Monthly Archives: agosto 2003

A Última Noite

A Última Noite

Era uma vez um país chamado… era uma vez um país sem nome. Os que criaram este país resolveram fazer todo mundo acreditar que o nome deste país era o nome do continente onde ele ficava. Eles foram convincentes. Tanto os que moravam neste país quanto os que estavam fora acreditaram nisso e passaram a chamar o país pelo nome que era de muitos outros. O povo deste país se acostumou a acreditar também que o país em que eles viviam era o melhor país do mundo, que existia uma espécie de energia inerente àquela terra, àquele povo, que era diferente e muito maior que as que existiriam além de seus limites territoriais. Eles cresceram e se reproduziram como fazem todos os povos e criaram uma aura de superioridade que poucos conseguiram e que muitos rebatem. E, como todas as auras são apenas auras, um dia um homem resolve mostrar para as pessoas daquele país invencível que um avião, ou três ou quatro, podem destruir um sonho.

Spike Lee nasceu nos Estados Unidos da América. E provavelmente tem orgulho disso. Como François Truffaut deveria ter orgulho da França, Takeshi Kitano deve ter orgulho do Japão e você deve ter orgulho do Brasil. Não é errado ter orgulho do país em que se nasceu. Mas é preciso ter uma coisa chamada parcimônia. Spike Lee nunca colocou sua origem espacial como questão central dos filmes que faz, mas sim sua raça, sua cor. Seus filmes, sempre muito bem elaborados e conscientizados, ganharam o mundo levantando a voz contra o racismo e a diferença de uma maneira geral. O tom, não raro, panfletário de seu discurso algumas vezes prejudicava sua mensagem, mas Lee assinou seu nome na lista dos grandes cineastas dos útimos anos. Mas de um tempo para cá, viu que poderia discutir temas com abragência muito maior. Temas muito mais universais.

No dia 11 de setembro de 2001, Spike Lee provavelmente ficou abalado. Não é fácil nem agradável ver dois aviões cheios de gente inocentes matando outros milhares de pessoas inocentes por qualquer causa que seja. Quem concorda com o assassinato porque qualquer motivo não merece respeito. Pelo menos o meu. Mas neste dia, Spike Lee e muitos outros norte-americanos – e muitos outros nova-iorquinos, sobretudo – começaram a questionar o país em que moram, o país em que cresceram e, mesmo discordando de tudo, o país que se acostumaram a ver como o maior país do mundo, o país da liberdade, o país do sonho. Martin Scorsese usou a desculpa de contar a história de Nova Iorque para dizer, pela boca do maior ator do mundo, que este mesmo mundo tem medo do país em que ele vive, em que ele mora, em que ele nasceu. Todd Haynes usou todas as cores bonitas do mundo para mostrar que o excesso de cor muitas vezes engana e esconde tons sombrios de um povo que se acostumou a uma concepção idealizada do que realmente é. Então, chegou a vez de Spike Lee.

Em 2002, Spike Lee foi o primeiro, ou um dos primeiros, a falar no cinema que as Torres Gêmeas caíram. Enquanto a poeira dos escombros de uma nação era recolhida para baixo de muitos tapetes, o cineasta resolveu fazer os espectadores de seu filme, que nunca são muitos, pensarem em como é absolutamente fake a idéia da reconstrução. Para isso, Spike Lee usou um artíficio antigo, mas, se usado com propriedade, muito eficiente, o da metáfora. Ele tomou para si um livro – e mais especificamente um personagem – para contar uma outra história americana. Edward Norton é os Estados Unidos. É a América. Uma tragédia acontece na sua vida e ela está prestes a escorrer pelo ralo. Na verdade, não há mais solução. Edward Norton se fodeu. A vida de mentira que ele construiu sobre bases inseguras, sobre colunas bambas, ruiu e ele se espatifou no chão. E percebeu como tudo estava tão errado e como era tão destruidor que o destino dele seria aquele mesmo. Como estava predestinado àquilo.

