Monthly Archives: junho 2003

Hulk

Eric Bana, Nick Nolte, Jennifer Connelly

Existem dois tipos de pessoas: as que liam quadrinhos quando eram crianças e hoje são adultos legais e as que não liam e hoje não são tão legais quanto poderiam ser. Ang Lee é um cineasta com um grande talento, indicado quatro vezes ao Oscar e vencedor de uma estatueta pelo épico O Tigre e o Dragão. Ang Lee tem apenas um problema: ele não lia quadrinhos quando era criança e por isso não é tão legal como poderia ser.

Lee foi o escolhido para dirigir a versão para o cinema de um dos mais complexos personagens da Marvel Comics, o Hulk. A enorme criatura verde é uma versão raivosa do cientista Bruce Banner, que foi atingido por radiação gama num acidente. O Hulk é um monstro. Um ser completamente dominado pela fúria e sem controle das próprias emoções. Um ser solitário que vaga pelo mundo que tem medo dele e que, como sempre acontece com as diferenças, não sabe como absorvê-lo.

Ang Lee queria mostrar tudo isso em seu filme e não reproduzir a visão mais primária de que o personagem é apenas uma máquina de destruição. Justifica sua estratégia modificando a origem do Hulk, o que seria entendível se o modo como essa transformação ocorreu fosse abalizada pelo roteiro. Mas o escritor James Schamus, que adora mergulhar na alma humana (e que já fez isso muito bem), também não tem intimidade com os quadrinhos. A tentativa de deixar a história séria, repleta de implicações psicológicas, com pesadelos e visões explicativas, não consegue cumprir seu papel e beira a infantilização. Sabe quando se tenta explicar demais para o espectador entender? É assim…

Somente quem lê quadrinhos sabe das infinitas possibilidades deste universo. Consegue enxergar e trazer da memória as nuances múltiplas dos personagens. Consegue entender que, muito mais que superpoderes ou batalhas fantásticas, o que conquista os leitores são as histórias dos heróis. São os homens comuns por trás das máscaras ou das faces transformadas. A estética e a linguagem das HQs revolucionaram a literatura e a arte no último século. Transpor essa revolução para outro campo é difícil.

Apesar de cenas patéticas como a dos cães mutantes (quase tão medonhos quanto o visual grunge do Nick Nolte), existe uma boa intenção, mas Hulk, o filme, é ingênuo. Cineasta e roteiristas tratam ingenuamente o tema, a história, os personagens. Tudo por falta de tato com os quadrinhos. A edição de Tim Squyres, que tenta homenagear o tempo inteiro as HQs, é boa, mas cai no exagero muitas vezes. A trilha de Danny Elfman começa sombria, mas descamba para temas africanos inexplicáveis.

Jennifer Connelly é, de longe, a melhor atriz do filme, comprovando que ator bom faz filme cult, faz papa-Oscar e faz Hulk também. E a criatura verde? A tão falada criatura verde, a maior polêmica do filme por sua excessiva virtualidade (apesar de apresentar expressões e movimentos impressionantes)? Surpreendentemente o Hulk digital é o que menos incomoda. Parece bem menos ingênuo que seus criadores.

Hulk EstrelinhaEstrelinha½
[The Hulk, Ang Lee, 2003]

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+ Velozes + Furiosos

+ Velozes + Furiosos

Imagine que você adora carros e não deixa escapar a chance de se exibir para as garotas. Participa de rachas em máquinas altamente sofisticadas, com designs arrojados, cores metálicas e neon no piso. Tudo muito descompromissado, curtindo o que há de bom nessa vida. Adrenalina, sexo, diversão. Velozes e Furiosos (01) é assim. A celebração da falta de cérebro e da intenção em se ter um. O filme é tão competente em sua exacerbação de demência que fez muitos milhões de dólares no mundo inteiro e ainda rendeu o Schwarzenegger contemporâneo, Vin Diesel, à condição de astro.

