Monthly Archives: abril 2003

O Apanhador de Sonhos

O Apanhador de Sonhos

Os livros de Stephen King já serviu de base para muito material cinematográfico de qualidade. Brian De Palma dirigiu Carrie, a Estranha (76) logo no início de sua carreira. O genial Stanley Kubrick foi o responsável por levar o sombrio O Iluminado (80) para as telas. E Rob Reiner viu em Conta Comigo (86), um dos momentos mais altos de sua carreira. Mas nem sempre as fórmulas funcionam. A premissa desse O Apanhador de Sonhos (03) é boa, mas seu resultado não passa de um fiasco.

Os alienígenas são malvados e estão entre nós. Mas o plano para dominar a raça humana sempre é ameaçado por militares – aha! – norte-americanos. A história se confunde com a de cinco amigos de infância que guardam segredos mágicos. O grupo tem uma relação quase que simbiótica, inabalável como no filme de Rob Reiner. Mas a empolgação escorre ralo abaixo quando o filme recorre à gosma para fazer sua narrativa. As idéias se repetem e viram clichês. Piadinhas começam a percorrer o roteiro, desintegrando o clima inicial do filme.

O destaque é ver o ex-New Kids on the Block Donnie Wahlberg no importante papel de Duddits. O desempenho do rapaz não decepciona, mas fica aquém da versão criança de seu personagem, criada pelo pequeno Andrew Robb, perfeito. A reviravolta militarista de O Apanhador de Sonhos faz o longa parecer um produto de ação que não passa do tosco. Curioso ver os nomes do diretor Lawrence Kasdan (O Reencontro) e do roteirista William Goldman (Butch Cassidy e Todos os Homens do Presidente) neste projeto onde uma idéia boa é esmagada no chão como um verme do espaço.

O Apanhador de Sonhos
The Dreamcatcher, EUA, 03
Direção: Lawrence Kasdan.
Roteiro: William Goldman, com base no livro de Stephen King.
Elenco: Thomas Jane, Morgan Freeman, Tom Sizemore, Donnie Wahlberg, Jason Lee, Damian Lewis, Timothy Olyphant, Mike Holekamp, Reece Thompson, Giacomo Baessato, Joel Palmer, Andrew Robb.

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Como Perder um Homem em 10 Dias

Bonequinha de Luxo (61), de Blake Edwards e estrelado por Audrey Hepburn, é uma das melhores comédias românticas de todos os tempos. O gênero é, em geral, muito irregular em produzir grandes filmes sobretudo porque é difícil equilibrar na balança o humor inteligente e o romance que envolve o espectador. Como Perder um Homem em 10 Dias (03) começa fraco, com uma premissa que parece não se sustentar, mas aos poucos se torna uma revelação.

O filme de Donald Petrie bebe da fonte das comédias românticas mais clássicas, aposta em piadas que, se não são necessariamente inteligentes, passam longe de ser gratuitas e tem um casal de protagonistas encantador e completamente integrado. Matthew McCounaghey e Kate Hudson, sobretudo, estão tomados por seus papéis. O roteiro parece o de um filme rodado nos anos 60, com Doris Day e Cary Grant. O mais delicioso é perceber as homenagens discretas a Bonequinha de Luxo. O hino Moon River vira trilha incidental na cena da festa e o final no táxi é uma referência direta à pequena obra-prima de Blake Edwards.

Como Perder um Homem em 10 Dias EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[How To Lose a Guy in 10 Days, Donald Petrie, 2003]

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Carandiru

Carandiru

Rodrigo Santoro entra em cena com braços musculosos e peitos enormes. A platéia não sabe o que fazer e ri descontroladamente. Em Carandiru, como na vida, o brasileiro ainda não entende a diferença. Se antigamente, repelir o estranho era o mais fácil e imediato, hoje – já que não há alternativa – ri-se do que é diferente. Rir é muito bom, mas o problema é que aqui não há do que rir. Ri-se de nervoso. Do quão inoportuno é perceber que não há como controlar o mundo.

Nem o mundo. Nem os homens. 7 mil e 500 deles se acumulam na penitenciária onde só cabem 4 mil e 500. Histórias de pequenas raivas e de pequenas vidas, cheias de som e de fúria. Mais fúria que som, é bem verdade. Mas a cena mais forte de Carandiru não mostra violência ou agressão. Um jogo de futebol entre os detentos do Pavilhão 9 mostra que ali há pessoas e não só marginais. Pessoas que foram para naquele lugar por causa da realidade surreal do país em que vivem e que colocam a mão no peito e a voz no coração para entoar o hino da nação.

É curioso olhar para Carandiru e ver um filme grande e não um grande filme. Todos os elementos estão lá: seleção extraordinária de elenco, fotografia escura e metafórica, direção de arte perfeita, habilidade no manejo das cenas. Mas ao mesmo tempo falta tudo: nenhuma atuação que ultrapasse o competente, técnica eficiente mas raramente inventiva e uma certa acomodação estética e criativa. Babenco parece se contentar com o material realmente farto de que dispõe, mas esquece de dar unidade a tudo isso. O filme tem muito, mas parece muito pouco.

