Mais um Ano

Mais um Ano

Nem um prêmio em Cannes, nem uma indicação ao Oscar de roteiro original. Nada foi suficiente para que o elogiadíssimo Mais um Ano, filme que Mike Leigh lançou em 2010, conseguisse a sorte de ganhar espaço no circuito comercial brasileiro. Somente quatro anos depois, o longa conseguiu interromper esse boicote, que se estendeu até aos festivais de cinema brasileiros (o Festival do Rio só exibiu o filme em 2012). Uma injustiça com o belo trabalho, de um diretor cujos últimos seis títulos tiveram lançamento no Brasil.

Mais um Ano é uma obra peculiar na filmografia de Mike Leigh. Criador de personagens sempre envoltos numa melancolia que geralmente dá o tom dos filmes, aqui o diretor aposta em um casal solar de protagonistas, que dilui o peso das angústias trazidas pelos coadjuvantes. Esse contraste empresta ao longa a leveza de um romance que deu certo e que dura anos, décadas. É um filme romântico por natureza, onde Leigh exibe mais uma vez sua habilidade no comando do melodrama.

Emboras os elogios tenham caído principalmente no colo da boa Leslie Manville, que interpreta uma mulher com sérios problemas de auto-estima, são os desempenhos de Jim Broadbent e Ruth Sheen, ambos inspiradíssimos, que chamam atenção. Seus personagens oferecem ao espectador uma esperança que diferencia o longa de obras como Segredos e Mentiras e Agora ou Nunca, filmes belíssimos, mas cujo pessimismo é quase determinista. Tom e Gerri, versões light da protagonista de Simplesmente Feliz, estão cercados por gente problemática e vidas caóticas, mas nada parece abalar o casal, cujo principal objetivo parece ser mediar conflitos e oferecer um ombro amigo.

O título do filme os resume bem: um ano a mais em seu casamento sólido, um ano a mais em sua “missão” de ouvir os problemas e administrar as crises alheias. Mas também reflete a própria obra de Leigh, um homem dono de um texto direto e vigoroso, um diretor que, filme após filme, reassume um compromisso com um cinema simples, cheio de personagens complexos e incrivelmente reais.

Mais Um Ano EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Another Year, Mike Leigh, 2010]

Compartilhe!

Leave a Comment

Filed under Resenha

Lucy

Lucy

Existem cineastas que alimentam uma aura de criador competente e adentra os círculos alternativos durante décadas sem realmente ter feito um só filme bom. Kevin Smith? OK, talvez Procura-se Amy. Luc Besson? Com alguma condescendência, podemos lembrar de Subway ou Nikita. Mas a verdade é que o francês mais internacional dos diretores de cinema ou pula no raso quando quer fazer filme profundo, como Imensidão Azul ou Joana D’Arc, ou disfarça suas limitações em diversões ligeiras que demoram demais e divertem de menos, como O Quinto Elemento ou o recente A Família. Dito isso, é preciso fazer justiça ao novo trabalho do cineasta: Lucy, o thriller de ficção-científica estrelado por Scarlett Johansson, talvez seja seu melhor filme.

As primeiras cenas do longa, com uma viagem temporal aos princípios da vida humana na Terra, remetem de imediato aos momentos mais viajandões de A Árvore da Vida, com o espectador sabendo que, por mais que tentasse, Besson nunca chegaria à complexidade de um Terrence Malick. A impressão se desfaz quando a trama chega em terra firme e se estabelece como um guilty pleasure que mantém o pé no acelerador até seu último minuto. Besson acerta em cheio em levar a sério a história de uma loira burra que acidentalmente se vê obrigada a ingerir uma nova droga que amplia sua capacidade mental. Levar a sério, mas só até a segunda página. Porque, por mais que flerte com algum existencialismo, Lucy é feito para divertir.