Como um é pouco, não demorou muito para que sua continuação chegasse aos cinemas. Mais Velozes Mais Furiosos (03) se arrisca por um caminho diferente do primeiro longa: tenta contar uma história. Enquanto no filme original, o que importava era como os descerebrados se relacionavam e o quão rápido eles poderiam correr, aqui o co-astro Paul Walker precisa fazer um servicinho para a polícia para limpar sua ficha. Com uma idéia como esta, dificilmente a produção escaparia do destino que cumpre com tanta obstinação: ser um filme ruim.

Sem Vin Diesel – nem ele foi convencido pelo roteiro – Mais Velozes Mais Furiosos aposta nas cenas de perseguição pelas ruas de Miami (ou do que usaram para as locações). Os diálogos são perfeitos para este tipo de filme: curtos (para não fazer pensar muito), sem palavras muito difíceis (porque dicionário passa longe do espectador disso aqui) e cheio de frases conhecidas e de rápida assimilação, como “yeah”, depois de uma corrida bem sucedida. O mais surpreendente é o que diretor por trás disto tudo seja John Singleton, cineasta de Boyz N’The Hood (91), o principal herdeiro de Spike Lee na temática racial. Mas deve ser assim mesmo. Está cada vez mais fácil celebrar a estupidez.

Mais Velozes Mais Furiosos
2 Fast 2 Furious, EUA, 2003
Direção: John Singleton
Elenco: Paul Walker, Tyrese, Eva Mendes, Cole Hauser, Ludacris, Thom Barry, James Remar, Devon Aoki, Amaury Nolasco, Michael Ealy, Jim Auyeung,
Roteiro: Michael Brandt e Derek Haas, baseados nos personagens Gary Scott Thompson. Produção: Neal H. Moritz. Fotografia: Matthew F. Leonetti. Direção de Arte: Keith Brian Burns. Edição: Bruce Cannon e Dallas Puett. Música: David Arnold. Figurinos: Sanja Milkovic Hays.

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A Festa Nunca Termina

A Festa Nunca Termina

Manchester, final dos anos 70. Um show dos Sex Pistols. Na platéia, integrantes do Joy Division, Simply Red e Durutti Collumn, entre outros. Começava uma nova era na história do rock. Começava a era da Factory. O jornalista Tony Wilson, apresentador da TV inglesa, inicia sua jornada pela música pop, conhecendo, promovendo e apresentando novas bandas de rock para o mundo. A primeira delas é a maior de todas, o Joy Divison.

O Joy Divison torna-se a primeira grande aquisição da Factory Records, a gravadora montada por Wilson e seus amigos. O fenômeno em torno da banda é maior que seu líder, vocalista e letrista, Ian Curtis, que cede sua vida em troca de paz. O tempo passa e a evolução continua. Os integrantes remanescentes resolvem continuar a tocar. Surge o New Order e a clássica Blue Monday.

A Factory explode na popularidade, o que reverte na vida pessoal de Wilson, que sofre abalos sísmicos em seu casamento. Novos grupos vêm. O James, o Happy Mondays. Surge o Hacienda, um dos mais clássicos dance clubs de todos os tempos. A música toma conta de tudo, de todos, de poros e de sensores. Muda, evolui, se esconde, aparece, aumenta, diminui, procura e destrói. Manchester, a Inglaterra, a Europa e o mundo se rendem ao som. São anos a fio de acordes múltiplos. De conquista e envolvimento. Época em que se determina comportamento, modo de vida e som.

Esse é o cenário da Inglaterra e do rock moderno durante as décadas de 80 e 90. E este também é o cenário de A Festa Nunca Termina, o melhor filme de rock’n’roll dos últimos anos. O roteiro narra a trajetória de Wilson e de seus coadjuvantes de luxo, as maiores bandas do rock inglês em vinte anos. O longa faz parte de uma estirpe que cresce a cada dia, a de filmes sobre música feitos por pessoas apaixonadas por música. Quase Famosos (00) e Hedwig (00) são os melhores exemplos.

