Monthly Archives: novembro 2003

CASSETA E PLANETA EM A TAÇA DO MUNDO É NOSSA

Não. Eu nunca fui muito fã.

Claro que já dei umas boas risadas.

É, preferia o TV Pirata.

Acho, às vezes eles exageram na baixaria.

Sim, gostei do filme.

É bom deixar claro que Casseta e Planeta – A Taça do Mundo é Nossa não se escora na fórmula do programa de TV: uma piada depois da outra. O filme procura contar uma história (a do roubo da taça Jules Rimet), o que já é grande coisa no mundo da comédia. As piadas surgem naturalmente no texto, que muitas vezes consegue ser bem engraçado. O humor é o de sempre, nem um pouco refinado, mas com tiradas interessantes e algumas vezes até bem inteligentes. A ponta de Woody Allen, a e o debate depois do filme são momentos hilários. No resto, algum riso e muita alegria no salão. Ver a turma em película dá literalmente um novo tom às desventuras do grupo. Vê-los todos numa mesma história traz uma lembrança agradável à memória: os Trapalhões. O cartaz do filme, com todos os humoristas em versão quadrinhos, parece homenagem aos quatro reis das bilheterias brasileiras. E, querendo ou não, o Casseta e Planeta é uma espécie de versão atual do quarteto. Versão atual que faz humor negro e de duplo sentido em pleno horário nobre da rede de TV mais tradicional do país. É esse sarcasmo, misturado com uma certa ingenuidade da época da militância política nos anos 70, que faz o filme acertar seu alvo. Bussunda, perfeito na caracterização do revolucionário Wladimir Illitch Stalin Tse Tung Guevara, e Marcelo Madureira, como a mulher do general, são os destaques do elenco de mais uma produção das Organizações Tabajara. Se A Taça do Mundo é Nossa vira facilmente memória distante depois que o espectador sai do cinema, rende umas boas risadas até chegar lá.

Casseta e Planeta – A Taça do Mundo é Nossa
Casseta e Planeta – A Taça do Mundo é Nossa, Brasil, 2003.
Direção: Lula Buarque de Hollanda.
Elenco: Bussunda, Hélio de la Peña, Hubert, Reinaldo, Beto Silva, Cláudio Manoel, Marcelo Madureira, Maria Paula, Carlos Alberto Torres, Jairzinho, Deborah Secco, Toni Tornado.
Roteiro: Bussunda, Hélio de la Peña, Hubert, Reinaldo, Beto Silva, Cláudio Manoel, Marcelo Madureira. Produção: Leonardo Monteiro de Barros, Manfredo Barreto Garmatter, Lula Buarque de Hollanda e Breno Silveira. Música: André Moraes. Fotografia: Adriano Goldman. Edição: Sérgio Mekler. Direção de Arte: Gualter Pupo. Figurinos: Cláudia Kopke.

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INTRIGA INTERNACIONAL

Eu nunca sei escrever sobre um filme de que eu gosto muito. É o caso aqui. Não sei bem o que falar sobre Intriga Internacional. Posso dizer que ele é o equilíbrio exato entre diversão, técnica e conteúdo. Posso escrever aqui também que a direção de atores é perfeita e que o sarcasmo do diretor aparece em todas as falas de Cary Grant, ancorado por coadjuvantes impagáveis, como a doce e duvidosa Eva Marie Saint, o cínico e cerebral James Mason, o macabro Martin Landau ou a deliciosa Jessie Royce Landis, que merecia ter concorrido ao Oscar. Posso falar ainda que tem uma das seqüências mais espetaculares da história do cinema (a da perseguição no milharal). Melhor não. Se eu tivesse escrito ou falado isso tudo, eu teria usado muitos adjetivos. E texto com excesso de adjetivos prejudica a assimilação da informação, que fica bastante questionável.

Talvez seja melhor dizer que o filme talvez tenha sido a minha melhor Sessão da Tarde (…sim, eu vi Intriga Internacional, assim como O Pecado Mora ao Lado (55), na sessão vespertina da Rede Globo – no tempo em que isso significava diversão bem feita e inteligente). Mas seria muito saudosismo e me acusam muito aqui de usar a memória afetiva para falar dos filmes. Bem, eu não me envergonho nem um pouco de ser nostálgico, nem acho que nos meus comentários pessoais – afinal, ninguém está me pagando nada – eu precise ser conciso, correto, objetivo e imparcial. Mas melhor eu não despertar discussões por esse prisma também. Então, o que eu devo escrever sobre Intriga Internacional? Será que seria o caso de lembrar da câmera espertíssima de Alfred Hitchcock. Mas o cara fez Janela Indiscreta e tem aquele plano da escada do Psicose. É, acho que esse não é o caminho.

