A Vida Privada de um Gato

Alexander Hammid (ou Alexander Hackenschmied) foi um diretor nascido em 1907, no então Império Austro-Húngaro, que em mais de três décadas assinou 18 filmes obscuros, entre curtas, documentários e apenas uma ficção em longa-metragem em Hollywood. A Vida Privada de um Gato é um filme experimental de 22 minutos, em que o cineasta registra silenciosamente o dia-a-dia de seus gatos.

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[The Private Life of a Cat, Alexander Hammid, 1944]

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Grey Gardens

Grey Gardens

Este documentário é um fruto do acaso. Os irmãos Maysles pretendiam rodar um filme sobre a irmã de Jacqueline Kennedy Onassis, quando conheceram a história da tia e da prima da ex-primeira dama. As duas, que já foram frequentadoras da alta sociedade nova-iorquina, moravam à época numa mansão caindo aos pedaços. Mãe e filha estavam falidas, isoladas e viviam de seu passado. Ou das cinzas dele. Esta história ganhou a catapulta de um escândalo: sem limpeza, o lugar começou a feder e incomodar os vizinhos. A prefeitura deu um ultimato para as duas: ou limpam ou saem. A imprensa fez festa e Jackie Kennedy ajudou a dar um tapa no lugar. É aí que entram os Maysles. Quando descobriram a história, desistiram do projeto anterior e embarcaram neste saborosíssimo mundo.

Os irmãos conquistaram a confiança de Big Edie e Little Edie e passaram dias e dias filmando o cotidiano das duas. À mesma medida em que mostravam a decadência da família, acompanharam a degradação psíquica de mãe e filha. O documentário adota uma política pouco intervencionista em relação a seu objeto. A equipe tenta ao máximo não interferir no dia-a-dia das duas e as informações sobre sua história, a não ser por uma breve sequência de recortes de jornais, saem das bocas perturbadas das retratadas. A opção tem duas consequências imediatas: por um lado, as entrevistadas ficam mais livres e tecem sua própria narrativa sobre os 50 anos em que viveram naquela casa e os desdobramentos de suas vidas.

Os Maysles estão entre os principais nomes do cinema direto o movimento que renovou o documentário americano nos anos 60, que prega o máximo de não-intervencionismo no retrato do objeto. As interações dos diretores com suas “atrizes” aparecem pouco no filme em si. As Bouvier Beale são convidadas a costurar sua própria história com suas memórias perturbadas. Contam o que querem contar e percebem claramente quando estão agradando, então, seu mundo paralelo entra em cena deixando completamente incertas as versões dos fatos. O grande diferencial deste filme é que, embora as informações sobre as personagens cheguem parceladas e o raio-x da vida de mãe e filha nunca pareça completo, o grau de intimidade que o espectador atinge com as duas é algo raramente visto num documentário. Aqui a história é menos importante do que a essência.

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[Grey Gardens, Albert Maysles, David Maysles, Ellen Hovde, Muffie Meyer, 1975]

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Pelo Malo

Pelo Malo

O cinema de Mariana Rondón não é um cinema político, embora o país da diretora seja a República Bolivariana da Venezuela, um lugar onde as expressões artísticas, assim como todas manifestações em si, estão diretamente relacionadas ao manifesto político. Mas a cineasta não lava as mãos em relação a fazer observações sobre o lugar onde nasceu. Em Pelo Malo, enquanto parece se concentrar numa trama simples, a de um garoto que não gosta de ter o cabelo “ruim” do título original, a diretora abre pequenos espaços, escondidos no meio da narrativa, para se pronunciar sobre a falta de liberdade, o fanatismo e até as formas de marketing utilizadas pelo governo para se afirmar junto à população.

O posicionamento de Mariana Rondón aparece na maneira com a cineasta apresenta as imagens da cidade e em como mescla a história com pronunciamentos exibidos no rádio e notícias veiculadas da TV. Tudo cuidadosamente escolhido e discretamente costurado à narrativa. Essa postura, que pode passar despercebida, transforma a trama do filme em muito mais do que uma história bonita, pescada do cotidiano de uma grande cidade. A vida daquela família pobre vira um reflexo da rotina de um país. A luta pela sobrevivência – seja ela a sobrevivência física ou espiritual – está diretamente ligada a um contexto sócio-econômico sobre o qual Mariana não se debruça, mas não deixa passar em branco.

