade avançada. Na sua estréia como diretor, o tema é o mesmo.

Em O Outro Lado da Rua, o instrumento para Regina deixar de pensar nas suas não-atividades é o binóculo que usa para espiar os vizinhos e passar informações para a polícia. A aposentada é uma informante no Rio de Janeiro. Desmonta quadrilhas e tudo. A cena em que se veste de moçoila e parte para uma boate beira o exagero, mas aí o filme se revela. Bernstein escreve um texto para alguém que insiste em ter um papel na vida. Mesmo que este seja o de personagem de um filme. E Fernanda Montenegro tira a missão de não ser óbvia de letra.

Da janela, ela vê o que parece ser um homem de sua idade matar uma mulher. Informação que chega à polícia, que invade o apartamento. Mas a notícia não está nos jornais do dia seguinte – o homem era um juiz renomado e a carreira noir de Regina é encerrada. Fim da missão e da sua última justificativa. Regina, então, parte atrás do criminoso. Sua busca não é pela justiça em si, mas por uma motivação para si mesma. Lá pelas tantas, o crime não importa mais, mas a descoberta de uma possibilidade.

Bernstein investiga o medo da senilidade, do ostracismo, da não-significação. Resvala muitas vezes nos clichês do tema, mas sempre dá um jeito de contorná-los e construir um filme bem sincero sobre a velhice e a perda da identidade. Sua principal parceira é Fernanda Montenegro. Tô pensando agora numa maneira que não seja muito óbvia, muito chavão de dizer que essa mulher é capaz de coisas sensacionais. Acho que não vou conseguir. Tô pensando, tô pensando, peraí…

Alguém Tem que Ceder EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Something's Gotta Give, Nancy Meyers, 2003]

O Outro Lado da Rua EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[O Outro Lado da Rua, Marcos Bernstein, 2004]

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Anti-Herói Americano

Há o homem: ele se chama Harvey Pekar, um arquivista de um hospital, que se transforma em escritor de revistas em quadrinhos. Há o personagem: ele se chama Harvey Pekar, o retrato que o homem faz de si mesmo no papel. Pekar, o homem, guarda muitas frustrações em seu coração: é feio, solitário, incapaz de realizar algo que signifique alguma coisa. Um dia tem uma idéia: transportar para um gibi tudo o que ele sente sobre seu dia-a-dia desinteressante e absolutamente comum. American Splendor, a revista, ganha os traços do cartunista Robert Crumb e vira cult. Mas transforma Pekar, o homem, em Pekar, o personagem. Para sempre.

Robert Pulcini e Shari Springer Berman tiveram a idéia de levar a história para o cinema, criando um terceiro Pekar, encarnado pelo bom Paul Giamatti. Mas não quiseram menosprezar a dependência do arquivista-escritor do personagem dos quadrinhos. E resolveram adotar a metalinguagem como condutora da narrativa de seu filme, decisão que traz bons e maus resultados. Após uma apresentação da história, surge a primeira inserção do Pekar real, que passa a ser o narrador da trama. Ou seja, Pekar, o homem, conduz Pekar, o protagonista do filme.

Os atores são bons, mas os personagens parecem estereotipados. Fáceis demais, porém tingidos de diferentes por recursos bem aparentes. As inserções de animação, que poderiam alimentar a criatividade da narrativa, são jogadas durante a história. E o que poderia ser a metalinguagem mais exata parece apenas ilustração. A sensação é que, num trabalho assinado por duas pessoas, é uma terceira quem controla tudo no longa-metragem. Pulcini e Berman não se definem entre a adaptação biográfica e o documentário reverente e o filme, que guarda bons momentos, soa extremamente irregular. No final, não há uma visão de alguém de fora sobre a vida de Harvey Pekar, o homem, mas apenas a reprodução (desta vez em celulóide) de suas neuroses da maneira como ele as vê.

ANTI-HERÓI AMERICANO
American Splendor, Estados Unidos, 2003.