Acho então que eu vou mais é ficar calado. Até porque o Hitchcock não precisa de nenhum texto para falar que seus filmes são bons. E Intriga Internacional, pela trama, pelos atores, pela direção, é muito mais que bom, é genial. Olha, vou ficar devendo…

Intriga Internacional
North by Northwest, EUA, 1959.
Direção e Produção: Alfred Hitchcock.
Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, Martin Landau, James Mason, Jessie Royce Landis, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson, Philip Ober, Adam Williams, Edward Platt, Robert Ellenstein, Les Tremayne, Philip Coolidge, Alfred Hitchcock.
Roteiro: Ernest Lehman. Música: Bernard Herrmann. Fotografia: Robert Burks. Edição: George Tomasini. Direção de Arte: Robert F. Boyle.

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O AMOR CUSTA CARO

Há exatos vinte anos, dois irmãos resolveram estrear juntos no cinema. Joel e Ethan Coen levaram às telas o hoje cult Gosto de Sangue e entraram para a história do cinema indie norte-americano. Despreocupados com exigências de mercado, sempre tiveram resultados acima da média. Vieram comédia malucas (Arizona Nunca Mais, 87), noirs sofisticados (Barton Fink, 90) e filmes recheados de humor negro (Fargo, 96). O grande público nunca foi o alvo ou a intenção da dupla, que nunca deixou de atrair nomes famosos para o elenco de seus longas. George Clooney, por exemplo, foi o protagonista de E Aí Meu Irmão, Cadê Você (00), brincadeira deliciosa com as comédias burlescas dos anos 30.

Outra parceria com Clooney marca justamente o primeiro namoro sério dos irmãos Coen com o cinema mais comercial. O Amor Custa Caro, embora apresente um roteiro de fácil apelo popular, está longe de ser um filme feito para fazer dinheiro. Inspirado nas comédias de gata e rato estreladas por Cary Grant e Katherine Hepburn (ou pela senhora Hepburn e mais alguém), o longa mostra a história de idas e vindas entre o esperto advogado vivido por Clooney (incrivelmente imbuído do espírito de Grant) e uma (surpreendentemente boa) Catherine Zeta-Jones, cada vez mais bonita, na pele de uma caçadora de fortunas de ex-maridos.

As referências às comédias antigas conseguem ser incorporadas com eficácia ao humor mais atual, diferentemente do que acontece com Abaixo o Amor, que parece perdido no tempo. A principal diferença entre O Amor Custa Caro e os filmes que guardam semelhanças com ele é o texto, deliciosamente bem escrito e com reviravoltas bem estruturadas (contra a bobagem Bem Me Quer, Mal Me Quer). Outro ponto a favor é que todo mundo parece estar se divertindo tanto na tela que fica impossível não entrar no mesmo barco. O flerte do Coen com o cinema mais comercial teve bons resultados: atores mais caros e uma produção mais farta entrou em cena. A seqüência de abertura, muito boa, denuncia o que vem por aí: uma brincadeira entre os limites do que é inteligente e do que é popular.

O Amor Custa Caro
Intolerable Cruelty, EUA, 2003.
Direção: Joel Coen.
Elenco: George Clooney, Catherine Zeta-Jones, Billy Bob Thornton, Geoffrey Rush, Cedric the Entertainer, Edward Herrmann, Paul Adelstein, Richard Jenkins, Julia Duffy, Jonathan Hadary, Tom Aldredge, Stacey Travis, Jack Kyle, Irwin Keyes.
Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, Robert Ramsey e Matthew Stone, baseado em história de Ramsey, Stone e John Romano. Produção: Ethan Coen e Brian Grazer. Música: Carter Burwell. Fotografia: Roger Deakins. Edição: Roderick Jaynes (Joel e Ethan Coen). Direção de Arte: Leslie McDonald. Figurinos: Mary Zophres.