Scarlett Johansson, cada vez mais à vontade como heroína de filmes de ação, incorpora a angústia de uma personagem que tenta correr contra o tempo para repassar o conhecimento que adquiriu, mas não tem capacidade de manter. Na melhor cena do filme, talvez a que mais tenha algum cuidado científico, conceitualmente falando, sua Lucy tenta se manter literalmente inteira no banheiro de um avião. Besson, que é o autor do roteiro, parte do princípio do mito de que utilizamos apenas 10% do cérebro e encontra ganchos leves, mas bem amarradinhos para transformar a história da personagem num thriller delicioso, onde a velocidade é tão ou mais importante do que as ideias de que o filme se aproveita.

Em tempos de filmes sérios, com cineastas preocupados em não ofender ninguém e em encontrar explicações científicas para tudo – sobretudo para não serem acusados de levianos -, são justamente as leviandades que o diretor cometeu em Lucy, enfileiradas num esqueleto coerente e funcional e com o suporte de soluções visuais bonitas e bem resolvidas, que servem tanto como respiro descompromissado para estes filme orgulhosamente baseados nos livros de ciência quanto como prova inquestionável de que precisamos de apenas 10% do cérebro para entender e nos divertir com um filme de Luc Besson. Sem culpa, sem vergonha nenhuma.

Lucy  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Lucy, Luc Besson, 2014]

17 Comments

Filed under Resenha

Metéora

Metéora

Metéora é o nome de um complexo de seis mosteiros que ficam sobre imensos picos rochosos na região central da Grécia, uma paisagem única que inspirou o cineasta Spiros Stathoulopoulos a criar uma história de amor bem particular, batizada com o mesmo nome do lugar. Metéora, o filme, é um respiro no cinema recente grego, que adotou a demência para se expressar sobre a condição político-econômica do país, um dos mais abalados pela crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos. Stathoulopoulos encontra no cenário natural da região a matéria-prima para criar um libelo contra o desespero, que parece ser a metáfora perfeita para falar da Grécia.

O filme é protagonizado por dois monges, um homem e uma mulher, que vivem em mosteiros diferentes, um de frente para o outro, separados pelo abismo que divide as montanhas que os guardam. Mesmo à beira do abismo, como o povo grego, os dois se encontram e se apaixonam. Fogem escondidos, se encontram em terra firme e se amam. O diretor aproveita essa história para revelar os habitantes da região e costurar lendas e tradições ao amor proibido dos dois monges, muitas vezes recorrendo à animação como recurso para ilustrar esse peso histórico. Cria cenas de uma beleza clássica e refinada, envolve os personagens num manto de culpa para depois afirmar que o desespero é a única coisa que não tem jeito. Serve para os monges, serve para a Grécia, serve para o mundo.

Metéora EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Metéora, Spiros Stathoulopoulos, 2012]

1 Comment

Filed under Mostra SP, Mostras, Resenha

Amantes Eternos

Amantes Eternos

“A beleza não tem causa. É. Quando a perseguimos apaga-se. Quando paramos – permanece”. O pensamento é da poetisa norte-americana Emily Dickinson e pode ser aplicado a boa parte da produção artística dos dias atuais. A busca pela plástica não raramente abate o conteúdo e mesmo o objetivo estético fica comprometido pelo excesso de filtros e pelas ideias vazias que se resolvem em si mesmas. Esta pequena elocubração serve para apresentar o texto sobre o novo filme de Jim Jarmusch, um diretor cuja obra sempre teve uma marca bastante distinta, tanto em seus aspectos visuais quanto em temáticas e visões de mundo. Em maior ou menor grau, o cineasta encontrou a beleza com alguma sorte e bastante sensibilidade.