A Festa Nunca Termina é prato cheio pra quem gosta de rock e de cinema de qualidade. É música por todos os poros. O rock conduz cada cena, da edição inteligente ao próprio roteiro, que é contado com ajuda de canções clássicas. O disco, obrigatório, ajuda a narrar o surgimento e o fim de uma saga. O desconhecido Sean Harris recebe uma incumbência enorme: dar vida a uma lenda, Ian Curtis, do Joy Division. E o novato não é menos que espetacular.

O protagonista Steve Coogan está genial como Tony Wilson. Encarna o apaixonado que se deixa levar pelo espírito da música pop. Que viajou durante anos no sonho do rock’n’roll, que embalou a minha, a sua e a vida dele. Coogan conversa o tempo inteiro com o espectador, que se torna seu maior confidente, sua cara metade. Do jeito que Michael Winterbottom desenvolve todas as faces de seu filme, é impossível não ser cooptado para uma Manchester fascinante. É impossível não sair fascinado do cinema.

A Festa Nunca Termina
24 Hour Party People, Grã-Bretanha/França/Holanda, 2002
Direção: Michael Winterbottom
Elenco: Steve Coogan, Keith Allen, Dan Hope, Paddy Constantine, Andy Serkis, John Thomson, Shirley Henderson, Lennie James, Martin Hancock, Sean Harris, Chris Coghill, Mark Windows, John Simm, Ralf Little, Danny Cunningham, Raymond Waring. Roteiro: Frank Cottrell Boyce. Produção: Andrew Eaton. Fotografia: Robby Müller. Direção de Arte: Mark Tildesley. Edição: Trevor Waite e Michael Winterbottom. Figurinos: Stephen Noble e Natalie Ward.

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A Outra História Americana

Tony Kaye é o típico cineasta de um filme só. A Outra História Americana é seu único longa. Seu trabalho seguinte não chegou a ser lançado nem nos EUA. Kaye nem precisaria fazer outro filme. Este aqui já é para uma vida toda. Seus detratores o acusam de abusar da linguagem de videoclipe na câmera lenta e no clichê do flashback em preto-e-branco, mas A Outra História Americana reúne os lugares comuns e os transcende, sobretudo por causa da surpreendente doçura que o diretor empresta a uma história cheia de ódio. As cenas são feitas com precisão e com intensidade. O impacto é absorvido pelo espectador nas seqüências de violência e nas discussões de família.

Apesar de toda a competência técnica o envolvendo, o mérito maior deste filme é de um jovem ator chamado Edward Norton. Fazer o papel de um neonazista pode parecer muito fácil: uma conjunção de caras e bocas e um jeito de mau. Norton faz isso tudo e foge, absolutamente, de tudo o que pode ser entendido como chavão. A transformação de sua personagem, que transita com facilidade entre a ira e a delicadeza, é impressionantemente natural, como se fosse conduzida por uma melodia. Esse detalhe conduz toda a narrativa: o crime, a prisão, a vida da família, a volta para casa. Tudo costurado com cuidado e sem concessões. E Norton está bem acompanhado: Beverly D’Angelo e Jessica Lien são contrapontos perfeitos para seu papel. E Edward Furlong é a mais grata surpresa do elenco. O melhor de tudo é que, apesar de ser um filme com mensagem, A Outra Face Americana nunca é óbvio (por sinal, é muitas vezes surpreendente), o que já é um ponto a favor no cinema atual.

A Outra História Americana EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[American History X, Tony Kaye, 1998]

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Dupla Explosiva: Ecks vs Sever

Dupla Explosiva: Ecks vs Sever

Foi por uma boa causa. Fui ao cinema ver este filme por uma boa causa. Ninguém precisa se chocar ou me xingar. A companhia valia a pena. Tinha prometido que filme com o Antonio Banderas a partir de agora somente se o diretor fosse confiável, o que não é esse caso. Mas terminei indo ver este filme, realmente explosivo. Uma bomba em todos os sentidos. No roteiro ruim de tantos clichês, nas interpretações sofríveis de Banderas e do vilãozinho Gregg Henry e, sobretudo, no visual mamãe-eu-quero-ser-moderno. Lucy Liu, deliciosamente destruidora em O Troco (99), não é razão suficiente para ver o filme. E o pior de tudo: o diretor assina como Kaos. Alguém que tem coragem pra fazer isso merece o ostracismo que o filme conseguiu nas bilheterias.