A Última Noite é um filme sobre reunir cacos. Sobre tentar se reerguer sem um terreno firme, sem material suficiente para apagar tudo e começar de novo. Sobre descarregar sua raiva no que se vê pela frente por querer ignorar que a culpa é sua. É sobre apontar a arma para todas as direções e nunca para você mesmo. Porque é errado se matar. Alguém já disse isso e muitos já fizeram. É errado se matar mesmo que você seja uma nação. Mesmo que você seja um povo inteiro. É muito melhor e muito mais fácil matar outras pessoas, outro que não seja você. E é muito mais fácil ainda brincar que nada existiu, arrumar uma nova vida, idealizar um novo começo, uma saída, uma solução. Imaginar que tudo pode ser diferente, que você pode olhar no espelho e enxergar uma barba bem feita em vez de um rosto destruído por socos, murros e pontapés. Spike Lee mostra isso e se retira para você chegar às suas próprias conclusões.

A Última Noite EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[25th Hour, Spike Lee, 2002]

Compartilhe!

3 Comments

Filed under Resenha

LARA CROFT – TOM RAIDER: A ORIGEM DA VIDA

O jogo Tomb Raider foi, certa forma, revolucionário no mundo dos games, um universo quase exclusivamente masculino. Milhares, talvez milhões de adolescentes em todas as partes do mundo, para viver uma série de grandes aventuras em busca de tesouros perdidos, jogavam – e ainda jogam – como se fossem uma mulher. Lara Croft, vitaminada, curvilínea e imbatível, é mais que o símbolo sexual de uma geração. Ela é a identidade aventureira de grande parte do público dos games desde os anos 90 até hoje.

Na sua encarnação para o cinema, Lara ganhou os lábios carnudos de Angelina Jolie, que virou estrela por causa do longa. Mas se as formas escolhidas para a arqueóloga mais famosa do mundo da imaginação foram perfeitas, a história deixou a desejar. O primeiro Lara Croft não tem ritmo e parece ter cenários feitos de plástico e isopor. Sua segunda aventura cinematográfica melhora as coisas, mas não muito. Angelina Jolie parece ainda mais à vontade no papel e o diretor Jan De Bont parece recuperar seu fôlego perdido em desastres como Velocidade Máxima 2 (97) e A Casa dos Amaldiçoados (00). A edição e a câmera deste segundo filme, o lado forte da filmografia de De Bont, garantem momentos legais de adrenalina.

Um caso que parece sem solulção é o dos vilões. Todos os atores que fazem vilões em filmes de games parecem acreditar bastante no potencial das caretas. Haja paciência para encarar tamanho descaso com quem assiste. A história parece mais bem amarrada, mas ainda falta o espírito do jogo. Os games ainda precisam encontrar seu caminho no cinema. E isso passa diretamente por encarar o público de um filme baseado no jogo de videogame como exigente. Se deu certo com os quadrinhos, vide X-Men 2 (03), pode funcionar com Lara Croft e seus companheiros.

Lara Croft – Tom Raider: A Origem da Vida
Lara Croft – Tomb Raider: The Cradle of Life, EUA, 2003
Direção: Jan de Bont
Elenco: Angelina Jolie, Gerard Butler, Ciarán Hinds, Christopher Barrie, Noah Taylor, Djimon Hounsou, Til Schweiger, Simon Yam, Terence Yin, Daniel Caltagirone, Fabiano Martell, Jonathan Coyne, Robert Cavanah, Ronan Vibert, Lenny Juma, Raymond Ofula.
Roteiro: Steven E. de Souza e Dean Georgaris, com base na história de Steven E. de Souza de James V. Hart. Produção: Lawrence Gordon e Lloyd Levin. Fotografia: David Tattersall. Edição: Michael Kahn. Direção de Arte: Kirk M. Petruccelli. Figurinos: Lindy Hemming. Canções: Korn.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

Dolls

Dolls

O japonês Takeshi Kitano já existe para o cinema há um bom tempo. Furyo (83), onde contracena com David Bowie e Ryuchi Sakamoto já completou duas décadas. Mas foi apenas no final dos anos 90 que Kitano se fez mostrar com a devida importância, desta vez com cineasta. Primeiro, reformulou a violência com Hana-Bi – Fogos de Artifício (97), depois recuperou a infância no bonitinho Verão Feliz (99). No ano passado, fez sua obra-prima.

