Que Horas Ela Volta?

Que Horas Ela Volta?

“Você é como se fosse da família”, diz a patroa Barbara para a empregada Val, nordestina que há anos trabalha em sua mansão, em São Paulo, em algum momento de Que Horas Ela Volta?. A frase da personagem de Karine Teles resume uma ideia que o inconsciente coletivo brasileiro estabeleceu para justificar ou amenizar uma relação direta de dominação, herdeira legítima de um sistema escravocrata, extinta ou resumida em boa parte do mundo civilizado. Anna Muylaert, dona de uma obra de muitas sutilezas, toca na ferida de uma maneira quase minimalista, buscando o estranhamento e a artificialidade das relações a partir da observação.

Durante pelo menos meia hora de filme, acompanhamos o dia-a-dia de Val, que abdicou do convívio da filha Jéssica, que ficou com sua família no Nordeste, e mora na casa dos patrões. As cenas são diretas e ela acaba quase sempre engolida pelo cenário, muito limpo e muito grande; pela rotina circular; e pelo tratamento frio, mas não muito da patroa, inconscientemente camuflado em pequenos afagos e elogios. Seu bálsamo é Fabinho, “menino mais bonito não tem no Brasil”, que ajudou a criar e que trata com beijos e cafunés.

A relação entre patrões e empregada foi forjada em duas vias. De um lado, ela realmente acredita que tem um espaço a mais naquela família, mas ao mesmo tempo sabe bem qual é “seu lugar”. De outro, parece mesmo que Barbara acha que Val não é apenas uma funcionária, mas uma espécie de agregada, uma convidada especial para a festa de sua vida. Desde, claro, que não ultrapasse limites (que ela nunca desenhou porque aparentemente os anos de convivência ensinaram a Val até que ponto sua condição permite que ela vá).

A direção é bastante feliz em não transformar as personagens em heroínas ou vilãs, mas tentar entender suas visões de mundo e ressaltar que existe um acordo velado de submissão, mutuamente aceito por todos os envolvidos. Este ponto de partida humaniza a relação e coloca Anna Muylaert numa posição mais cômoda para fazer uma crítica a um status quo generalizado. Mesmo quando Jéssica, a filha de Val entra em cena, despertando as divergências entre os dois mundos naquela casa, a cama já havia sido feita pelo roteiro, com as personagens já bem desenhadas e defendidas.

A interpretação de Regina Casé, que estava afastada havia 15 anos de um trabalho mais sério como atriz, é espetacular. Contida, delicada, atenta aos detalhes, ela incorpora um sotaque nordestino preciso e, apesar de ter uma formação cômica, se adapta com facilidade à economia dramática que Anna Muylaert impõe às cenas. Tudo é muito duro, mas sem autocomiseração ou saídas fáceis como o humor pelo humor. É uma performance até certo ponto arriscada porque Regina sai de sua zona de conforto e a personagem não segue o caminho mais fácil até o espectador. Dá muito certo exatamente por causa disso.

Além de Regina e Karine Teles, atriz que está em ascensão, o resto do elenco é bastante afinado. Camila Márdila, que faz a filha de Val, com a fúria adolescente a seu lado, prova que tem um grande potencial e o casting de Lourenço Mutarelli, o autor indie de O Cheiro do Ralo, que a princípio parece bem esquisito, combina com a estranheza de uma personagem incômoda sobre o qual é difícil ter uma opinião formada.

A chegada de Jessica à história, embora deixe o conflito mais evidente, o que necessariamente limita as opções da cineasta, nunca invalida ou banaliza as discussões. O roteiro continua explorando com sutileza os desdobramentos daquela relação complexa. Cabe a Michel Joelsas, o garoto de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, filme escrito por Muylaert, o papel de principal elo emocional com Val. A relação entre ela e Fabinho parece tão verdadeira que fica fácil comprar essa história de que a empregada “é como se fosse da família”. Pena – ou ainda bem – que a vida não é filme.

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[Que Horas Ela Volta?, Anna Muylaert, 2015]

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Homem Irracional

Homem Irracional

Desde 1982, Woody Allen entrega pelo menos um filme por ano. Mas nos últimos tempos parece que se tornou um hábito do veterano diretor, conhecido tanto pelos dramas complexos quanto pelas comédias escrachadas, tomar um fôlego depois de um trabalho mais elaborado. Para cada bom filme que dirige, um mais ou menos vem na sequência. Depois dos ótimos Meia-Noite em Paris e Blue Jasmine, por exemplo, ele lançou os esquálidos Para Roma, com Amor e Magia ao Luar, respectivamente. Por essa lógica, as perspectivas eram boas para Homem Irracional. E ele começa bem.