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MEU TEMPO É HOJE – PAULINHO DA VIOLA

Chegou a hora de pensar pra que serve mesmo um documentário. Hoje em dia, parece que documentário é bombril, utilidade não falta. Quer dar sua opinião sobre uma coisa, faça um documentário (Tiros em Columbine, Michael Moore, 2002). Quer contar uma história, faça um documentário (A Captura dos Friedman, Andrew Jarecki, 2003). Quer fazer uma homenagem, faça um documentário (Buena Vista Social Club, Wim Wenders, 1999). Este filme de Izabel Jaguaribe é do último tipo. Meu Tempo é Hoje é uma homenagem carinhosa a Paulinho da Viola, sem dúvida um dos maiores compositores da música brasileira. E, nos moldes do longa sobre os esquecidos cubanos, tenta recuperar a história, a música de Paulinho da Viola.

A estrutura quer ser descompromissada, conduzida com brincadeira e informalidade, mas existe uma visível produção de praticamente quase todas as cenas mostradas. Da conversa com a família à visita à livraria, que abre o filme, tudo é programado. Isso sem falar nos clipes que permeiam o documentário. Isso parece um defeito – e é. Mas alguma coisa acontece no coração quando se assiste ao filme. Talvez seja a encantadora figura que é Paulinho da Viola, talvez seja sua maravilhosa obra. Eu realmente não sei. Apenas posso dizer que passei noventa minutos esperando pra ouvir Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida, que, destino reservado aos hinos, só aparece no final. E até chegar lá foi lembrar das viagens para casa do meu avô, dos discos antigos, de como o samba podia ser mágico quando ainda era samba. Então, suportar a prisão inventiva do roteiro assinado por Zuenir Ventura ou o comodismo estético de um programa do GNT foi fácil. Porque existia um grande herói na tela. E foi delicioso continuar com ele até o final.

Meu Tempo é Hoje – Paulinho da Viola
Meu Tempo é Hoje – Paulinho da Viola, Brasil, 2003.
Direção: Izabel Jaguaribe.
Elenco: Paulinho da Viola, Marisa Monte, Zeca Pagodinho, Zuenir Ventura, Amélia Rabello, Elton Medeiros, Marina Lima, Nelson Sargento.
Roteiro: Izabel Jaguaribe, Zuenir Ventura e Joana Ventura. Produção: Beto Bruno, Mauricio Andrade Ramos e Videofilmes. Fotografia: Flávio Zangrandi. Edição: Joana Ventura e Izabel Jaguaribe.

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BEM ME QUER, MAL ME QUER

Chega, né? Tá bom de achar que filme francês sempre é melhor do que o resto do que é produzido no mundo. Bem Me Quer, Mal Me Quer é o exemplo claro de que nem tudo que reluz vem da terra de Godard. A fórmula é a seguinte: pegamos uma história de amor doentio e colocamos uma reviravolta na trama. Como é filme francês, todo mundo vai achar que foi um golpe genial. Podemos nos aprofundar nas maluquices que o amor faz Audrey Tautou cometer. Isso deixa o filme com ares de estudo psicológico, o que é muito importante, talvez até necessário, para o cinema francês. Tautou no elenco, por sinal, é outra jogada de mestre. Vendemos o filme como uma deliciosa comédia romântica ou um simples filminho de amor para que o espectador chegue ao cinema despreparado para o que vai ver na tela. A Amélie Poulain é um disfarce maravilhoso. Marketing é o segredo.

Mas deixa eu te contar um segredo: Bem Me Quer, Mal Me Quer é muito ruim. Ruim porque a psicologia do filme é mais barata do que pãozinho francês dormido. Psicologia de botequim. A primeira parte do filme é tão mal escrita e desleixada que chega a irritar. Personagens ocos e rasos e nenhum aprofundamento na loucura, o que pretende ter. Os risíveis buracos no roteiro feitos para que a reviravolta chegue toda amarradinha são de amargar. É só prestar atenção. Tautou, boa atriz nas horas vagas, esqueceu de que o clichê pode enterrar uma reputação. Está totalmente previsível em suas passagens da fofinha à louquinha. O filme da diretora estreante Laetitia Colombani tem um problema muito grande e cada vez mais repetitivo: querer ser importante. Isso, quase sempre, estraga tudo.

Bem Me Quer, Mal Me Quer
À la folie… pas du tout, França, 2002.
Direção: Laetitia Colombani.
Elenco: Audrey Tautou, Samuel Le Bihan, Isabelle Carré, Clément Sibony, Sophie Guillemin, Eric Savin, Michèle Garay, Elodie Navarre, Catherine Cyler, Mathilde Blache, Charles Chevalier, Michael Mourot, Yannick Alnet.
Roteiro: Laetitia Colombani e Caroline Thivel. Produção: Charles Gassot. Música: Jérôme Coullet. Fotografia: Pierre Aïm. Edição: Véronique Parnet. Direção de Arte: Jean-Marc Kerdelhue. Figurinos: Jacqueline Bouchard.