Dolls toma pra si três histórias clássicas do clássico teatro de bonecos japonês. Três histórias de amor. Amor que não se consuma. Na primeira, uma mulher abandonada pelo homem que ama renuncia à vida sem morrer. Eles estarão acorrentados para sempre. Na segunda, um homem é capaz de se mutilar para ficar mais perto de sua musa. Na última história, uma senhora vai todos os dias para o mesmo banco de praça levar a marmita para o namorado que há décadas deixou de aparecer.

Kitano revela uma habilidade para a delicadeza raramente vista no cinema de hoje. É um mestre dissertando sobre o poder do amor e da doação sem soar óbvio ou clichê. Fala sobre o quanto podemos fazer para ficarmos perto de quem amamos. Nas três histórias, que se cruzam várias vezes, há de comum a renúncia completa para ter – ou por não ter – o objeto amado. Kitano fala pouco e diz muito. Fala pelos quadros que compõe, pelas cores que oferece ao espectador e ao amor.

A fotografia de Dolls é destruidora. Um filme que se conta pela imagem. O diretor não tem pressa para explicar que a ausência do amor pode fazer a vida se justificar pela mais mínima das razões: seja um banquinho de praça sem um brinquedinho de criança. São três histórias de solidão e de beleza absoluta. Beleza numa folha caindo no chão ou numa bolinha rosa esmagada por um pneu. De que adianta a vida se vc não pode soprar?

Dolls EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Dolls, Japão, Takeshi Kitano, 2002]

27 Comments

Filed under Resenha

Janela da Alma

A visão é o contato mais direto do ser humano com o mundo. É o que determina nuances, contornos e horizontes para suas impressões sobre a vida. O poder do olhar não tem limites. Ou tem. O limite pode ser a própria impossibilidade física. A discussão sobre esse tema já embalou belos momentos do cinema. E é a fotografia a porta de entrada para um filme. As cores, enquadramentos e movimentos de câmera são quem determina o ponto de vista do espectador em relação ao material filmado. Walter Carvalho é o mais importante diretor de fotografia do cinema nacional. Fez vários trabalhos com Walter Salles e também é o responsável pela plástica do belo Lavoura Arcaica (01), de Luiz Fernando Carvalho.

Walter Carvalho é um homem apaixonado pelo olhar. Essa paixão motivou o técnico a estrear como cineasta no documentário Janela da Alma, dirigido em parceria com João Jardim. Ele e seu companheiro entrevistam dezenove personalidades ligadas, de alguma forma, ao olhar. Janela da Alma é um filme de depoimentos, um filme de pessoas. Um estudo sobre como a visão determina o nosso contato com tudo que nos é externo.

A câmera-olho de Carvalho segue pelos depoimentos do músico alagoano Hermeto Paschoal, dos cineastas Wim Wenders e Agnès Varda, do neurologista Oliver Sachs (interpretado por Robin Williams em Tempo de Despertar) ou do fotógrafo franco-esloveno Evgen Bavcar, completamente cego. O escritor vencedor do prêmio Nobel, José Saramago, autor do maravilhoso Ensaio sobre a Cegueira é outro entrevistado ilustre. Mas o mais impressionante depoimento não vem de um cineasta famoso, de um escritor premiado ou de médico de projeção. Vem de um homem simples. Arnaldo Godoy é vereador em Minas Gerais. Ele nasceu com uma doença congênita e, desde cedo, teve que usar óculos com lentes pesadas. Aos 11 anos, mal enxergava. Aos 17, perdeu completamente a visão. Godoy, em poucas palavras, conquista o espectador com uma história de superação. É um homem comum que também é um herói. Uma criança que teve que enfrentar uma privação gigantesca, mas que nunca desistiu. Seu depoimento é o mais tocante, o mais simples e, por isso mesmo, o mais belo.

No conjunto, Janela da Alma guarda características muito formais de um documentário. É, de certa maneira, preso a regras. Nunca chega a ser inovador, nem pretende isso. É um documentário sobre o olhar, mas aposta no falar. É aí que existe a dicotomia. Num filme sobre a visão não se brinca com o que se vê. A forma é completamente esquecida em detrimento dos depoimentos dos personagens, que são muito bons – não há como e nem porque negar. São eles que definem o filme, que o deixam mais belo, mas apenas um pequeno passo além daquilo que vemos num programa de TV bem feito.