Direção e Roteiro: Robert Pulcini e Shari Springer Berman, baseados nas revistas American Splendor, de Harvey Pekar, e Our Cancer Year, de Harvey Pekare Joyce Brabner.

Elenco: Paul Giamatti, Hope Davis.

Fotografia: Terry Stacey. Montagem: Robert Pulcini. Direção de Arte: Thèrese DePrez. Música: Mark Suozo e Eytan Mirszky (canção-título). Figurinos: Michael Wilkinson. Produção: Ted Hope.

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UM ELEFANTE INCOMODA MUITA GENTE

Gus Van Sant faz o que Michael Moore e Larry Clark não conseguiram e mostra que a sociedade não sabe lidar com seus jovens

Não existe mudança de câmera em nenhuma cena de Elefante. Tudo o que acontece em cada seqüência é mostrado sem cortes. Parece que o diretor não quer que nada se interponha entre o que está na tela e quem está na sua frente. Talvez não existam meias-verdades para Gus Van Sant. O tom documental está explícito em todos os fotogramas desta recriação do massacre promovido por dois adolescentes na escola onde estudavam, em Columbine, nos Estados Unidos, no fim dos anos 90.

Van Sant tinha um plano: narrar o dia do episódio sob a perspectiva de vários personagens, alunos do colégio, coadjuvantes da chacina dos colegas. John chega à escola trazido por seu pai bêbado. Elias se dirige ao laboratório onde prepara suas fotos enquanto elabora seu futuro. Michelle tenta esconder o corpo esquisito das outras moças da aula de educação física. E Eric e Alex querem justiça. Não é certo que sejam importunados pelos atletas gostosões quando estão quietos no seu canto.

Tudo pronto para se contar uma história. O painel de personagens montado por Van Sant é eficiente – e demonstra exatidão. Sob o lápis do diretor, os arquétipos básicos encontrados naquela que talvez seja a época mais confusa da vida, a adolescência. Todos tratados com a delicadeza de quem transforma os clichês em identificação. A inquietação, a auto-afirmação, a futilidade, a não-aceitação, as crises familiares; tudo é apresentado sem profundidade e muito menos descaso.

Para Van Sant, o adolescente é o ser humano em elaboração diante de um mundo onde é cada vez mais difícil determinar o que é certo ou errado. Eric e Alex tentam não se deixar capturar por uma estrutura invisível que estabelece regras. Mas não há fúria. Há pouco juízo de valor na história contada pelo cineasta. Nesse sentido, ele é mais documental que Tiros em Columbine, o espetáculo autopromocional de Michael Moore, inspirado pelo mesmo episódio. A câmera mostra e o espectador chegas as suas conclusões. Não há heróis ou vilões no filme, apenas vítimas.

Curiosamente, a narrativa simples adotada pelo diretor permite sua evolução como cineasta. Elefante é provavelmente o melhor e mais bem realizado filme de Gus Van Sant. A fotografia de Harry Savides, o mesmo do excepcional Gerry, e a montagem que vai e volta no tempo não são novidades, mas proporcionam ao espectador o diferencial que o cinema tem para com as outras artes. A propriedade de manipulação de tempo e espaço através da imagem, como diria Stanley Kubrick. Manipulação que não é maniqueísta, mas que revela uma realidade assustadora.

ELEFANTE
Elephant, Estados Unidos, 2003.

Direção, Montagem e Roteiro: Gus Van Sant.

Elenco: Elias McConnell, Alex Frost, John Robinson, Eric Deulen, Jordan Taylor, Carrie Finklea, Nicole George, Brittany Mountain, A.D. Miles, Alicia Miles, Kristen Hicks, Bennie Dixon, Nathan Tyson, Matt Malloy, Timothy Bottoms.

Fotografia: Harris Savides. Direção de Arte: Benjamin Hayden. Música: ?. Produção: Dany Wolf.

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