Mostra SP 2014: post quinze

Minha Amiga Victoria

Minha Amiga Victoria EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Mon Amie Victoria, Jean-Paul Civeyrac, 2014]

A vida de Victoria não tem capítulos diferentes da história de qualquer pessoa. Encontros, reencontros, despedidas. Maridos, namorados, filhos. Em determinada cena do filme, a amiga da protagonista diz que ainda vai escrever um livro sobre ela. E ouve: “minha vida não tem nada demais”. A personagem principal da novela de Doris Lessing é uma mulher comum, mas que no lápis da escritora e sob a direção peculiar de Jean-Paul Civeyrac ganha ares de heroína da vida real. Mas o cineasta envolve cada momento da história da personagem com uma embalagem delicada que torna especiais situações banais para qualquer um. Este tom raro reformula as questões étnicas que podem surgir do fato da protagonista negra ter um filho de um pai branco de uma espécie de esquerda caviar francesa. Civeyrac evita qualquer tipo de maniqueísmo e Victoria chega a ser simples de tão complexa, de tão real.

Retorno a Ítaca

Retorno a Ítaca EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Retour à Ithaque, Laurent Cantet, 2014]

Diretor de filmes excepcionais como A Agenda e Entre os Muros da Escola, Laurent Cantet pousou em Cuba para fazer o típico filme sobre o reencontro de velhos amigos. À primeira vista, o filme tem a agilidade e a cadência de uma rumba, apresentando as personagens em pequenos goles, fazendo observações bem conscientes e independentes sobre liberdade e política no país, envolvendo o espectador com aquele encontro de histórias. Havana é filmada de maneira documental do topo do edifício onde mora um dos cinco protagonistas e a cidade invade as conversas, brincadeiras e danças do grupo de uma maneira natural e cheia de vitalidade como poucos diretores conseguem fazer. A questão é que, a partir de determinado ponto, os inevitáveis conflitos entre as personagem afloram no melhor estilo do gênero e a roupa suja é lavada ali na laje mesmo, com direito a pelo menos uma “grande revelação”, que atropela muito o ritmo e a fluidez do filme.

Obra

Obra EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Obra, Gregório Graziosi, 2014]

A estreia de Gregório Graziosi em longas-metragens faz uma válida tentativa de incorporar a cidade a sua forma e a sua narrativa. São Paulo e seu subsolo mais profundo parecem ser os verdadeiros protagonistas de Obra, um filme que assume a arquitetura, profissão do personagem de Irandhir Santos, não apenas para a plástica, mas para a própria estrutura do filme. Rodado num preto-e-branco que ora impressiona pelos enquadramentos, ora parece artificializar demais algumas cenas, o longa trabalha com o conceito de arquitetura em vários níveis. Ousado, mas nem sempre funciona. Primeiro temos um homem que encontra na base de uma obra que comanda num terreno de sua família rica um segredo que muda a maneira como ele enxerga seus ancestrais. Este mesmo homem sofre com uma hérnia de disco, problema que se agrava à medida em que escava o passado de seus parentes. Graziosi utiliza esses trocadilhos não ditos de uma forma bem interessante para amarrar a proposta de seu longa, mas o filme peca por embutir demais a frieza e a assepsia desse mesmo conceito em sua espinha dorsal. No entanto, o problema maior talvez nem seja este, mas o casting de Irandhir Santos. O ator é um dos melhores que surgiram no Brasil nos últimos anos, mas fica difícil acreditar nele como um paulistano coxinha quando não se percebe o mínimo esforço para transformar seu sotaque. O estranhamento pode até ter sido proposital, mas não ajuda a sustentar essa obra.

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Mostra SP 2014: post catorze

As Noites Brancas do Carteiro

As Noites Brancas do Carteiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Belye Nochi Pochtalona Alekseya Tryapitsyna, Andrei Konchalovsky, 2014]

A câmera de Andrei Konchalovsky segue o carteiro de uma vila no norte da Rússia, onde boa parte dos moradores sobrevive de pensões por terem sido militares. O diretor, mais uma vez, usa atores amadores para interpretar a si mesmos num roteiro ficcional, mas inspirado em suas próprias vidas. O resultado dá cor à melancolia das personagens, que parecem bem à vontade ao encenar suas rotinas. Cada cena é filmada num longo take único em que a câmera tenta ficar o mais invisível possível para que o “elenco” evolua com naturalidade. Konchalovsky mistura as imagens documentais que captura do interior das casas dos protagonistas com as cenas “roteirizadas”, costurando uma narrativa brejeira que faz o espectador mergulhar numa Rússia que sobrevive dos cacos do passado ao mesmo tempo em que é condenada por este mesmo passado. A curva é sutil e transforma As Noites Brancas do Carteiro num programa duplo dos mais provocadores com Leviatã, de Andrei Zvyagintsev.