Esse contexto oprime os personagens e desenha uma relação de não aceitação para mãe e filho. Junior não aceita o fato de que não tem cabelos lisos para tirar a foto da escola, que ele quer que seja vestido como cantor. Já Marta não aceita perceber, a cada pequeno detalhe do dia-a-dia, as inclinações de sexualidade que o filho mais velho aparenta ter. Ela, que precisa alimentar duas crianças sozinha e que perdeu o emprego recentemente, enxerga na possível homossexualidade do filho um amálgama de todos os males de sua vida. Marta carrega em si a dureza e a rispidez que a vida nesta Venezuela sem grandes perspectivas lhe proporcionam. Nomear um único inimigo talvez seja sua única forma de se manter viva.

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[Pelo Malo, Mariana Rondón, 2013]

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Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

A homossexualidade parece finalmente ter encontrado caminhos de representação no cinema. Nos últimos anos, os filmes gays deixaram o peso da militância em prol de uma pluralidade de discursos e análises que tentam traduzir uma incrível variedade de personas e comportamentos. Da aspereza de Um Estranho no Lago ao realismo ostensivo de Azul é a Cor Mais Quente, passando pela libertinagem poética de Tatuagem, muitos trabalhos, de cineastas experientes ou diretores estreantes, gays ou não, transformaram a maneira como o audiovisual representa o homossexual. Não estamos mais numa época em que o cinema gay pertence exclusivamente à causa gay. O cinema gay, hoje, pertence ao cinema.

Embora as questões permaneçam as mesmas, é possível identificar um avanço na abordagem. Um Estranho no Lago é, em sua essência, um filme sobre desejo sexual e não um filme sobre pegação gay. Azul é a Cor Mais Quente devassa não uma relação lésbica, mas uma relação de amor. E Tatuagem é sobre liberdade num sentido muito mais amplo do que a liberdade de escolher um parceiro do mesmo sexo. Desta forma, seguindo uma lógica muito parecida, outro filme brasileiro chega aos cinemas relatando a descoberta do primeiro amor – e não necessariamente a primeira vez em que um menino se apaixona por outro menino. Um obra que tenta conversar com um público mais amplo, aquele que se emociona com um romance simples e delicado.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho não faz nenhuma estripulia, não traz grandes novidades. Estamos diante da história do encontro entre Leo e Gabriel. Um é um adolescente cego, que vive as aventuras e desventuras comuns à vida colegial. O outro é um jovem recém-chegado à cidade grande. Ambos tentam descobrir o mundo, quando, de repente, acham um ao outro. Há maneirismos, lugares comuns, cenas que não se desenvolvem completamente, momentos truncados, mas se sobrepõe a isso uma visão que parece inocente, mas que diz muito sobre o que pretende o cinema de temática gay hoje em dia: este é um filme sobre diferenças, mas a homossexualidade é apenas um detalhe. Ela faz parte de um pacote. As diferenças são ressaltadas o tempo inteiro, mas o próprio protagonista brinca com elas.

O longa de Daniel Ribeiro é uma versão estendida de um curta dirigido pelo cineasta há quatro anos. Eu Não Quero Voltar Sozinho ganha em comparação com seu descendente: é um filme melhor que, em 17 minutos, desenvolve os personagens de maneira singela e resolve a trama com delicadeza e soluções simples. A versão em longa-metragem traz os mesmo trio de protagonistas, Ghilherme Lobo, Fabio Audi e Tess Amorim, que interpreta a única amiga de Leo, Giovana, mas apresenta novos personagens e situações. Algumas cenas parecem espichadas do curta e outras, que mudam algumas das resoluções originais, deixam a desejar no desenvolvimento da trama.

