Monthly Archives: janeiro 2004

PETER PAN

Pra começar, não há a intenção de fazer uma versão definitiva. O filme de PJ Hogan se propõe apenas a contar uma história para crianças Uma história que acredita que é para crianças, que dá asas ao conto de fadas. E parece fazer isso da maneira mais respeitosa possível ao texto original. Peter Pan disserta sobre a liberdade cara e necessária às crianças e, ainda mais, fala sobre tornar-se adulto, atravessar o tempo. A missão começa muito bem, logo na escolha do protagonista. Jeremy Sumpter (que parece encarnar os traços da versão desenho da Disney) assume com prazer o caráter anárquico do menino que não queria crescer e seu humor ingênuo e sarcástico infecta todo o filme. O texto dá tratamento especial ao silêncio barulhento da fada Sininho de Ludivine Sagnier e às deliciosas tiradas do melhor coadjuvante do filme, o Sr. Smee vivido por Richard Briers. O elenco infantil guarda ainda pelo menos mais uma bela interpretação: a destemida Wendy de Rachel Hurd-Wood. Mas apesar do conjunto funcionar muito bem, o filme tem um dono: Jason Isaacs. Com um texto que privlegia sua personagem na narrativa, Isaacs humaniza seu vilão a tal ponto que o Capitão Gancho ganha ares de anti-herói, tornando-o encantador e magnético. O roteiro não se escora, mas evidencia uma tensão quase sexual entre os protagonistas opositores, o que deixa o trabalho do ator mais delicado e cuidadoso. O conflito dá fôlego inesperado ao longa, criando cenas fortes, ainda que de conteúdo apenas sugerido. Isaacs garante sensibilidade ao papel, arredondando a personagem, sem perder a virilidade de Gancho. Uma grande interpretação num conto de fadas com realização acima da média. Uma aventura deliciosa.

Peter Pan
Peter Pan, Estados Unidos, 2003
Direção: PJ Hogan.
Elenco: Jeremy Sumpter, Jason Isaacs, Rachel Hurd-Wood, Lynn Redgrave, Richard Briers, Olivia Williams, Geoffrey Palmer, Harry Newell, Freddie Popplewell, Ludivine Sagnier, Theodore Chester, Rupert Simonian, George MacKay, Harry Eden, Patrick Gooch, Lachlan Gooch, Carsen Gray, Maggie Dence, Kerry Walker, Saffron Burrows (narração).
Roteiro: P.J. Hogan e Michael Goldenberg, com base na peça de J.M. Barrie. Produção: Lucy Fisher, Patrick McCormick e Douglas Wick. Fotografia: Donald McAlpine. Edição: Garth Craven, Michael Kahn e Paul Rubell. Direção de Arte: Roger Ford. Figurinos: Janet Patterson. Música: James Newton Howard.

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ENCANTADORA DE BALEIAS

Há muitos filmes que conquistam o público por sua capacidade de encantamento. Filmes pequenos, que vencem pela beleza de suas peculiaridades, pela simplicidade de sua narrativa, pelo cuidado com cada detalhe singelo. A Encantadora de Baleias é um desses filmes. A delicadeza da história – e da condução da história – que o filme se propõe a contar garantiu uma bem-sucedida carreira em festivais espalhados pelo mundo, inluindo a Mostra de São Paulo, e citações em algumas das principais premiações dos críticos de cinema norte-americanos. O roteiro que apresenta a vida da garota maori destinada a ser a líder de sua aldeia, enfrentando a perseguição das tradições, conquistou platéias sobretudo pela encantadora performance da pequena Keisha Castle-Hughes (que conseguiu o imenso feito de ser indicada ao Oscar de melhor atriz aos 13 anos), numa interpretação capaz de verter lágrimas o mais durão dos durões. O filme nos revela uma cultura distante, com rituais e misticismos bem particulares, uma infinidade de códigos de conduta e, com capricho na composição das cenas externas, nos leva a uma jornada de superação. Mas o doce da narrativa do longa neozelandês esconde um sabor amargo.

