Monthly Archives: março 2003

O Expressionismo Alemão em dois clássicos

A fotografia sempre sombria e a cenografia, esfuziante. O Expressionismo Alemão dos anos 20 foi um dos mais frutíferos momentos do cinema em toda a sua história. A tela foi palco para a pintura e para as experimentações com textura e com signos. A mostra de filmes da UFA que a Cinemateca Brasileira exibiu até domingo foi uma grande oportunidade de ver e rever clássicos do cinema expressionista. Em posts anteriores deste blog, há um texto sobre Dr. Mabuse, o Jogador (22) e a primeira parte de Os Nibelungos (23), ambos de Fritz Lang. Hoje, eu dedico esse post a outros dois filmes: um do mesmo Lang (a segunda parte de Os Nibelungos, 24) e o segundo do maior cineasta da história da Alemanha, Friedrich Wilhem Murnau, A Última Gargalhada (24).

Lang e Murnau são os grandes criadores desta época. Utilizaram a tecnologia disponível à época para criar. Diferentemente de Lubitsch, cineasta mercadológico, brincaram com as possibilidades do filme, usaram a imagem para a contar a história, ajudaram a criar a linguagem cinematográfica. Metrópolis, do primeiro, uma das maiores ficções-científicas da história, antecipa a Alemanha totalitária da década seguinte. Nosferatu, do segundo, cria o primeiro vampiro do cinema. E o mais assustador, envolto por um mistério encantador que invade as mentes de quem assiste ao filme ainda hoje. Em 1924, os dois cineastas lançaram dois grandes filmes.

Em Os Nibelungos – Parte 2: A Vingança de Kriemhild, Fritz Lang continua a narrar a lenda dos povos primeiros da Alemanha, inspirado pela tetralogia criada pelo compositor Richard Wagner, O Anel dos Nibelungos. A história é centrada na figura da rainha Kriemhild, que para se vingar do assassino de seu marido Siegfried casa-se com Átila, o rei dos Hunos. Diferentemente do primeiro filme, onde o espírito aventureiro de Siegfried dita o ritmo, esta segunda obra é mais dark, com intenções e imagens mais sombrias. À exceção da sufocante seqüência final (impressionantemente bem realizada), é quase todo rodado em locações internas, o que intensifica seu clima claustrofóbico.

O ambiente é o das conspirações, das intrigas palacianas, que Lang sabe transportar muito bem para o início da história da Alemanha. A fotografia, mais escura e mais bonita que a do primeiro filme, colabora para sequestrar o espectador para um universo sem esperanças. Kriemhild conduz os filme pelos porões invisíveis que passou a habitar depois da morte do marido. Seu desejo de vingança é cego. Nem olha para os próprios irmãos. Seu duelo à distância com o assassino é um confronto assustador e desesperado, justamente porque os duelistas nunca estão frente a frente. Lang vira um maestro do caos, conduzindo seu espectador por um universo de barbárie e de amor.

A Última Gargalhada traz Murnau para o cotidiano depois de sua incursão pelo mundo dos seres abissais em Nosferatu. E o cotidiano é duro, como em todos os seus filmes. Nosso protagonista é o herói do cortiço onde mora. Apesar de sua idade já avançada, é o porteiro do chique Hotel Atlantic, um dos mais luxuosos estabelecimentos da cidade. Sua volta diária para casa é motivo de festa (sorrisos das mulheres, cumprimentos dos homens, brincadeiras da crianças). Seu uniforme imponente, um traje real. Até que um dia, o gerente do hotel percebe que ele está cansado e velho, encomendando sua transferência para a limpeza do banheiro. Quando a família e os vizinhos descobrem seu fracasso, passam a ignorá-lo.

