Monthly Archives: fevereiro 2003

A Festa de Margarette

Não há palavras no filme de estréia de Renato Falcão. Nenhuma sequer. A Festa de Margarette é um filme mudo, em pleno século 21. A condição tem mérito pela ousadia, mas reserva ao longa uma carreira em circuito fechado. Havia apenas 8 pessoas na sessão, onde eu vi A Festa de Margarette, no Unibanco Arteplex. Duas velhinhas não estavam preparadas e saíram da sala passados os primeiros quinze minutos.

O filme começa encantador, sobretudo para os amantes do cinema. A bela fotografia em preto-e-branco e a música composta pelo ator principal conduzem quem vê o filme num mergulho nostálgico pela poesia de imagens de Chaplin ou de Murnau. Mas o encantamento não resiste à ingenuidade do roteiro, que parece tolo demais para ter sido escrito nos dias de hoje. O esforço para conseguir a beleza inocente parece muito árduo e o filme fica cansativo e com poucos momentos de verdadeira magia chaplianiana, o que parece ser o objetivo inicial. Ainda assim é único na cinematografia atual. Hique Gomez (e seu rosto bobão e sua trilha bonita) é o que não deixam o filme perder sua simpatia.

A Festa de Margarette EstrelinhaEstrelinha½
[A Festa de Margarette, Renato Falcão, 2002]

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Adaptação.

Nicolas Cage, Tilda Swinton, Meryl Streep, Chris Cooper

A falta de criatividade já foi tema de muitas obras. Adaptação. (02), novo filme de Spike Jonze, é mais um delas. Uma das melhores. Aqui, o roteirista Charlie Kaufman está em crise porque não consegue ter boas idéias para adaptar para o cinema The Orchid Thief, da jornalista Susan Orlean, sua última encomenda. Kaufman enxerga o livro como um belo painel sobre a vida e as flores, mas acha que o que escreve não vai interessar ninguém e nem tampouco honrar as palavras da autora.

O roteirista tem que agradar sua editora, seu agente, seu público e ainda manter sua dignidade de artista criando um produto de qualidade, sem recorrer aos clichês que seu irmão gêmeo aprendeu num curso para fazer scripts cinematográficos. A cruzada de Kaufman esbarra em suas próprias limitações, seu medo do mundo e sua não aceitação de si mesmo. Sua história divide a tela com a da própria Susan, que descobre um mundo novo com seu entrevistado e termina se confrontando com sua realidade maçante. Aí o filme passa a ser sobre a adaptação das pessoas ao que reserva a vida.

O toque genial do roteiro, creditado aos gêmeos Charlie e Donald Kaufman, acontece justamente com a solução encontrada para o dilema do protagonista. Abandonar a perseguição pela criatividade e se entregar aos clichês. O modo como Spike Jonze e sua dupla de roteiristas resolve isso é de uma inteligência raramente vista no cinema atual, sobretudo no norte-americano. O final escolhido para o filme parece o abandono total da preocupação inicial do autor.

Nicolas Cage dividido em dois está no que talvez seja seu melhor momento no cinema. Meryl Streep e Chris Cooper também defendem seus personagens com perfeição. A ousadia de Charlie Kaufman e Spike Jonze não vê limites. Nem no impacto que sua adaptação terá sobre a autora do livro. Adaptação., o filme, exercita a metalinguagem ao mesmo tempo que investiga as possibilidades de cada um ao enfrentar seus próprios muros. Um filme sobre transformação e sobre os duelos invisíveis que travamos todos os dias.

Adaptação. EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Adaptation., Spike Jonze, 2002]

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12 Homens e uma Sentença

Henry Fonda

Adaptar teatro para o cinema é muito difícil. Um bom texto pode ficar perdido na tela caso o cineasta não saiba respeitar as diferenças das linguagens. Sidney Lumet sabia disso e acertou a mão em 12 Homens e uma Sentença, que dirigiu em 1957, fazendo com que a fotografia ajudasse a contar a história, apoiada num texto excelente e num elenco de grandes interpretações.