A virtude do longa está mais no conjunto do que em momentos específicos, mas algumas cenas novas não apenas amenizam o reaproveitamento de ideias, como são extremamente representativas do recado que o diretor quer passar. Daniel Ribeiro não procura aceitação para seus personagens, mas quer que eles sejam amados pelas pessoas que são. Uma cena simples e bonita que diz muito do filme é aquela em que o pai, vivido por Eucir de Souza, ensina o filho a se barbear, ao mesmo tempo em que questiona o filho sobre o motivo dele querer fazer intercâmbio fora do país. O recado está implícito. Sem alarde. Há alguns momentos bem delicados na meia hora final do longa que fazem crescer tanto o filme quanto seus personagens. A catarse da cena que encerra a trama, a única em que o filme sai do armário, mais do que um panfleto é uma bela maneira de resolver uma história de amor.

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[Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, 2014]

Assista ao curta que deu origem ao filme:

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Capitão América: O Soldado Invernal

Capitão América: O Soldado Invernal

A essência do Capitão América é sua maior força e seu principal obstáculo. Criado como símbolo do patriotismo americano em plena Segunda Guerra Mundial, hoje o personagem vive uma dicotomia: ao mesmo tempo em que ainda representa o soldado nos campos de batalha, talvez o único lugar onde a inocência de sua concepção ainda caiba, sofre com a falta de espaço para uma figura com este perfil no mundo atual. Para funcionar no cinema, o herói precisava perder ser trazido para um patamar menos idealizado e dialogar com questões essencialmente contemporâneas, mas, o mais importante, sem perder os princípios que definem o personagem. Essa combinação difícil chega às telas em Capitão América: O Soldado Invernal.

Se o primeiro longa do heroi, caminhava por uma estrada mais inocente – como mandam os preceitos do herói, que estava sendo apresentado ali -, os irmãos Anthony & Joe Russo, diretores deste segundo filme que vêm de uma formação televisiva, transportam o personagem para o meio de uma guerra silenciosa, envolvendo uma trama de conspiração e pondo em cheque instituições de segurança americanas, algo que a TV tem feito melhor do que o cinema nos últimos tempos. O roteiro tanto trabalha a crise de confiança que molda nossa relação com nossos representantes quanto conversa com alguns grandes longas de espionagem do auge da Guerra Fria, criando um recheio menos óbvio para um filme de super-herói.

Recheio que fica mais encorpado com a adição de Robert Redford ao elenco. É impressionante que o papa do cinema independente americano tenha aceito um papel num blockbuster de super-heróis aos 77 anos, quando sua carreira parecia não precisar de nenhuma novidade. Cada cena em que Redford aparece na tela eleva o filme para outro plano de respeitabilidade. Essa tática da Marvel de rechear seus filmes de atores com assinatura é importante para diferenciá-los. Chris Evans retoma o papel principal dando conta do recado e Scarlet Johansson, menos sexy, mas mais à vontade, desmistifica a Viúva Negra. Sua presença e a introdução do Falcão de Anthony Mackie funcionam não apenas como apoio para o protagonista, mas servem para conectá-lo com os dias de hoje.

Mas não é somente isso. Aos Russo não falta bom humor para que o próprio herói ironize essa sua vinda de outros tempos, de outra época, de outra realidade. O próprio Capitão faz piada com sua origem e com tudo o que perdeu nos 70 anos em que ficou congelado. A lista de coisas a conferir que ganhou itens diferentes em cada país em que o filme foi lançado parece um simples alívio cômico, mas serve para mostrar que o personagem vive uma sensação incômoda de não-pertencimento. O homem é um estranho num mundo estranho, hostil, onde os princípios que o formaram não só saíram de moda como foram trocados pela desconfiança generalizada.

Ao Capitão cabe encontrar seu lugar nesse mundo novo. Aos irmãos Russo coube achar uma trama realista, contemporânea, mas que não compromete a fantasia do universo do herói, e um texto inteligente, pop, mas cheio de entrelinhas, que desafia o espectador que não viu os outros longa da Marvel e que desafia também o próprio herói a entrar em choque com o que está lá fora.