Nesse ponto, Murnau, que celebra a vida do porteiro com brincadeiras de câmera, jogos de luz e uma edição mais acelerada, muda o ritmo de seu filme, que entristece junto com o personagem. Fica escuro, sombrio; apenas os rostos dos atores são iluminados. Emil Jannings (de O Anjo Azul, 29) é de dar dó no papel central. Como Jack Nicholson, em As Confissões de Schmidt, ele perde sua pequena significância para o mundo (ou para seu pequeno mundo) quando perde o emprego. Deixa de existir ou existe à margem. A Última Gargalhada proclama o quão nulos todos somos fora de um determinado contexto. O golpe final do roteiro, no entanto, é catártico no sentido feliz da palavra. Um pouco ingênuo, talvez. Foge à atmosfera do filme e, por isso mesmo, soa um pouco estranho e apaziguador. Mas não diminui as qualidades de um cineasta perfeito.

Os Nibelungos – Parte 2: A Vingança de Kriemhild EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Die Nibelungen - 2 Teil 2: Kriemhilds Rache, Fritz Lang, 1924]

A Última Gargalhada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Die Letzte Mann, Friedrich Wilhem Murnau, 1924]

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Solaris

Pra começar, uma informação: eu vi o primeiro Solaris (que Andrei Tarkovsky dirigiu em 1972) há longos sete ou oito anos e, sinceramente, não estava preparado para tanto. Mal lembro dele. Por isso, esse texto fala sobre o filme de Steven Soderbergh e nunca o compara ao outro. Se um filme não consegue existir sozinho e tem que necessariamente ser associado a outro ou a um livro ou a uma peça, acho que não cumpre sua função como obra, seja de arte seja do que for. 

Solaris é um planeta a ser explorado, mas algo estranho acontece a seus exploradores. Cabe ao psiquiatra vivido por George Clooney investigar o que acontece na estação espacial que pesquisa o planeta e trazer seus tripulantes de volta à Terra. Mas Solaris não quer que nenhum visitante vá embora, talvez se sinta só. Para isso, cria agradáveis ilusões para os olhos de quem se aproxima: faz pessoas queridas voltarem à companhia daqueles que quer tomar para si. Mesmo que elas já estejam mortas. Clooney ainda sofre pela perda de sua esposa, que se suicidou anos antes. O reencontro o coloca em crise: vale a pena ter algo que não é verdadeiro? 

O romance de Stanislaw Lem, que não gostou de nenhuma de suas adaptações para o cinema, disserta sobre realidade e ilusão, verdade e mentira. Há reclamações de que o filme é reducionista e aposta em como o amor pode ser tão grande a ponto de atravessar a barreira da morte. Para mim, Soderbergh fala sobre como é mais fácil viver da fantasia, da ilusão. De como é mais agradável se acomodar a uma situação que não se consegue resolver. Os personagens vivem um dilema angustiante: abdicar da realidade ruim e abraçar a mentira boa? Para mim, o final de Solaris não tem nada de feliz. É o mais infeliz que poderia haver.

Solaris EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Solaris, Steven Soderbergh, 2002]

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Cidade dos Sonhos

David Lynch gosta de fazer ele mesmo muitos dos móveis que vemos em seus filmes. É um construtor por natureza. Seus trabalhos se apóiam em estruturas complexas que muitas vezes não são compreendidas e, às vezes, nem devem ser. A magia da obra de Lynch é justamente o mistério que envolve seus filmes e o elaborado caminho que o cineasta percorre para nos oferecer seu mistério. Lynch deve ser fruído e não necessariamente entendido. Cidade dos Sonhos é um filme clássico de David Lynch. Sua construção já é digna de aplauso e, mesmo que o espectador não compreenda todos os detalhes do filme, é possível perceber os toques geniais de seu diretor em cada pequena cena.