O filme tem basicamente um cenário: uma sala onde doze homens têm que decidir se um rapaz suspeito de matar o próprio pai deve ou não ser condenado à morte. Há duas testemunhas convencidas da culpa do acusado. Tudo indica este caminho, mas não há certezas. Isso motiva um dos jurados (interpretado por Henry Fonda) a questionar a si mesmo e a seus colegas sobre a responsabilidade que o grupo tem nas mãos.

É justamente nesse ponto que 12 Homens e uma Sentença revela porque é um grande filme. Aqui, não importa o veredito, mas as convicções. O inconsciente coletivo inspira a vingança. Vingança de um homem que matou seu próprio pai. Os demais jurados resistem aos argumentos com base nas circustâncias e em seus desejos de justiça. Mas como decretar a morte de quem quer que seja se não há certeza? O que está em questão não é a pena de morte, mas algo mais sério: as decisões de cada um e como elas podem ser irreversíveis.

O texto, adaptado pelo próprio autor da peça, Reginald Rose, analisa a perigosa ingenuidade do senso comum e da frágil arrogância em determinar verdades e mentiras. O elenco é perfeito em mostrar um painel das diversidades presentes nos elementos sociais (que não são necessariamente norte-americanos ou dos anos 50; são universais). Lee J. Cobb, como o antagonista de Fonda, detém o melhor papel e a melhor interpretação do filme. 12 Homens e uma Sentença foge do universo dos dramas de tribunal porque é muito mais que um filme sobre uma vida. É um filme sobre a vida.

12 Homens e uma Sentença  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Twelve Angry Men, Sidney Lumet, 1957]

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Separações

Confesso que fui ao cinema com preconceito. Não gosto da figura do Domingos de Oliveira. Acho um tipo too much malandro, que me incomoda (e ainda é pai da Maria Mariana – ela deve ter sua importância, mas não pra mim). E o fato de a Priscilla Rozenbaum ter tirado o prêmio de melhor atriz em Gramado da Débora Fallabella também não me deixava muito feliz com o filme. Mas juro que a cena inicial, um almoço entre amigos, me surpreendeu. Texto engraçado, solto, personagens no clima. Nesta cena, o diretor está hilário como ator principal… isso quando dá pra entender o que ele fala. Que dicção é aquela? Bem, comecei a me enamorar do filme, que às vezes é Woody Allen, às vezes Comédia da Vida Privada, mas aí vem o mal do que sofrem os longa-metragens. Eles são longos. Quando o roteiro sustenta, beleza. Quando não, acontece o que acontece com Separações (02). Seqüências chatas. Humor maçante. Risadas esparsas. A não ser quando há um descontrolado no cinema (havia um nesta sessão). O elenco é irregular, com destaque para o personagem de Ricardo Kosovski, que é profundamente irritante tentando fazer graça o tempo inteiro.O filme tem seus bons momentos. Na comédia e no drama. O texto é bom, mas nada genial. Existe uma preocupação em ser moderno, mas isso a gente tira de letra. O problema é que fica na trave. Se fica, não é gol. Só ameaça. Pequeno Dicionário Amoroso (97) era melhor. E nem era essas coisas todas.

P.S.: os figurinos do ator-diretor são as coisas mais horrendas que um ser humano já teve o desprazer de ver.

Separações
[Separações, Domigos de Oliveira, 2002]

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Simplesmente Martha

A paixão pela culinária inspirou grandes filmes, quase que sempre acompanhados de belos romances. A Festa de Babette (87), Como Água para Chocolate (91) e Comer Beber Viver (94) utilizaram a comida para contar as histórias de lugares, famílias e amores. Em Simplesmente Martha (01), uma chef de cozinha somente percebe o quanto está isolada e dependente desse mundo de sabores quando tem que tomar conta da sobrinha depois da morte da irmã. A aproximação entre as duas, permeada pela comida, é o mote para o filme alemão. A neve esfria as relações, mas a diretora Sandra Nettelbeck foge dos clichês ao usar a delicadeza para conduzir a ação. Simplesmente Martha aposta na simplicidade e na paciência para aproximar personagens glaciais. Isso que faz a diferença.