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[Capitain America: The Winter Soldier, Anthony & Joe Russo, 2014]

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Noé

Noé

Há dois aspectos interessantes em Noé que retiram o filme da carapaça do épico bíblico, embora não sejam suficientes para deixar a obra de Darren Aronofsky livres de suas obrigações religiosas e – por que não? – filosóficas. O primeiro é o completo despudor do cineasta em assumir os elementos mitológicos do material, dando vida e papeis importantes a seres fantásticos, o que tanto pode indicar que o diretor entende que a ficção está na base de toda e qualquer religião, inclusive as mais seguidas, como pode uma maneira de se salvaguardar contra ataques de quem quiser enxergar o filme como um veículo para o Cristianismo, o que está em desuso nos dias de hoje, principalmente entre os modernos.

O segundo aspecto é o tratamento que Aronofsky dá ao próprio personagem principal, que no decorrer do filme se rende a um fanatismo religioso absoluto, em que se enxerga como único portador da palavra do Criador, como o filme se refere a Deus, entre os homens. Em Noé, a palavra de Noé é lei. Essa opção, embora renda um punhado de tramas paralelas que se perdem no meio da missão oficial da família na porção final do longa, serve para humanizar o personagem, já que a interpretação de trator de Russell Crowe não cumpre muito este papel. Por outro lado, relativizar as certezas do capitão da arca do dilúvio – ou seja, trazer Noé pro “mundo real”- contrasta com a fantasia explorada sem dó no começo do filme.

Diante destas preocupações, que moldam num novo modelo de épico bíblico, mais condizente com nosso descrente mundo atual, Noé está mais para uma versão mais “filosófica” de Cruzada, de Ridley Scott, do que para o purismo de Os Dez Mandamentos, de Cecil B. De Mille. Aronofsky parece temer afastar o espectador que não se interessa por temas religiosos, então adota uma câmera mais ágil, veste os atores com roupas que parecem trapos de 30 anos atrás e oferece ao personagem-título sem muita maquiagem, sem a aparência de um senhor que nosso imaginário coletivo cristalizou. O interessante é que o filme funciona bem melhor quando o diretor tenta fazer dele uma aventura mitológica, quase um guilty pleasure dos tempos arcaicos.

Quase porque nem muito divertido Noé consegue ser. Não tem muito sentido fazer o filme em 3D quando os efeitos especiais não são de Deus – e são relativamente poucos diante das mais de duas horas de mensagens divinas. A sequência do dilúvio é a que mais justificaria os óculos pesados não fosse tão decepcionante. Falta ação da mesma forma que falta estofo. Sabe como é, né? Épicos bíblicos, mesmo que carreguem elementos mágicos, seres mitológicos e dramas familiares têm contas a pagar com a religião. Haja pseudofilosofia das antigas sob a égide de pensamento puro misturada com momentos Cosmos e National Geographic. A picaretagem só vale para ver um Noé fanático religioso. De bom coração, claro, como todos os outros.

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[Noah, Darren Aronofsky,2014]

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Instinto Materno

Child's Pose

Cornelia é uma mulher inconformada. Ela mora com o marido e frequenta festas dos novos ricos romenos, mas, apesar disso, vive lamentando a distância do filho, Barbu, um homem crescido que hoje vive com a namorada e mal tem contato com a mãe. Cornelia não aceita a ingratidão de seu “bebê”, a quem dedicou toda sua vida, para quem decidiu toda a vida. Uma vida que o filho rejeitou. O imenso vazio que partida de Barbu deixou, Cornelia supre em longas reclamações para a amiga Guta, alfinetando a nora e comprando presentes para a empregada que mãe e filho dividem para monitorar os passos do “garoto”.

As lamúrias de Cornelia ficam para segundo plano quando Barbu se envolve num acidente de carro e mata uma criança atropelada. O instinto de preservação enterra suas queixas e, justamente quando mais ela sentia falta disso, Cornelia ganha a oportunidade de exercer seu papel de mãe uma nova vez. Da única maneira que ela conhece, se atirando com toda a força para cima de quem ameaça seu filho. Sua pequena estatura contrasta com a postura de leoa. Cornelia não tem limites – muito menos pudores – para proteger Barbu. Mesmo que seus atos fujam da lei ou da ética. Esta é sua missão, esta é sua motivação.

