Monthly Archives: janeiro 2003

Lancelot du Lac

Em Lancelot du Lac (74), o cineasta abandona a sociedade moderna para investir na lenda (e nas lamúrias da lenda, como não poderia deixar de ser). O filme mostra o tumultuado caso de amor entre a rainha da Inglaterra, Guinevere, e o mais importante dos cavaleiros de seu rei Arthur, Lancelot. Bresson anula a aventura e mergulha na discussão moral de seus personagens. O dilema do casal proibido e a conspiração que o cerca faz a narrativa navegar em direção oposta ao que se poderia esperar deste tipo de tema. O cineasta opta por abolir os confrontos. Eles são sugeridos e depois se mostram concluídos, com cavaleiros sagrando e animais mortos, em cenas estáticas. Para Bresson, é mais importante investigar o movimento do ser humano do que se movimentar.

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[Lancelot du Lac, Robert Bresson, 1974]

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O Batedor de Carteiras

Os olhos do protagonista de O Batedor de Carteiras (59) são perfeitos: olhos mortos, sem expressão, vagando pelas ruas de Paris. A história do batedor de carteiras que não se consegue livrar de uma atração irresistível pelo ilícito, inspirada no Crime e Castigo de Dostoiévski, talvez seja a obra mais redonda de Robert Bresson. Todos os elementos da cinematografia do diretor estão aqui (discussão moral, análise do individual, negação da interpretação, cenografia limpa), mas o que torna encantador este longa-metragem é como Bresson parece se apaixonar por seu anti-herói e nos faz embarcar no seu mundo fascinante. As seqüências de roubo das carteiras, muitas e variadas, são impressionantes e delirantes. Em O Batedor de Carteiras, o cineasta não deixa de elocubrar, mas o faz com graça e cadência.

O Batedor de Carteiras EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Pickpocket, Robert Bresson, 1959]

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A Grande Testemunha

Na filmografia de Robert Bresson, A Grande Testemunha tem um lugar especial. É um dos filmes mais celebrados do cineasta, que garantiu um honroso décimo sexto lugar na enquete de melhores filmes de todos os tempos realizada pela revista Sight & Sound. O diretor conta aqui a história do jumento Balthazar, desde seu nascimento até sua morte, utilizando o animal como campo de estudo sobre a perversidade humana.

Balthazar pontua as relações tumultuadas de uma garota com seus pais e seu amado sem escrúpulos. O sofrimento e a angústia de que os personagens são vítimas são materializados na figura do animal, que sofre todo o tipo de agressões ao longo de sua vida. Bresson utiliza o jumento como um espaço metafórico que investiga pureza, santidade e salvação. O hermetismo do diretor garante imagens de impacto raro, que refletem a crueldade que o cineasta denuncia.

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[Au Hasard Balthazar, Robert Bresson, 1967]

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As Damas do Bois de Bologne

Uma conspiração silenciosa. Uma vingança calculada. As Damas do Bois de Bologne (45), de Robert Bresson (que tem por base o texto de Diderot), mostra um diretor contaminado pelo cinema que se fazia na França à epoca. As imagens do filme nos remetem a parte da cinematografia de Jean Renoir ou Marcel Carné, o clima onde os personagens estão envoltos nos leva a Jean Cocteau, autor dos belos diálogos da obra.

Por sinal, Maria Casarès, a “Morte” de Cocteau, é a protagonista deste filme. Protagonista perfeita: uma mulher que manipula as vidas de três pessoas pelo simples prazer da vingança. Sua interpretação é de raro equilíbrio entre a vilania e a suavidade. Casarès conduz o filme, dando-lhe um leve toque macabro. Filme que, apesar de se inserir no contexto do estudo de Bresson sobre o comportamento humano, parece à parte em sua filmografia, tomada por dramas com temática mais social.

As Damas do Bois de Bologne EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Les Dames du Bois de Boulogne, Robert Bresson, 1945]

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O Processo de Joana D’Arc

O Processo de Joana D’Arc, uma das obras mais famosas de Robert Bresson, centra sua pouco mais de uma hora no julgamento da santa que terminou queimada na fogueira (espero que ninguém ache que isso é contar o fim da história). Realizado em preto e branco (como o clássico A Paixão de Joana D’Arc, feito por Carl Dreyer, em 1928), o filme explica seu contexto num longo letreiro inicial e parte para uma sucessão de cenas internas, muito limpas visualmente, onde Joana D’Arc é interrogada pela Santa Inquisição. Mais uma vez, os atores não são profissionais, mas aqui isso não interfere na qualidade do filme. O duelo entre a verborrágica Joana e o bispo-chefe, que dura todo o tempo do longa, é feito com velocidade e texto inteligente. As intenções políticas de Bresson, claramente acintoso com os ingleses, se esvaem numa história bem contada, interpretada e dirigida. A opção pelo visual básico dos cenários, a ausência de cor e o pouco movimento da câmera destacam os atores e o texto. O filme se ergue pela palavra.

O Processo de Joana D’Arc EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Le Procès de Jeanne D'Arc, Robert Breasson, 1962]

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Deus é Brasileiro

Antônio Fagundes, Wagner Moura, Paloma Duarte

Carlos Diegues fez as pazes com o cinema. Seu último longa, Deus é Brasileiro, é um bom filme, coisa que há muito tempo não aparecia na filmografia do cineasta. Como comédia leve ou como obra que pretende discutir temas mais sérios (como o brasileiro), o filme funciona. E funciona por causa de uma espontaneidade de condução, que não faz do road movie tropical um filme meramente turístico, mas um filme comportamental, apoiado em surpreendentes interpretações.

A primeira delas, não há como negar, nem há essa intenção, é a de Wagner Moura, como o caloteiro generoso que vira parceiro do “Senhor”. O baiano, revelado no teatro e coadjuvante em Abril Despedaçado, toma o filme para si, com seu sotaque “verdadeiramente alagoano”, sua verve inegável para a comédia e sua cena final dramática, onde se revela um grande ator.

Antônio Fagundes livra-se de sua canastrice típica numa atuação simpática e sem excessos (o que poderia acontecer em larga escala quando se interpreta Deus). Paloma Duarte também está convincente e até Stepan Nercessian e Castrinho estão bem no filme.

Mas o grande trunfo de Deus é Brasileiro é mesmo o carinho visível com que Cacá Diegues trata seu filme. Carinho com a trilha, repleta de músicos alagoanos; carinho com a bela fotografia azulada de Affonso Beatto, que faz uma ode à margem esquerda do São Francisco; carinho em fazer um filme que promove seu retorno a Alagoas, sua terra natal. Minha terra natal.

Talvez eu tenha gostado de Deus é Brasileiro mais do que devesse. Porque lá eu visitei Piaçabuçu, revi Penedo, olhei pros rostos de Chico de Assis e Anilda Leão e passei o filme inteiro esperando a participação da deliciosa Ivana Iza. Talvez. Talvez não. Porque tem horas que a gente tem que largar mão da intelectualidade e abraçar o coração. As críticas falaram em falta de profundidade. Acho que Deus é Brasileiro se propõe ao que está na tela e isso já é muito bom. Fazer um grande mergulho sociológico não era o objetivo de Cacá Diegues. No fundo, no fundo, eu acho que ele só queria voltar pra casa.

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[Deus é Brasileiro, Carlos Diegues, 2003]

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