Allen prepara bem o terreno para que seu conto moral sobre crimes e castigos seja desenhado. Convoca a solar Emma Stone, estrela de seu fraco filme anterior, para fazer a estudante que cai de amores pelo novo professor. Já personagem de Joaquin Phoenix, em sua primeira parceria com o cineasta, traz muitas das questões de outros tantos personagens de Woody Allen. Mas, ao contrário de vários dos últimos protagonistas do diretor, o ator evita fazer de sua performance uma imitação. Phoenix, pelo contrário, transforma o professor em crise existencialista num sujeito de aparência forte, mas frágil e melancólico por dentro. Por isso mesmo, irresistível para seus alunos.

É uma saída bem digna para evitar os tiques tão marcados que perseguem as personagens de Allen. Seus dilemas se tornam mais humanizados e sua falta de vontade de viver, extremamente compreensível, quase adolescente. É por isso que se transformar numa espécie de justiceiro parece uma alternativa tão viável. Allen costura esses caminhos com linha fina, mas firme, e o filme ganha uma vulnerabilidade esquisita, mas muito atraente. O desenvolvimento do pós-crime é que redimensiona as coisas. As decisões apressadas, comuns a muitos dos filmes do diretor, incomodam porque parecem acelerar uma história que acontecia sem pressa. O momento de resolução, atropelado, funciona melhor do que a sequência de descobertas que levam a ele e até nossa permissividade com as imprecisões que apareciam aqui e ali fica menor.

A sensação é de que Homem Irracional é um avião que se prepara demais para levantar voo, mas permanece taxeando. Isso bem na vez dele entregar um filme bom pode ser um tanto frustrante.

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[Irrational Man, Woody Allen, 2015]

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Drácula de Bram Stoker

Drácula de Bram Stoker

Há dezenas de imagens em Drácula de Bram Stoker que não duram mais de dois ou três segundos. Essas imagens tão curtas, por pouco não subliminares, estão espalhadas ao longo do filme, entrecortando cenas que poderiam existir sem elas mas que, com elas, ganham novos sentidos e significados extras. Algumas servem para ilustrar diálogos – reafirmando uma das premissas do projeto, nunca esconder uma imagem – enquanto outras introduzem informações que ajudam o espectador a compreender novos detalhes do filme mais complexo de Francis Ford Coppola, uma das mais bonitas, dolorosas e espetaculares histórias de amor que o cinema já viu.

Ao mesmo tempo que assume o cinema como o exercício do truque, utilizando, numa proporção megalomaníaca, fusões, sobreposições, recortes, chroma keys e truncagens das mais variadas, o diretor também não tem limites dramatúrgicos e cênicos para remodelar a história criada por Bram Stoker, sempre trabalhando no limite do excesso, o que deixa o filme num estado de perpétua agonia, como se materializasse a urgência de Drácula em encontrar Mina. Gary Oldman, na melhor interpretação de sua vida, incorpora esse espírito e devora absolutamente todas as cenas. Está gigantesco e violentamente sexual, justamente como Coppola planejou.

Sexo, por sinal, é uma das forças motoras do filme. O vampirismo, afirma o diretor, nada mais é do que o exercício de um ato sexual – voraz, imediato. A luxúria movimenta as personagens, aparece escancarada na ostentação da direção de arte e nos figurinos luxuosos; está representada numa fotografia de cores fortes e imagens falsas que invadem deliberadamente outras imagens; na montagem que, combinada à música, nos oferece sequências suculentas de cenas. De um lado, a Lucy de Sadie Frost exerce o sexo como arma de vida e é punida por isso, sem deixar de ser uma mocinha em apuros. Do outro, as noivas de Drácula, Monica Bellucci incluída, têm a fome de sexo controlada pelo vampiro.

Coppola usa um arsenal de referências ao cinema de terror que estranhamente funciona apesar do tom a mais, enquanto cria uma impecável reconstituição de época, saudando o cinema e a tecnologia. Para o cineasta, ciência e magia explicam e justificam esta história na mesma medida. Ele não tem qualquer pudor em misturá-las como forma de traduzir uma época de transformação profunda da Europa, que entrava na Revolução Industrial. É reverente e ao mesmo tempo em que é cínico, principalmente no discurso do Van Helsing de Anthony Hopkins, colossal, que ora respeita e alimenta, ora desmonta o lado místico da trama.

O que nunca muda é o tom onírico que o diretor impõe ao conjunto, onde Winona Ryder, no auge de seu talento, é a princesa prometida, seduzida por um herói vilão. São muitos conceitos em um só. É amor bruto e cinema sofisticado. Bram Stoker que nos perdoe, mas este filme deveria se chamar Drácula de Francis Ford Coppola.

Drácula de Bram Stoker EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Bram Stoker's Dracula, Francis Ford Coppola, 1992]

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O Pequeno Príncipe

O Pequeno Príncipe

Quanta filosofia existe numa jiboia que engoliu um elefante? Quanta poesia cabe num pequeno asteróide? Quanta magia existe em encontrar um pequeno príncipe no meio do deserto depois de um desastre aéreo?

Algumas obras ficam tão intimamente ligadas aos estigmas que se formam em torno delas que suas maiores virtudes parecem desaparecer de um certo inconsciente coletivo intelectual. De blockbuster da literatura infantil a livro de auto-ajuda, passando pelo posto de leitura favorita das misses, O Pequeno Príncipe enfrentou uma trajetória de sucesso e um calvário de perseguição – que esconde a originalidade de um texto que utiliza um cenário de ficção-científica para filosofar de forma delicada sobre amor e valores.

Setenta e dois anos depois do lançamento do livro, o norte-americano Mark Osborne finalmente resgata esse encanto perdido que fez da obra de Antoine de Saint-Exupéry uma obra-prima. Poucos filmes conseguem transcender os livros pelos quais foram inspirados, ainda mais ampliá-los, relacionando-os com uma realidade mais atual, fazendo-os dialogar com uma história totalmente nova. O Pequeno Príncipe segue o perigoso caminho da atualização do clássico e, ao mesmo tempo em que honra o original, o renova para apresentá-lo para uma nova geração.

Osborne adota uma tática curiosa para diferenciar e ao mesmo tempo acentuar as semelhanças entre velho e o novo: utiliza dois modelos bem distintos de animação para contar as duas histórias. A garotinha nerd que se torna vizinha de um velho aventureiro tem os traços desenhados por computador enquanto o conto original de Exupéry ganha viva num belíssimo stop-motion. No intervalo entre os dois, trafegam as mesmas questões. Estão lá a alucinação do deserto, a parábola moral, a fábula de ensinamento e a sutileza de um texto que costura esse modelos com graça e elegância, fundindo-os numa obra única.

O diretor evita a frase mais famosa do livro, mas o lema “o essencial é invisível aos olhos” está impregnado por todo o filme. O menino que surge do nada para transformar a vida do aviador, trazendo mais questões do que respostas, também ajuda a transformar o destino daquela garotinha, que vive sob as regras rígidas da mãe. Dito assim, parece que O Pequeno Príncipe não escapou daquela sina de obra de auto-ajuda, mas o filme usa tanta sensibilidade e inteligência para transportar para um cotidiano atual, mais crítico, as “mensagens” de Exupéry que parece levar o espectador para o verdadeiro espírito do livro. E a pureza daquilo tudo passa a fazer um imenso sentido e nem parece tão ingênua ou didática assim.

O Pequeno Príncipe EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Le Petit Prince, Mark Osborne, 2015]

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O Último Cine Drive-in

O Último Cine Drive-in

Todas as apostas de O Último Cine Drive-in, longa de estreia de Iberê Carvalho, parecem bem intencionadas, mas acontecem em terreno bem seguro. É mais um filme sobre cinema, mais especificamente sobre quem defende a memória física do cinema numa época em que os antigos espaços parecem não mais achar lugar num mundo de especulação imobiliária e avanços tecnológicos. É também uma história de despedida, tanto para o lugar como para uma das personagens. São duas fórmulas de trabalhar com a nostalgia, que encontram num roteiro simples uma forma de validar sua autenticidade.

A história é uma ficção, mas se passa num lugar real, que existe em Brasília – e é, para o bem e para o mal, totalmente contaminada por ele, que talvez realmente seja o último cinema drive-in do país e foi tema de uma bela reportagem aqui. A influência do cenário vai além dos elementos presentes no argumento, mas se estende pela estética do filme. É bem natural que a fotografia tente explorar os ângulos daquele pequeno pedaço da cidade projetada por Oscar Niemeyer, mas o próprio fato das locações serem bastante resumidas prejudica a pertinência desta opção.

A trilha sonora, composta em parceria pelo corroteirista do filme, emula os westerns de Ennio Morricone, o que tanto serve para novamente remeter à aridez do lugar quanto como referência a Cinema Paradiso, longa parece se inspirar este projeto e que teve a música assinada pelo maestro italiano. As composições servem de moldura para a personagem errática de Breno Nina, que vive entre garantir companhia para a mãe doente e retomar a relação tumultuada com o pai. O que transforma o filme apenas num filme simpático é o roteiro que nunca sabe bem como se livrar dos lugares comuns nem parece bem amarrado o suficiente para carregar os dramas das personagens.

Sob todos os prismas, o filme “dá conta”, mas nunca acontece realmente. E o excesso de referências incomoda: de Curtindo a Vida Adoidado até As Invasões Bárbaras. Numa cena, o cinema projeta Central do Brasil, que tem Othon Bastos e Rita Assemany no elenco. A presença do ator num dos papeis centrais da trama reforça o tom de memorial do projeto que mira na singeleza para criar um elo emocional com o espectador, mas é Rita Assemany, num participação pequena – mas fundamental – a melhor coisa do filme: que atriz incrível, capaz de jogar o trivial para um outro nível. Pena que o texto bem intencionado não exija mais dela.

O Último Cine Drive-in EstrelinhaEstrelinha
[O Último Cine Drive-in, Iberê Carvalho, 2014]

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Missão: Impossível – Nação Secreta

Missão: Impossível - Nação Secreta

Embora isso já venha sendo esboçado desde o terceiro filme, pela primeira vez um longa estrelado pelo agente secreto Ethan Hunt cria uma real noção de família. Em Missão: Impossível – Nação Secreta, o grupo liderado pelo personagem de Tom Cruise está acompanhado por três de seus parceiros em filmes anteriores: Ving Rhames, em seu quarto protagonismo, volta ao elenco principal depois de uma ponta em Protocolo Fantasma, Simon Pegg embala sua terceira participação e Jeremy Renner aparece pela segunda vez na equipe. O resultado tem dois lados bastante distintos: se revela uma vontade de estabelecer links emocionais para com o espectador, o que cria uma identidade para a série e potencializa a arquitetura dramática dos roteiros, também se afasta da ideia de Hunt como herói solitário, que muda seu time – e consequentemente dá novo frescor à franquia – a cada novo capítulo de suas missões.

Christopher McQuarrie, diretor de Jack Reacher e roteirista de No Limite do Amanhã, ambos estrelados por Cruise, assume o comando e parece obstinado em manter a classe dos dois longas anteriores, que procuram equilibrar cenas de ação de um gigantismo cada vez maior com a elegância dos filmes de espionagem clássicos. Em seu favor, um protagonista cujos tiques e maneirismos amadureceram junto com ele e que transformou o que era canastrice num sarcasmo sob controle. Outro trunfo é a melhor Hunt girl da série, a sueca Rebecca Ferguson, com apenas cinco títulos no currículo, que defende com segurança o papel da inglesa que dá novo sentido à expressão “agente duplo”, o que só ajuda McQuarrie a construir um roteiro mais intrincado, com reviravoltas muito bem amarradas para impulsionar à trama em vez de se resolverem em si mesmas.

De certa forma, este novo filme recupera algo do estilo que Brian De Palma impôs ao longa que inaugura a série porque explora com bastante categoria o jogo político e as intrigas palacianas tão caras a este universo. A sequência da ópera é um bom exemplo de como criar uma coleção de cenas de tirar o fôlego sem deixar de ser sofisticado, respeitando tanto a métrica quanto explorando o cenário (embora o resultado não tenha o peso da meia hora final de O Poderoso Chefão – Parte III, por exemplo). Ao mesmo tempo, fica clara a proposta de Cruise de criar uma unidade maior entre os filmes desde Missão: Impossível III, trazendo a linguagem dos filmes de espionagem para outro universo com regras específicas, o dos blockbusters de ação. O casamento é bastante feliz nas sequências do avião, da masmorra, da ópera, do tanque e do primeiro-ministro, mas entra em crise pouco antes da resolução do filme.

É aí que o conflito entre o filme de espião, em que a missão está acima de tudo, se choca com a ideia de filme de grupo, em que as relações entre as personagens estabelecem necessidades específicas para o roteiro e a história ganha rumos sentimentais que ora humanizam a trama, ora a deixam em segundo plano. McQuarrie consegue resolver o problema, criando uma solução bem interessante para a velha questão de “o que fazer com o vilão”, mas poderia ter pensado numa maneira mais criativa para valorizar a melhor personagem do filme que não passasse por Nessun Dorma. Não que esses deslizes prejudiquem o resultado final. Num mundo de filmes comerciais com pouco cérebro, a nova aventura da IMF, é um bálsamo muito bem vindo, uma análise complexa – árida, mas não desesperançosa – de conceitos como lealdade e parceria.

Missão: Impossível – Nação Secreta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Mission: Impossible - Rogue Nation, Christopher McQuarrie, 2015]

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Missão: Impossível e Missão: Impossível II

Missão: Impossível

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[Mission: Impossible, Brian De Palma, 1996]

Brian De Palma leva seus truques e temas para esta reinvenção da série Missão: Impossível transportada, então, para o cinema. O diretor embala o pacote (que inclui não apenas a revisão, mas a condição de filme-veículo para Tom Cruise, que também assina como produtor) numa clássica história de espionagem, em que não economiza disfarces, traições e um certo nível de de desapego com a realidade, o que, convenhamos, é tanto essencial ao gênero quanto fundamental ao cinema de De Palma. O elenco de apoio é estelar e diversificado, o que funciona em diversos níveis. Destaque para Kristin Scott-Thomas. O jogo de não revelar o verdadeiro adversário é instigante, embora o artifício fique evidente demais a certa altura do filme. Artifícios sempre foram os maiores méritos e os calcanhares-de-Aquiles de De Palma.

Missão: Impossível II

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[Mission: Impossible II, John Woo, 2000]

Na revisão, Missão: Impossível II parece um filme completamente errado (o oposto do que aconteceu quando o longa de John Woo foi lançado – talvez porque o cinema eletrizante do chinês estava em alta por estas bandas). Os maneirismos do diretor, que funcionam tão bem em seus trabalhos na terra natal e em A Outra Face (câmera lenta, elenco dirigido para operar no limite do melodrama, cenas de ação milimetricamente coreografadas) parecem todos meio perdidos aqui, não casam um blockbuster americano mais tradicional. O longa vira mais um filme de explosões do que um filme de espião. Dougray Scott, que desistiu de ser o Wolverine dos filmes dos X-Men pra fazer o vilão aqui, tenta compor uma personagem cartunesca, mas cai na caricatura e Thandie Newton, uma atriz geralmente bem competente, está grotescamente ruim. Até Tom Cruise está melhor do que ela.

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Obra

Obra

A estreia de Gregório Graziosi em longas-metragens parte de um belo princípio: incorporar a cidade a sua forma e a sua narrativa. São Paulo e seu subsolo mais profundo parecem ser os verdadeiros protagonistas de Obra, um filme que assume a arquitetura, profissão do personagem de Irandhir Santos, não apenas para a plástica, mas para a própria estrutura do longa. Rodado num preto-e-branco que ora impressiona pelos enquadramentos, ora parece artificializar demais algumas cenas, o filme trabalha com o conceito de arquitetura em vários níveis. Ousado, mas nem sempre funciona. Primeiro temos um homem que encontra na base de uma obra que comanda num terreno de sua família rica um segredo que muda a maneira como ele enxerga seus ancestrais.

Este mesmo homem sofre com uma hérnia de disco, problema que se agrava à medida em que escava o passado de seus parentes. Graziosi utiliza esses trocadilhos não ditos de uma forma bem interessante para amarrar a proposta de seu longa, mas o filme peca por embutir demais a frieza e a assepsia desse mesmo conceito em sua espinha dorsal. No entanto, o problema maior talvez nem seja este, mas o casting de Irandhir Santos. O ator é um dos melhores que surgiram no Brasil nos últimos anos, mas fica difícil acreditar nele como um paulistano coxinha quando não se percebe o mínimo esforço para transformar seu sotaque. O estranhamento pode até ter sido proposital, mas não ajuda a sustentar essa obra.

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[Obra, Gregório Graziosi, 2014]

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Quarteto Fantástico

Quarteto Fantástico

Depois de conceber Poder Sem Limites, um belíssimo filme de estreia que trazia heróis para um mundo muito mais real do que estamos acostumados a ver e mergulhava em personagens complexas, trazendo o drama do adolescente em vários níveis para o centro da trama, Josh Trank parecia ser a pessoal ideal para dar nova vida ao Quarteto Fantástico no cinema. O reboot sonhado pela Fox, que detém os direitos sobre o supergrupo da Marvel, assim como tem os dos X-Men, poderia estabelecer com este filme um universo compartilhado para seus heróis nos moldes do que seus rivais têm criado com bastante sucesso. Mas os planos do estúdio estão oficialmente frustrados. Tanto os boatos que cercaram a produção conturbada quanto as primeiras críticas ao novo longa infelizmente são verdadeiros: o novo Quarteto Fantástico é um filme ruim.

O “decreto” dos críticos não é exagerado. O longa tem tantos problemas que fica até difícil elencá-los sem correr o risco da análise parecer obsessivamente negativa. De um modo geral, há um conflito entre o tom do filme, que se pretende mais sóbrio e profundo do que o dos longas infantilizados que Tim Story dirigiu na década passada, e o roteiro, muitas vezes primário, que parece ter sido escrito às pressas, diante de tantas frases feitas e lugares comuns, que anuncia a cada sequência o que está acontecendo em diálogos explicativos e que rarissimamente se dedica a explorar as personagens. A ideia saudável de tentar se aproximar da maior complexidade que o cinema deste gênero pede hoje desaparece e, se não forem realmente melhores, os filmes de Story parecem ao menos mais coerentes ao se assumirem como aventuras descartáveis.

Trank parece ter tido sérios problemas com o estúdio em relação ao que cada um esperava do projeto. Assustado com as reações ruins, teria tuitado uma frase emblemática: “um ano atrás eu tinha uma versão fantástica disso. E ela teria recebido ótimas críticas. Vocês provavelmente nunca a verão. Essa é a realidade”. As farpas podem indicar que as interferências da Fox teriam transformado radicalmente o projeto, convertendo-o num filme de origem menos arriscado, embora a história tenha suas ousadias, se aproximando mais do grupo em sua versão Ultimate nos quadrinhos. Podem explicar inclusive o descaso completo com uma personagem tão fundamental como o Dr. Destino, resumido a um adolescente revoltado com o mundo que ganha poderes e coloca em prática um plano maligno para destruir o que considera incurável. Já passamos dessa fase.

Mas será que os atritos entre cineasta e estúdio explicariam a falta de cenas de ação realmente empolgantes, o cenário frio que não ajuda a causar empatia com as personagens, a apresentação do grupo em ação que segue um roteiro batido, onde cada um demonstra seus poderes e se dá mal e depois resolve agir em conjunto para evitar o 7×1? Será que justifica o fato de Reed Richards, um dos homens mais inteligentes da Marvel, apontar para o efeito especial para dar uma explicação didática do que está acontecendo antes da luta contra o vilão? Certamente não ajuda a entender como um estúdio que ganhou tanto dinheiro com a franquia mutante aceita cenários sem vergonha que parecem cromaquis e efeitos visuais muitas vezes primários. E não justifica também o visual equivocado do vilão ou os uniformes preguiçosos dos heróis.

A escalação de Michael B. Jordan como Tocha Humana, a maior polêmica nos bastidores, foi o menor dos problemas. O ator pelo menos tenta recuperar o tom irresponsável do herói – que Chris Evans encarnou bem melhor nos filmes de Story, diga-se – e parece mais à vontade do que o resto do elenco, sobretudo em relação a Miles Teller, apático, e Kate Mara, excessivamente sisuda. Tanto Jamie Bell quanto o Coisa são relegados a segundo plano, mas incômodas mesmo são as interpretações de Reg E. Cathey, como Franklin Storm, pai de Susan e Johnny, dono do pior texto do longa, e Toby Kebbel, como Destino, que parece antagonista de novela teen embora tenha sido um vilão furioso em Planeta dos Macacos: O Confronto.

Tantos problemas se somam ao fato de que reboots geralmente são mal vistos pelo público. E se a bilheteria reagir tão mal ao filme quanto à crítica, o segundo longa do grupo, agendado para 2017, fica comprometido e a ideia de unir o quarteto aos mutantes no cinema, mais ainda. Resta saber se a Fox abriria mãos dos direitos e do orgulho e devolveria a trupe de Reed Richards para a Marvel nos cinemas. Para o estúdio, seria uma derrota pior do que a de vilão de quadrinhos. Para o espectador, um fio de esperança. Para Josh Trank, o ideal agora é procurar um projeto pequeno para tentar reconstruir uma carreira promissora. Ele já perdeu um dos longas solo de Star Wars e isso pode ser apenas o começo.

Quarteto Fantástico Estrelinha½
[Fantastic Four, Josh Trank, 2015]

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Party Girl

Party Girl

Party Girl é o título de uma bela música da cantora canadense Michelle Gurevich, mais conhecida como Chinawoman, gravada em 2007. A letra fala de uma mulher que ama festas, que está lá para seduzir e também para ser seduzida. Mas do que tudo, uma mulher não pede licença ou desculpa para ser quem é porque ela sabe que o certo, pelo menos para ela, é ser exatamente desse jeito. Além de estar na trilha sonora, a canção batiza e também inspira o longa de estreia de três diretores franceses: Marie Amachoukeli, Claire Burger & Samuel Theis, que materializaram uma ideia de Theis: contar a história de Angélique Litzenburger, uma mulher na casa dos 60 anos que viveu praticamente toda sua vida em cabarés, trocando sua intimidade por garrafas de champanhe.

Como na música, o trio de jovens cineastas procura não fazer juízo de valor sobre Angélique. Ela é como a party girl da letra de Chinawoman, uma natural. Numa das cenas mais esclarecedoras do filme, ela recusa violentamente ser chamada de puta por um pretenso cliente porque entende o que ela faz muito mais como um estilo de vida, uma arte, um jogo cênico e de sedução que comercializa tão espontaneamente. Este filme não é sobre pecados e castigos, nem sobre filhos que descobrem o grande segredo da mãe ou são revoltados por causa do rumo que a vida dela tomou. A família de Angélique sabe bem o que ela faz. Cada um convive com isso do jeito que pode, mas a honestidade é o que dá o tom de Party Girl.

O mais impressionante do filme – e isso pode ser um grande spoiler para quem não gosta de saber de sinopses (se foro seu caso, pule este parágrafo) – é que Angélique interpreta ela mesma e reencena cenas que realmente viveu e situações pelas quais passou, assim como seus quatro filhos – entre eles o diretor Samuel Theis -, que assumem seus próprios papéis nesta releitura da história da vida desta mulher. Os diretores mantêm essa informação no bastidor, não a utilizam em momento algum para ajudar a vender seu filme ousado, arriscado e espontâneo. Mas, por outro lado, também não a tratam como um segredo, deixando bem claro que estão interessados mesmo é no realismo.

Mesmo que os filhos aceitem o estilo e a história de sua mãe em graus diferentes, todos reagem tranqüilamente quando ela diz que pretende largar a profissão e se casar com um ex-cliente. É um movimento natural para todos. E, mais uma vez, o filme não trata essa transformação no rumo da protagonista como um processo de redenção, como provavelmente faria uma obra industrial. Angélique, uma natural que resolve mudar a vida mais porque se percebeu velha e sem grandes chances de se sustentar como sempre fez, não está sendo salva por Michel. Nossa party girl, cheia de dúvidas, está apenas entrando numa nova etapa de sua vida. Uma etapa que ela não exatamente escolheu e que, como qualquer outra, pode ser boa ou não.

Afinal, aqui não se trabalha com aqueles conceitos limitados de “dar certo” e “não dar certo”. O certo dura quanto ele puder. Como na vida. Como na música de Chinawoman: “não importa o que você cria se você não se diverte”.

Party Girl EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Party Girl, Marie Amachoukeli, Claire Burger & Samuel Theis, 2014]

https://www.youtube.com/watch?v=EBe6wd4rNT4

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