Dupla Explosiva: Ecks vs Sever
Ballistic: Ecks vs Sever, EUA, 2003
Direção: Kaos (Wych Kaosayananda)
Elenco: Antonio Banderas, Lucy Liu, Gregg Henry, Talisa Soto, Ray Park, Miguel Sandoval, Aidan Drummond.

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Desmundo

Simone Spoladore, osmar Prado, Berta Zemel
Alain Fresnot ainda não fez o suficiente para provar seu talento no cinema. Seu longa anterior, Ed Mort (96), aproveita mal um bom personagem numa história chata e desinteressante. Nesse Desmundo, o cineasta recria uma época com eficiência técnica, mas não é capaz de tornar sua narrativa atrativa. Falta ritmo. Falta capacidade de envolver o espectador. Desmundo parece um livro de histórica, com muita informação, mas sem carisma. A embalagem parece justa, o visual é sujo como era a época, o português falado no filme é o arcaico, mas todo esse preciosismo deve ter empurrado para dentro das belas matas do filme o roteiro, escrito pelo próprio diretor, com participação da cineasta responsável por Durval Discos.

Osmar Prado e Berta Zemel, numa aparição raro vista no cinema, conseguem dar os melhores momentos do longa, o que não é suficiente para torná-lo interessante. Simone Spoladore, com maquiagem para esconder sua beleza, está opaca. Desmundo parece oco, envelhecido, pouco profundo. A sensação é de casca colorida e fruta ressecada. A culpa pode até ser atribuída ao próprio romance de Ana Miranda, que pode ter ficado perdido no tempo, mas não parece. Aqui temos um caso de roteiro que não sabe contar uma história do modo como ela deveria ser contada. O maior problema do cinema brasileiro.

Desmundo EstrelinhaEstrelinha½
[Desmundo, Alain Fresnot, 2003]

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Premonição 2

Quem nunca gostou de cinemão que atire a primeira pedra. Premonição, o original, é uma delícia de filme. A idéia é simples: pessoas que escapam de um acidente por acaso são perseguidas pela morte. O resultado é um filme ágil e, com o perdão dos puristas, bastante inteligente, principalmente para o gênero terror/suspense.

As cenas das mortes são criativas e bem executadas e a velocidade da edição não deixa o espectador respirar em paz por muito tempo. O filme, sem nenhum astro ou personagem famoso, fez tanto sucesso que uma continuação seria inevitável para o cinema norte-americano.

Como nada se cria, sobretudo em Hollywood, Premonição 2 segue a fórmula do primeiro longa. Se fosse só isso, mantendo o impacto das cenas, seria o suficiente. Mas tudo se transforma na capital do cinema e a idéia inicial ganha novos desdobramentos.

Explicações espirituais e feitiços com efeito de antídoto entram na trama. O que era divertido beira o sem graça. O diretor David Richard Ellis até que mantém o ritmo da história e cria boas seqüências, mas a carência de originalidade neste segundo filme o deixa anos-luz do antecessor.

Premonição 2 EstrelinhaEstrelinha½
[Final Destination 2, David R. Ellis, 2003]

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O Gigante de Ferro

O Gigante de Ferro

Os filmes de animação mudaram muito nos últimos anos. Como era preciso modernizar os desenhos para inseri-los no mundo pop dos dias atuais, a obviedade dos contos de fadas passou a ser driblada e as referências viraram obrigatórias. Fazer filmes cada vez mais inteligentes se transformou no principal desafio de quem trabalha com a animação, o que resultou em longas riquíssimos, como South Park (99), A Fuga das Galinhas (00) e o mais radical de todos, Shrek (01). Mas apesar da inegável qualidade destes filmes, uma coisa parece que foi relegada a segundo plano no novo conceito de animação: a doçura.