O filme tem a estrutura de um sonho. As cenas, objetos e personagens se rearranjam de acordo com os motivos de quem sonha. Nada é muito lógico. Nada é muito certo. Difícil até falar da história do filme, a princípio sobre a chegada de uma jovem pretendente a atriz em Hollywood e seu encontro com uma mulher que perdeu a memória depois de um acidente de carro. Mas nada é o que parece na filmografia de Lynch. Veludo Azul, A Estrada Perdida ou a antológica série Twin Peaks são obras extremamente cultuadas, mas que dificilmente serão entendidas por completo, em seus mínimos detalhes e intenções, e que ainda assim são deliciosas e instigantes.

Na melhor cena de Cidade dos Sonhos, a personagem de Naomi Watts participa de uma audição. Precisa passar pelo teste duas vezes para mostrar seu talento e brinda o espectador com uma transformação tão complexa quanto discreta, que revela não apenas uma poderosa atriz como define a questão de identidade que está no cerne do filme.

A estrada que Lynch percorre neste filme é uma estrada guiada pela frustração de alguém que não consegue ser outro, ser seu ideal. E pelos efeitos que isso pode ter na mente desse alguém. Para falar sobre os caminhos tortuosos da mente humana, sua especialidade, Lynch ergue um castelo de cartas que podem cair a qualquer momento. Um castelo erguido sob a égide do desejo, sob a conformidade do sonho. Genial e perigoso. Cai o rei de espadas… cai o rei de ouros… cai o rei de paus, cai… não fica nada. E então você acorda.

Cidade dos Sonhos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mulholland Dr., David Lynch, 2001]

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Durval Discos

O curta-metragem A Origem dos Bebês Segundo Kiki Cavalcante apresentou Anna Muylaert ao mundo do cinema. O filme, que narra a teoria de uma menina sobre o surgimento das crianças, é uma delícia de assistir: engraçado e inteligentinho. A estréia da cineasta no longa-metragem parecia promissora. E é assim que Durval Discos começa, como uma comédia de costumes leve e simpática. Ary França, embora alguns não concordem, vive muito bem o homem largado, o ser que ficou no passado, que estancou no tempo. Dono de uma loja de discos de vinil, ele se recusa a aceitar que sua paixão ficou ultrapassada, do mesmo modo que conduz sua vida.

 

Enquanto retrato do cotidiano, Durval Discos cumpre seu papel com eficiência e graça. O cenário da loja enche os olhos dos fãs de música brasileira. As referências musicais, na trilha ou nos diálogos, são deliciosas. A defesa que o personagem faz das qualidades do vinil remetem a Alta Fidelidade, de Nick Hornby, mas o filme de Muylaert não tem nada de pop. A cineasta não tem o poder de brincar com as possibilidades dos bastidores. E nem é esse seu intento. Durval Discos se perde quando a cineasta resolve transformar uma comédia simpática num mergulho psicológico nas personagens. Pessoas que vivem da corrupção de suas próprias vidas e que se alimentam de suas próprias frustrações. Aí, o filme se desequilibra e não se sustenta mais.

 

Durval Discos

Durval Discos, Brasil, 2002

Direção e Roteiro: Anna Muylaert

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Ernst Lubitsch em dois filmes

Antes de a palavra invadir as telas já havia o cinema. As imagens em movimento contaram milhões de histórias antes do cantor de jazz de Al Jonson soltar a voz na singela Mummy, em 1928. Doces vagabundos, vampiros horrendos, mulheres-robôs, gordos e magros construíram, por um mérito ou outro, a história das primeiras décadas do cinema com a delicadeza dos gestos e o um intenso trabalho de descoberta das imagens. Mas a falta de palavras também era refúgio para a mediocridade. As caras e as bocas de muitos artistas desprovidos de talento foram enterradas com a chegada do som. Escondidos por trás de uma câmera, os cineastas tiveram um pouco mais de sorte. É o caso de Ernst Lubitsch.

O cineasta, que mais tarde viria a dirigir obras de porte como Ninotchka, Ser ou Não Ser e o meu favorito A Oitava Esposa do Barba Azul, começou a carreira na Alemanha fazendo muito filme ruim. Lubitsch, que depois seria o dono do famoso Lubitsch Touch, o toque de Lubitsch (algo meio mágico que dava vida a comédias simples), foi um diretor do cinema de consumo que a UFA, o maior estúdio alemão da história, utilizou até sua partida para Hollywood. Em menos de dez anos, o cineasta fez mais de trinta filmes, incluindo a adaptação da pantomima Sumurun e um longa inspirado na cortesã francesa Madame Dubarry.

A ingenuidade do último filme está presente em todas as suas cenas. Lubistch trata sua Dubarry como uma personagem de conto de fadas em que nada dá certo. Não é propriamente uma crítica à não interpretação dos atores, coisa comum àquela época, mas ao simplório desenvolvimento da história. Fragmentada, mal editada, pouco… construída. Madame Dubarry simplesmente não funciona. Não é um retrato da França da Revolução. Não conta a história de uma mulher. Não é um filminho bobo para as mocinhas da década de 10. Parece um filme que nunca chegou à sua forma final. Pode parecer exigência demais para um filme feito em 1919, mas este foi o ano em que Robert Wiene dirigiu o impecável O Gabinete do Dr. Caligari.

Sumurun, feito um ano depois, ao menos consegue ser coeso, apesar de igualmente ruim. Baseado numa pantomima passada nas imagéticas mil e uma noites das tão sonhadas Arábias, o filme entrelaça as histórias de duas mulheres, uma dançarina pérfida que quer se dar bem e uma bela moça do harém de um sultão. Aqui, se a história é melhor desenvolvida, o que incomoda é a obviedade do texto e a limitação das interpretações. Pola Negri encarna uma mulher do mais baixo nível em cada cena que faz. Seus contorcionismos com intenções sensuais devem ter soado grosseiros e desnecessários à época, mas ajudam a desenhar sua personagem.

Mas o mais interessante ao ver estes dois filmes é analisar como um diretor ruim consegue evoluir no seu trabalho. Consegue partir para a criação e desenvolver um estilo próprio, envolvente e reconhecível em cada obra. Lubitsch, que surgiu para o universo das artes como ator da trupe de Max Reinhardt, diretor de teatro alemão da virada do século 19 para o 20, talvez ainda não tivesse atingido a maturidade necessária para chegar a ser um cineasta de verdade. Talvez por isso mesmo o gordo corcunda que ele mesmo interpreta em Sumurun seja o melhor destes dois filmes esquecíveis.

Madame Dubarry Estrelinha½
[Madame Dubarry, Ernst Lubitsch, 1919]

Sumurun Estrelinha
[Sumurun, Ernst Lubitsch, 1920]

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Münchhausen

As Aventuras do Barão de Münchhausen, filme dirigido pelo inglês Terry Gilliam em 1988, é um dos maiores fracassos da história do cinema. Custou uma fortuna, sofreu com uma série de catástrofes durante sua produção e naufragou nas bilheterias. Mesmo com sérios problemas de edição, o que deixam seu ritmo desequilibrado, é um filme encantador. Sobretudo por causa do maravilhoso personagem encarnado por John Neville, que já havia chegado outras três vezes ao cinema.

Em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial, a UFA, o megaestúdio comandado pelos nazistas, completou 25 anos e o ministro da propaganda alemã Goebbels queria um filme luxuoso que honrasse o aniversário. O tema escolhido para a produção foi a história do Barão de Münchhausen. O filme custou o último marco do Terceiro Reich e foi rodado em um local isolado enquanto bombardeios destruíam o que havia pelos arredores. Questionamentos políticos ou sociológicos à parte, Münchhausen é um espetáculo cinematográfico.

O barão é o maior mentiroso da história, um mulherengo confesso que se arrisca em aventuras extraordinárias e é dono da capacidade de resistir, incólume, à passagem do tempo. O personagem, por si só, é um achado. Sua mágica transcende a linguagem: atrai não só as outras personagens à sua volta, mas quem lê ou assiste suas aventuras. Nas mãos do cineasta Josef von Báky e do dinheiro nazista, Münchhausen viu sua grandiosidade ganhar a medida certa nas telas. Uma aventura soberba, realizada com arte de primeira classe e tecnologia surpreendente (os efeitos são perfeitos e a fotografia é inovadora).

Quando flerta com a cazarina Catarina ou engana um sultão, o barão mostra que conquista com a palavra, com a sedução. E Münchhausen, o filme, é feito para seduzir o espectador, que viaja num balão até a lua ou voa numa bala de canhão como criança. Se o luxo da direção de arte e dos figurinos pode soar ostentação, basta assistir à dança das roupas no armário para esquecer da realidade e mergulhar na fantasia, mais que isso… na magia que não se corrompe com a ideologia e que, no melhor exemplo do seu personagem, resiste sem pestanejar ao passar do tempo.

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[Münchhausen, Josef von Báky, 1943]

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8 Mile – Rua das Ilusões

8 Mile

Jimmy Smith Jr. é um bom rapaz. Suburbano, proletário, trabalha como metalúrgico pra pagar as contas enquanto espera a oportunidade de mostrar seu talento como rapper. Só quer vencer na vida. A mãe, que vive num trailer com sua irmãzinha criança, é uma desajustada viciada em sexo com homens mais jovens. Os amigos vivem num ostracismo de intenções completo e difícil de sair. Mas Jimmy Smith Jr., ou Rabbit, não cansa de sonhar. Mas sonhador tem que ser rebelde. Enquanto coloca a irmãzinha pra dormir, briga com o homem que bate em sua mãe ou não esquece de desligar a TV antes de sair de casa, Rabbit sai atirando tinta em carros de polícia, incendeia casas abandonadas e trepa com a namorada num canto escuro do lugar onde trabalha. Mas nada dá certo. A oportunidade nunca chega. E várias pequenas decepções ocupam sua vida.

A vida de Jimmy Smith Jr. lembra muito a de um rapaz chamado Daniel LaRusso, o Daniel Sam. Ele também sofria com a incompreensão e apanhava horrores em busca de uma redenção. Só que Daniel apanhava no tatame e Jimmy leva porrada na rua e se vinga nos palcos. Ele protagoniza estranhos duelos contra oponentes igualmente rappers e diferentemente negros. Nos duelos, ganha quem xinga mais o outro, usando o maior número de palavrões possível. Jimmy é bom nisso.

A estréia de Eminem no cinema é surpreendente. O rapper consegue muito com sua interpretação: cerca de duas expressões faciais. Numa, ele aparece com um panaca assustado com olhos esbugalhados. Na outra, ele aparece assustado com um panaca e tem os olhos esbugalhados. Kim Basinger arrasa… com o bom senso. Difícil acreditar que o responsável pelos clichês seja o mesmo Curtis Hanson de Los Angeles – Cidade Proibida e Garotos Incríveis. Ah, mas foi ele que fez A Mão que Balança o Berço

8 Mile – Rua das Ilusões EstrelinhaEstrelinha
[8 Mile , Curtis Hanson, 2002]

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Frida

Frida

Biografias sempre são perigosas. A reverência ao ser biografado é quase inevitável. A estréia no cinema da diretora da Broadway, Julie Taymor, tenta, mas não foge deste destino. Frida procura humanizar o mito Frida Kahlo, mas como não reverenciar uma artista que fez parte considerável de sua obra em cima de uma cama? Por si só, um ser louvável. A cineasta capricha em mostrar uma mulher de firmeza absoluta, guiada por princípios rígidos e muito particulares e pela plena satisfação de seus desejos. Taymor está convencida que essa qualidade cara aos grandes artistas basta para fazer um grande filme. Está enganada. Beethoven (Minha Amada Imortal, 94) e Picasso (Os Amores de Picasso, 96) sofreram do mesmo mal. E Gary Oldman e Anthony Hopkins eram intérpretes bem melhores que Salma Hayek.