Amantes Eternos, embora trate novamente de um microcosmo, tem maiores pretensões do que outros longas de Jarmusch porque evoca uma maldição milenar, lida com conceitos etéreos e místicos como herança e destino e tem representações externas. Tom Hiddleston e Tilda Swinton, dois dos atores mais delicados e versáteis dos últimos anos, vivem Adam e Eva, um casal de criaturas imortais que há séculos deixou de lado uma sina sanguinária para procurar novas formas de permanecer vivos. Mas a reflexão que o filme lança vai muito além dos meios que uma espécie encontra para garantir sua longevidade. O tempo não é apenas fio condutor da história, mas o elemento definidor dos preceitos e das decisões dos personagens. Adam e Eva não são reféns do tempo. Há muito fizeram as pazes com ele e nele encontraram sabedoria que os mantém.

No filme de Jarmusch não há guerras pelo poder nem conflitos entre raças. Não há lados, mas posturas. O cineasta utiliza sua alegoria, que recicla figuras clássicas da literatura de fantasia, para refletir sobre o próprio fluxo da vida. Martin, de George A. Romero, pode ter sido uma influência para o diretor. Aqui há a mesma consciência do vampirismo como uma doença contemporânea. Os protagonistas buscam nos porões desse mundo atual soluções para suas deficiências. Assumem suas condições de marginais, vivem à margem. Fatigados pela própria história, preferem o conforto do anonimato, vivem um presente eterno até que o presente acabe, sugam da vida o que não sugam dos outros. Encontraram equilíbrio e alguma dignidade, coisas que nem sempre são fáceis de se administrar.

Esse caminho inusitado empresta a Amante Eternos uma singeleza bastante particular, que Jarmusch tenta cultivar em imagens delicadas, uma trilha blasé e cenários que se não são artificiais traduzem uma vida artificial, a vida que foi possível. A mistura parece intangível, mas convida a um reflexão existencialista sobre o propósito de continuar vivo. Há uma certa beleza em perceber certas sutilizas, em entender o sacrifício e a privação pelos quais aqueles personagens e em constatar que a veradeira maldição milenar dos vampiros de Jarmusch é a própria vida.

Amantes Eternos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Only Lovers Left Alive, Jim Jarmusch, 2013]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Lauren Bacall, o último clássico de Holywood

Lauren Bacall

Em 1997, Lauren Bacall era a favorita para ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante. O filme era a comédia O Espelho Tem Duas Faces, dirigido e estrelado por Barbra Streisand. Bacall fazia a mãe da protagonista e utilizava um senso de humor refinado para dar molho ao longa. Mas Hollywood tinha comprado a proposta de O Paciente Inglês e pareceu irresistível entregar o prêmio para outra candidata nobre, a francesa Juliette Binoche, que ficou chocada quando foi anunciada como vencedora e, utilizando uma sinceridade e uma delicadeza genuínas, deixou bem claro que achou que a veterana atriz dos filmes noir, viúva de Humphrey Bogart, lenda viva do cinema americano ganharia a estatueta. “E eu acho que ela merece”, disse Binoche.

Foi a única vez em que o Oscar lembrou da atriz, que somente 13 anos depois mereceria um prêmio pelo conjunto da obra. Justamente numa época em que estas homenagens pela carreira eram feitas em festas menores, ganhando apenas uma menção na cerimônia principal. Lauren Bacall não pode agradecer ao vivo. Apareceu na plateia, acenando. Um descaso e tanto para uma intérprete que nunca foi uma atriz excelente, mas estrelou filmes de Howard Hawks, John Huston, Sidney Lumet e Robert Altman, e foi coestrela de Gary Cooper, Gregory Peck, Henry Fonda e Tony Curtis, entre muitos outros.

Seu primeiro filme, Uma Aventura na Martinica, lhe rendeu fama e um marido. Bogart não resistiu aos encantos da loira e os dois foram casados por mais de doze anos, até a morte do ator, em 1957. Mas não foi só o astro de Casablanca que se deixou seduzir pela atriz. O charme de Bacall lhe garantiu o status de musa do filme noir, com destaque para À Beira do Abismo e Paixões em Fúria. Fez comédias deliciosas, como Teu Nome é Mulher e Como Agarrar um Milionário e, já madura, protagonizou O Fã – Obsessão Cega, suspense rodado nos anos 80, que brinca com sua própria capacidade de sedução.

Não havia mais lugar para Lauren Bacall nesse mundo sem glamour. Sua morte leva a atriz para o lugar ao qual ela pertence, um mundo onde a fantasia da clássica Hollywood vai viver pra sempre.

6 Comments

Filed under Comentário

The Rover – A Caçada

The Rover

John Hillcoat, que nunca leia este texto, mas faz algum tempo que o cinema australiano não tinha um diretor tão promissor quanto David Michôd. Há quatro anos, o cineasta apresentou seu primeiro filme, o excelente Reino Animal, obra que chamou a atenção e arrebatou elogios e prêmios por onde passou. O antiépico conto sobre uma família de criminosos resgatou Jackie Weaver, “revelou” Joel Edgerton e Sullivan Stapleton e, mais do que tudo isso, deu um novo fôlego a uma temática que havia caído num imenso poço de lugares comuns. O diretor emprestou a aridez das paisagens de seu país para dar o tom da relação entre uma mãe e seus filhos e entre uma família e o mundo. Impregnado de uma melancolia masculina bem diferente da maioria dos filmes destes tempos atuais, mereceu um lugar na lista de melhores primeiros longas de todos os tempos (veja aqui).

Não era de se esperar pouco de seu trabalho seguinte e The Rover, embora não tenha metade do impacto de seu filme de estreia, traz um dos cinemas mais interessantes que chegaram ao circuito brasileiro neste ano. Michôd, que escreveu o argumento original com seu parceiro Joel Edgerton, dá vida a um despretensioso conto sobre o acaso em pleno deserto australiano, que assume tanto um certo espírito de faroeste moderno quanto reformula elementos de filmes sobre anti-heróis solitários. O letreiro inicial indica que esta história se passa dez anos após um colapso financeiro global, mas as referências não vão muito além disso. O status do personagem vivido por Guy Pearce é o de homem desolado por sua própria história, um passado que será informado em golpes lentos e nunca muito exatos para o espectador. Sua natureza misteriosa virá à tona quando uma gangue roubar seu carro e ele inesperadamente se juntar ao irmão do líder do grupo, deixado para trás.

A caçada que virá a seguir e que o título brasileiro didaticamente adiciona ao original, algo como “O Vagabundo”, mostra que Michôd flerta com uma série de gêneros e temáticas que são velhas conhecidas do espectador, mas que formam uma colcha de retalhos esquisita e, por isso mesmo, muito interessante. Os cenários desolados, que reforçam os efeitos da crise, remontam aos desertos de um parente distante de The Rover, o policial Mad Max, mais distópico, mas que também se dedica a mostrar uma sociedade que tenta se reestruturar depois do caos. Os personagens que o protagonista encontra às margens da estrada parecem retirados de filmes de terror sobre vilas macabras e a determinação do personagem em encontrar seus inimigos remete às caçadas de uma série de westerns intimistas, onde o filme parece se inspirar.

Guy Pearce emula uma série de anti-heróis silenciosos, que têm sido redescobertos pelo cinema recentemente, mas adiciona a essa herança o peso de um homem com um passado trágico que parece sempre prestes a explodir. O ator, que já havia feito uma participação menor em Reino Animal, tem aqui sua melhor e mais desafiadora interpretação desde o Monty Beragon da série Mildred Pierce, mas se vê ofuscado por seu colega de elenco, Robert Pattinson. O ex-vampiro da Saga Crepúsculo, que parece firmemente dedicado a mudar os rumos de sua carreira, faz o parceiro inusitado do protagonista, o irmão com limitações intelectuais do líder da gangue. Pattinson encontra uma maneira exata e discreta para caracterizar seu personagem apostando em movimentos de corpo e expressões faciais bem surpreendentes para o que seu talento tinha nos oferecido até agora.

A estranha comunhão entre os dois personagens nasce de uma química inusitada entre os dois atores e oferta ao espectador um mínimo de conforto, aquilo que os cenários e a trajetória de The Rover insistem em negar desde os créditos iniciais. Estamos num mundo sem perspectivas, em que nunca temos a verdadeira dimensão das tragédias, sejam elas macro ou microscópicas e encontrar um parceiro, se não alivia o desespero, ao menos ajuda a alimentar o instinto de sobrevivência. Segundo David Michôd, em tempos de catástrofe, de perda de parâmetros, é preciso ter um objetivo para encontrar sentido para esta caminhada por um futuro tão incerto, mesmo que este objetivo pareça minúsculo ou esteja trancado no porta-malas de seu carro.

The Rover – A Caçada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Rover, David Michôd, 2014]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Guardiões da Galáxia

Guardiões da Galáxia

Chegou o momento que todo mundo temia: a Marvel foi pro espaço. Depois de seis anos transportando e traduzindo seu complexo universo para o cinema, acertando em maior ou menor grau na transposição de alguns de seus principais heróis para as telas, a Casa de Ideias decidiu decolar voo, mirando lá no meio das mais distantes galáxias. A ousadia estava em abrir mão dos nomes mais conhecidos de seu casting interestelar (alguns estão sob as garras de outros megaestúdios; outros simplesmente não atenderiam aos objetivos do projeto Marvel nos cinemas). A aposta foi num grupo publicado esparsamente ao longo das últimas cinco décadas. Personagens cujas histórias pouca gente – ou quase ninguém – efetivamente leu. Até porque os integrantes deste grupo mudaram drasticamente neste período.

A surpresa de toda a crítica tem sido em como Guardiões da Galáxia funciona exemplarmente nas telas, misturando ação e humor numa dosagem certa, e ainda servindo de ponte para a próxima aventura da editora/estúdio, mas o improvável longa dirigido por James Gunn, um cineasta surgido nos porões do cinema trash, é mais do que um produto eficiente, é  um dos melhores filmes adaptados dos quadrinhos da Marvel. Um dos principais motivos para isto é justamente o que provavelmente deixará este longa fora das listas de melhores filmes baseados em quadrinhos nos próximos anos: a invisibilidade de seus personagens. Com protagonistas praticamente desconhecidos, com um grupo sem tradição, Gunn foi capaz de fazer um trabalho despretensioso, em que pode tomar liberdades sem se preocupar com fãs xiitas ou grandes obrigações mercadológicas.

É quase como se estivéssemos diante de uma ficção-científica absolutamente nova, que não nega sua natureza de blockbuster e transita com extrema facilidade entre os filmes do gênero feitos entre meados dos anos 70 e o começo da década seguinte. Plasticamente, o filme é bem arriscado também porque aposta num visual ultracolorido, que o diretor de fotografia, cenógrafos, figurinistas e principalmente maquiadores administram com uma invejável exatidão. A mistura de cores sempre parece estar no limite, mas tudo funciona muito bem e serve aos propósitos dos realizadores. Assumidamente leve, o roteiro de Guardiões da Galáxia oferece cenas de ação deliciosas (como a fuga da prisão espacial) na mesma medida em que cria momentos  extremamente sentimentais (quando Groot muda seu discurso pela primeira vez), sem nunca passar do ponto.

Os atores estão muito à vontade em seus papéis, o que ajuda bastante à engrenagem, com destaque para Chris Pratt e Zoe Saldana, intérpretes do Senhor das Estrelas e de Gamora, mas tanto Dave Bautista, que faz Drax, o Destruidor, quanto Michael Rooker, no papel de Yondu Udonta, têm performances deliciosas. Agora, se há um homem para saudar, este é Bradley Cooper, completamente entregue à amoralidade de Rocket Racoon, com dezenas de falas memoráveis. E Groot é o melhor personagem da vida de Vin Diesel. E sua melhor interpretação também. Todo eles parecem se divertir tanto no filme que dá pra entender porque atores como Glenn Close, Djimon Honsou e John C. Reilly aceitaram fazer papéis tão pequenos. Esta coloquialidade de Guardiões da Galáxia, sem grandes poderes e responsabilidades, mesmo em seus momentos mais arriscados deve aproximar muito o espectador.