Nabat

Nabat EstrelinhaEstrelinha½
[Nabat, Elchin Musaoglu, 2014]

Anos 90, Azerbaidjão. A vila em cujos arredores Nabat mora com o marido doente está no meio de um conflito territorial. O casal já perdeu o filho na guerra e a rotina da mulher, de caminhar sozinha até a cidade para vender o leite que sua única vaca produz, é interrompida quando ela percebe que a população abandonou o lugar. De repente, a protagonista vaga por aquelas ruas de pedra sem os encontros que enchem seu dia-a-dia e faz o que pode para manter acesa o que lhe resta de esperança. Desse ritual cíclico de solidão, o cineasta Elchin Musaoglu consegue extrair uma boa dose de lirismo com a ajuda de sua atriz principal, Fatemeh Motamed Arya, que cria uma personagem talhada pela brutalidade da vida. Mas a tristeza genuína de Nabat ganha um maniqueísmo incômodo depois que sua nova rotina fica clara para o espectador. Musaoglu acerta na construção da relação de Nabat com a loba, mas a trilha sonora e a imagem final da protagonista parecem exigir do espectador lágrimas que ele já pode até ter entregado de graça.

O Medo

O Medo Estrelinha½
[La Por, Jordi Cadena, 2014]

A construção que Jordi Cadena impõe para seu filme, um suspense psicológico que guarda sempre seu vilão sob uma névoa sufocante, é interessante para apresentar os protagonistas, mas tem uns pecados que me parecem imperdoáveis. O fatalismo do filme não dá qualquer chance para entendermos o personagem do pai e suas motivações. O tom, sempre acima, nos incita a ter pena do restante do elenco apenas com a insinuação do que acontece dentro daquela casa. O uso do silêncio para construir a narrativa é um ponto forte, mas esse mesmo silêncio vira um maneirismo para que o diretor modele suas intenções. A metáfora gratuita na cena da aula de ciências parece pura preguiça do roteiro, assim como as cenas no cemitério. Por fim, o desfecho de O Medo, com direito a uma fala irônica de muito mau gosto, parece apenas guardar o choque final para cooptar quem está do outro lado da tela.

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Boyhood

Boyhood

O recurso narrativo mais comum quando um cineasta resolve contar “a história de uma vida” é a catarse. É ela que amarra a trajetória da personagem, pontua seus grandes momentos e ajuda a determinar sua personalidade. Numa obra tão peculiar como Boyhood, filme idealizado e realizado por Richard Linklater ao longo de doze anos, com os mesmos atores interpretando os mesmos papéis, envelhecendo diante das câmeras, seria muito natural que a catarse fosse a espinha dorsal do projeto para justificar os caminhos do protagonista e do próprio filme, que pela própria natureza já traz embutido um tom épico.

Mas Linklater, o cineasta do diálogo, tinha outros planos para aquele que talvez seja “o projeto de uma vida”. Não há grandes cenas em Boyhood. Pelo menos não no conceito clássico do que seria uma “grande cena”. Não há momentos fundamentalmente emocionais que marcam a história do garoto Mason, que entreguem o personagem para a próxima etapa de sua vida. Festa de aniversário, separações e formaturas são menos importantes do que o dia-a-dia. O diretor trabalha essencialmente com o microcosmo familiar do garoto, lançando o foco muito mais em sua relação cotidiana com os pais, a irmã e o mundo a sua volta do que numa história retrancada, que pontuasse os fatos mais importantes de sua vida.