A Encantadora de Baleias se estrutura numa soma de fórmulas cujo adjetivo mais educado para designá-las seria “gastas”. Chavões simpáticos, emocionais e francamente manipuladores. Vende sua história pelo exótico, o exótico alegórico, diga-se, de uma tribo que luta mostrando a língua, de um povo que vive em paisagens paradisíacas com uma relação de dependência com suas vizinhas baleias. Antropologia barata. O filme ancora no inegável talento para o drama e despojamento da pequena protagonista para montar um roteiro que recorre a estereótipos universais para abordar temas exaustos. O pai turrão, o filho artista, a mãe forte, o irmão bobo, a menina prodígio. Todos são figuras arquetípicas tão desgastadas que, trocados os atores por nomes ocidentais e as locações pelas de uma pequena cidade no litoral norte-americano, o roteiro poderia ter sido filmado com tranqüilidade nos Estados Unidos. Os maori daqui poderiam ser os índios sioux, os pescadores da costa brasileira, os moradores de uma vila japonesa ou até os esquimós de algum iglu do Ártico. O que importa – e diferencia – nesse longa é o quão exótico ele possa parecer. Utilizar-se de uma criança de grande capacidade dramática é um recurso tão maniqueísta quanto usar quadros imensos e demorados para enfatizar a vastidão onírica e bucólica das inabitadas praias neozelandesas. A Encantadora de Baleias engana fácil os ingênuos, os puros de coração, os sensíveis, os amantes da delicadeza com sua pretendida aura de filme de arte, construída com um empenho digo de boa nota pelo roteiro e pela direção. É uma história singela que esconde muito bem as intenções financeiras de seus realizadores.

A Encantadora de Baleias
Whale Rider, Nova Zelândia/Alemanha, 2002
Direção e Roteiro: Niki Caro, baseado na novela de Witi Ihimaera.
Elenco: Keisha Castle-Hughes, Rawiri Paratene, Vicky Haughton, Cliff Curtis, Grant Roa, Mana Taumaunu, Rachel House, Taungaroa Emile, Tammy Davis, Mabel Wharekawa, Rawinia Clarke.
Produção: John Barnett, Frank Hübner e Tim Sanders. Fotografia: Leon Narbey. Edição: David Coulson. Direção de Arte: Grant Major. Figurinos: Kristy Cameron. Música: Lisa Gerrard.

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Encontros e Desencontros

Bill Murray, Scarlett Johansson

Nada como tempo para pagar as dívidas. Sofia Coppola teve muita coragem de continuar sua trajetória no cinema depois do massacre a que foi submetida no início de sua carreira, ainda como atriz. Em 1990, a crítica, que já tinha decidido que Francis Ford Coppola não tinha necessidade de continuar sua saga de mafiosos, destruiu O Poderoso Chefão – 3ª Parte, culpando justamente o desempenho de Sofia como Mary Corleone ao suposto fracasso artístico do filme. As reações jogaram Sofia Coppola num limbro de quase uma década, que terminou apenas com sua estréia como diretora. As Virgens Suicidas (99) é um filme sensível e forte que conquista pela delicadeza com que apresenta uma história tão triste. O segundo trabalho da cineasta é igualmente surpreendente. Se o longa de estréia aposta num cinema independente quase clássico, Encontros e Desencontros mostra é um filme extremamente contemporâneo na maneira de filmar e nas discussões que desperta.

Para começar, Sofia escolhe uma dupla inusitada: um Bill Murray, que a cada ano que passa ganha cada vez mais o status de ator cult, e uma inspiradíssima Scarlett Johansson, uma menina que confirma um enorme talento numa boa seqüência de filmes independentes. Os dois são os protagonistas de um encontro num hotel em Tóquio. Chegam insatisfeitos com o que são, o que fazem e com quem estão e encontram, um no outro, pousos interessantes pelos quais deixam se envolver. Sofia Coppola usa o artifício da deserção – ainda que temporária – para desestabilizar seus personagens. O Japão desconhecido para ambos, no entanto, é o grande senão do filme porque é apresentado de uma maneira ingenuamente preconceituosa e não raramente patética. No entanto, o cenário reforça a necessidade de identificação que os protagonistas perseguem.

O melhor do filme é que Coppola não cria uma simples história de amor. Mas uma história de encontro. De duas pessoas que, num determinado momento de suas vidas, estavam juntas no mesmo lugar. Não há exigência de redenção ou revolução, mas apenas a procura de tranqüilidade passageira e conforto. Encontros e Desencontros é assustadoramente real – e pertubador – quando mostra que chega uma hora em que não dá pra disfarçar a insatisfação dentro de nós mesmos. Bill Murray, um ator normalmente associado a um tipo de personagem, tem diversificado suas personagens, processo que teve seu ápice no ótimo Três é Demais (98), de Wes Anderson, e que ganha espaço neste filme, mas o destaque absoluto na área das interpretações é de Scarlett Johansson, que está simplesmente perfeita como a menina inteligente que descobriu que casou com um idiota – e procura aquele algo mais que nunca consegue alcançar. No personagem de Murray, um ator famoso que ganha a vida com comerciais de whisky ela encontra um possível parceiro. Não um parceiro sexual ou amoroso, mas um amigo, um cúmplice. A cena final, ao som da maravilhosa Just Like Honey, hino do The Jesus and Mary Chain, reforça essa cumplicidade com o sussurro. Um segredo que nem eu e nem você precisamos saber.