James Gunn pontua a história do grupo de outsiders intergaláticos, reunido por acaso, com um humor caseiro que dialoga não apenas com o público que lê quadrinhos ou que consome ficção-científica, mas com um espectador interessado em dar boas risadas no cinema, que vai ser capaz de identificar uma história com começo, meio e fim, mesmo dentro de um projeto maior. Enquanto a DC transforma até seus heróis mais solares em personagens amargurados e carracundos achando que esse é o caminho para traduzi-los com dignidade para o cinema, a Marvel resolveu olhar para as estrelas com a curiosidade e o improviso de um garoto que ganhou sua primeira luneta para abrir um universo de possibilidades para seus personagens e espectadores.

Guardiões da Galáxia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Guardians of the Galaxy, James Gunn, 2014]

2 Comments

Filed under Resenha

Oscar 2015: trailers de 11 filmes que têm chance de ser indicados

Estamos a pouco menos de seis meses do anúncio dos indicados ao Oscar, mas muito do que veremos na lista de melhores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos já está, se não definido, pelo menos insinuado. A bolsa de apostas de sites e blogues de cinema leva em conta os nomes dos diretores, o perfil e a estirpe das histórias, elenco, estúdios, datas.  Há pelos menos três filmes apontados como fortes pré-concorrentes à temporada de prêmios que ainda não têm trailer (Inherent Vice, de Paul Thomas Anderson, Men, Women and Children, de Jason Reitman, e The Theory of Everything, de James Marsh), mas boa parte dos principais candidatos já têm pelo menos teasers no YouTube mais próximo. Relacionei aqui os vídeos de todos eles. Como todos os anos, alguns filmes ainda devem aparecer do nada nos próximos meses, mas a linha geral do Oscar 2015 já começou a ser desenhada.

Birdman, Alejandro Gonzalez Iñarritú

Boyhood, Richard Linklater

Foxcatcher, Bennett Miller

Fury, David Ayer

Gone Girl, David Fincher

O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson

The Imitation Game, Morten Tyldum

Interstellar, Christopher Nolan

Mr. Turner, Mike Leigh

Unbroken, Angelina Jolie

Wild, Jean-Marc-Vallée

2 Comments

Filed under Listas, Oscar, Prêmios, Vídeos

Amar, Beber e Cantar

Amar, Beber e Cantar

A encenação sempre esteve no centro do cinema de Alain Resnais e se tornou uma obsessão em seus últimos filmes. Amar, Beber e Cantar, a despedida do cineasta, que morreu em março deste ano, parece um réquiem coerente com a carreira de um diretor que reinventou o cinema algumas vezes ao longo de seus quase 70 anos de atividade. Com um humor e uma leveza que falta à maioria dos revolucionários, Resnais encena a encenação sem nunca mostrá-la de fato. Os personagens falam sobre a peça que estão ensaiando, mas ao espectador é reservado apenas o direito de imaginar os movimentos daqueles atores amadores.

Como fez nos longas gêmeos Smoking e No Smoking, que, como neste último filme, têm por base peças do inglês Alan Ayckbourn, Resnais trabalha com cenários artificiais, que emulam casas, jardins e fazendas, trazendo a encenação para o primeiro plano, acima da história que está sendo contada, ressaltando o trabalho dos atores. A companheira de muitos anos Sabine Azéma e o colaborador de todos os últimos filmes, André Dussolier, lideram um elenco enxuto que tem Hippolyte Girardot, Sandrine Kiberlain, Michel Vuillermoz e a excelente Caroline Sihol. Todos interpretam com o objetivo de desmistificar a relação entre ator e espectador.

