Monthly Archives: maio 2003

Matrix Reloaded

Carrie Ann-Moss, Hugo Weaving, Keanu Reeves

No princípio, era a ordem. Uma sociedade perfeita, de alta tecnologia, com padrões sociais elevados e organização impecável. Então, surgiu a pílula. E, por livre e espontânea vontade, Thomas Anderson, hacker nas horas vagas, descobriu que não era bem assim. Matrix mudou para sempre a concepção da ficção-científica. O gênero, que parecia destinado à mera exibição de efeitos especiais, ganhou roteiro, passou a ter história para contar.

Não há como falar dos efeitos visuais desenvolvidos para o filme sem utilizar fartos e variados adjetivos ligados à grandeza. Mas o que é mais impressionante no longa é o fato de que, por mais que eles sejam o ponto mais alto da tecnologia no cinema, os efeitos têm papel secundário no filme. Sua concepção de universos paralelos, realidades virtuais e existência remete diretamente aos quadrinhos e, indo mais além, às mitologias. Matrix recicla conceitos como sua história recicla a percepção do mundo real.

Matrix Reloaded é melhor que Matrix. Sua história ganha nuances ainda mais profundas, leituras ainda mais ricas e inúmeras possibilidades. O filme é melhor dirigido, melhor interpretado e suas seqüências de exibição tecnológica são melhores que as do primeiro longa. A seqüência da luta entre Neo e o multiplicado agente Smith é antológica.

Reloaded perde em comparação ao filme original apenas quando o quesito é originalidade, é princípio, é prisma. Como é um aperfeiçoamento das idéias desenvolvidas em Matrix, Reloaded, por mais que vá além, fica refém de sua cronologia, mas que fique bem claro que isso não é demérito. Evolução seria a palavra correta.

Neo é o herói clássico, moldado para os dias atuais. O escolhido não guarda as características do herói contemporâneo, com comportamento menos padronizado e dualidade de intenções bem visível. Neo está mais para Superman que para Wolverine, o que o reforça o caráter épico de sua missão. No novo filme, Neo assume por completo as características de seu personagem, que já tem seu desenho de messias totalmente definido.

Por falar em desenho, a concepção visual de Reloaded é um abuso. A direção de arte de Owen Patterson consegue superar o trabalho feito para o longa original. Os cenários criados para a mansão de Merovingian, o reduto do Arquiteto e a cidade exilada de Zion são perfeitos e assustadoramente originais.

A cena da perseguição de automóveis foi feita numa rodovia de 5km, criada especialmente para o filme. Esta cena, em particular, é excepcional. Seu clímax energético culminou numa empolgadíssima salva de palmas e conseqüentes gritos de êxtase na sala de exibição. Esse é, por sinal, um dos maiores méritos da trilogia. Matrix Reloaded, assim como Matrix, faz parte de um pequeno grupo de filmes que consegue unir conceito, forma e ainda falam com o público.

Matrix Reloaded EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Matrix Reloaded, Larry e Andy Wachowski, 2003]

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S1mOne

Andrew Niccol. Este é o nome do homem. O cineasta-escritor é o responsável pelos roteiros do inteligente O Show de Truman e do curioso Gattaca, que também foi sua estréia como diretor. Isso aconteceu entre 97 e 98. De lá pra cá, não se teve notícia de Niccol, que volta agora ao cinema com este Simone. Pelo que se vê na tela, o desaparecimento do cineasta é um caso claro de abdução com extração de massa encefálica.

Simone conta a história de Victor Taransky, cineasta medíocre que vê na criação tecnológica de seu único e surtado fã, uma atriz digital (como se isso fosse novidade), a chance de fazer sucesso. E é o que ele consegue: rapidamente, a tal Simone vira mito. A brincadeira com os simulacros, cara aos trabalhos anteriores de Niccol, parece justa apesar do plot absurdo, mas o resultado é uma catástrofe magistral. Isso sobretudo porque, muito mais que Al Pacino, Andrew Niccol resolve intrepretar Taransky. Ele veste a máscara de diretor sem talento e seu desempenho é – impressionantemente – soberbo.

O filme parte de uma série de clichês. O personagem de Pacino sobrevive da boa vontade da ex-mulher, diretora de um estúdio, que não suporta a última burrada do rapaz e o manda pastar. A partir daí, o cineasta é apresentado a sua estrela digital. A construção do roteiro é repleta de cenas inacreditáveis. O clima de novela americana (ou mexicana, a mãe do novelão), extraído dos filmes dentro do filme, invade a trama. Absolutamente tudo na tela é tosco. Desde as falas, cheias de metonímias baratas e trocadilhos gastos (Simone, a virtual, canta You Make Me Feel Like a Natural Woman, sacou?) até o desenho das personagens. As cenas de Pruitt Taylor Vince no quarto do hotel e a da entrega do Oscar são os ápices.