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BLAME CANADA: O CINEMA DE HOJE NO PAÍS GELADO

O cinema canadense nunca foi forte como conjunto, mas sempre gerou bons diretores. Foi lá que surgiram David Cronenberg, Denys Arcand e Atom Egoyan, por exemplo. Desta lista curta, os dois últimos nomes chegaram aos cinemas brasileiros recentemente com seus mais novos títulos. O primeiro deles foi o egípcio Egoyan, autor do belo e gélido O Doce Amanhã (97), que resolveu desta vez contar parte da história da Armênia. Ararat mostra um cineasta que recria para o cinema o genocídio de seu povo, entre 1915 e 1918. O filme dentro do filme é um recurso antigo e desgastado, mas a inteligência do roteiro do próprio Egoyan traz para a vida real os dramas do estúdio, numa estrutura que revela os personagens aos poucos e seduz como filme de suspense. De Christopher Plummer, como o funcionário da alfandêfaga com moral inabalável, a Elias Koteas, o ator com o racismo incrustrado, o elenco é surpreendente. O protagonista David Alpay talvez seja a maior dessas surpresas. Carrega um papel difícil com competência e discrição, coisa cada vez mais rara no cinema atual, quando o histrionismo é visto como talento corajoso. Ararat se diferencia do cinema político feito hoje porque não centra fogo numa mensagem, mas na história que a transmite.

O novo filme de Denys Arcand dividiu opiniões. Ótimo. Melhor do que ser unânime. As Invasões Bárbaras recupera as histórias dos personagens do filme mais famoso do diretor, O Declínio do Império Americano (86), que ainda permanece inédito para mim. A princípio, o filme mostra a reaproximação de pai e filho diante da iminente morte do primeiro. O clichê é deixado de lado porque Arcand usa sua sinopse para falar do mundo atual e dizer que hoje não há espaço para as ideologias grandiosas que dominavam o planeta há algumas décadas. Os personagens do filme chegam à conclusão de que muitos de seus ideais, defendidos durante anos e anos, soam tão pueris que viraram fumaça frente a uma nova ordem mundial e frente à morte. Não há ranço para com as grande utopias, há apenas um gradativo processo de desamor, desses que acontecem quando você deixa de amar alguém que você amava muito. A ironia do texto, sempre bem afiado, reforça a certeza de que o mundo mudou e a gente tem mais é que aceitar isso. Gargalhadas e garganta seca não faltam e Arcand, inteligente manipulador do seu espectador, sabe mudar de tom com rapidez e elegância. As referências sarcásticas aos Estados Unidos são de fazer corar um certo Michael Moore, que precisa gritar para chamar atenção. As Invasões Bárbaras não defende o comodismo, aposta na esperteza na hora de defender suas convicções.

Ararat
Ararat, Canadá/França, 2002.
Direção e Roteiro: Atom Egoyan.
Elenco: David Alpay, Arsinée Khanjian, Christopher Plummer, Charles Aznavour, Marie-Josée Croze, Eric Bogosian, Brent Carver, Bruce Greenwood, Elias Koteas, Simon Abkarian, Lousnak, Raoul Bhaneja.
Produção: Atom Egoyan e Robert Lantos. Música: Mychael Danna. Fotografia: Paul Sarossy. Edição: Susan Shipton. Direção de Arte: Phillip Barker. Figurinos: Beth Pasternak.

As Invasões Bárbaras
Les Invasions Barbares, Canadá/França, 2003.
Direção e Roteiro: Denys Arcand.
Elenco: Rémy Girard, Stéphane Rousseau, Dorothée Berryman, Louise Portal, Dominique Michel, Yves Jacques, Pierre Curzi, Marie-Josée Croze, Marina Hands, Toni Cecchinato, Mitsou Gélinas, Sophie Lorain, Johanne-Marie Tremblay, Denis Bouchard.
Produção: Daniel Louis e Denise Robert. Música: Pierre Aviat. Fotografia: Guy Dufaux. Edição: Isabelle Dedieu. Direção de Arte: François Séguin. Figurinos: Denis Sperdouklis.