Abrir mão de um recurso tão hábil numa biografia, ainda que numa biografia de um personagem fictício, é só mais um golpe de coragem de Linklater numa obra que, de tão arriscada, só foi “descoberta” no ano passado, quando os trabalhos já estavam praticamente concluídos. A cada ano, nos últimos doze anos, o cineasta reuniu o mesmo elenco para gravar uma sequência que dava continuidade à história do protagonista. Foi preciso 1) ajustar as filmagens às agendas de Ethan Hawke e Patricia Arquette; 2) lidar com o fato de que sua filha, Lorelei, que interpreta a irmã de Mason, chegou a desistir de ser atriz e pediu para que sua personagem fosse eliminada do filme, e 3) se adaptar a um protagonista inexperiente que teria que submeter ao projeto por mais de uma década: Ellar Coltrane foi escolhido aos 5 anos para um trabalho de onde só saíria aos 18.

Os risco eram grandes, mas acompanhar o envelhecimento de Ellar na tela cria uma cumplicidade inédita entre personagem e espectador, independentemente do carisma do garoto, que se modifica ao longo das filmagens, e do talento nada excepcional do ator. Michael Apted já havia feito algo parecido com sua Up Series, em que registra os mesmos personagens por quase 50 anos. Mas Apted fez isso em filmes diferentes e trabalhando com personagens reais. Boyhood até tem bastante de documentário, mas é essencialmente uma história de ficção, um artifício, o que de certa forma dá maior controle ao diretor sobre os rumos a seguir, mas também o expõe a fragilidade do filme diante de qualquer possibilidade de interferência externa.

Mirando nas cenas do dia-a-dia, nos diálogos que vão se perder na memória – porque a memória prefere os grandes tópicos -, Linklater nos oferece a intimidade de ver alguém crescer. Mason (ou Ellar) é como nosso irmão ou o amigo de toda a juventude, aquele a quem acompanhamos a vida inteira.  As transformações f’ísicas do garoto vêm junto de sua formação emocional. O ritmo que o diretor adota é algo bem próximo do ritmo da vida. A direção de atores é naturalista. Patricia Arquette, que faz a mãe de Mason, nem parece estar interpretando e Ethan Hawke, parceiro de longa data de Linklater, está bem à vontade como pai liberal, meio riponga e boa gente. Ambos fogem de qualquer arquétipo (pai ausente, mãe dominadora, etc). O conflito está nos detalhes.

Boyhood parece buscar a emoção genuína e ela, para Linklater, não passa necessariamente por cenas lacrimosas nem se apóia em curvas dramáticas com efeitos colaterais. A cena final da mãe, extremamente realista, prova como o diretor subverte as regras. O choro vem sem maniqueísmo, sem cálculo. O sentimento real, parece dizer o diretor, está na identificação com Mason, que ressalta a humanidade (ou as humanidades) da personagem e do espectador. Essa recusa pelo modelo mais tradicional, e consequentemente mais fácil, limita o lirismo em potencial do filme. Boyhood não é o filme “lindo” como estamos acostumados a ver. A beleza está muito mais no segundo plano. É preciso alcançá-la. A questão, para o cineasta, parece ser: por que usar de artifícios quando o ser humano já é demasiadamente interessante?

Boyhood EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Boyhood, Richard Linklater, 2014]

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Mostra SP 2014: post treze – Winter Sleep

Winter Sleep

[com quilos de spoilers]

Vou escrever este texto em primeira pessoa porque a visão que eu tive do filme de Nuri Bilge Ceylan é bastante particular e pode ser algo que só faça sentido na minha cabeça. Em tempos de eleições, é difícil desviar o olhar para outros assuntos e, se o diretor de Winter Sleep fosse brasileiro, eu suspeitaria de que o longa é uma alegoria ao comportamento de certos eleitores do nosso país. O protagonista do filme é um homem rico, culto, ilustrado, um ator aposentado que escreve colunas semanais para revistas, analisando temas amplos e complexos como religião, tristeza, o comportamento humano, a própria vida. Aydin não trabalha, ganha a vida com o hotel onde mora e recebe hóspedes de todo o mundo e com os aluguéis de várias casas que herdou do pai na Capadócia, região da Turquia o que garante um cenário único para o filme de Ceylan.