Simplesmente Martha
[Bella Martha, Sandra Nettelbeck, 2001]

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Prenda-me Se For Capaz

Leonardo Di Caprio, Tom Hanks, Christopher Walken

Prenda-me Se For Capaz não tem cara de filme de Steven Spielberg. O cineasta, geralmente associado a extraterrestres, dinossauros ou arqueólogos aventureiros, parece bem distante do universo das pessoas reais, como Frank William Abagnale Jr, um dos maiores falsários da história dos Estados Unidos. Foi o livro dele, que conta a vida dele, que Spielberg escolheu para adaptar para o cinema no final do ano passado. História que chega às telas como um filme surpreendente.

O maior trunfo do cinema de Spielberg (e seu maior alvo de críticas também) é a simplicidade de seus filmes. Simplicidade na maneira de contar uma história em contraponto com os magnifícios recursos que consegue utilizar para tanto. Simplicidade que atrai e conquista o espectador. Talvez o cineasta nunca tenha sido tão simples como em Prenda-me Se For Capaz, mas é aqui que ele consegue um de seus maiores êxitos.

Frank é um anti-herói norte-americano. E Spielberg é um bom moço. A química improvável funciona graças ao amadurecimento do cineasta e seu desprendimento em adotar para si um protagonista fora-da-lei, ainda que ele que esconda uma motivação nobre: unir a família. O texto de Jeff Nathanson, que adapta o livro, se conduz pelo humor e pela delicadeza, sorvidos até a última gota pela direção inteligente de Steven Spielberg. O cineasta aproveita cada detalhe, mostra cada pequena coisa, e cria o cenário perfeito para os atores.

Leonardo Di Caprio incorpora o espírito sem limites de Frank na sua melhor interpretação desde o já longínquo Gilbert Grape (93). Diferentemente de Gangues de Nova York (02), onde sua performance parece espontaneamente contida para deixar o verdadeiro astro Daniel Day-Lewis tomar conta, aqui é Di Caprio quem domina. O ator é a alma do filme, que dificilmente seria tão perfeito sem ele. Mas que também deve aos coadjuvantes. Tom Hanks é o opositor perfeito, o homem normal que também é agente do FBI. Ele foge de todos os estereótipos possíveis aqui (e são muitos e diversos), equilibrando o cômico e o sensível. Já sobre Christopher Walken há pouco a falar e sim a reverenciar. A cena do almoço entre pai e filho é uma das mais belas do cinema recente.

O ritmo e o clima são ágeis e leves, conduzidos pela deliciosa música do maestro John Williams e reproduzidos na bela direção de arte, nos figurinos e nas imagens. E é justamente a fotografia ensolarada de Janusz Kaminski que parece ter tomado conta do cineasta. Os anos 60 são uma época de explosão de cores e de luz. A alegria contagiante presente em cada momento de Prenda-me Se For Capaz é a do diretor em contar essa história. Uma brincadeira de verdade para o cineasta das brincadeiras. Termino de ver o filme com um sorriso no rosto. E acho que não fui só eu.

Prenda-me Se For Capaz 
[Catch Me If You Can, Steven Spielberg, 2002]

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Quem Sabe?

Jeanne Balibar, Sérgio Castellitto

Numa época em que o cinema francês tenta ficar mais pop e ganhar mais espectadores (como em O Fabuloso Destino de Amélie Poulain e Pacto dos Lobos, ambos de 2001), Quem Sabe? pode parecer antiquado. Mas quem conhece um pouco da obra de Jacques Rivette, um dos cinco pilares da Nouvelle Vague, diz que o filme está um passo à frente do seu cinema tradicional: comunica-se melhor com o espectador. Nunca havia visto um filme do diretor e Quem Sabe? me impressionou.

Para a pergunta do título, a resposta é: ninguém. Neste filme, Jacques Rivette coloca seis personagens com vidas cruzadas a questionar suas vidas e motivações. Jeanne Balibar interpreta a estrela francesa de uma trupe de teatro italiana (palmas para a globalização!). Sua volta a Paris, depois de três anos longe, desperta uma série de desencontros e descobertas para muita gente. Rever decisões, caminhos tomados ou sonhos suspensos abala os personagens, que tentam, das mais diversas maneiras, encaminhar suas vidas.