Quem ama protege, acredita a protagonista de Instinto Materno. Mas qual o limite para o amor de uma mãe?, pergunta o cineasta Calin Peter Netzer, diretor do longa que ganhou o Urso de Ouro e o Prêmio da Crítica Internacional no Festival de Berlim neste ano. Mais do que mostrar a dedicação de uma mãe para ajudar o filho, mais do que investigar o comportamento de uma nova classe social que seu país conheceu pós-Cortina de Ferro, o diretor retrata uma relação obsessiva em que uma das pessoas anula a outra. O filho é sufocado pela mãe, para a qual só existe este tipo de amor.

A protagonista, Luminita Gheorghiu, é uma das maiores atrizes romenas dos últimos anos. Assumiu papeis de maior ou menos importância em filmes como A Morte do Sr. Lazarescu, A Leste de Bucareste, e 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias. Neste filme, é dona de uma performance avassaladora. Sem perder a sensibilidade, sua Cornelia devora tudo e todos em sua volta. Sua fúria, seu poder de persuasão, sua mania involuntária de controlar a vida de quem está por perto só esbarra no descaso de seu filho.

Netzer administra essa relação da maneira menos óbvia possível, abrindo espaço para pequenas delicadezas no meio de um doloroso processo de enfrentamento. Encontra lugar para que cada personagem defenda sua verdade. Cornelia e Barbu, o mesmo Bogdan Dumitrache de Quando a Noite Cai em Bucareste ou Metabolismo, cada um a seu modo, protegem seus pontos de vista, suas individualidades, suas necessidades básicas. A mãe precisa invadir a vida do filho para se sentir completa. O filho precisa se afastar das asas da mãe para poder respirar. Na Romênia ou em qualquer lugar do mundo, administrar limites e pilotar amores não é tarefa fácil.

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[Pozitia Copilului, Calin Peter Netzer, 2013]

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Video: cinco versões para “Let It Go”

“Let it Go” nem é a melhor música de Frozen, mas é um fenômeno impressionante. E instantâneo. A melodia, repetida ao longo do filme, gruda na memória e virou um hino para crianças e adultos que viram o longa da Disney. A música teve seu momento máximo no início de março, quando ganhou o Oscar, mas, mais do que isso, se transformou em febre no YouTube. Reuni neste post cinco versões, totalmente diferentes umas das outras, desta música. Vote na melhor nos comentários.

A versão do Japa Maluco

A versão batida afro

A versão do Marmanjo

A versão instrumental, só no violino

E, é claro, a versão das menininhas fofas

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O Oscar dos Meus Sonhos – versão 2014

No Oscar dos Meus Sonhos, só teriam filmes de que eu gosto. A brincadeira aqui, como todo ano, é fazer a minha própria seleção de indicados e vencedores do Oscar. Para ser mais próximo da realidade, parto das mesmas listas de filmes elegíveis seja na categoria para os estrangeiros, nas de trilhas, canções, documentários e também na que serve de base para todos os outros quesitos. O número de finalistas em cada categoria também foi mantido. Na lista, tento corrigir algumas “injustiças” como as esnobadas em cima de Frances Ha e Amor Bandido e intensifico meu amor por alguns filmes, como Ela, meu favorito. Esta seria a lista de indicados do Oscar dos Meus Sonhos, versão 2014. As estrelas indicam os vencedores:

Oscar dos meus sonhos

FILME

Amor Bandido, Jeff Nichols
Antes da Meia-Noite , Richard Linklater
[EstrelinhaEla, Spike Jonze
Frances Ha, Noah Baumbach
Gravidade, Alfonso Cuarón
A Imagem que Falta, Rithy Panh
Inside Llewyn Davis, Joel Coen & Ethan Coen
Nebraska, Alexander Payne
Invocação do Mal, James Wan

DIREÇÃO

Alexander Payne, Nebraska
Alfonso Cuarón, Gravidade
Jeff Nichols, Amor Bandido
Noah Baumbach, Frances Ha
[EstrelinhaSpike Jonze, Ela

ATOR

Joaquin Phoenix, Ela
Leonardo Di Caprio, O Lobo de Wall Street
[EstrelinhaMatthew McCounaghey, Clube de Compras Dallas
Oscar Isaac, Inside Llewyn Davis
Will Forte, Nebraska

ATRIZ

[EstrelinhaCate Blanchett, Blue Jasmine
Adèle Exarchopoulos, Azul é a Cor Mais Quente
Greta Gerwig, Frances Ha
Julia Roberts, Álbum de Família
Sandra Bullock, Gravidade

ATOR COADJUVANTE

Barkhad Abdi, Capitão Phillips
Bruce Dern, Nebraska
[EstrelinhaJared Leto, Clube de Compras Dallas
Matthew McConaughey, Amor Bandido
Michael Fassbender, 12 Anos de Escravidão

ATRIZ COADJUVANTE

[EstrelinhaJune Squibb, Nebraska
Kristin Scott-Thomas, Apenas Deus Perdoa
Margo Martindale, Álbum de Família
Octavia Spencer, Fruitvale Station
Scarlett Johansson, Ela

ROTEIRO ORIGINAL

[Estrelinha] Ela, Spike Jonze
Frances Ha, Greta Gerwig & Noah Baumbach
Inside Llewyn Davis, Joel Coen & Ethan Coen
Nebraska, Bob Nelson
Questão de Tempo, Richard Curtis

ROTEIRO ADAPTADO

[EstrelinhaAntes da Meia-Noite , Richard Linklater, Ethan Hawke & Julie Delpy
Azul é a Cor Mais Quente, Abdellatif Kechiche & Ghalia Delacroix
Bling Ring, Sofia Coppola
Ernest & Celestine, Gabrielle Vincent
Muito Barulho por Nada, Joss Whedon

FILME ESTRANGEIRO

A Caça, Thomas Vintenberg [Dinamarca]
A Grande Beleza, Paolo Sorrentino [Itália]
A Imagem que Falta, Rithy Panh [Camboja]
Instinto Materno, Călin Peter Netzer [Romênia]
[EstrelinhaO Som ao Redor, Kleber Mendonça Filho [Brasil]

FILME DE ANIMAÇÃO

[Estrelinha] Ernest & Celestine, Stéphanie Aubier, Vincent Patar & Benjamin Renner
Frozen, Chris Buck, Jennifer Lee
Uma História de Amor e Fúria, Luiz Bolognesi
Universidade Monstros, Dan Scanion
Vidas ao Vento, Hayao Miyazaki

DOCUMENTÁRIO

[EstrelinhaO Ato de Matar, Joshua Oppenheimer
A Um Passo do Estrelato, Morgan Neville
A Imagem que Falta,Rithy Panh
Leviathan, Lucien Castaing-Taylor & Verena Paravel
Stories We Tell, Sarah Polley

FOTOGRAFIA

Ela, Hoyte von Hoytema
O Grande Mestre, Philippe Le Sourd
[EstrelinhaGravidade EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Emmanuel Lubezki
Inside Llewyn Davis EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Bruno Delbonnel
Nebraska, Phedon Papamichael

MONTAGEM

Amor Bandido, Julie Monroe 
Ela, Jeff Buchanan & Eric Zumbrunnen
Frances Ha, Jennifer Lame
[Estrelinha] Gravidade, Alfonso Cuarón & Marc Sanger
Nebraska, Kevin Tent

DESENHO DE PRODUÇÃO

12 Anos de Escravidão, Adam Stochausen & Alice Baker
[Estrelinha] Ela, K.K. Barrett & Gene Serdena
O Grande Gatsby, Catherine Martin & Beverly Dunn
O Grande Mestre, William Chang
Gravidade, Andy Nicholson & Rosie Goodwin

FIGURINOS

O Grande Gatsby, Catherine Martin
O Grande Mestre, William Chang
Jogos Vorazes: Em Chamas, Trish Summerville
Invocação do Mal, Kristin M. Burke
[EstrelinhaTrapaça, Michael Wilkinson

MAQUIAGEM E CABELOS

Clube de Compras Dallas
O Grande Gatbsy
[EstrelinhaTrapaça

TRILHA SONORA

Amor Bandido, David Wingo
Ela, William Butler & Owen Pallett
Gravidade, Steven Price
[EstrelinhaInvocação do Mal, Joseph Bishara
Vidas ao Vento, Joe Hisaishi

CANÇÃO

“For The Time Being” , O Verão da Minha Vida
[Estrelinha“Happy”, Meu Malvado Favorito 2
“Let it Go”, Frozen
“The Moon Song”, Ela
“Stay”, A Vida Secreta de Walter Mitty

MIXAGEM DE SOM

Capitão Phillips
[Estrelinha] Gravidade
Inside Llewyn Davis
Invocação do Mal
Rush – No Limite da Emoção

EDIÇÃO DE SOM

Até o Fim
Capitão Phillips
[EstrelinhaGravidade
Invocação do Mal
Rush – No Limite da Emoção

EFEITOS VISUAIS

Círculo de Fogo
[EstrelinhaGravidade
O Hobbit: A Desolação of Smaug
Homem de Ferro 3
Oblivion

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Oscar 2014: a ditadura da história real

Oscar 2014

Somos reféns da ditadura da vida real. No cinema, como em vários aspectos da vida, estamos condenados a acreditar que alguns filmes sejam marcos históricos simplesmente porque estão ligados a personagens que existiram de verdade, sobretudo quando a matéria-prima destes filmes é a denúncia. O maior problema dessa clausura que a “história real” nos impõe – como se o cinema precisasse ter um compromisso com o documento de uma época, como se um filme que têm personagens reais fosse mais importante do que navega pelas águas da ficção – termina sendo a celebração de obras funcionais.

12 Anos de Escravidão é exatamente isso: um filme funcional, que vem preencher uma lacuna que o cinema americano deixou aberta por mais de um século. Simplesmente não existem filmes realmente relevantes sobre a escravatura. Precisou um inglês cruzar o Atlântico para contar a história de um homem negro livre que foi raptado para ser transformado em escravo. Embora pareça ser um trabalho honesto, o filme de Steve McQueen é um novelão melodramático, esquemático e convencional, de uma dramaturgia televisiva que trabalha com clímaxes e se apoia no fato de que conta uma perversa “história real”.

Sua vitória como melhor filme do ano era prevista, assim como os prêmios pelo roteiro adaptado e pela interpretação de Lupita Nyong’o, correta, mas que se apóia totalmente num modelo de “heroína da vida real” que não traz muita novidade. Foram os três únicos prêmios do filme, de um total de nove indicações, o que indica que, ao contrário de anos anteriores, a Academia já não julga mais necessário criar um pacote de estatuetas para justificar a escolha na categoria principal.

A questão que fica é: o que realmente tocou o americano em relação a 12 Anos de Escravidão? Ele realmente viu um grande filme ali ou ficou abalado com a barbárie que seu povo cometeu e sofreu simplesmente pelo fato que aquilo, ao contrário das novelas brasileiras, nunca havia sido mostrado pelo cinema de Hollywood? Mais parece que o ineditismo da temática, somado ao tratamento de filme de superação e aliado a técnicos e elenco de respeito ajudaram a forjar uma grande obra onde se tem apenas um filme que cumpre sua função.

Gravidade, como previsto, foi o grande vencedor da noite, pelo menos no número de prêmios. Ganhou sete Oscars nos quesitos em que era favorito incontestável (direção, fotografia, efeitos visuais, mixagem e edição de som) e nas categorias em que era favorito moderado (montagem e trilha sonora). Mas, nas cabeças dos membros da Academia, o pacote de prêmios não era suficiente para garantir ao longa de Alfonso Cuarón o título de melhor filme do ano.

O Oscar divide um filme em pedaços para premiar todo mundo (ou quase todo mundo) que faz parte dele. Para estes prêmios que valorizam os talentos individuais, contam os desempenhos de cada um, mas quando o assunto é o Oscar de melhor filme, a Academia procura um algo mais. E Gravidade, na opinião dos votantes, tem muitos talentos específicos, mas deixa a desejar no conjunto, talvez por ser uma ficção-científica, gênero tradicionalmente subvalorizado no quesito filme sério.