Janela da Alma EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Janela da Alma, Walter Carvalho e João Jardim, 2001]

Leave a Comment

Filed under Resenha

NARRADORES DE JAVÉ

O que poderia ser estigma é o maior trunfo de Narradores de Javé. Há muito tempo foi estabelecido na nossa cultura, a brasileira, que o nordestino é um ser engraçado. Que fala engraçado, age engraçado, que é engraçado. Um estereótipo que beira o preconceito. Eliane Caffé se apóia nesta idéia para conduzir seu novo filme, mas tem a sorte de homenagear a simplicidade do sertanejo em vez de condená-lo ao julgamento de sua condição de pobre e de semi-analfabeto. O filme narra a tentativa dos moradores de uma cidadezinha de salvar suas vidas, ameaçadas de serem afogadas por uma barragem. Para tanto, eles contratam o mentiroso-mor do lugar, Antônio Biá, o protótipo do nordestino espertinho, que tem a missão de registrar no papel a rica história da cidade, que passa de boca em boca. O problema é que a história muda radicalmente de um para outro morador. Eliane Caffé revela uma habilidade curiosa ao mesclar humor e delicadeza neste longa, além de uma competência técnica invejável (a fotografia é linda, a edição, riquíssima e inteligente, e a direção de arte no tom certo, sem exageros). O elenco é a maior atração. De José Dumont, mais uma vez perfeito ao povo das cidadezinhas visitadas pela equipe, coajuvantes divertidos. A diretora faz um filme engraçado e doce, equilibrado, muita coisa no cinema brasileiro, acostumado a narrar grandes sagas e morrer no discurso que não tem nada a dizer.

Narradores de Javé
Narradores de Javé, Brasil, 2003
Direção: Eliane Caffé.
Elenco: José Dumont, Matheus Nachtergaele, Nélson Dantas, Rui Resende, Gero Camilo, Luci Pereira, Nelson Xavier.
Roteiro: Luiz Alberto de Abreu e Eliane Caffé. Edição: Daniel Rezende.Fotografia: Hugo Kovensky. Direção de Arte: Carla Caffé. Música: DJ Dolores e Orquestra Santa Massa.

3 Comments

Filed under Uncategorized

O EXTERMINADOR DO FUTURO: A REBELIÃO DAS MÁQUINAS

John Connor não pediu o destino que tem: ser o líder da revolta humana contra as máquinas, que no futuro vão dominar a Terra. Connor sabe quem vai ser desde pequeno. Agora ele está cansado de se esconder. O terceiro filme da série O Exterminador do Futuro investe nos personagens. Esse é, talvez, seu maior trunfo. Geralmente subordinados às truncagens e efeitos especiais nos filmes do gênero, aqui os personagens ditam as regras, apesar das sufocantes cenas de exibição de tecnologia. T3 aposta num John Connor adulto e falível.

Prato cheio para Nick Stahl, um dos atores mais talentosos que Hollywood produziu nos últimos tempos, ótimo em uma quase ponta (Entre Quatro Paredes, 01), excelente num filme medíocre (Bully, 01). Stahl assume o papel no lugar do bom Edward Furlong, cujas desculpas para o afastamento do projeto vão desde o desinteresse do ator até seu envolvimento com drogas. Se Furlong era uma bela revelação em 91, Stahl é um belo ator doze anos depois. Seu John Connor ganha traços mais profundos. O roteiro, bem escrito, ajuda. Nele, o robô de Arnold Schwarzenegger é um mero coadjuvante. Ele volta mais uma vez do futuro para proteger Connor. Desta vez, o inimigo é uma mulher: a exterminadora T-X, sexy, bonita e destruidora.

O roteiro de T3 aumenta as possibilidades da história, que ganha mais uma grande personagem, Katherine Brewster, que ganha vida na pele da ótima e sumida Claire Danes, que parece aqui ganhar uma chance de reativar sua carreira. Ela ocupa a vaga de heroína deixada por Linda Hamilton, cujo papel de mãe do salvador foi exterminado da saga. A falta de seu personagem era apenas um dos indicativos de que T3 seria uma bomba. James Cameron não estava no projeto, Furlong tinah pulado fora e o filme parecia um golpe de Schwarzenegger para salvar sua filmografia do ostracismo que tomou conta de seus últimos trabalhos. Tudo piorou quando se anunciou que o musculoso queria se candidatar a governador da Califórnia. Era para entrar no cinema esperando uma bomba. E se surpreender.