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MOSTRA DE SÃO PAULO – PARTE UM

A noite de sábado terminou com um homem exausto. Depois de uma maratona de cinco longa-metragens – e mais dois curtas – só o sono para renovar as forças. Os dois últimos filmes do dia apresentaram resultados bastante irregulares. O primeiro veio das terras frias. Histórias de Cozinha é um daqueles filmes que aposta na delicadeza para construir uma boa história. O filme viaja até os anos 50 para mostrar os resultados de uma experiência bem original: a observação dos passos de um homem solteiro dentro de sua própria cozinha. O resultado garantiu um prêmio de direção para o cineasta Bent Hamer, uma conquista um tanto excessiva para o trabalho.

Hamer usa a direção de arte, ao mesmo tempo simples e estilizada, e música, doce e envolvente, para mostrar a aproximação do observado e do observador. A tática é vencer pelo encantamento, mas existe um pequeno problema aqui: a condução do longa é completamente fria. E isso vai de encontro ao calor pretendido pelo filme. As cenas são estudadas, ensaiadas, programadas e a ação, propositadamente lenta, acontece sem força. Os atores têm bons desempenhos, mas os personagens estão presos a fórmulas desgastadas apesar do clima de filme europeu. Em alguns momentos, o cineasta se aproxima de sua intenção inicial e garante cenas bonitas, como a do trailer levado pelo trator, mas no geral os clichês estão presentes em todas as partes. É inegável que o filme exala simpatia e que consegue ser eficaz no geral, mas isso é pouco mesmo para um filme que quer ser uma pérola.

Mudando de bacalhau para sushi, o primeiro – e único contato até agora – com o cinema de Kiju Yoshida, o Godard japonês, foi decepcionante. A sinopse de Mulheres no Espelho prometia bastante: mulher cuja filha sumiu há vinte e tantos anos descobre que ela pode estar bem próxima. É a deixa para Yoshida traçar um painel sobre a identidade, que sofre por uma série de problemas. O primeiro é que existe uma tentativa de forçar a pulsão psicológica do filme, que ganha símbolos batidos como um espelho quebrado e uma trilha sonora completamente despropositada. O segundo, e talvez o pior, é que Yoshida cria uma história que se torna implausível nos dias de hoje: existe uma dúvida de maternidade no país mais tecnológico do mundo e se passam dias e semanas sem ninguém fazer – e com todo mundo falando sobre – um exame de DNA. O cineasta/roteirista tenta justificar sua narrativa com injeções de suspense em atalhos da trama que não têm a mínima influência no conjunto final. Existe uma certa artificialidade nas interpretações que parece ser intencional. A plástica é bonita, mas quando recorre a lugares comuns – o que num filme japonês fica disfarçado pelo modo de filmar -, Yoshida estraga sua boa idéia. Seu mérito é ter feito uma das mais belas cenas dos últimos tempos: a reconstrução dos efeitos da bomba atômica em Hiroshima numa seqüência original e extasiante. Mas nem isso salva o filme…

Histórias de Cozinha
Salmer fra kjøkkenet, Noruega/Suécia, 2003
Direção: Bent Hamer.
Elenco: Joachim Calmeyer, Tomas Norström, Bjørn Floberg, Reine Brynolfsson, Leif Andrée, Trond Brænne, Gard B. Eidsvold, Lennart Jähkel, Sverre Anker Ousdal.
Roteiro e Produção: Jörgen Bergmark e Bent Hamer. Produção: Jeremy Thomas. Fotografia: Philip Øgaard. Edição: Pål Gengenbach. Direção de Arte: Billy Johansson. Figurinos: Jacqueline Durran. Música: Hans Mathisen.

Mulheres no Espelho
Kagami no Onnatachi, Japão/França, 2002
Direção e Roteiro: Kiju Yoshida.
Elenco: Mariko Okada, Yoshiko Tanaka, Sae Isshiki, Hideo Morota, Tokuma Nishioka, Mirai Yamamoto, Miki Sanjo, Hiroshi Inuzuka.
Produção: Philippe Jacquier, Takumi Ogawa, Yutaka Shimomura e Shinichi Takata. Fotografia: Masao Nakabori. Edição: Hiroaki Morishita e Kiju Yoshida. Direção de Arte: Kyôko Heya. Figurinos: Jacqueline Durran. Música: Keiko Harada e Mayumi Miyata.