Mesmo que Gravidade seja um filme bem sério.

O Oscar já tentou muitas vezes, mas nunca foi tão previsível como na noite deste domingo. Na festa de entrega da 86ª edição dos prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, ganharam os favoritos. Praticamente todos. Em todas as categorias. Se de um lado a cerimônia foi bem melhor do que a tragédia do ano passado, começando pela apresentação bem humorada e interativa de Ellen De Generes, de outro, faltou alguma surpresa para dar uma chacoalhada na plateia do Dolby Theater em Los Angeles.

A selfie que reuniu Meryl Streep, Angelina Jolie, Brad Pitt, Julia Roberts, Bradley Cooper e mais outros astros e estrelas de Hollywood foi o ponto alto de uma noite em que a Academia tentou oferecer pão e circo para se aproximar do público. Pão e pizza na verdade. A imagem de Harrison Ford pegando seu pedaço de pizza na plateia já é antológica. Os números musicais, geralmente um ponto bastante discutível da premiação, funcionaram muito bem, principalmente no quesito direção de TV. Com muitos mais cortes de câmeras, estas posicionadas em lugares mais “íntimos”, deram outra dinâmica às apresentações. Pharell Williams desceu do palco e colocou muita estrela pra dançar.

Se “Happy” não ganhou como melhor canção, a balada-chiclete “Let It Go”, a essência do que representa Frozen na tentativa de retomar uma tradição da Disney, levou o prêmio como se esperava, e o filme também abocanhou a estatueta de animação. O Grande Gatsby ficou com os prêmios de desenho de produção e figurinos, como diziam as apostas, terminando com as chances, que já eram poucas de Trapaça levar algum prêmio. O longa de David O. Russell, um placebo dos filmes de Martin Scorsese, perdeu em dez das dez categorias em que concorria. Entra para a história junto com um longa do mestre que “homenageia”, Gangues de Nova York.

O golpe fatal em Trapaça veio no quesito de roteiro original, com a merecidíssima vitória de Ela, único filme que realmente trouxe algo novo nesta temporada de prêmio. Clube de Compras Dallas foi o longa mais bem sucedido da noite. Produção pequena, ganhou dois Oscars importantes (ator e ator coadjuvante) e ainda se viu como um inesperado favorito em maquiagem, que também levou. Aposta de muita gente, A Um Passo do Estrelato foi eleito como melhor documentário, contra o mais famoso e mais celebrado O Ato de Matar, provocador título sobre o genocídio na Indonésia.

Como mandava o livro de receitas, Cate Blanchett recebeu o Oscar de melhor atriz por Blue Jasmine, passando incólume pelo escândalo envolvendo seu diretor Woody Allen. De uma maneira geral, todos os prêmios de atuação tiveram seu grau de justiça. Blanchett, Matthew McConaughey e Jared Leto eram os melhores na disputa e Lupita Nyong’o não tinha uma concorrente muito à frente, embora seria delicioso ver June Squibb ou Sally Hawkins ganhar. Pela primeira vez em muitos anos, não houve sequer uma surpresa no Oscar.

Talvez a maior delas tenha sido chamar Pink para cantar “Over the Rainbow” em mais uma celebração de aniversário de O Mágico de Oz. Cantou bem, mas pra quê? Anos atrás, Diana Ross já tinha feito melhor. A história de homenagear os heróis do cinema foi muito mal executada. Rendeu dois clipes, que é o que a Academia acha que é a melhor maneira para render suas homenagens, e parou por aí. O Oscar precisa mesmo ter tema? O tema não deveria ser o ano no cinema? Enfim, a festa bem que poderia mudar de mãos – para tentar chegar ainda mais perto do povo – mas se Ellen se desdobrava para fazer um show popular, por outro lado, a Academia recorria a uma lógica bem manjada para escolher o melhor filme da noite. Maldita ditadura da história real!

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