O filme não se limita aos dois filmes anteriores e, se não se firma como clássico, é uma continuação eficiente. As novas possibilidades de formatação do futuro da Terra são revelantes e bem explicadas. É um ótimo filme de ação e ainda discute questões mais científicas em seu script. T3 só peca na tentativa de humanizar o robô (Arnold Schwarzenegger poderia ficar com os momentos de humor do roteiro, bem engraçados) e no discurso da seqüência final, mas é digno da estirpe de um filme que antecipou, ainda que timidamente, em 15 anos o que Matrix (99) parecia propor. É bem mais do que se espera de um filme com Arnold Schwarzenegger. A gente se vê no quarto episódio. Hasta la vista, baby.

O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas
Terminator 3: Rise of the Machines, EUA, 2003
Direção: Jonathan Mostow.
Elenco: Nick Stahl, Claire Danes, Arnold Schwarzenegger, Kristanna Loken, David Andrews, Mark Famiglietti, Earl Boen, Moira Harris, Chopper Bernet, Christopher Lawford, Carolyn Hennesy, Jay Acovone.
Roteiro: John D. Brancato e Michael Ferris, com base na história dos dois e de Tedi Sarafian, com os personagens criados por James Cameron e Gale Anne Hurd. Produção: Matthias Deyle, Mario Kassar, Hal Lieberman, Joel B. Michaels, Andrew G. Vajna, Colin Wilson. Fotografia: Don Burgess. Direção de Arte: Jeff Mann. Edição: Neil Travis e Nicolas De Toth. Música: Marco Beltrami, com canção do Blue Man Group. Figurinos: April Ferry.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

A CRECHE DO PAPAI

Eddie Murphy faz parte daquele time de atores dos quais não vale mais a pena ver um filme. O comediantezinho perdeu a graça (que nunca teve, na verdade) em trabalhos onde o roteiro ocupa papel coadjuvante. O único motivo que me fez assistir a A Creche do Papai foi o trailer que apresentava um menininho vestido de Flash. O personagem, um garoto que se esconde do mundo atrás de uma máscara, é uma idéia genial completamente subaproveitada. O que poderia ser o diferencial do filme é a promessa que menos se cumpre. A Creche do Papai é rapidamente esquecido simplesmente porque não há nada do que lembrar.

A Creche do Papai
Daddy Day Care, EUA, 2003
Direção: Steve Carr
Elenco: Eddie Murphy, Jeff Garlin, Steve Zahn, Regina King, Kevin Nealon, Jonathan Katz, Siobhan Fallon, Lisa Edelstein, Lacey Chabert, Laura Kightlinger, Leila Arcieri, Anjelica Huston, Khamani Griffin, Max Burkholder, Arthur Young.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

DEZ

Abbas Kiarostami e a câmera digital. O cineasta amante do bastidor adora revelar que um filme é um filme. Sua fórmula pode vir a se esgotar, mas enquanto isso ele leva às últimas conseqüências suas experiências com a fotografia e a montagem. Não fosse isso, Dez teria o mesmo destino que O Vento nos Levará (01): seria um filme tremendamente chato. Kiarostami nos apresenta a uma personagem que está presente na vida de todos, mas que não significada nada para quase ninguém. Uma observadora do mundo. Uma vigia. Talvez por isso esconda seu rosto durante quase todo o filme. A taxista conhece todos e, de certa forma, conduz seus destinos. Protagonista do filme, coadjuvante da vida de todos. O cineasta dialoga com o próprio diálogo, reescreve a habitual forma de conversar. A câmera, não raro, é estática. Do rosto da taxista, relances. O que precisamos ver, afinal? A idéia é boa, mas, mesmo curto, o filme se repete e fica cansativo sem muita demora.