Encontros e Desencontros EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Lost in Translation, Sofia Coppola, 2003]

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DOGVILLE

Dois dos meus melhores amigos viram Dogville antes de mim. Uma comparou a personagem de Nicole Kidman a Jesus Cristo, pela capacidade de abstração e, numa linguagem mais direta, de perdão. Exagero? Acho que não. O outro ressaltou o humanismo que o filme exala, o que superaria, na sua opinião, sua intenção clara de atacar a sociedade norte-americana. Exagero? Também não acredito. Demorei para elaborar um texto sobre o filme porque é difícil definir qual o maior dos sentimentos que o filme provoca. O último longa de Lars Von Trier é mais uma de suas polêmicas obras. Fazer polêmica é muito bom, todo mundo gosta, mas viver dela é realmente desesperador. O grande trunfo do cineasta dinarmaquês é que existe consistência nos seus filmes, mas sempre há algo a questionar.

Primeiro, a revolução. Lars Von Trier transborda criatividade, não há como duvidar. Ele cria uma cidade num galpão. As paredes das casas são marcas no chão onde atores encenam como num jogo de amarelinha. O resultado é de uma excelência visual encantadora, com uma câmera esperta, movimentada pelo próprio diretor, aproveitando detalhes, singelezas e, principalmente, atores. Os móveis espalhados pelo chão são as únicas referências tridimensionais para a encenação, o que exige um grande esforço dos atores. Este filme é deles. E há muitos bons atores aqui.

Lauren Baccall, desprovida da maquiagem que esconde sua idade, Harriet Andersson, provocando orgasmos para quem ama Gritos e Sussurros (72), e, mais que todas, Patricia Clarkson, que parece que está se tornando uma das maiores coadjuvantes do cinema atual. E há Paul Bettany. Num linha muito tênue entre a ingenuidade e a perversidade, o ator nos entrega um papel difícil de fazer – e muito bem feito. O conjunto de atores de Dogville funciona com exatidão. Mais exatidão que o filme. E mais exatidão que a protagonista. Não que seja culpa de Nicole Kidman, que é uma boa atriz.

O problema é o tratamento que sua personagem recebe do roteiro. A estranha fugitiva abrigada na cidade pequena passa por tantas provações impostas por seus moradores que começa a questionar se vale a pena se esconder. Mas não é bem assim. Não há questionamento. Há apenas o perdão e o perdão. Perdão que caminha para uma conclusão que não tem o tom do filme. Von Trier começa indagando a capacidade de aceitar o que vem de fora, o que é diferente, mostrando o poder de crueldade escondido em cada pessoa. E, além disso, a capacidade de resistência de cada um. Mas as três horas de filme, ou quase isso, nos trazem um final que parece um momento Pilatos do diretor. Um momento em que Von Trier joga os questionamentos pro alto e resolve não chegar a nenhuma conclusão.

O filme abdica de uma tomada de partido e isso é ruim para um filme que se pretende muito. Os filmes de Lars Von Trier, no geral, pretendem muito. O diretor, que lança uma anunciada revolução no cinema moderno e depois de fazer um filme (ruim, Os Idiotas 98) a manda sete palmos abaixo da terra, termina fácil, com a solução mais imediata para se resolver um problema. Se esse foi o único caminho para concluir a obra, qual o sentido de questionar – com tanta ênfase e tanto explendor visual – a ordem, as pessoas, o pensamento de uma sociedade inteira? Se o cineasta não termina seus questionamentos amarrando um desfecho para sua história, esse texto também não vai chegar a conclusão alguma. Apenas a de que Dogville fica em algum lugar do caminho.

P.S.: Dogville passou em cinema de multiplex, além do gueto das salas de arte. Definitivamente não era o local adequado. Pior que não ver tudo o que um filme tenta oferecer é assiti-lo ao lado de quem não sabe assistir cinema. Cerca de vinte pessoas levantaram do cinema no fim de tarde do sábado passado. Talvez não estivessem preparados para tanta experimentação, talvez quisessem apenas ver um filme da Nicole Kidman.