Também existe uma ligação direta entre este último filme e o trabalho anterior de Resnais, Vocês Ainda Não Viram Nada!. Naquele longa, atores profissionais se reuniam depois da morte de um dramaturgo e eram convocados a realizar seu último desejo, o de encenar mais uma vez o texto de uma peça, procurando esgotar as possibilidades de reinterpretação. Aqui, um grupo de amigos, todos amadores, é convidado para participar dos ensaios uma montagem. O texto não importa, mas, sim, a encenação do bastidor. Nos dois filmes, personagens fantasmas estão centro da ação: no longa anterior, é o dramaturgo que nunca é visto. Em Amar, Beber e Cantar, nem a diretora da peça nem o amigo comum a todos os personagens entram em cena.

O passeio cruel e poético pelos campos de concentração em Noite e Neblina, o conto anti-guerra em três atos de Hiroshima, Meu Amor, a desconstrução da narrativa em O Ano Passado em Marienbad. Os filmes de Alain Resnais nunca se encerraram em sua primeira instância. Os cenários artificiais desta última obra apresentam o cinema como um palco de ilusões onde a encenação parece o reflexo de um modelo de comportamento. A narrativa está viciada não apenas na arte, parece alertar o cineasta. Ao eleger a forma como uma maneira de desnudar o texto e a interpretação, o diretor não pretende nos convencer de sua história, nem nos vender seus personagens, mas nos entrega de bandeja uma maneira de prospectar sobre a vida. Como um bom revolucionário, Resnais  não desistiu nem no fim.

Amar, Beber e Cantar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Aimer, Boire et Chanter, Alain Resnais, 2014]

1 Comment

Filed under Resenha

Top 40: os melhores primeiros filmes de todos os tempos

Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman, Kenji Mizoguchi, Rainer Werner Fassbinder. A história do cinema mostra que muitos de seus diretores mais respeitados tiveram que fazer dois, três, quatro, muitos filmes para conseguir algum reconhecimento. A maturidade cinematográfica destes e de tantos outros nomes foi sendo lapidada aos poucos. Mas há um farto punhado de casos em que cineastas, desde seus primeiros trabalhos, entregaram obras que marcaram, quando não revolucionaram, a história do cinema. Recentemente, alguns cineastas estreantes mostraram serviço com pérolas como Distrito 9, de Neill Blomkamp, Procurando Sugar Man, de Malik Bendjelloul, e Las Acacias, Pablo Giorgelli. Mas quais seriam as melhores primeiras obras de todos os tempos? Avanços tecnológicos, pioneirismo temático, maestria técnica, influência. Os “motivos” na hora de elencar os melhores primeiros filmes já feitos são diferenciados. Dando continuidade ao Projeto Top 40, uma visita aos baús da história do cinema e a minha própria história, segue a lista com os 40 melhores filmes de estreia.

Dark Star

40 Dark Star
[Dark Star, John Carpenter, 1974]

O longa de estreia de John Carpenter é datado, barato, com efeitos toscos, nonsense e quase esquizofrênico. O cineasta passeia pela fronteira do kitsch e da comédia simplista, mas Dark Star faz uma crítica ferrenha aos militares, ao autoritarismo e ao imperalismo dos EUA e tem mais subtextos do que dá pra descrever, geralmente travestidos de bobagem.

Eraserhead

39 Eraserhead
[Eraserhead, David Lynch, 1977]

As sementes de tudo o que David Lynch viria fazer em quase quatro décadas de carreira estão neste primeiro longa do cineasta. Em Eraserhead, ele traz a experiência do terror a partir da deformação do corpo, reforçado pelo preto-e-branco da fotografia, já lança o surrealismo como elemento narrativo e experimenta trabalhar com sonhos e alucinações.