A condição confortável da personagem não o impede de explorar as pessoas pobres que moram em suas propriedades. Mas essa exploração é terceirizada por Aydin. Ele deixa com que seus correligionários cuidem das cobranças da maneira como acharem melhor. O método que eles utilizam para isso não necessariamente seria culpa dele, acredita. Esta é uma postura de vida para a personagem. Tudo o que lhe parece desconfortável é passado para terceiros, menos sua hipocrisia. Se se utiliza de seus preceitos (como “não dê o peixe; ensine a pescar”), preceitos que considera infalíveis para não conceder anistia ou algo que o valha para seus inquilinos devedores, Aydin se sente particularmente tocado quando uma fã de suas colunas escreve para ele para pedir ajuda financeira para um trabalho social. Caridade nunca foi seu forte. Aydin sempre ignorou o trabalho voluntário que a mulher, Nihal, faz há anos. Mas, desta vez, por algum motivo, parecia diferente.

Quando foi confrontado com essa idiossincrasia, Aydin corre atrás do altruísmo perdido. Ele oferece seu dinheiro para doações, ele oferece comida para o professor que vai fazer uma viagem de moto. Tenta até o último recurso buscar algo que o faça acreditar em suas boas intenções. Intenções que até então estavam escondidas lá no fundo de seu coração. Quando a mulher - cujo trabalho social se tornou uma maneira para se sentir viva, indivíduo -, reclama de suas intervenções, o protagonista do filme se arma com um discurso bem articulado, em que se utiliza de toda sua formação e capacidade de oratória para deixá-la sem argumentos e “convencê-la” (ou convencer a si mesmo de que a convenceu) de que ele – e apenas ele – pode organizar o trabalho que ela já coordena há tanto tempo.

Essa arrogância de Aydin, que tenta puxar os projetos sociais da esposa para debaixo de suas asas, foi uma prática utilizada a rodo na campanha eleitoral deste ano. Prática que serve apenas para colher os louros sobre os frutos das iniciativas de outros e reafirmar para si mesmo, no caso da personagem e de alguns partidos políticos, sua inclinação social, se cristaliza num longo e cruel diálogo com sua irmã. Por princípio, o homem enfrenta quem tem opiniões contrárias às dele, seja sobre o mundo, seja sobre ele mesmo, como um inimigo a derrubar. E a primeira arma para isso é desqualificar a argumentação alheia para depois virar o jogo e questionar quem o questiona, como os tais eleitores. Para ele, é um “acinte” que alguém não reconheça que ele está certo. Para Aydin, o fundamental é ser manter no controle. Ele nem sempre percebe, mas se enxerga como um astro com todo o resto girando ao seu redor.

Encerrado seu espetáculo, ele volta ao palco para um ato final. E em mais um golpe de seu altruísmo deformado, insinua pedir desculpas para depois revelar sua mais nova ficção. Nada de surpreendente para um homem que escreve sobre religião, mas nunca vai a uma mesquita; que disserta sobre a tristeza, mas não chorou no enterro do pai; que se apropria do trabalho alheio para remodelar sua própria história. O senão de tudo isso é que há um certo maniqueísmo na apresentação da personagem e maniqueísmo, como a gente bem sabe, é uma arma política usada a esmo para vender seu candidato e sua ideologia.

Winter Sleep EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Kis Uykusu, Nuri Bilge Ceylan, 2014]

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Mostra SP 2014: post doze

Branco Sai, Preto Fica

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[Branco Sai, Preto Fica, Adirley Queirós, 2014]

Uma ficção-científica caseira em forma de manifesto contra o status quo. O novo filme de Adirley Queirós, Branco Sai, Preto Fica, resgata o espírito revolucionário dos filmes de Rogério Sganzerla e André Luiz Oliveira, reprisando, inclusive, sua criatividade para explorar os recursos escassos que os financiavam. Queirós volta a explorar os limites entre documentário e ficção como em seu primeiro longa, A Cidade é uma Só?, utilizando atores com deficiências físicas para interpretar personagens que lidam com as consequências da violência policial. A denúncia social está ali, como subtexto que quase o tempo todo volta à superfície, mas o formato de brincadeira, com um terceiro protagonista, Dilmar Durães, na pele de viajante do futuro que investiga o que aconteceu com os dois primeiros, areja a postura política do longa. O filme tem um problema de ritmo que atrapalha um pouco o fluxo da história, mas que cabe em seu formato de panfleto libertário. Queirós reitera sua condição de cineasta imprevisível – e por isso mesmo muito interessante.

Quando os Animais Sonham

Quando os Animais Sonham EstrelinhaEstrelinha½
[Når Dyrene Drømmer, Jonas Alexander Arnby, 2014]

Jonas Alexander Arnby trabalhou no departamento de arte de dois filmes de Lars Von Trier antes de dirigir seus próprios curtas, o que lhe valeu um cuidado com a plástica de seu primeiro longa. Quando os Animais Sonham oferece a belíssima premissa de um filme de temática fantástica em meio a tantos dramas sociais e filmes políticos na Mostra de Cinema de São Paulo, mas a história da jovem que descobre ter recebido uma herança maldita da mãe tem uns furos de roteiro que põem a credibilidade da trama em xeque, o que complica ainda mais quando descobrimos que o filme recicla ideias de outros bem melhores, como Deixa Ela Entrar. Arnby se esforça para fazer um filme elegante e consegue. A fotografia explora os cenários com curiosidade, mas sem alarde e a trilha têm arranhões incômodos que funcionam para garantir a atmosfera do filme. A protagonista é meio apática, o que o papel de certa forma, exige, mas o atores que fazem seus pais, Sonja Richter e Lars Mikkelsen, irmão de Mads, estão ótimos. Mas os lugares comuns, que pareciam não ser um problema, vão tomando conta do filme e seu impacto diminui consideravelmente.

Romãs Verdes

Romãs Verdes EstrelinhaEstrelinha½
[Anar-Haye Na-ras, Majid Reza Mostafavi, 2014]

O primeiro filme de Majid Reza Mostafavi consegue se afastar de um certo círculo vicioso temático e estético do cinema iraniano, com uma fotografia preocupada em tornar o longa agradável para os mais variados olhares, sem cair na exploração do “exotismo” no país. Ao mesmo tempo, a trama explora um drama pessoal que parece ter muito mais força emocional do que conotações sócio-políticas, mas que também não vende um filme alienado. Mostafavi filma um espécie de homenagem a Yasujiro Ozu com trens cruzando o cenário e a história o tempo inteiro. Embora viva um momento de desespero quando um acidente muda os planos de sua família e uma série de pequenas tragédias comece a acontecer, a protagonista, exceto por uma cena, não busca comiseração. A resolução, embora busque uma certa poesia e se prive de desfechos mais concretos, funciona como o que o filme pretende ser: um reflexo das tragédias em potencial que nos ameaçam.

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Trailer: Vingadores: Era de Ultron

Vingadores: Era de Ultron
[Avengers: Age of Ultron, Joss Whedon, 2015]

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Mostra SP 2014: post onze

Noites Brancas no Píer

Noites Brancas no Píer EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Nuits Blanches sur la Jetée, Paul Vecchiali, 2014]

Paul Vecchiali elege a palavra como centro de seu cinema em Noites Brancas no Píer. A releitura da novela de Dostoievski tem uma cenografia mínima e um cenário único, o que ressalta o poder do texto do mestre russo, que conta a história de um homem e uma mulher que se conhecem e passam a dividir segredos até que surge o amor. O diretor trabalha praticamente com dois atores (ele mesmo faz uma ponta no início e há um flashback em que o protagonista conversa com a mãe), reforçando que a encenação também está a serviço da palavra. Para o cineasta, quanto menos elementos adornarem os diálogos, mais eles se mostram fundamentais. Quando os personagens não estão num plano aberto, emoldurados “pelo mundo”, a iluminação é alternada para escolher aquele que está com a palavra. Vecchiali não se preocupa em “traduzir” o texto de Dostoievski. As interpretaçõessão anti-naturalistas, em especial a de Pascal Cervo. Embora ele acompanhe o ritmo do longa, os holofotes vão para Astrid Adverbe, que apresentou a sessão, excelente quase que todo o tempo e dona da cena mais bonita do filme, em que estrela um balé para a câmera. O filme pode parecer excessivamente teatral, mas revela um cineasta bem particular.

Filha

Filha Estrelinha½
[Dukhtar, Afia Nathaniel, 2014]

Filha é o primeiro longa-metragem de Afia Nathaniel, que pode ser considerada uma heroína só de conseguir fazer um filme tão bem produzido num país com tradição zero em cinema. As boas notícias terminam por aí já que o longa de estreia da diretora se apóia única e exclusivamente no quão exótica a história que conta pode parecer para quem está fora do Paquistão. A cineasta parte de uma premissa bem intencionada, denunciar o costume dos casamentos arranjados com crianças para selar disputas, mas segue um modelinho batido de dramalhão televisivo que trabalha basicamente com a pena devemos sentir das personagens. Figurinos coloridos, paisagens bonitas e uma trilha sonora que “explica” ao espectador que reação ele deve ter são costurados a sonhos premonitórios e com algum grau de metafísica para vender melhor a trama. O galã bollywoodiano de chapinha não ajuda a dar mais credibilidade ao filme.

Heróis Improváveis

Heróis Improváveis EstrelinhaEstrelinha
[Schweizer Helden, Peter Luisi, 2014]

O cinema suíço não tem um perfil público, como a produção de outros países do centro-leste europeu, o que abre espaço para comédias nonsense ou pequenos dramas de superação, caso deste Heróis Improváveis, bem influenciado pela narrativa das Sessões da Tarde hollywoodianas. O filme acompanha uma mulher madura que se sente solitária depois que foi abandonada pelo marido e após a filha sair de casa e descobre que pode ensinar teatro para um grupo de refugiados políticos que tentam conseguir abrigo na Suíça. A partir daí, o clássico modelo de um-personagem-aprende-com-o-outro é pilotado pelo diretor Peter Luisi, com algum carinho em compor os personagens. O destaque vai para a boa protagonista, Esther Gemsch, que empresta delicadeza a sua Sabine. Nada que o espectador guarde na memória por muito tempo.

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Mostra SP 2014: post dez

Livre

Livre EstrelinhaEstrelinha
[Wild, Jean-Marc Vallée, 2014]

Depois de um trabalho tão simples e bem resolvido como Clube de Compras Dallas, o novo filme de Jean-Marc Vallée, Livre, que ainda tem a assinatura de Nick Hornby no roteiro, parece um pouco decepcionante. Seguindo a linha das viagens transformadoras, o longa traz a história real de Cheryl Strayed, uma mulher que sai para uma trilha de milhares de quilômetros em busca da cura para as feridas de uma vida de sofrimento. Um dos grandes problemas do filme é exatamente que Vallée, Hornby nem Reese Whitherspoon conseguem dar a dimensão das tragédidas na vida da protagonista. A sensação é que ela sofre por ter tido uma história comum a muita gente ou mais fácil do que tantas outras por aí. Seu desespero nunca consegue ser propriamente justificado e a solução encontrada para remontar sua vida, um excesso de flashbacks e de “fantasminhas” incomoda. Mesmo os medianos Na Natureza Selvagem, que pelo menos tem uma filosofia, e 127 Horas, com um protagonista infinitamente mais inspirado, exploram melhor a relação de encontro com a natureza. A viagem de Cheryl parece mais um passeio e Reese, que ficou mais bonita depois de madura, não impressiona em nenhuma cena (e ainda assim está cotada para o Oscar).

Ciências Naturais

Ciências Naturais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Ciencias Naturales, Matías Lucchesi, 2014]

Este primeiro longa-metragem do argentino Matías Lucchesi revela algumas fragilidades, mas insinua um autor delicado na busca da verdade de suas personagens. A protagonista do filme é Lila, interpretada por uma promissora Paula Galinelli Hertzog, uma adolescente bicho-do-mato que estuda num internato no meio da Patagônia e está determinada a encontrar pai biológico que nunca conheceu. Para justificar o título do longa, o diretor deu à personagem principal uma única aliada, a professora de ciências. Os cenários naturais ajudam e Lucchesi os filma sem afetação, o que, combinada com a trilha, garante uma ambientação melancólica, simples e honesta. Em pouco mais de 70 minutos, as duas enfrentam uma pequena jornada com todos os tropeços e ingenuidades que o tema e a inexperiência do cineasta de primeira viagem permitem, mas cujo desfecho, silencioso e bonito, amarra de maneira sofisticada uma história simples.

Camaradas

Camaradas EstrelinhaEstrelinha
[Camarades, Marin Karmitz, 2014]

Camaradas é um panfleto comunista dirigido Marin Karmitz, homenageado pela Mostra por sua carreira espetacular como faz-tudo do cinema. O filme conta a história de um jovem idealista que não consegue se decidir sobre seu futuro e começa a e envolver com o ativismo político. Enquanto diretor, Karmitz aqui parece ingênuo, mas firme em suas convicções esquerdistas. O mais surpreendente do filme é como ele assume a condição de propaganda ideológica e encontra um formato até interessante para conduzi-la, utilizando canções, verdadeiros hinos socialistas, para costurar a narrativa.