Dez
Ten, Irã/França/EUA, 2002
Direção, Roteiro e Fotografia: Abbas Kiarostami.
Elenco: Mania Akbari, Amin Maher, Kamran Adl, Roya Arabshahi, Amene Moradi, Mandana Sharbaf, Katayoun Taleidzadeh.
Produção: Marin Karmitz e Abbas Kiarostami. Edição: Vahid Ghazi, Abbas Kiarostami e Bahman Kiarostami. Música: Howard Blake.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

LUA CAMBARÁ – NAS ESCADARIAS DO PALÁCIO

Rosemberg Cariry juntou Dira Paes e Chico Diaz mais uma vez no sertão do Ceará. Sete anos depois do correto Corisco e Dadá, o cineasta volta ao semi-árido para contar uma pequena saga nordestina. Lua Cambará leva às telas a história de uma mestiça, resultado do estupro de uma escrava negra por um fazendeiro, que termina sendo criada pelo pai e assume seu lugar. O roteiro se apóia na figura mítica da sertaneja forte, erguida sobre as agruras da vida. Cariry acredita na idéia e tenta edificar seu pequeno épico. O tom escolhido é o grandioso, o que não é correspondido pelo orçamento. É duro ter que dizer, mas Lua Cambará precisava de mais dinheiro. Dinheiro para caprichar mais em direção de arte e figurinos e, sobretudo, nos efeitos especiais, pobres, que criam um anjo/demônio incômodo ou espalham gelo seco na noite do sertão.

Mas o problema não é só esse. Com o modelo épico adotado pelo diretor, todos acompanham sua viagem, quase que sempre sem muito sucesso. Caso de Dira Paes, normalmente correta, que exagera na caracterização visceral de sua personagem. O roteiro arma situações tão forçadas quanto sua interpretação. Os outros atores parecem nunca interagir uns com os outros. Muitos se mostram demasiado teatrais, outros até amadores. O novo cinema nordestino, que parecia ter nascido bem com Baile Perfumado (97), ficou somente na promessa. Quando não é velho por opção, investe na literatura equivocada, não forma seus atores, erra o tom, perde o fôlego em pouco minutos. É ruim ter que falar mal de um filme em que se percebe que muita gente investiu para que ele ganhasse vida, mas Lua Cambará é fraco do começo ao fim.

Lua Cambará – Nas Escadarias do Palácio
Lua Cambará, Brasil, 2003
Direção e Roteiro: Rosemberg Cariry.
Elenco: Dira Paes, Chico Diaz, Claudio Jaborondy, Nelson Xavier, Via Negromonte, Toni Silva, W. J. Solha, B. de Paiva, Joca Andrade, Antônio Urano, Douglas Machado, Márcio Jacques, Maíra Cariry, Pedro Gonçalves, Roberto Silva, Soraia Matre, Sofia Xavier, Muriel Racine.
Fotografia: Antônio Luiz Mendes. Edição: Rosemberg Cariry e Severino Dadá. Música: Guilherme Vaz. Figurinos: Albanita Camurça.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

TAURUS

As cores de Taurus seguem o padrão de fotografia de alguns filmes de Aleksandr Sokúrov: os filtros deixam a tela tão bela que parecem tentar hipnotizar o espectador. A decadência de Lênin é verde e branca. Um dos homens mais poderosos do mundo perdeu as cores. Descoloriu. A fotografia e a direção de arte são, mais uma vez, espetaculares. Ma’s enquanto a forma é bela, o recheio do bolo parece sem gosto. O cineasta parece cair num sono profundo como o que passou a tomar conta da vida de Lênin. Um sono sem muita voz. Melancólico e raquítico. Taurus transforma em tons as certezas de Sokúrov. Tons pálidos. A trilogia da decadência dos grandes líderes enfraquece aqui depois de um belíssimo, ainda que difícil, Moloch. Falta uma personagem magnética como a Eva Braun de Elena Rufanova para que Sokúrov lance tanta ironia sobre Lênin como fez com Hitler. Curioso observar que aqui Sokúrov olha para o próprio umbigo ao falar da história russa. Resultado: os olhos vêem, mas o coração não sente.

Taurus
Telets, Rússia, 2001
Direção e Fotografia: Aleksandr Sokúrov.
Elenco: Leonid Mozgovoy, Mariya Kuznetsova, Sergei Razhuk, Natalya Nikulenko, Lev Yeliseyev, Nikolai Ustinov.
Roteiro: Yuri Arabov. Produção: Viktor Sergeyev. Direção de Arte: Natalya Kochergina. Edição: Leda Semyonova. Música: Andrei Sigle. Figurinos: Lidiya Kryukova.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized