T2 Trainspotting

T2 Trainspotting

Quanta saudade cabe num verso, num refrão, num take? A arte, qualquer uma delas, parece ser moldada pela nostalgia. Aprisionar momentos, fantasmas e sentimentos num instante ou num discurso é um dos desejos básicos do artista. Olhar para trás é ao mesmo tempo buscar referência, fundamento e repertório. A nostalgia pode ser bem saudável se administrada com parcimônia. O simples fato de partir de algo pré-existente não indica saudosismo e o saudosismo, esse palavrão no dicionário das regras da arte contemporânea, não precisa ser maniqueísta, oportunista, nem fácil.

Danny Boyle comete um pecado em T2 Trainspotting. Em várias das cenas em que se refere ao filme de 1996, ele reprisa cenas desse longa que o revelou há 21 anos. Não era necessário. O primeiro Trainspotting é uma daquelas obras que se amarraram com tanta força ao imaginário popular que o simples fato de se anunciar uma continuação tardia deste filme faria com que as pessoas voltassem à obra original. Voltaram saudosos e vão assistir este novo longa igualmente saudosos, mas curiosamente vão reclamar do uso da nostalgia como mola propulsora deste trabalho mais recente. Justamente, aquela que os fez rever o primeiro para assistir ao segundo. Curioso, já que este segundo filme é baseado num segundo livro até porque Trainspotting tinha uma fonte na literatura. E até então não se havia reclamado disso. Não muito, pelo menos.

T2 é sobre voltar para casa. E faz isso de cabeça erguida, tanto seguindo seu protagonista, um Renton completamente fiel ao que conhecemos há 21 anos: que procura seu lugar no mundo porque perdeu a mulher, o trabalho, o dinheiro. Renton não volta pra casa com a nostalgia que poderíamos esperar. Ele volta porque é o jeito. Encontra os amigos que ele passou pra trás porque é o jeito. É o que sobrou. Danny Boyle, por sua vez, não precisaria ter acompanhado esse retorno. Nesse meio tempo, ele ganhou trabalho, dinheiro e até um Oscar, cujo merecimento a gente deixa para outra discussão.

Boyle observa essa volta de Renton como se deve, reapresentando os amigos dele e as esquinas da cidade, tirando sarro dos ícones que criou, seja um vaso sanitário sujo ou uma edição de cortes rápidos. Não se livrou do discursinho sobre as escolhas, que tem que ser lido bem rapidinho para agradar aos adolescentes. Nem poderia. Só faria sentido voltar se fosse assim. Mas Boyle pode – e tem – um olhar meio duro para com o passado. A montagem, ainda que emule os anos 90, parece mais madura. Simon não é mais Sick Boy e quando ele diz que “não está sentindo nada ali”, é como se Boyle zoasse o que estava começando a ficar sério, banal e simplório, é como se zoasse a própria feitura desse filme. E, cá entre nós, faz muito sentido com o tipo de humor que ele e Irvine Welsh estabeleceram no primeiro filme.

A nostalgia de T2 é bem consciente e bem crítica. Begbie está caricato, o final é pulp, a fórmula é a mesma? Choose life, amigo, a fórmula é para ser a mesma. E este filme ainda te oferece algo mais.

T2 Trainspotting EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[T2 Trainspotting, Danny Boyle, 2016]

Compartilhe!

1 Comment

Filed under Resenha

Era o Hotel Cambridge

Era o Hotel Cambridge

Muito mais barato de ser realizado do que um filme de ficção, o documentário se tornou, mais do que um destino em si, um caminho para que os jovens diretores brasileiros pudessem começar suas carreiras. O cinema documental cresceu em quantidade e qualidade e possibilitou uma série de experiências que promoveu encontros das mais variadas formas com os filmes de ficção. Colocar pessoas “reais” para interpretar a si mesmas ou até viver outros personagens se tornou um modelo bastante comum no recente cinema brasileiro, com resultados impressionantes, como em Girimunho, O Céu Sobre os Ombros, Histórias que Só Existem Quando Lembradas.

O “filme misto” chegou a um nível de realização que permitiu obras como Era uma Vez o Hotel Cambridge. Eliane Caffé é uma diretora com mais de 20 anos de carreira em longas, embora este seja apenas seu quarto filme, mas, embora tenha realizado produções respeitáveis como Kenoma e Narradores de Javé, jamais tinha alcançado a complexidade desse último trabalho. Mais do que um filme que se divide entre ficção e documentário, mais do que usar personagens reais nos papéis deles mesmo e atores nos papéis destes personagens, Eliane conseguiu um grau de intimidade rara e não necessariamente panfletária com seu objeto – os moradores que ocupam prédios abandonados em São Paulo.

Entrando nesse cenário da vida real e inserindo atores naquele contexto, sem exatamente ressaltar sua condição de intérpretes, Eliane Caffé ocupa, tal qual seus personagens, outras formas de cinema, outros espaços que não são necessariamente de fatos e nem de histórias, mas de possibilidades narrativas. Percorrer os corredores do ex-Hotel Cambridge, invadir apartamentos, reuniões e a intimidade destas pessoas/personagens e acompanhar, literalmente – ou dramaticamente -, ocupações reais ajuda o espectador a se aproximar daquelas vidas, olhando para elas tanto com e sem filtros, mas nunca com os olhos cansados.

Era o Hotel Cambridge EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Era o Hotel Cambridge, Eliane Caffé, 2016]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Cinco filmes disponíveis em streaming

Cinco filmes que rodaram festivais mundo afora, e passaram em circuito no Brasil, chegam agora em video on demand. Dois são destaques absolutos na lista de melhores filmes de 2016: o primeiro é Invasão Zumbi, blockbuster coreano com mortos-vivos soltos dentro de um trem bala e um dos filmes mais inteligentes e empolgantes do gênero nos últimos muitos anos; o segundo é o ótimo Sieranevada, belíssimo – e ácido – encontro de família dirigido pelo romeno Cristi Puiu, dono de um olhar clínico e impiedoso sobre as relações pessoais e sobre seu próprio país.

Estados Unidos do Amor, Min Bahadur Bham

Invasão Zumbi, Sang-Ho Yeon

Nas Estradas do Nepal, Tomasz Wasilewski

O Presidente, Mohsen Makhmalbaf

Sieranevada, Cristi Puiu

Os filmes estão disponíveis nas seguintes plataformas: NOW (R$11,90) / VIVO PLAY (R$ 9,90) / Google Play (Compra R$ 29,90 Aluguel R$9,90) / iTunes (Compra US$6.99 / Aluguel US$2.99).

Leave a Comment

Filed under Listas

Silêncio

Silêncio

A razão pela qual Martin Scorsese parece ter se atraído por este projeto, de transformar o livro Silêncio num filme, é a mesma pela qual ele não consegue dar conta desta ambição: o contraditório discurso de fé do protagonista. Parece muito sedutor querer materializar o pensamento do personagem, o padre Rodrigues, que realmente acredita que sua crença em Deus está acima de todas as coisas, e ao mesmo tempo mostrar que este é um discurso colonialista de um grupo que pretende trazer sua fé prontinha, embalada como “a fé verdadeira” para um povo que, secularmente, já tem outras crenças. Essa dicotomia provavelmente deve ter interessado muito ao cineasta, que apesar de ter uma formação cristã e católica muito forte, sempre foi um homem de espírito contestador, tanto é que fez um filme como A Última Tentação de Cristo.

Em Silêncio, o problema, a meu ver, é conseguir equilibrar estas duas pontas: discurso de fé e a problematização desse discurso. Na maior parte do filme, o que se sobressai é o discurso do protagonista, que termina se confundindo com o discurso do próprio filme, e, consequentemente, vira o discurso de Scorsese. E, para dar corpo a este discurso, as saídas narrativas são transformar os governantes japoneses, aqueles que não permitem que o personagem mantenha e propague sua fé, em vilões. Se eles realmente usam a violência para coagir os padres jesuítas, eles fazem isso como reação a um povo estrangeiro que invade o país deles para impor um novo pensamento.

Os questionamentos do Scorsese parecem, durante quase todo o filme, sufocados por esse discurso de fé. Tudo fica muito nas entrelinhas. Há dois momentos em que o diretor traz essas questões para o debate principal, mas os argumentos terminam mais como explicações para o espectador sobre o como e por que as coisas se desenrolaram do que como discussão ética. Scorsese parece incomodado o tempo inteiro com a mensagem que o filme está passando, mas não consegue equilibrar os discursos. E o que é mais problemático: Andrew Garfield, apesar de esforçado, nunca parece ter a maturidade do personagem a ponto de nos convencer do que ele acredita.

Falta estofo a Garfield para encarar a complexidade do protagonista e falta uma definição maior de que personagem Liam Neeson está interpretando. Se Garfield parece ingênuo, Neeson tem uma postura diferente a cada nova cena. Scorsese só parece estar à vontade na cena em que Neeson tenta traduzir a maneira como o japonês lida com religião e espiritualidade. Embora o discurso seja novamente violento, ele oferece novas nuances para a discussão, justifica de uma maneira torta, a visão simplista de homem de fé contra “bárbaros ateus”. Mais o buraco é mais embaixo.

Já faz um tempo que o cineasta, utilizando uma expressão não tão precisa, dirige no piloto automático. Todos seus filmes têm grandes momentos visuais e uma imensa competência em executar o que ele imagina para a história, mas seus últimos trabalhos pecam por um certo distanciamento do objeto. Scorsese é tão profissional que, muitas vezes, parece olhar com frieza para o que está filmando. Mesmo longas de conteúdo necessariamente mais emocional, como A Invenção de Hugo Cabret, parecem programados demais, calculados em excesso.

Isso não significa que Scorsese dirija mal. Obviamente ele é um grande diretor e um dos mais profundos conhecedores da história do cinema, mas parece mostrar que suas obsessões e seu perfeccionismo algumas vezes atrapalham a maneira como ele se relaciona com seus objetos. Silêncio é um bom exemplo desta dicotomia: mesmo no meio de uma produção cheia de percalços, o cineasta se esforça para dar ao filme um peso de estudo sobre a fé do protagonista, embora nunca realmente consiga dar conta desta missão.

Apesar de sua formação, Scorsese falha em materializar a crença de Rodrigues, o missionário jesuíta português enviado ao Japão feudal para recuperar o padre Ferreira, religioso que desapareceu em missão de catequese. Embora siga a cartilha do livro de Shusaku Endō, autor católico japonês cuja história tenta provar a fé do personagem principal mesmo diante das situações mais adversas, Scorsese não parece acreditar muito no que está filmando ou talvez esteja mais preocupado com o rigor estético, que permanece intacto.

A impressão é de que o filme nunca entra realmente no espírito do protagonista. Parece cético ou pouco interessado em relação a sua religiosidade. Os dilemas que os padres e os “convertidos” enfrentam, que passam necessariamente por negar sua fé em público, são filmados de forma apática por Scorsese. Embora as cenas procurem mostrar o passo-a-passo desses momentos de provação dos personagens, o timing e a intensidade dessas sequências são prejudicados pela falta de densidade das performances e por uma certa burocracia na maneira de filmar.

Silêncio, o livro, é considerado a obra-prima de Endō, mas sua natureza colonialista talvez tenha sido um problema para esta segunda adaptação para o cinema. Existe uma japonesa, dos anos 70, dirigida por Masahiro Shinoda, que parece bem mais à vontade para se debruçar sobre o tema. Se tem um discurso simplesmente confuso ou se parece impróprio para uma época em que a diversidade religiosa é cada vez mais aceita, a certeza em relação a Silêncio é de que Scorsese não conseguiu deixar claro o que ele pensa sobre aquele personagem e sobre aquelas contradições.

Silêncio EstrelinhaEstrelinha½
[Silence, Martin Scorsese, 2016]

2 Comments

Filed under Resenha

Logan

Logan

As primeiras imagens de Logan poderiam estar em qualquer um daqueles filmes baratos em que postos de gasolina no meio do deserto estão entre os cenários preferidos. É a América profunda, aquela que esconde criaturas estranhas como as que povoam o primeiro longa de James Mangold, Paixão Muda, rodado há mais de vinte anos, e para a qual ele só volta bem acompanhado, seja por Johnny Cash, por personagens de um western antigo ou por Wolverine. Em suas primeiras cenas, a fotografia do filme, quase sem tratamento, busca ao mesmo tempo o tom rústico que Mangold impõe ao longa e o isolamento que o protagonista impõe a si mesmo e aos poucos que restam perto dele.

Um ponto de partida digno para um filme sobre os últimos passos de um homem como o personagem que ele carrega há quase duas décadas. Interpretando um herói finalmente vencido pelo tempo, com um décimo dos poderes e do vigor que o mantiveram vivo por muito mais do que qualquer um de seus pares, contaminado por sua própria condição, Wolverine vive recluso com um Professor Xavier nonagenário num mundo onde já não há mais mutantes, mas a perseguição continua. Mangold filma a decadência do personagem com um olhar duro e desesperançoso de uma balada country sobre um homem que está cansado do mundo e da solidão. Sobre seus ombros pesam as últimas responsabilidades, das quais ele não é capaz de abdicar. É o que ele enxerga como seu destino e sua punição.

O momento de introspecção do personagem foi a deixa perfeita para que Mangold se voltasse por completo para esse cenário que ele tanto examinou e para seu próprio arsenal de referências. Hugh Jackman ganhou certa liberdade para fazer sua despedida da série e chegou com a ideia de um filme que misturasse Os Imperdoáveis, O Lutador e Os Brutos Também Amam. Do primeiro, o diretor tirou um protagonista herdeiro dos personagens de Clint Eastwood, com um código moral rígido, mas moldado à base da violência; do segundo, um homem consciente de sua idade e de sua condição; do terceiro, citado literalmente, alguém que encontra um herdeiro, uma maneira de continuar.

É a entrada desta nova personagem em cena que transforma, aos poucos, o protagonista e o próprio filme. Mangold passa a permitir um maior cuidado com a estética das cenas à medida que Wolverine passa a se enxergar com uma nova missão. Hugh Jackman nunca esteve tão bem no papel e talvez em toda sua carreira como ator e sua interação com Patrick Stewart, que nunca foi tão intensa, e com a novata Dafne Keen, um achado, só ajudam reconhecer o talento do homem. Embora não esqueça o humor e a ironia, Mangold se concentra nas cenas dramáticas e em construir uma homenagem definitiva à mitologia do personagem, que embora seja canadense, é a reciclagem de muitos heróis americanos, de muitos Clint Eastwoods. Encontrar sua sensibilidade é para poucos e, em Logan, James Mangold só acertou no alvo.

Logan EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Logan, James Mangold, 2017]

1 Comment

Filed under Resenha

A Jovem Rainha

A Jovem Rainha

O finlandês Mika Kaurismaki morou no Brasil durante muito tempo, conhece bem a língua portuguesa e reclamou da tradução para um de seus últimos filmes, A Jovem Rainha, em que biografa a polêmica e extravagante Kristina, da Suécia, quando o longa foi exibido na Mostra de Cinema de São Paulo. No original, o filme se chama The Girl King, algo como O Rei Menina, que comporta bem melhor o espírito de sua protagonista revolucionária, já vivida por Greta Garbo no clássico Rainha Christina. Mesmo com a reclamação, o longa foi lançado em circuito com o mesmo título do festival. A tradução não ajuda, mas a história complexa da personagem é interessante por si só. Ela foi nomeada monarca aos seis anos, passou outros dois tendo que dar boa noite ao pai embalsamado por uma mãe louca, foi criada como um menino, se apaixonou por livros, filósofos, pensadores e por uma mulher. E ainda desafiou o luteranismo, religião oficial de seu país. Diante da história de uma mulher de tantas paixões febris, Kaurismaki parece também ter incorporado uma possível herança de sua passagem pelo Brasil, a dramaturgia televisiva que assistimos no filme. A Jovem Rainha é um novelão histórico, artificial, fake, que potencializa as conspirações de corredor, os relacionamentos proibidos e as reviravoltas com closes fechados, interpretações afetadas, flashbacks explicativos e outra seleção de truques para dar volume ao suspense. Malin Buska encarna a protagonista com muita propriedade, embarcando na ideia de Kaurismaki de transformar Kristina exatamente numa personagem. Nas cenas em que faz discursos para a corte, Buska declama suas falas quase que como um padre faz sua ladainha dominical. Combina perfeitamente com o que o filme pretende para sua rainha. O resultado pode parecer estranho ou de má qualidade, mas joga o filme, a trama e a personagem num plano de ficção eterno, como se ela morasse para sempre numa encenação ou num livro de história.

A Jovem Rainha EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[The Girl King, Mika Kaurismaki, 2015]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Estrelas Além do Tempo

Estrelas Além do Tempo

Quando a maior qualidade de um filme é “não ofender ninguém”, as chances de uma obra como esta ser um produto descartável são grandes. Mas, por alguma curiosa razão, Estrelas Além do Tempo guarda méritos em sua história cheia de shiny ‘brave’ people. No meio de uma produção massiva de filmes de temática negra sérios que saíram em busca de um público mais abrangente, como Moonlight, O Nascimento de uma Nação, Loving e Um Limite Entre Nós, o filme de Theodore Melfi parece o mais raso, mas é um dos, senão “o” mais eficiente.

O maior trunfo do roteiro de Estrelas Além do Tempo é justamente mirar numa plateia mais ampla. Não é à tôa que o filme é o mais bem sucedido nas bilheterias entre os indicados ao Oscar. Melfi fez um longa disposto a conversar com qualquer tipo de público. Pode até ser arrumadinho demais, coordenando talvez excessivamente as conquistas de suas protagonistas, mas tem dois grandes feitos, além, claro de celebrar estas personagens.

O primeiro é adotar um tom solar, sem trocadilhos com a Nasa ou a conquista do espaço, coisa difícil em se tratando de um filme onde a questão “cor de pele x preconceito” está no centro das discussões. Segundo, quase nunca construir suas narrativas no modelo maniqueísta de vitimizar suas protagonistas, armadilha em que geralmente muitos filmes de temática semelhante caem. As personagens não reagem. Elas agem. Pode parecer pouco, mas num padrão de filme como este, é uma baita conquista.

Adotando estas táticas, o filme talvez perca um pouco de sua profundidade, mas ganha em seu alcance. Estrelas Além do Tempo convida o espectador a torcer Katharine, Mary e Dorothy sem manipulá-lo emocionalmente. Ficar do lado das personagens se torna algo natural para quem assiste ao filme, cujo roteiro é construído em cima de suas conquistas e não de seus percalços. A identificação é imediata e o tom leve, às vezes engraçadinho, atrai um público para o qual uma história de superação narrada com simpatia conta muito.

E com Janelle Monaë, Octavia Spencer e Taraji P. Henson à frente do trio, o bloco destas estrelas passa fácil por qualquer lugar.

Estrelas Além do Tempo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hidden Figures, Theodore Melfi, 2016]

1 Comment

Filed under Resenha

Cinquenta Tons Mais Escuros

Cinquenta Tons Mais Escuros

O olhar cansado geralmente nos guia para uma visão simplista das coisas. O mais correto talvez fosse fazer como os protagonistas de Cinquenta Tons Mais Escuros: despir-se não apenas de suas roupas íntimas no meio de um restaurante, mas principalmente de suas certezas. Assim, sabe-se lá, pode surgir um “grande” filme sobre o amor. Se não no sentido de grande cinema, de bom exemplo de uma narrativa audiovisual – o que o longa certamente não é com sua absoluta falta de nuances, profundidade e de enxergar seus personagens sobre outras perspectivas – pelo menos, aparece uma obra que, embora se disfarce de filme erótico, é nada mais do que uma história tradicional sobre encontrar sua cara metade.

Por ser colocado em primeiro plano, o sexo chama tanto a atenção na trilogia imaginada por E.L. James que deixa camuflada a real fórmula da escritora. Enquanto se perde tempo numa discussão interminável e até meio óbvia sobre a ousadia ou a falta de libido das cenas de sexo, interpretação diretamente ligada a repertório e expectativa de quem está disposto a esse debate, a autora estabelece sua escrita como herdeira direta dos romances de bancas de revista dedicados ao público feminino. Cria uma suposta versão “século XXI” destes livros, cheia de citações a sadomasoquismo, para a clássica história da mocinha – pobre – que luta pelo amor verdadeiro de seu príncipe encantado – rico -, disposto a abrir mão o que lhe é mais importante para ter esse amor.

Casada, mãe de dois filhos adolescentes, James, uma ex-executiva de TV que somente escreveu seu primeiro romance às vésperas de completar 50 anos, é de uma inteligência impressionante. De um lado, declara que os livros materializam todos os seus desejos mais escondidos, dando uma textura real para as experiências sexuais da protagonista e deixando as pessoas fascinadas ou indignadas com chicotinhos e bolas de metal e bundinhas que aparecem “naturalmente” aqui e ali. Do outro, reprisa uma receita infalível, que conversa não apenas com o público feminino, embora ele seja o alvo principal, que é estimular o fetiche por uma alma gêmea, e não um fetiche necessariamente sexual.

A versão para o cinema do segundo capítulo da história de Anastasia Steele leva para a tela grande a mesma fórmula, os mesmos clichês, mas ganha um reforço ainda maior na hora de distrair o espectador de seus reais objetivos. O que era cafona somente na imaginação do leitor ganha forma em cenas, cenários e diálogos, em máscaras venezianas, excesso de trilha e vilões bem definidos, que regeneram o protagonista masculino para convertê-lo no ideal amoroso que o público espera. As interpretações frágeis e a falta de carisma dos atores principais não ajudam muito, mas o diretor James Foley acerta em mostrar os corpos da dupla de maneira generosa, tirando o foco de suas performances, e o fato de Dakota Johnson parecer uma “pessoa comum” ajuda muito no intuito da autora. Enquanto o espectador se distrair administrando suas fantasias ou investigando os defeitos da obra, a força da fórmula mais tradicional narrativa de nosso imaginário popular se reafirma em mais uma história sobre não estar sozinho no mundo.

Cinquenta Tons Mais Escuros EstrelinhaEstrelinha
[Fifty Shades Darker, James Foley, 2017]

Leave a Comment

Filed under Resenha

Jackie

Jackie

A música de Mica Levi, indicada ao Oscar neste ano, funciona perfeitamente para estabelecer a atmosfera de filmes estranhos como Sob a Pele. Se, isoladamente, o trabalho da compositora oferece um conjunto de experiências sensoriais para quem ouve, se transformando numa obra particular e cheia de complexidades estruturais e tonais, quando serve como trilha sonora para um filme a música da londrina esbarra nas intenções do projeto.

Em Jackie, Pablo Larraín acerta no recorte, mas, como de praxe, erra no tom. Ao mirar num curto e importante período da história da primeira-dama, evitando o problema da maioria das biografias no cinema: querer dar conta de toda uma história de vida. Assumir um certo retrato controverso da personagem também é um ponto a favor, já que até pelo status de ícone feminino, de moda, de comportamento, Jacqueline Kennedy sempre é vista através de um excesso de filtros positivos e quase nunca é devidamente problematizada.

O grande senão é meio comum a todos os filmes de Larraín, o tom, excessivamente solene, não necessariamente em relação a Jackie, mas à importância do filme, tom construído justamente em cima na trilha tensa de Mica Levi. Nesse momento, de autora original, indeoendente, ousada, Levi assume a condição de subordinada do diretor, ou ainda, de cúmplice num crime hediondo cada vez mais comum no cinema: querer que o filme seja maior do que realmente é. O trabalho continua muito bom, mas é usado de forma equivocada.

No entanto, a maneira como o diretor constrói a história e a maneira como o roteiro aposta num foco específico até justificariam o clima tenso que o chileno, estreando em Hollywood, costura. Ao lado de No, talvez seja um dos trabalhos mais diretos, pontuais e objetivos de Larraín. Mas a economia dramática e a obsessão documental não impediram Natalie Portman de recorrer a uma interpretação reverente, imitando sotaque, pontuações e pronúncias, de forma até irritante em alguns momentos, mas, mesmo assim, a atriz encontra o espaço para criar uma personagem um pouco mais complexa do que a história registrou.

Jackie EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Jackie, Pablo Larraín, 2016]

1 Comment

Filed under Resenha

Até o Último Homem

Até o Último Homem

Passaram-se dez anos desde Apocalypto e o anunciado (e elogiado) retorno de Mel Gibson à direção, depois de ser “banido” de Hollywood por bater em sua mulher e tecer comentários anti-semitas, reúne todos os elementos que sempre estiveram presentes em seu cinema: a maneira conservadora de contar uma história; a vontade de fazer um cinema inspirador, celebrando heróis da vida real; a absoluta falta de delicadeza em expor suas ideias e fazê-las movimentar a trama. A primeira e a segunda partes parte do filme servem para que o espectador fique encantado pelo personagem de Andrew Garfield, cujo esforço para parecer adorável é realmente impressionante, mas soa até desnecessário já que todos os outros personagens estão lá justamente para fazê-lo sofrer da maneira mais maniqueísta possível. A curva dramática do protagonista, que ao fim revela suas crenças e ideias, nunca acontece suavemente e ganha motivações traumáticas que Gibson trata como segredinho até perto do fim do filme.

O segundo ato, pelo menos, compensa o velho lugar comum do treinamento militar com um minidrama de tribunal que pelo menos funciona para impulsionar a história. Já na etapa final, a guerra, fica emperrada na necessidade de redimir o herói e dar uma lição de moral em quem condena suas crenças. É uma sucessão de cenas de autocomiseração disfarçadas de altruísmo heroico. Como diretor, Gibson parece bem mais interessado na manipulação dramática do que em criar cenas de guerra realmente impressionantes. Ele abusa do slow motion – é quase slow cinema – e os lugares comuns são infinitos. Toda esta sequência é meio mal dirigida mesmo. O timing das cenas fica seriamente prejudicado com a missão de destacar o caráter do protagonista. O mais revoltante é Gibson tentar se passar por humanista nos minutos finais do filme, depois de retratar os japoneses da maneira mais caricata possível e “se vingando” deles da maneira mais violenta possível, supostamente querendo fazer uma homenagem a todos os homens da guerra, celebrando suas tradições. Não colou. Mais sutileza na próxima.

Até o Último Homem ★★
[Hacksaw Ridge, Mel Gibson, 2016]

2 Comments

Filed under Resenha