Babenco é um grande cineasta. Pixote (80) tem mais de vinte anos e continua um grande filme. O Beijo da Mulher Aranha (85) é outro exemplo. Ambos filmes vivos, filmes urgentes, que se fazem necessários. Mas Carandiru carece de ser assim (e olhe que é, sem dúvida, o melhor filme brasileiro deste ano até o momento). Não há urgência no filme. Não há real envolvimento do espectador. As histórias pessoais são apresentadas com competência, mas sem grande comoção, sem intenção de conquista, sem mergulho, o que faz de Carandiru honesto, correto e muito importante historicamente. E só.

Carandiru
Carandiru , Brasil, 2003
Direção: Hector Babenco.
Elenco: Luiz Carlos Vasconcelos, Rodrigo Santoro, Gero Camilo, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Caio Blat, Milton Gonçalves, Antônio Grassi, Floriano Peixoto, Ricardo Blat, Maria Luísa Mendonça, Vanessa Gerbelli, Rita Cadillac, Nelson Machado, Sabotage, Aída Lerner, Aílton Graça, André Ceccato, Dionísio Neto, Enrique Diaz, Ivan de Almeida, Julia Ianina, Leona Cavalli, Milhem Cortaz, Robson Nunes, Sabrina Greve, Bukassa.
Roteiro: Hector Babenco, Fernando Bonassi e Victor Navas, baseados no livro Estação Carandiru de Dráuzio Varella. Produção: Flávio R. Tambellini e Fábio Gullane. Fotografia: Walter Carvalho. Edição: Mauro Alice. Direção de Arte: Clóvis Bueno. Música: André Abujamra. Figurinos: Cristina Camargo.

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Bully

Quando Larry Clark estreou como diretor com Kids, em 95, o mundo se chocou com o retrato de uma juventude perdida entre as drogas, o sexo e a falta de perspectivas. Leo Fitzpatrick, Justin Pierce sobretudo Chloë Sevigny criaram personagens que vão muito além dos estereótipos do inconseqüente, do maluquinho ou da menina pura. Os três jovens atores criaram pessoas. O roteiro do depois cineasta Harmony Korine desenha um painel de um universo adolescente caótico, com pouca possibilidade de salvação. Kids chamou atenção não apenas pelas cenas fortes, mas porque parecia extremamente próximo da realidade e próximo da nossa esquina.

Na Mostra de Cinema de São Paulo do ano passado, foi exibido Ken Park, último longa de Clark, co-dirigido por Ed Lachman. Mais uma vez, o cineasta invade o universo da juventude e sua nulidade de intenções. O filme acompanha quatro jovens da periferia de uma grande cidade e suas relações com o sexo. Ken Park incomodou muita gente porque realmente tinha cenas feitas com a intenção de chocar. Masturbação explícita entre elas. E também incomodou outras pessoas que perceberam uma limitação temática na obra do diretor. Apesar de circular o umbigo de seu filme de estréia, Larry Clark conseguiu contar algumas histórias interessantes. E só.

Agora estréia em circuito o filme anterior de Clark, Bully, realizado em 2001, que assegura ao espectador inteligente a farsa em torno do cineasta. Larry Clark somente sustenta sua obra pela idéia de que nossos jovens estão perdidos. E ponto. E para justificar sua teoria, ele toma para si uma história real de juventude transviada, mas consegue nos entregar um filme primário. Em Bully, um garoto recém-saído da adolescência não consegue se impor frente ao melhor amigo de infância, um pervertido sexual violento que o espanca com freqüência.

Sob a égide de história real, Clark patetiza as ações. Os desenhos dos personagens são precários e irreais e ignoram a compreensão dos adolescentes como pessoas reais. São apenas simulacros, preenchidos com as propostas do diretor para o que seriam eles e porque fariam aquilo tudo. A ânsia em mostrar a falta de noção de realidade dos garotos desdramatiza a narrativa, que fica incoerente e inverossímil, apesar de ser uma história verdadeira.

O personagem mais bem construído, o de Nick Stahl (que se confirma como excelente ator), também sofre com o roteiro. Nick passa da fúria para a doçura em dois tempos num papel difícil de fazer e fácil de cair na caricatura. O maluquinho de Michael Pitt é uma atração, embora resvale na caricatura algumas vezes, mas o rapaz tem um timing perfeito. Os outros ou estão corretos e estejam levados pela corrente do roteiro (Brad Renfro) ou não conseguem esconder a falta de talento (Rachel Miner, com caras e bocas de dar pena). Se a intenção de Bully é traçar um perfil da juventude perdida sobretudo norte-americana, é um fracasso total. Não porque a juventude seja muito diferente daquela, mas porque os estereótipos criados por Clark pra vender seu filme reforçam a visão fechada e preconceituosa que a própria humanidade tem de suas crianças.

Bully Estrelinha
[Bully , EUA, 2001]

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