Mas aí surge o lado sério. De repente, Pacino é mostrado como o homem só e sem opções. A moça virtual torna-se tudo o que ele tem. A trilhinha maniqueísta tenta ajudar a criar o clima dramático. No final, Andrew Niccol tem a brilhante idéia de vender seu filme como uma crítica à indústria cinematográfica, à criação de mitos e ao público. Enquanto aposta no trash, o filme é apenas ridículo, mas quando ele tenta convencer o espectador, Simone transforma-se num negócio absolutamente insuportável.

S1mOne
[S1mOne, Andrew Niccol, 2003]

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Tiros em Columbine

Intenção. Talvez seja esta toda a questão da obra de Michael Moore. O jornalista underground que virou documentarista/cineasta é dono de uma série de filmes polêmicos, que culminam no seu último longa, Tiros em Columbine, que passou na Mostra de Cinema de São Paulo no ano passado, ganhou o Oscar (e gerou o mais comentado discurso de agradecimento da festa nos últimos tempos) e agora estréia em circuito. Columbine se utiliza do drama real de duas crianças que invadiram a escola onde estudavam, armadas, e mandaram ver. Mataram meio mundo. Feriram outro bocado. Uma história triste que fez Michael Moore pensar: como os EUA são uma sociedade podre!

 

Moore é um homem inteligente. Ele pode não ter uma aparência das mais agradáveis, mas sabe fazer associações, mesmo que elas surjam da cabeça dele. Em Tiros em Columbine, ele atribui o caso dos garotos ao amor que a sociedade norte-americana tem pelas armas e pelo mundo bélico em geral. Fala sobre como as pessoas preferem se defender sozinhas ou sobre como elas têm a necessidade de fazer clichê, ops, justiça pelas próprias mãos. Disserta sobre como os EUA se construíram através do imperialismo imposto à força para o resto do mundo. Procura entender como um ator tão famoso quanto o Charlton Heston consegue ser o maior defensor das armas de todos os tempos. Vai atrás de quem vendeu as balas em Columbine para mostrar o que elas fizeram com as crianças.

 

É preciso reconhecer: Moore faz isso de uma forma genial. Trabalha com uma excepcional edição, recursos narrativos retirados de outras formas de expressão, como a animação, e consegue fazer um filme inteligente e ricos de nuances. Difícil não concordar com ele com tantos fatos e tantas nuances acerca deles. Tudo é muito justificado, embasado, provado. Michael Moore, que deve ter tido um trabalho monstruoso para concluir seu filme, parece dizer um belo ufa ao final da projeção, que em geral é recebida com aplausos entusiasmados. Afinal, todo mundo adora quando falam mal dos EUA, fala a verdade. Todo mundo acha muito legal quando lembram o quanto é parca aquela sociedade, o quanto os norte-americanos são rasos, o quanto eles impõem goela abaixo quase tudo que o mundo consome. É sempre muito estimulante concordar com alguém que critica o amor que o norte-americano tem pelo próprio umbigo. Ainda mais em tempos de uma guerra sem motivo, equivocada desde o começo.

 

Mas aí a gente pára e pensa um pouco: qual é a intenção de Moore em fazer este filme? Mostrar a verdade? Qual a intenção do cineasta em fingir que entrevistava o reacionário do Charlton Heston quando mal o deixava abrir a boca? Mostrar o quanto o reacionário do Charlton Heston é reacionário? Qual sua intenção em tomar para si um caso tão trágico como o de Columbine? Será que ele veio para a Terra para fazer o bem? Se a gente for pensar bem, Michael Moore se aproxima dos anti-heróis atuais. Feio que dói, gordo, sem papas na língua, disposto a fazer valer a justiça pelas próprias mãos. Ele mostra o problema e ele mesmo vai buscar a solução, não é genial? Leva os garotos aleijados para o lugar onde as balas são vendidas e consegue mudar a história. Perfeito… Espera aí, eu falei justiça pelas próprias mãos? Então é isso? Moore faz justiça pelas próprias mãos? Assim como o pai de família que compra a arma e a deixa em casa para matar o seu próprio bandido? Parece que é. Eu falo que parece porque eu não sei tantas coisas quanto Michael Moore, que pode dizer o que é verdade ou não.

 

Tiros em Columbine

Bowling for Columbine, EUA, 2002

Direção: Michael Moore.

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O Último Suspeito

Robert De Niro já foi o melhor ator do mundo. De motorista de táxi a jovem chefe mafioso, passando por campeão de boxe. O artista das mil faces é responsável por algumas das maiores interpretações das últimas décadas no cinema. Mas, alguma coisa aconteceu. Nos últimos anos, a carreira do ator acumulou uma série de filmes que, quando não são ruins, são completamente desprovidos de expressão. É o caso desse O Último Suspeito, baseado numa reportagem sobre a história real de um policial cujo filho viciado em drogas é acusado de assassinato.