Dogville
Dogville, Dinamarca/Estados Unidos, 2003
Direção e Roteiro: Lars Von Trier.
Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Jeremy Davies, Ben Gazzara, Philip Baker Hall, Thom Hoffman, Siobhan Fallon, Zeljko Ivanek, Udo Kier, Chloë Sevigny, Stellan Skarsgård, Tilde Lindgren, John Randolph Jones, Cleo King, Miles Purinton, Bill Raymond, Shauna Shim, Evelina Brinkemo, Anna Brobeck, Evelina Lundqvist, Helga Olofsson e John Hurt (narração).
Produção: Vibeke Windeløv. Fotografia: Anthony Dod Mantle. Edição: Molly Marlene Stensgård. Direção de Arte: Peter Grant. Figurinos: Manon Rasmussen. Música: Vivaldi.

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O SENHOR DOS ANÉIS: O RETORNO DO REI

O dia era 31 de dezembro. Entre muitas discussões sobre para onde ir horas depois,
muitos adolescentes se preparavam para mais um filme com efeitos especiais. Eu, que já me afastei bastante da puberdade, apesar de as espinhas aparecem de vez em quando, me preparava para ver magia. Desde que A Sociedade do Anel estreou nos cinemas, eu – e mais um turbilhão de Peter Pans crescidos – descobri que Peter Jackson, o gordinho neozelandês que dirige a trilogia O Senhor dos Anéis – nasceu para costurar fábulas e torná-las em imagem e som.

Uma coisa é descrever terras distantes, seres mágicos, batalhas místicas, e deixar as imaginações férteis trabalhando. Outra é materializar todo um universo, com códigos, sistemas e personagens cheios de desdobramentos e possibilidades, respeitando a obra original e construindo verossimilhança, sem perder a magia. A missão de Peter Jackson era difícil e de sucesso pouco provável. Sucesso artístico, entenda-se. Mas o cineasta cumpriu seu papel em todos os prismas, do épico de batalhas grandiosas, da honra de cumprir uma missão à cumplicidade entre dois amigos.

O Retorno do Rei encerra uma saga. Ou várias. A saga de Frodo Bolseiro e seu melhor amigo – o melhor amigo que alguém poderia ter – Samwise Gangee para destruir uma arma do mal. A saga de Aragorn, o herdeiro de um trono tomado numa batalha sangrenta, para honrar o trono do pai. A saga de hobbits, magos, elfos, anões e homens com uma missão, com um propósito. Heróis cujos feitos muitas vezes passaram despercebidos porque eram apenas pequenas – ainda que fundamentais – partes de um objetivo maior. Sob esse prisma, toda a trilogia é bem velha, assim como são velhos o conceito de dignidade, de honra, de respeito e – o mais simples de todos – o de ser bom.

Tempos modernos. Foram eles que destruíram a beleza, a pureza. Que nos fizeram acreditar que heróis que matam são mais humanos ou mais críveis. Que falhas no caráter não somente devem ser aceitas e perdoadas, mas são provas de que sagacidade e perspicácia e capacidade de observação da realidade. Na minha época, as crianças voavam com seres alados, lutavam em ligas de justiça, combatiam as diferenças e aprendiam, brincando, o que deveria ser importante de verdade. Tem gente que não gosta de O Senhor dos Anéis. Tem gente que acha bobo, pueril. Eu gosto. Gosto muito. Talvez eu seja apenas um bobo, pueril. Talvez não. Talvez eu ache que acreditar na sua missão é coisa para um homem.

O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei
The Lord of The Rings: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003
Direção: Peter Jackson.
Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Viggo Mortensen, Ian McKellen, Andy Serkis, Billy Boyd, Dominic Monaghan, John Rhys-Davies, Orlando Bloom, Liv Tyler, Hugo Weaving, Miranda Otto, Sean Bean, Cate Blanchett, Bernard Hill, Ian Holm, Bruce Hopkins, Sarah McLeod, John Noble, Paul Norell, Thomas Robins, Harry Sinclair, Karl Urban, David Wenham.
Roteiro: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson, baseados na novela homônima de J.R.R. Tolkien. Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne e Fran Walsh. Fotografia: Andrew Lesnie. Edição: Jamie Selkirk (com Annie Collins). Direção de Arte: Grant Major. Figurinos: Ngila Dickson e Richard Taylor. Música: Howard Shore.

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