A Idade de Ouro

38 A Idade do Ouro
[L'Âge d'Or, Luis Buñuel, 1930]

Luis Buñuel sempre foi um provocador e seu primeiro longa-metragem, mais uma parceria (ainda que não concretizada) com Salvador Dalí, era uma crítica poderosa ao comportamento burguês. Um dos primeiros a utilizar os signos e códigos do surrealismo no cinema, o diretor faz aqui uma coleção de cenas sem linearidade, cheia de humor negro e imagens bizarras que cristalizam sua proposta de alfinetar o clero e as instituições burguesas.

A Faca na Água

37 A Faca na Água
[Nóz w Wodzie, Roman Polanski, 1962]

O primeiro longa-metragem de Polanski é uma poderosa história sobre o quanto a chegada de um estranho pode dizer sobre o que existe entre um homem e uma mulher e sobre o comportamento humano. O encontro entre os personagens se transforma num campo fértil para uma batalha de classes e um conflito de gerações.

São Paulo, Socieade Anônima

36 São Paulo, Sociedade Anônima
[São Paulo, Sociedade Anônima, Luis Sergio Person, 1965]

Em seu primeiro filme, Luis Sérgio Person tentou entender São Paulo e o paulistano em pleno processo de industrialização. São Paulo, Sociedade Anônima faz uma radiografia da alma da cidade e de sua ambiguidade, que oferece possibilidades ao mesmo tempo em que massacra o ser humano. O personagem de Walmor Chagas, um operário que virou sócio de uma fábrica, é o homem que tenta se encaixar nesse processo.

Reino Animal

35 Reino Animal
[Animal Kingdom, David Michôd, 2010]

O cinema já mostrou várias famílias criminosas, mas o australiano David Michôd encontrou uma maneira melancólica e intimista de apresentar os Codys. Num filme essencialmente masculino, é uma mulher quem comanda a família e a ação. A presença magnética de Jackie Weaver e a mão equilibrada do diretor levam Reino Animal para um lugar diferenciado na lista de filmes do gênero.

A Estirpe dos Malditos

34 A Estirpe dos Malditos
[Children of the Damned, Anton M. Leader, 1964]

Parece uma continuação picareta de A Aldeia dos Amaldiçoados, mas o filme é o retrato de uma época e uma reflexão sobre intolerância étnica. Os stills incomuns da abertura cedem espaço para um elaborado trabalho de fotografia, que serve de apoio para um dos melhores filmes políticos já vistos. É facil classificá-lo como datado, mas a Guerra Fria nunca foi tão bem traduzida num longa-metragem.

Força do Mal

33 A Força do Mal
[Force of Evil, Abraham Polonsky, 1948]

Abraham Polonsky só assinou três filmes, talvez por ter sido vítima da caça às bruxas imposta em Hollywood nos anos 50. Mas seu primeiro trabalho, A Força do Mal, é um longa impecável: um filme noir muito além da maioria dos filmes noir, que ao mesmo tempo que radiografa o mundo do crime na cidade grande, entende a ganância como uma força maligna que oprime o homem.

Sombras

32 Sombras
[Shadows, John Cassavetes, 1959]

Numa época em que o cinema americano dava voltas ao redor de um padrão, John Cassavetes choca a plateia com a história de uma mulher negra e suas relações com o namorado branco e com os irmãos. O roteiro é simples e Sombras se concentra muito mais numa sucessão de cenas que parecem parte do fluxo da vida. A encenação fica em segundo plano. O filme de Cassavetes quer trazer o improviso para o foco.

Killer of Sheep

31 Killer of Sheep
[Killer of Sheep, Charles Burnett, 1977]

O roteiro é quase um fiapo em Killer of Sheep, mas Charles Burnett estava muito mais interessado em decifrar seus personagens do que em contar uma historinha. Registrando fatos corriqueiros na vida, dedicando-se a detalhes do cotidiano de uma comunidade de negros nos Estados Unidos, o diretor deu voz a um grupo geralmente ignorado pelo cinema americano e ajudou a traduzir um status quo.

Continue reading

57 Comments

Filed under Listas