Monthly Archives: julho 2003

A Viagem de Chihiro

A Viagem de Chihiro

A liberdade da mente de uma criança permite viagens inimagináveis para uma pessoa adulta. Criança é livre para vôos imaginários em terras desconhecidas com seres fantásticos. Livre de padrões e de limites que o adulto constrói para cercear sua vida ao que se entende como real. Criança não precisa do real. Criança não precisa de muros. Pode ver fadas e guerreiros montados em dragões alados. Pode sumir e aparecer em outros lugares. Pode brincar de ser outra pessoa. De ser herói.

Os filmes de animação, curtos ou longos, sempre ajudaram a criança a compor seu imaginário de mitologias. Na cultura ocidental, isso se traduz em histórias mágicas, mas que estão presas a fórmulas que terminam em lições e que deixam personagens estereotipados. A Viagem de Chihiro é um filme japonês. Seu realizador, Hayao Miyazaki, o maior nome da animação naquele país, um dos maiores do mundo. A história da menina Chihiro é construída com base em figuras mitológicas da cultura oriental, que, como as crianças, é livre de um exército de amarras.

Aqui, não há moral da história. Uma garota embarca num mundo encantado e encontra seres diferentes e uma nova organização social. Tudo mágico. Tudo flutua. Ela entra e procura o caminho para sair. Não é preciso seguir estradas de tijolos amarelos ou encontrar magos. Basta continuar a brincadeira. Uma brincadeira que muito adulto ocidental não deve entender. Porque não tem grandes descobertas, grandes objetivos. A não ser o de fazer a sua imaginação se expandir e o seu coração dilatar.

A Viagem de Chihiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sen to Chihiro no Kamikakushi, Hayao Miyazaki, 2001]

Compartilhe!

4 Comments

Filed under Resenha

Uma Mulher é uma Mulher

Em 1939, o cartaz da então noca comédia de Ernst Lubitsch, Ninothcka, anunciava: Garbo laughs. Greta Garbo, a dona do I want to be alone, explodia numa gargalhada numa das cenas do filme. A situação era tão inusitada, tal era a mística em torno da sisudez da atriz, que virou o principal chamariz para Ninotchka. O cartaz de Uma Mulher é uma Mulher, segundo filme de Jean-Luc Godard, poderia tranqüilamente trazer: Godard ri. Antes de embarcar no hermetismo que viria a se tornar característica fundamental de sua obra, o cineasta permitiu a si mesmo um momento Ninotchka.

Uma Mulher é uma Mulher é uma comédia que se alimenta do mesmo espírito das comédias maluquinhas que deram o tom do humor entre o final dos anos 50 e o início dos 60, como aquelas que consolidaram o mito Audrey Hepburn. A história é simples: Anna Karina quer ter um bebê. O marido Jean-Claude Brialy não. Ela insiste e, diante de uma nova recusa, tenta viabilizar a idéia com outros, entre eles Jean-Paul Belmondo. Se tivesse surgido nos Estados Unidos, seria uma brincadeira divertida. Mas um diretor como Godard jamais deixaria sua marca passar incólume.

Godard brinca o tempo todo. Brinca com o tempo. Brinca com o todo. A montagem acelera e desacelera o ritmo do filme, sempre negando o padrão da seqüência anterior. A música vai e vem, deixando para o espectador a sensação de estar a mercê do divertido jogo criado pelo diretor. Não como saber o que virá. Anna Karina e Jean-Claude Brialy, numa química perfeita, entram na brincadeira. O espírito livre de uma recém-iniciada década de 60 conduz suas interpretações. Brialy, não raro, parece estar anunciando o Antoine Doinel de Beijos Proibidos (68) e Domicílio Conjugal (70).

Truffaut, por sinal, ganhas duas pequenas homenagens. Belmondo encontra Jeanne Moreau num bar e pergunta: “ainda está com Jules e Jim?”. Em seguida, Anna Karina é atingida por balas imaginárias saídas dos dedos de uma amiga e lembra que Charles Aznavour estava genial em Atirem no Pianista (60). Bom ver que Godard sabe ter humor quando quer. Um cineasta do talento dele poderia se permitir rir de vez em quando. Mesmo que seja num filme sem grandes pretensões. Mesmo que seja só de vez em quando.

Uma Mulher é uma Mulher EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Une Femme est une Femme, Jean-Luc Godard, 1961]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Kamchatka

Golpe Militar, Argentina, 1976. A mãe tira o filhos da escola. Os três se encontram com o pai e se mudam para o interior. Kamchatka mostra como a política mudou a vida de uma família. Geograficamente e emocionalmente. Mas o filme passa longe do discurso político, panfletário, engajado. É sobre pessoas que se amam, sobre família. Nunca se sabe qual o crime, o porquê da perseguição. Basta saber que eles têm que fugir.

A ditadura corrobora para a cristalização do núcleo familiar. Pais e filhos ficam mais próximos que nunca, na tentativa de sobreviver. Irmão e irmão, mais cúmplices. E o jovem que chega vira um amigo. Kamchatka também é um filme sobre perdas. Mas não necessariamente sobre a perda da liberdade. É sobre as perdas nossas de cada dia. O colega, a escola, o novo amigo. Tudo que vem e vai porque a vida é assim. E é sobre como lidar com essas perdas. Entendê-las mesmo sem aceitá-las.

Marcelo Piñeyro mais uma vez demonstra delicadeza e intensidade. Adota o filho mais velho como protagonista e olha para o mundo pelos olhos dele. O pequeno ator sabe sofrer, ser denso, ser frio e nunca deixa de ser criança. Sabe que a vida nem sempre funciona do jeito que se quer. Cuida do irmãozinho encantador que faz xixi na cama, como se fosse soldado em missão de honra. Fica pronto em silêncio para uma batalha que nunca travará. Ou que o acertará de outra maneira. Kamchatka é sobre pai, mãe, filhos e irmãos. Sobre amar sobre todas as coisas. Poesia não precisa de palavras. Basta um tapete e muitas estrelas, um rosto grande colado num rosto pequeno, uma mão sobre uma mão sobre outra mão.

Kamchatka EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Kamchatka, Marcelo Piñeyro, 2002]

Leave a Comment

Filed under Resenha

PASSION

Todo filme deveria contar uma história, mas Jean-Luc Godard tem problemas muito maiores para perder tempo com uma bobagem como esta. Agora que seus filmes voltam em massa para os cinemas brasileiros, isso fica mais evidente mais uma vez. O cineasta do maravilhoso Acossado (59, maravilhoso provavelmente por causa do argumentista François Truffaut) é um dos cinco nomes chaves da nouvelle vague, o movimento francês que mudou o cinema. Começou revolucionando tudo: narrativa, linguagen, edição. Tomou tanto gosto que tenta se superar a cada filme desde então. Nos anos 60 e 70, isso era cumprir seu dever, mas Godard chegou aos 80, aos 90, ao século 21.

Passion, de 1982, é um exemplo do quanto o franco-suíço é talentoso em tecer elaborados diálogos consigo mesmo. O filme deveria mostrar as dificuldades de um cineasta em rodar um filme sobre grandes mestres da pintura. Deveria. Hermético, teatral e exageradamente masturbatório, o filme de fecha num conjunto de códigos que nem o espectador mais esperto deveria perder tempo em decifrar. A mania onanista de Godard conversar consigo mesmo desperdiça Isabelle Huppert, Hanna Schygulla e Michel Piccoli. E isso ninguém merece.

Passion
Passion, França/Suíça, 1982
Direção, Roteiro e Edição: Jean-Luc Godard
Elenco: Isabelle Huppert, Hanna Schygulla, Michel Piccoli, Jerzy Radziwilowicz, László Szabó, Jean-François Stévenin, Patrick Bonnel, Sophie Lucachevski, Barbara Tissier, Magali Campos, Myriem Roussel, Serge Desarnanos, Ági Bánfalvi, Ezio Amrosetti, Manuelle Baltazar, Sarah Cohen-Sali, Sarah Beauchesne, Bertrand Theubet.
Produção: Armand Barbault, Catherine Lapoujade e Martine Marignac. Fotografia: Raoul Coutard. Direção de Arte: Jean Bauer e Serge Marzolff. Música: Antonín Dvorák, Gabriel Fauré, Léo Ferré, Wolfgang Amadeus Mozart, Maurice Ravel e Ludwig van Beethoven. Figurinos: Christian Gasc e Rosalie Varda.

Leave a Comment

Filed under Uncategorized

Extermínio

Cillian Murphy
Danny Boyle é uma figura importante para o cinema nos anos 90 Seu segundo longa-metragem, Trainspotting (96), perde apenas para Pulp Fiction (94) em termos de influência para a década passada, estabelecendo um padrão de cinema jovem que viria a ser copiado à exaustão. Na obra de Boyle, a temática não é uma, são muitas. Depois de uma deliciosa comédia com personagens maluquinhos (Por Uma Vida Menos Ordinária, 97) e um filme cabeça sem muito a dizer (A Praia, 00), o cineasta britânico bebe da fonte dos filmes B sobre um futuro caótico em Extermínio, um dos maiores achados dos últimos tempos.

Extermínio começa com um grupo de ativistas tentando libertar chimpanzés de um laboratório de pesquisas. Os animais são cobaias num tratamento contra a raiva. Eles desenvolvem a doença em níveis elevadíssimos. Os bichos saem da jaula e a doença também. Devasta a Inglaterra, criando um cenário de destruição e abandono. As pessoas são mortas pelas outras ou transformadas numa espécie de zumbis assassinos. A civilização rui. As poucas pessoas que ficam incólumes sobrevivem escondidas, fugindo como podem.

Danny Boyle conduz sua história com convicção. Fez uma quase ficção-científica com um pé nos filmes B e sabe disso. Assume sua obra assim. Utiliza as possibilidades da câmera digital para criar uma fotografia mais crua, que possa transmitir a atmosfera que quer passar para o filme. A edição, rápida e sem padrões, parece a de programa ao vivo de TV. Há momentos de trilha sonora salvadora, messiânica, mas o que mais se escuta no filme são justamente seus silêncios. O clima reforça o universo caótico retratado na tela e faz imaginar como seria perder nossos padrões.

O espectador submerge numa caçada por suas prioridades, redefine o que é mais importante: sobreviver ou ficar bem. Tal qual fazem os personagens. Boyle é cruel com o mundo que retrata. Mostra como as pessoas podem abandonar tudo que já lhes foi importante para correr em busca de si mesmas. Para se manterem vivas. Há duas maneiras para gostar de Extermínio: como filme B que faz pensar ou como diversão pura. Os dois caminhos são válidos.

Extermínio EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[28 Days Later, Danny Boyle, 2002]

1 Comment

Filed under Resenha

Marie-Jo e Seus Dois Amores

Marie-Jo é uma mulher que tem um amante. Mas no seu caso não existe traição na sua concepçãao mais rasteira. Marie-Jo ama seu marido, com quem vive há anos e tem uma filha que acaba de chegar à idade adulta. Marie-Jo ama igualmente seu amante, sem o qual não consegue viver. Amar dois homens divide o tempo e a alma de Marie-Jo. Ela se sente completa e feliz apenas no momento em que faz amor com um dos dois.

Robert Guédiguian, o cineasta e o escritor deste filme, parte de uma premissa difícil de fugir do clichê, mas consegue resultados surpreendentes. Marie-Jo e Seus Dois Amores é um filme sobre preconceitos e pré-conceitos. Sobre o quanto se consegue amar. E sobre como fazer para amar plenamente. Ariane Ascaride é uma atriz de grande talento. Encarnar uma personagem tão rica quanto Marie-Jo é tarefa para poucas. Mas a atriz é intensa o tempo inteiro. É cheia. Perto do fim, o filme parece caminhar para uma solução fácil, mas rapidamente se vê que o que se espera pode não vir à tona.

Marie-Jo e Seus Dois Amores EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Marie-Jo et ses 2 Amours, Robert Guédiguian, 2001]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Sinbad, a Lenda dos Sete Mares

A Dreamworks surgiu para quebrar o monopólio da Disney no mundo da animação. Chegou com o inteligente Formiguinhaz, o épico e moderno O Príncipe do Egito e chegou ao ápice de sua produção com Shrek. Mas uma crise criativa deve ter tomado conta dos estúdios de Steven Spielberg. Sinbad, a Lenda dos Sete Mares segue uma fórmula gasta da Disney, abandonada pelo Mickey Mouse há tempos.
Não tem fôlego, não tem gás, não tem personagens bem trabalhados. O roteiro não aproveita o rico universo de Simbad e, mesmo o uso de computação gráfica, não esconde o quão envelhecida é a proposta original. A liçãozinha de moral do final é óbvia e sem graça. Dá pra se divertir? Dá, mas muito pouco. Exigência demais para um filme destinado às crianças? Nunca. Assista Procurando Nemo e veja o que é fazer um clássico para os tempos atuais.

Sinbad, a Lenda dos Sete Mares EstrelinhaEstrelinha
[Sinbad: Legend of the Seven Seas, Patrick Gilmore e Tim Johnson, 2003]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Longe do Paraíso

Julianne Moore, Dennis Haysbert, Dennis Quaid, Patricia Clarkson
Cada homem guarda um segredo. O segredo de Frank Whitaker é que ele nunca amou ninguém de verdade. Quando ele finalmente descobre seu primeiro amor, já é tarde. Frank está casado com uma esposa adorável, tem dois filhos educados, mora numa bela casa num belo bairro de uma bela cidade, tem um ótimo emprego. Sua vida supera o sonho de qualquer homem comum, sua vida é o próprio sonho americano. A vida de Frank apenas não é suficiente para ele mesmo, que tenta seguir feliz, mas termina mergulhado na angústia de viver o que não é. Angústia que sufoca seu peito e explode pela garganta e que move Longe do Paraíso.

Frank vive nos anos 50, aqueles em que roteiristas e diretores de cinema foram perseguidos por serem comunistas. Muitos nem eram. Na época em que ele vive, não há espaço para relacionamentos entre brancos e negros. A convivência é harmoniosa, mas algo como apertar mãos era improvável e inaceitável. Cathy, a esposa de Frank, é uma pessoa quase perfeita. Mulher bonita, esposa dedicada, mãe cuidadosa, cidadã exemplar. Ela tem poucos preconceitos. Conversa muito com seu jardineiro negro. Para ela, não existe desigualdade. Para os outros, existe.

Cathy é tão pura que, ao flagrar seu marido com um novo amor, o perdoa e tenta fazer de tudo para ajudá-lo a cessar sua triste sina de busca por algo proibido. Continua carinhosa, educada, elegante, mas percebe que sua doce vida tinha a mesma consistência de um sonho. Cathy guarda as coisas para dentro de si. Ela explode para dentro. Nem a melhor amiga consegue quebrar a barreira que ela cria para preservar sua vida, sua privacidade, sua história disfarçadamente perfeita. Cathy, assim como Frank, conversa apenas consigo mesma. Nem percebe, mas vive de aparências. Quando seu mundo colorido começa a rachar, procura alento numa possibilidade de carinho difícil de alcançar com plenitude.

Todd Haynes é um diretor imprevisível. Veneno (91), A Salvo (95) e Velvet Goldmine (98) são filmes muito diferentes entre si, mas guardam semelhanças. Seus personagens são solitários. De uma forma ou de outra. Em Longe do Paraíso, Frank e Cathy não fogem á regra. Gostam um do outro, vivem bem, mas se contentam com pouco. Dennis Quaid, um ator que nunca demonstrou talento especial, toma para si um dos papéis mais difíceis do recente cinema norte-americano. Difícil de sair do clichê, mas Quaid o faz com muita competência.

Do outro lado, está Julianne Moore, a melhor atriz dos dias de hoje. Aqui, ela interpreta com os olhos, com a boca, com as mãos. Não existe muito que falar. Cathy, sua personagem, fala pouco. Julianne consegue o improvável: sua atuação é intensa e discreta. Não rouba a atenção do filme, apesar de ser sua mola propulsora. Julianne Moore está nas árvores coloridas pela esplêndida fotografia, na classe da direção de arte e dos figurinos, na consistência de uma das melhores trilhas sonoras do ano. Ou dos últimos anos. Os tons de sua atuação são tão diversos quanto as cores do filme.

As pessoas cobram muito que as coisas aconteçam em Longe do Paraíso. pouca gente entende que o filme é sobre coisas que não acontecem. Com sutileza, Todd Haynes mostra como as pessoas falham, como a idéia de uma vida feliz é frágil, como tudo pode ter a consistência de um sonho. Um sonho americano.

Longe do Paraíso EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Far From Heaven, Todd Haynes, 2002]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Por Um Fio

POR UM FIO

O novo filme de Joel Schumacher dividiu opiniões. Uns o chamam de genial e outros de uma boa idéia desperdiçada. Mas de uma coisa ninguém duvida: o cineasta que destruiu a carreira cinematográfica do Batman fez um filme delicioso. Colin Farrell interpreta muito bem um agente que faz de tudo para vender seus clientes e vender sua própria imagem. Mente sem culpa. Inclusive para a própria esposa, para a namoradinha e para o estagiário que escraviza. Todos os dias, faz ligações de uma mesma cabine telefônica. O que ele não sabe é que alguém o vigia passo a passo.

Farrell se descobre preso numa cabine telefônica pelas chantagens do seu perseguidor. Mais que espacial, sua prisão é emocional. O agente não consegue escapar da teia que ele mesmo teceu. O jogo entre caça e caçador é tenso e instigante, leva a níveis quase insuportáveis de pressão. O roteiro de Larry Cohen (o improvável diretor do improvável clássico trash Nasce Um Monstro) é muito mais psicológico que de ação.

Por Um Fio invade a mente do protagonista e o exaure. Faz o mesmo com o espectador. Com uma edição paralela, o filme é plasticamente impecável e ainda consegue modernizar um velho recurso de linguagem: as janelinhas. Se o final não é aquele que você esperava (ou que não esperava), bobagem. O que importa é que Por Um Fio é tão instigante e perturbador que até chegar no final, ele já terá valido a pena. E muito.

Por Um Fio
Phone Booth, EUA, 2003
Direção: Joel Schumacher
Elenco: Colin Farrell, Forest Whittaker, Radha Mitchell, Katie Holmes, Paula Jai Parker, Kiefer Sutherland, Arian Ash, Tia Texada, John Enos III, Richard T. Jones, Keith Nobbs, Dell Yount, James MacDonald.
Roteiro: Larry Cohen. Produção: David Zucker. Fotografia: Matthew Libatique. Direção de Arte: Andrew Lars. Música: Harry Gregson-Williams. Edição: Mark Stevens. Figurinos: Daniel Orlandi.

Leave a Comment

Filed under Resenha

O Homem que Copiava

Lázaro Ramos, Leandra Leal

Fazer graça em filme sério não é pra todo mundo. Jorge Furtado é um homem inteligente. Salvou a TV brasileira do marasmo das telenovelas e, em quase tudo que faz, consegue bons resultados. Um dos melhores é Ilhas das Flores, curta-metragem de 1992 que figura entre os melhores já feitos no Brasil. O filme inaugura uma linguagem de edição que virou marca do diretor: a do uma-coisa-leva-a-outra.

A estréia de Furtado nos longas, Houve Uma Vez Dois Verões (02), é um filme pequeno, simples e despretensioso, que, com delicadeza e inteligência, supera qualquer história sobre adolescentes apaixonados.

O Homem que Copiava, novo trabalho do cineasta, segue o mesmo estilo de suas outras obras. Linguagem pop e muita informação. O filme conta a história de André (Lázaro Ramos), um operador de xerox solitário apaixonado pela vizinha da frente, preso numa rotina que envolve o chefe desconfiado, a colega gostosona, o amigo marginal e a mãe que nunca fala. André constrói sua história através de fragmentos. Como constrói na sua mente o quarto de sua amada, que vê apenas por uma fresta na janela. O pouco que sabe do mundo são os pedaços de coisas que lê quando está na fotocopiadora.

O filme de Jorge Furtado começa simpático e preso a uma fórmula eficiente que começa a se gastar. Mas muda aos poucos. Furtado sabe como apaixonar. Ele envolve os espectadores com uma história simples e com uma maneira simples de contar uma história. Invade os personagens, sobretudo o protagonista, navegando por seus sonhos solitários, suas tímidas perspectivas e seus passos atrapalhados. Passa de comédia inteligente a filme inteligente. Trafega com facilidade pelo humor e pelo drama. Faz isso sem sentir. Naturalmente. André e sua namorada, mais que um amor, querem liberdade. Criar asas. Buscar algo mais. Que não está ali. Que não dá para definir. Que não se explica. Que talvez nem exista.

Talvez seja por isso que O Homem que Copiava seja tão significativo. À primeira vista, ele é uma comédia bobinha, que conta historinhas bobinhas. Mas basta virar a página para perceber um filme bonito e simples. Sobre a busca que cada pessoa faz de si próprio. Coisas que a gente não consegue explicar, mas que estão ali o tempo todo.

O Homem que Copiava EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[O Homem que Copiava, Jorge Furtado, 2003]

Leave a Comment

Filed under Resenha