Qualquer tentativa de fazer um filme com resquícios de delicadeza virou pecado mortal no cinema moderno. Velocidade, citações e variações plásticas derivadas da tecnologia ganharam mais importância, em detrimento da simplicidade. Grande parte desta mudança no conceito atual de animação deve-se, sobretudo, à própria crise criativa dos longas tradicionais, sobretudo os da Disney, a major favorita da criançada. Fazer um filme inteligente e emotivo parecia contraditório. As apostas do estúdio na segunda metade da década passada foram frustradas, exceto pelos longas da Pixar. Mas é justamente de onde surgiu o motivo da crise (os estúdios concorrentes) que surgem os exemplos do quão bom pode ser um filme simples.

No ano passado, o exemplo foi o longa A Era do Gelo, de Chris Wedge, com co-direção do brasileiro Carlos Saldanha, feito nos moldes clássicos da Disney fora do estúdio. Mas algum tempo antes já existia O Gigante de Ferro. O filme de Brad Bird não chegou a passar nos cinemas brasileiros, apesar de um lançamento no Animamundi de 2000. Erro crasso da equivocada distribuição nacional. Bird, com a história simples de um robô gigante encontrado por um garoto, fez uma obra-prima da simplicidade e da beleza. Os traços clássicos remetem ao que a Disney fazia até os anos 60, mas, ao contrário dos contos de fadas que viravam roteiro para a turma do Mickey Mouse, O Gigante de Ferro aposta no realismo, no naturalismo.

Falar sobre as coisas pequenas sempre é complicado. Difícil mesmo. Falar de amizade sem cair na pieguice, então, quase impossível. O filme de Brad Bird disserta sem fazer discurso não apenas sobre amizade, mas sobre a delicadeza, que muitas vezes é o que falta na vida e no olhar que as pessoas têm do mundo. O Gigante de Ferro conversa com as crianças de igual para igual, abdicando do recurso fácil da linguagem e videoclipe e da violência. Doce, terno, simples e principalmente puro. Como tem que ser.

O Gigante de Ferro
The Iron Giant, EUA, 1999
Direção: Brad Bird.
Elenco: Eli Marienthal, Harry Connick Jr., Jennifer Aniston, Cloris Leachman, Vin Diesel, James Gammon, Christopher McDonald, John Mahoney, M. Emmet Walsh.
Roteiro: Tim McCanlies, inspirado na história de Brad Bird, baseado no livro de Ted Hughes. Produção: Allison Abbate e Dês McAnuff. Fotografia: Steven Wilzbach. Edição: Darren T. Holmes. Desenho de Produção: Mark Whiting. Música: Michael Kamen.

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Todo-Poderoso

A direção é do responsável por Ace Ventura, o roteiro é do mesmo escritor de Ace Ventura 2 e as caretas são as do ator dos dois filmes citados. O destino de Todo-Poderoso não poderia ser diferente: é mais um veículo para Jim Carrey exercer seu poder de fazer rir. E, guardadas as restrições sobre os pastelões, Carrey faz isso bem.

O problema aqui, como em todos os filmes do ator, é o mesmo: poucas idéias. Todo-Poderoso se reveste de chavões e aposta totalmente no talento do comediante, que é muito melhor quando é um ator dramático (ótimo, em O Show de Truman, e excelente, em O Mundo de Andy).

Carrey interpreta um jornalista de TV cujo sonho é ser âncora. No dia em que esta chance aparece e vai embora, ele culpa Deus e o mundo. E Deus ouve. E, na forma de Morgan Freeman, resolve colocar Carrey em seu lugar enquanto sai de férias. A sinopse desenha tudo o que se vai achar no filme. Algumas piadas são boas, mas no geral tudo é apenas engraçadinho, o que é morte certa para uma comédia.