O elenco, encabeçado pela perfeição de Jeanne Balibar, encarna os personagens com a medida necessária, mergulhando nas confusões de cada um. O cineasta abre a colméia e remexe as abelhas como um sinal para o espectador. Para fazer pensar. Rivette reserva para si mesmo o papel de mostrar a situação, mas não interfere nos destinos dos personagens. A seqüência final, perfeita, mostra que olhar para trás revela, mas necessariamente não muda muita coisa.

Quem Sabe? 
[Va Savoir, Jacques Rivette, 2001]

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Uma Lição de Amor

Adaptar Mário de Andrade requer um pouco de ousadia e pretensão. Um dos editores de maior e melhor currículo no Brasil, Eduardo Escorel escolheu Amar, Verbo Intransitivo para ser seu segundo filme como cineasta. A história acompanha a chegada da fraulein alemã vivida por Lilian Lemmertz à casa de uma família da classe alta, nos anos 20.

A intenção é que ela seja a preceptora de Carlos, o filho adolescente, além de iniciá-lo sexualmente. Carlos é um menino feio, coisa que o ator escolhido para vivê-lo não deixa a desejar. Mas se o físico ajuda, a criação do personagem mais importante da história faz o contrário. Marcos Taquechel parece estar lendo todas as falas. Não existe interpretação.

O contraste nas cenas com Lilian Lemmertz, excelente, suprime qualquer credibilidade no filme. A direção de atores parece descuidada. Não há brilho nos coadjuvantes e o filme só se sustenta na linda trilha criada por Francis Hime e no fato de Lilian Lemmertz ser uma atriz perfeita. Seus olhos sem brilho, de quem não tem chão certo ou esperança, entristecem e fazem pensar o que realmente vale a pena.

Uma Lição de Amor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Uma Lição de Amor, Eduardo Escorel, 1975]

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A Intrusa

Para Jorge Luís Borges, não há nada que possa separar dois irmãos que se amam. O universo do conto de Borges foi transferido com competência para os pampas gaúchos no fim do século XIX por Carlos Hugo Christensen. A relação entre os personagens de José de Abreu e Arlindo Barreto neste filme é de mutualismo: um se alimenta do outro. Da alma do outro. Quando a intrusa Maria Zilda aparece, uma relação perfeita é ameaçada. Os irmãos não precisam de nada externo a seu universo, mas o mistério e a ingenuidade fascinam os dois irmãos. A presença incomoda e atrai, mas ela só existe se for compartilhada pelos dois. Desequilíbrio não é tolerado. Tema difícil de ser explorado, mas feito aqui com harmonia e uma delicadeza bruta, embalado pela belíssima música de Astor Piazzolla.

A Intrusa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[A Intrusa, Carlos Hugo Christensen, 1979]

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Um Assunto de Meninas

A ingenuidade de Um Assunto de Meninas é seu maior trunfo. E seu maior problema também. A diretora Léa Pool conduz seu filme com delicadeza, contando as histórias de três adolescentes com problemas familiares que vivem num colégio interno. Mas falta alguma coisa. Falta um pouco de densidade para falar de assuntos tão sérios e tão enormes na vida de quem ainda não entrou na vida adulta. O belo trio de protagonistas se esforça para dar dignidade a suas personagens, mas empaca nos limites de seus potenciais de interpretação. Mischa Barton surge como uma promessa, mas se excede em expressões para causar pena. Ainda assim tem mérito. O roteiro abraça grandes temas, cria boas situações, mas peca ao recorrer a alguns clichês. O personagem de Graham Greene, o amigo exótico, é totalmente dispensável. O filme promete, mas nunca decola: mostra a vida que urge dentro de cada adolescente, mas esbarra num roteiro, que mesmo sendo sincero e simpático, parece ter saído das mãos de alguém que ainda não deixou o colegial.

Um Assunto de Meninas EstrelinhaEstrelinha
[Lost and Delirious, Léa Pool, 2001]

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