O diretor Michael Caton-Jones condena o filme ao ostracismo quando abusa dos clichês para desenvolver a trama. Sua mão fraca não sustenta as possibilidades da história, que, por mais que seja real, parece falta de imaginação de roteirista ruim. Em momento algum o filme mergulha nos personagens e mostra suas motivações e intenções de maneira clara. O novato James Franco (de Homem-Aranha) esboça uma boa interpretação, mas seu personagem é quase que abandonado pelo roteiro. O lampejo de dignidade nesse filme apático só aparece quando De Niro contracena com a excelente Frances McDormand (de Fargo e Quase Famosos). Ela dá tantas nuances a sua personagem, que coloca no bolso quase tudo que resta no longa. Quanto a De Niro, a gente sempre pode esperar… mas só porque é ele.

O Último Suspeito Estrelinha½
[City By The Sea, Michael Caton-Jones, 2002]

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X-Men 2

X-Men 2

Bryan Singer tem uma carreira curta no cinema. Depois de um filme que ninguém viu fez um que todo mundo assistiu, Os Suspeitos. Ganhou pontos sua obra seguinte, O Aprendiz, e em 2000 recebeu a missão de levar para o cinema o maior grupo de super-heróis da história dos quadrinhos, os X-Men. Seu filme foi rapidamente alçado a melhor adaptação de um personagem de HQ para as telas. Elogiado pelos fãs e pela crítica. Mas ainda faltava alguma coisa. Faltava ideal.

Os X-Men surgiram na década de sessenta, junto com os grandes personagens de Stan Lee para a editora Marvel Comics: Homem-Aranha, Hulk, Quarteto Fantástico, entre muitos outros. O grupo de mutantes (pessoas especiais portadoras de um gene capaz de lhes garantir superpoderes desde crianças) lutava menos com seus inimigos e mais por sua aceitação entre os humanos comuns. Os X-Men se tornaram um marco nos quadrinhos. Eles eram a diferença. E a diferença sempre incomodou.

O universo dos mutantes foi absorvido imediatamente para o universo dos leitores, em sua maioria adolescentes, prontos para enfrentar o mundo que não os entende. Essa associação multiplicou várias vezes a fama e a mitificação dos heróis, que também aumentaram em quantidade. Mais de vinte deles participaram dos X-Men, além de outros tantos (com tantas histórias diferentes) que compunham equipes paralelas como o X-Force, os Novos Mutantes, o X-Factor e o Excalibur. Os X-Men se tornaram muito maiores do que Lee poderia imaginar.

Nas mãos da dupla Chris Claremont e John Byrne, os mutantes explodiram em sua popularidade, com histórias cada vez mais complexas e seus conflitos cada vez maiores. Transportar – ou melhor, recriar – personagens tão complexos como Wolverine, Magneto, Jean Grey e o Professor Xavier para as telas era arriscado e difícil. Mas no primeiro filme, Singer, que nunca tinha lido uma revista do grupo, soube apresentar os heróis, sobretudo pelo casting perfeito. Faltava falar de motivação.

É justamente ela, a motivação, que transforma X-Men 2, este sim, na melhor adaptação de personagens de quadrinhos para o cinema. A luta contra o preconceito para com os mutantes é a mola mestra do filme, que defende o ideal do professor e mostra na prática como os mutantes sofrem para ser aceitos. “Por que você não se disfarça o tempo todo?”, pergunta Noturno para a Mística. “Porque não deveríamos ter de fazer isso” é a resposta que ele consegue.

Metáforas à parte, o filme diz que todo mundo merece ser respeitado. Conseguir dizer isso em pleno cinema comercial norte-americano e com super-heróis que se teleportam, movem objetos, controlar o tempo ou soltam raios é muita coisa. É arte. Singer prova que a arte está em qualquer lugar. Basta ter talento pra chegar nela. O cineasta equilibra a tênue linha entre o idealista e o vilão em Magneto. Nenhum personagem é caricatural. Wolverine volta a excelência da interpretação do surpreendente Hugh Jackman e Alan Cumming recria o Noturno perfeito. Até Halle Berry, que tinha decepcionado no primeiro filme consegue fazer uma Tempestade digna (e finalmente com o cabelo no lugar).

Outro grande trunfo do filme é que o espírito dos X-Men corre ao lado da eficiência técnica. As cenas de combate ou de simples exibição de superpoderes são deliciosas. A transformação do Colossus, Kitty Pryde atravessando as paredes, as teletransportações do Noturno são feitas com perfeição. Nostalgia pura. É sonhar com o que ainda está por vir – e as ambições dos produtores incluem sagas alternativas, como o clássico Dias de um Futuro Esquecido, que se passa numa realidade alternativa. Assistir X-Men 2 no cinema é voltar aos tempos da adolescência e mergulhar num universo único onde as ideologias e caráteres ajudam a se formar. Testemunhar como tudo foi tão perfeitamente respeitado nesse filme é simplesmente delicioso e merece reverência. Surpreender-se com a possibilidade completamente real – vide a imagem final – do surgimento da Fênix no próximo filme é pertubador. Difícil conter os arrepios.

Que venha o Hulk.

X-Men 2 EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[X2: X-Men United, Bryan Singer, 2003]

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