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Albergue Espanhol

Cédric Klapisch é o autor de pelo menos um filme delicioso. O Gato Sumiu, estrelado por Garance Clavel, mostra que a procura pelo bichano perdido pode resultar numa busca muito maior. Klapisch usa seu poder de convencimento para falar de assuntos sérios de uma maneira bem popular em se tratando de cinema francês. O mais novo trabalho do cineasta utiliza o mesmo método para questionar os efeitos da criação da União Européia e discutir o conceito de identidade. Parece chato, mas não é. Albergue Espanhol é um dos filmes mais pop do ano. Começa com a viagem de um jovem francês para a Espanha, onde vai fazer faculdade, e se desenvolve numa casa onde o protagonista passa a morar com outros cinco estudantes de nacionalidades diversas. Klapisch elabora, então, uma comédia de costumes que, se tivesse sido dirigida nos Estados Unidos, poderia ter se tornado um daqueles filmes teen de conteúdo sexual elevado.

Mas a condução do diretor faz de Albergue Espanhol um filme importante para se entender o papel que o indivíduo e sua cultura ocupam diante do mundo globalizado. A língua, os hábitos, o modo de se comportar diante dessa ou daquela situação perdem a importância numa época em que os limites geográficos estão cada vez mais presos em mapas e distantes da realidade. Xavier, o protagonista, tem que catalisar todas as informações que estão a sua volta e processar um modo de agir, pensar e falar universal e único.

O principal trunfo do filme é fazer com que o espectador adote a república como sua família. Para isso, o diretor usa o humor inteligente (ancorado em recursos de linguagem modernos e usados com parcimônia), muitas vezes hilariante, e a emoção espontânea, cativando pela delicadeza da relação que se estabelece entre os amigos (e ampliado pela insistência melancólica da mais bela música do Radiohead, No Surprises). O elenco, por sinal, sem nomes famosos (Audrey Tautou faz pouco mais que uma ponta), está afiado, com um conjunto de interpretações que, se não são excelentes individualmente, funcionam plenamente quando integradas. Klapisch traça, com graça, um painel de uma Europa cada vez mais ciente de suas diferenças.

Albergue Espanhol EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[L'Aubergue Espagnole, Cédric Klapisch, 2002]

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MOSTRA DE SÃO PAULO – PARTE TRÊS

Nada como tempo para pagar as dívidas. Sofia Coppola teve muita coragem de continuar sua trajetória no cinema depois do massacre a que foi submetida no início de sua carreira, ainda como atriz. Em 1990, a crítica, que já tinha decidido que Francis Ford Coppola não tinha necessidade de continuar sua saga de mafiosos, destruiu O Poderoso Chefão – 3ª Parte, culpando justamente o desempenho de Sofia como Mary Corleone ao suposto fracasso artístico do filme. As reações jogaram Sofia Coppola num limbro de quase uma década, que terminou apenas com sua estréia como diretora. As Virgens Suicidas (99) é um filme sensível e forte que conquista pela delicadeza com que apresenta uma história tão triste. O segundo trabalho da cineasta é igualmente surpreendente. Se o longa de estréia aposta num cinema independente quase clássico, Encontros e Desencontros mostra é um filme extremamente contemporâneo na maneira de filmar e nas discussões que desperta.

Para começar, Sofia escolhe uma dupla inusitada: um Bill Murray, que a cada ano que passa ganha cada vez mais o status de ator cult, e uma inspiradíssima Scarlett Johansson, uma menina que confirma um enorme talento numa boa seqüência de filmes independentes. Os dois são os protagonistas de um encontro num hotel em Tóquio. Chegam insatisfeitos com o que são, o que fazem e com quem estão e encontram, um no outro, pousos interessantes pelos quais deixam se envolver. Sofia Coppola usa o artifício da deserção – ainda que temporária – para desestabilizar seus personagens. O Japão desconhecido para ambos, no entanto, é o grande senão do filme porque é apresentado de uma maneira ingenuamente preconceituosa e não raramente patética. No entanto, o cenário reforça a necessidade de identificação que os protagonistas perseguem.

O melhor do filme é que Coppola não cria uma simples história de amor. Mas uma história de encontro. De duas pessoas que, num determinado momento de suas vidas, estavam juntas no mesmo lugar. Não há exigência de redenção ou revolução, mas apenas a procura de tranqüilidade passageira e conforto. Encontros e Desencontros é assustadoramente real – e pertubador – quando mostra que chega uma hora em que não dá pra disfarçar a insatisfação dentro de nós mesmos. Bill Murray, um ator normalmente muito chato, tem evoluído, processo que teve seu ápice no ótimo Três é Demais (98), de Wes Anderson, e que ganha espaço neste filme, mas o destaque absoluto na área das interpretações é de Scarlett Johansson, que está simplesmente perfeita como a menina inteligente que descobriu que casou com um idiota – e procura aquele algo mais que nunca consegue alcançar. No personagem de Murray, um ator famoso que ganha a vida com comerciais de whisky ela encontra um possível parceiro. Não um parceiro sexual ou amoroso, mas um amigo, um cúmplice. A cena final, ao som da maravilhosa Just Like Honey, hino do The Jesus and Mary Chain, reforça essa cumplicidade com o sussurro. Um segredo que nem eu e nem você precisamos saber.

Encontros e Desencontros
Lost in Translation, EUA, 2003
Direção e Roteiro: Sofia Coppola.
Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Akiko Takeshita, Kazuyoshi Minamimagoe, Kazuko Shibata, Take, Ryuichiro Baba, Akira Yamaguchi, Catherine Lambert, François du Bois, Yutaka Tadokoro, Tetsuro Naka, Fumihiro Hayashi, Hiroko Kawasaki, Daikon, Anna Faris.
Produção: Sofia Coppola e Ross Katz. Fotografia: Lance Acord. Edição: Sarah Flack. Direção de Arte: K.K. Barrett e Anne Ross. Música: Brian Reitzell, Kevin Shields e William Storkson (música adicional). Figurinos: Nancy Steiner.

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MOSTRA DE SÃO PAULO – PARTE QUATRO

Um fim de semana não é tempo suficiente para se ter acesso a uma quantidade decente de filmes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ainda mais quando este fim de semana é o primeiro da repescagem. Mas a gente tem que aproveitar o que se tem. E dez filmes em dois dias, por mais que seja cansativo e desgastante, faz valer a pena uma viagem de avião apenas para ver a Mostra. Na sexta-feira, não houve tempo para fazer nada além de rever, já entrando pela madrugada, os grandes amigos que ficaram na cidade e para matar a saudade da esquina da Paulista com a Augusta. No sábado, fila no início da tarde. Lembrança desagradável de que paulista adora fila. Enfim… a Mostra sem fila não é a Mostra.

O primeiro filme do dia veio da Escócia. Combinava bem com o frio que tomava São Paulo em pleno novembro. O Jovem Adam é o segundo longa-metragem do cineasta David Mackenzie, que leva às telas uma história tão gelada quanto a fotografia do filme. Ewan McGregor interpreta um homem que se refugia num barco que percorre o país, nos anos 50 ou 60, para se esconder de uma pequena tragédia. Nada muito original, mas a direção de Mackenzie explora o texto com uma frieza programada que muda o clima do filme. Isso é bom e é ruim. Se de um lado, a falta de emoção dos personagens deixa o longa mais interessante, o roteiro não consegue se sustentar bem por não apostar em nenhum caminho específico. Os bons atores nos dão boas interpretações, mas seus personagens não chegam a lugar nenhum. Peter Mullan, em papel pequeno e importante, é o grande ator do filme, que ganha muito com a tristeza da trilha de David Byrne, mas perde com a falta de intensidade de sua narrativa.

No ano passado, Tsai Ming-Liang apresentou Que Horas São Aí? no festival. O longa mostrava com habilidade o desencontro de um casal. Ela compra um relógio que ele vende numa passarela. Ela vai embora para Paris e o deixa apaixonado. Ele acerta as horas de todos os relógios que estão ao seu alcance para ficar perto dela do jeito que consegue. Neste ano, a Mostra exibiu um curta-metragem que continua a saga dos personagens do filme. Em A Passarela se Foi, a moça volta a Taipé para procurar o rapaz numa passarela que já não existe mais. O filme só tem consistência para quem viu o longa anterior. Não sobrevive sem ele. E é dispensável, mas a nostalgia dos personagens – e o amor de Ming-Liang pelo desencontro – deixam o curta nostálgico e bonito.

Lee Kang-Sheng, o ator de todos os filmes do cineasta apareceu na Mostra com sua estréia na direção. O maior problema de O Desaparecido é que ele é um filme de Tsai Ming-Liang. A câmera, o roteiro e os personagens se comportam como em todos os filmes do diretor. A estética e a linguagem são idênticas. Os filmes de Ming-Liang são extremamente cansativos, inclusive fisicamente. Exaurem o espectador. Aqui, a lógica e o efeito são os mesmos. Não se percebe onde começa o trabalho de Kang-Sheng e onde termina a obra do seu mentor. O filme, que mostra a busca de uma avó por seu neto desaparecido, fica melhor quando é apenas uma lembrança, como acontece em O Rio, O Buraco ou Vive L’Amour, o melhor filme de Tsai Ming-Liang, um homem com uma obra bonita e importante, mas que poderia ser mais digerível. Só um pouquinho.

O curta Fragile tem um plot de assustar: mulher morre em acidente e pede um último dia a um anjo. Mas o cineasta paquistanês Sikander Goldau pega todos os clichês da proposta e os trabalha, um a um, parindo um filme bonito. A fotografia explode em filtros e a música cria um ambiente doce que conquista o espectador. O tema da despedida fica mais envolvente porque o roteiro não cede a concessões. Um bom exemplo de como os chavões podem funcionar de vez em quando.

Luzes Distantes é a síntese do cinema feito na Alemanha nos últimos anos. Um cinema de cunho social. Feito aos moldes dos filmes de Robert Altman, cruza as histórias de várias pessoas na Europa atual, enfocando a crise sócio-econômica-cultural no mundo. Há momentos inteligentes e bem intencionados, mas o clima geral é de mensagem – o que deixa o material comprometido. O elenco tem altos e baixos. O destaque é Zbigniew Zamachovski (o Karol Karol de A Igualdade é Branca), um taxista que luta para comprar o vestido da primeira comunhão da filhinha. O filme segue desequilibrado (primeiro, engajado e político demais; depois, envolvente e bem escrito), mas termina com um problema sério: defende o caos absoluto e a falta de esperança. Os desfechos de todas as histórias pretendem ser impactantes, mas o conjunto se torna ingênuo como um estudante universitário que grita alto para que seu protesto seja ouvido.

O Jovem Adam
Young Adam, Grã-Bretanha/França, 2003
Direção e Roteiro: David Mackenzie, com base na novela de Alexander Trocchi.
Elenco: Ewan McGregor, Tilda Swinton, Peter Mullan, Emily Mortimer, Jack McElhone, Therese Bradley, Ewan Stewart, Stuart McQuarrie, Pauline Turner, Alan Cooke, Rory McCann.
Produção: Jeremy Thomas. Fotografia: Giles Nuttgens. Edição: Colin Monie. Direção de Arte: Laurence Dorman. Figurinos: Jacqueline Durran. Música: David Byrne.

A Passarela se Foi
Le Pont N’est Plus Là/The Skywalk is Gone, Taiwan/França, 2003
Direção e Roteiro: Tsai Ming-Liang.
Elenco: Lee Kang-Sheng, Chen Shiang-Chyi.
Fotografia: Liao Peng-Jung.

O Desaparecido
The Missing, Taiwan/França, 2003
Direção e Roteiro: Lee Kang-Sheng.
Elenco: Lu Yi-Ching, Miao Tien, Chang Chea, Lin Hue-Ching, Huang Kuo-Chen, Lee Yi-Chen, Chen Tzai-ting, Qui Yi-Chea.
Prosução: Liang Hung-Chih. Fotografia: Liao Peng-Jung. Edição: Chen Chang-Sheng.

Fragile
Fragile, Alemanha/Paquistão, 2003
Direção e Roteiro: Sikander Goldau.

Luzes Distantes
Lichter, Alemanha, 2003
Direção: Hans-Christian Schmid.
Elenco: August Diehl, Maria Simon, Sebastian Urzendowsky, Devid Striesow, Zbigniew Zamachowski, Ivan Shvedoff, Sergei Frolov, Anna Yanovskaya, Alice Dwyer, Martin Kiefer, Tom Jahn, Devid Striesow, Claudia Geisler, Aleksandra Justa, Marysia Zamachowska, Janek Rieke, Julia Krynke, Herbert Knaup, Henry Hübchen.
Roteiro: Hans-Christian Schmid e Michael Guttman. Produção: Jakob Claussen e Thomas Wöbke. Fotografia: Bogumil Godfrejow. Edição: Bernd Schlegel e Hansjörg Weißbrich. Direção de Arte: Christian Goldbeck. Figurinos: Ulrike Scharfschwerdt. Música: Carles Cases.

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