A senhorita Hayek, por sinal, é um caso à parte. Nunca deu provas de ser uma boa atriz, mas também nunca foi ruim. Mas em Frida, ao contrário das expectativas, ela surpreende. Cai na caricatura algumas vezes, mas em geral defende bem seu personagem. Nada memorável, mas a mexicana simpática e belíssima tem seus méritos. Alfred Molina, sempre eficiente, cria um ótimo Diego Rivera. No entanto, a surpresa é pequena e surpreendentemente boa participação de Ashley Judd. Mas o melhor em Frida são as liberdades cinematográficas que a diretora se permite. Taymor cria uma série de truques imagéticos que ao mesmo tempo que ajudam a contar a história fazem referência/reverência direta à obra de Frida Kahlo. São essas cenas e o esforço visível dos envolvidos em fazer um filme interessante que tornam Frida menos burocrático.

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[Frida, Julie Taymor, 2002]

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As Confissões de Schmidt

As Confissões de Schmidt

Todo dia Warren R. Schmidt faz tudo igual. Levanta às sete horas da manhã e vai fazer xixi, sentado, como a mulher ensinou para deixar o sanitário limpinho. Depois, o destino é o escritório onde trabalha há décadas como vice-presidente de uma empresa de seguros. Até que um dia ele olha pro relógio, esperando a hora passar. Acabou. Momento de se aposentar. É a partir daí que Schmidt começa a divagar sobre si mesmo e sobre tudo que o cerca: o que fez da vida até hoje? Cumpriu seu papel, sua função no mundo? Valeu a pena? E agora, o que fazer? Os esforços para se tornar útil começam com a adoção de um menino etíope pelo correio. Perdido entre o não saber o que fazer e o já fiz a minha parte, uma tragédia pessoal o atira na estrada e na vida. Schmidt embarca numa viagem para tentar se reaproximar da filha, que mora longe. Uma viagem em busca de presença, carinho e respostas. 

Jack Nicholson se despe de Jack Nicholson e, sem exageros, parece estar no papel mais importante de sua carreira. No filme de Alexander Payne, dos ótimos Ruth em Questão (96) e Eleição (99), se seu protagonista busca respostas, a vida não se encarrega de revelá-las. O roteiro é bem duro com Schmidt e com o espectador. Há momentos de angústia torturante onde é impossível não se identificar com o personagem. A solidão e a sensação de impotência que tomam conta de seus 66 anos de vida fazem parte do dia-a-dia de qualquer um, sujeito ao tic-tac do relógio… E o tempo passa a as respostas não vêm. E a vida se revela um poço de inutilidades. E quanto mais você quer entender e quer que te apontem pra onde ir, mais incertezas a vida te traz. A vida de Schmidt é assim: triste e solitária, cheia de dúvidas. E, por isso tudo mesmo, absolutamente real.

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[About Schmidt, Alexander Payne, 2002]

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Esperando o Messias

O filme de Daniel Burman, primeira parceria dele como o ator Daniel Hendler, recebeu críticas elogiosas de toda a imprensa. Foi quatro estrelas na Folha e tudo. Mas nem todos os filmes funcionam para todas as pessoas. Esperando o Messias tem uma preocupação quase calculista em oferecer densidade, mas todo mundo parece perdido no filme – do protagonista ao mais coadjuvante dos coadjuvantes… Mas eu acho que eu estou com problemas tão maiores que os dos personagens que pensei que ficar sofrendo por aquilo era bobagem. Exagero meu. É um bom filme, com bons atores. A Stefania Sandrelli é a melhor. Está perfeita como a zeladora do banheiro da estação de trem. O roteiro é bem escrito. Um filme basicamente triste. Achei que me tocaria mais já que eu tô basicamente triste. Acho que eu melhorei então…

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[Esperando al Mesías, Daniel Burman, 2000]

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