O melhor momento do filme é certamente quando o personagem de Carrey começa a testa seus poderes de Deus. Numa lanchonete, a sopa de tomate vira objeto para a divisão das águas do Mar Vermelho. Os fãs do Jim Carrey do riso fácil não devem concordar. As gargalhadas eram fartas na sala de projeção, mesmo nas cenas que repetem o que já se viu centenas de vezes. Um bônus do filme é a presença sempre luminosa de Jennifer Aniston, que, se não tem um papel forte ou uma cena marcante, faz qualquer um ficar feliz só de olhar pra ela.

Todo-Poderoso EstrelinhaEstrelinha
[Bruce Almighty, Tom Shadyac, 2003]

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Janela da Alma

A visão é o contato mais imediato do ser humano com o mundo. É o que determina nuances, contornos e horizontes para suas impressões sobre a vida. O poder do olhar não tem limites. Ou tem. O limite pode ser a própria impossibilidade física. A discussão sobre esse tema já embalou belos momentos do cinema. E é a fotografia a porta de entrada para um filme. As cores, enquadramentos e movimentos de câmera são quem determina o ponto de vista do espectador em relação ao material filmado. Walter Carvalho é o mais importante diretor de fotografia do cinema nacional. Fez vários trabalhos com Walter Salles e também é o responsável pela plástica do belo Lavoura Arcaica (01), de Luiz Fernando Carvalho.

Walter Carvalho é um homem apaixonado pelo olhar. Essa paixão motivou o técnico a estrear como cineasta no documentário Janela da Alma, dirigido em parceria com João Jardim. Ele e seu companheiro entrevistam dezenove personalidades ligadas, de alguma forma, ao olhar. Janela da Alma é um filme de depoimentos, um filme de pessoas. Um estudo sobre como a visão determina o nosso contato com tudo que nos é externo.

A câmera-olho de Carvalho segue pelos depoimentos do músico alagoano Hermeto Paschoal, dos cineastas Wim Wenders e Agnes Varda, do neurologista Oliver Sachs (interpretado por Robin Williams em Tempo de Despertar) ou do fotógrafo franco-esloveno Evgen Bavcar, completamente cego. O escritor vencedor do prêmio Nobel, José Saramago, autor do maravilhoso Ensaio sobre a Cegueira é outro entrevistado ilustre. Mas o mais impressionante depoimento não vem de um cineasta famoso, de um escritor premiado ou de médico de projeção. Vem de um homem simples. Arnaldo Godoy é vereador em Minas Gerais. Ele nasceu com uma doença congênita e, desde cedo, teve que usar óculos com lentes pesadas. Aos 11 anos, mal enxergava. Aos 17, perdeu completamente a visão. Godoy, em poucas palavras, conquista o espectador com uma história de superação. É um homem comum que também é um herói. Uma criança que teve que enfrentar uma privação gigantesca, mas que nunca desistiu. Seu depoimento é o mais tocante, o mais simples e, por isso mesmo, o mais belo.

No conjunto, Janela da Alma guarda características muito formais de um documentário. É, de certa maneira, preso a regras. Nunca chega a ser inovador, nem pretende isso. É um documentário sobre o olhar, mas aposta no falar. É aí que existe a dicotomia. Num filme sobre a visão não se brica com o que se vê. A forma é completamente esquecida em detrimento dos depoimentos dos personagens, que são muito bons – não há como e nem porque negar. São eles que definem o filme, que o deixam mais belo, mas apenas um pequeno passo além daquilo que vemos num programa de TV bem feito.

Janela da Alma
Janela da Alma, Brasil, 2001
Direção: Walter Carvalho e João Jardim.
Elenco: Arnaldo Godoy, Agnes Varda, Wim Wenders, Oliver Sachs, José Saramago, Hermeto Paschoal, Even Bavcar, Walter Lima Jr, João Ubaldo Ribeiro, Hanna Schygulla, Marieta Severo.
Roteiro: Walter Carvalho e João Jardim. Produção: Flávio R. Tambellini. Fotografia: Walter Carvalho. Edição: Karen Harley e João Jardim. Música: José Miguel Wisnick.

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