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Mostra SP 2014: post nove

A Gangue

A Gangue EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Plemya, Miroslav Slaboshpitsky, 2014]

Se ficarmos no clichê, A Gangue é uma monumental “experiência sensorial”. Afinal, qual foi a última vez que fizeram um filme de 132 minutos completamente “falado” em linguagem de sinais? A proposta parece assustadora, mas é exatamente disso que se trata o projeto: derrubar pré-conceitos. Nas primeiras imagens, o letreiro informa que o filme não trará legenda alguma para traduzir os gestos que os personagens do longa, principalmente garotos e garotas que moram numa espécie de internato para surdo-mudos, fazem para se comunicar. Ao espectador comum, é oferecida a experiência de ver o filme em condições semelhantes às que um deficiente auditivo assiste a um longa “normal”. Mas o que poderia se transformar num experimento típico de festival de cinema se revela um filme poderoso sobre jovens que raramente encontram “voz” numa Ucrânia dominada, nos mais variados níveis, pela corrupção.

O cineasta, que deve ser um fiel espectador dos filmes da vizinha Romênia, pega emprestado em seu primeiro longa-metragem, a maneira documental de contar uma história de ficção e cria um conceito estético que dá um ritmo surpreendente ao longa: cada cena é um plano-sequência comprido, mas cheio de movimento, geralmente com vários personagens interagindo. A fórmula funciona para capturar a atenção de quem assiste e ajuda a decodificar a linguagem de A Gangue. É impossível decifrar cada diálogo, mas a história envolvente é desenhada sem grandes traumas. O sexo e a violência, que geraram certa polêmica aparecem naturalmente na trama, completamente costurados ao desenrolar da ação. Mais do que a “experiência sensorial” que o filme vende, A Gangue é a prova de que o cinema ainda continua a driblar os limites da linguagem.

A Caverna

A Caverna Estrelinha½
[La Cueva, Alfredo Montero, 2014]

O segundo filme do espanhol Alfredo Montero é uma sucessão de tropeços. O primeiro deles é transformar seus cinco protagonistas num bando de idiotas que saem numa excursão “muito maneira” por lugares selvagens e descolados. Quando os personagens começam a viver uma experiência perigosa, ninguém está mais torcendo por qualquer um deles. O segundo problema é se apoiar numa estética que já está exaurida há algum tempo: a do terror feito por câmeras de vídeo que passa a impressão de “vida real” inaugurada por A Bruxa de Blair e banalizada em trocentos filmes como a série Atividade Paranormal. O terceiro – e talvez o pior – é retomar todos os temas possíveis derivados do isolamento, sempre da maneira mais tradicional. Embora garanta alguns sustos, A Caverna é uma reciclagem tão gratuita que seus 80 minutos parecem uma eternidade.

Mateo

Mateo EstrelinhaEstrelinha
[Mateo, Maria Gamboa, 2014]

A estreante Maria Gamboa tenta tornar Mateo um filme importante dentro de um pouco profícuo cinema colombiano. Cria uma história que cutuca as estruturas de poder em pequenas comunidades, a violência da periferia e alerta para como a juventude se seu país se encanta pelo crime como uma forma de mudança de vida. O problema é que fora dos limites de seu país o filme, eleito pela Colômbia para disputar o Oscar, parece uma experiência bem-intencionada, mas muito banal. A dramaturgia parece televisiva e o encantamento do protagonista pelo grupo de teatro que deveria espionar guarda algumas semelhanças com o brasileiro, Tatuagem, que é muito mais refinado, bem dirigido e interpretado. Diante disso, Mateo é mais curioso do que necessariamente um bom filme.

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Mostra SP 2014: post oito

Sinfonia da Necrópole

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[Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas, 2014]

O horror sempre foi material de trabalho para Juliana Rojas. Os elementos fantásticos e sobrenaturais estão presentes em praticamente todos seus curtas e em seu longa de estreia, Trabalhar Cansa, codirigido pelo parceiro de sempre, Marco Dutra. O que ninguém imaginava é que em seu primeiro trabalho solo, Juliana fosse usar o terror apenas como ambientação para fazer um musical. Sinfonia da Necrópole é um filme único no cinema brasileiro recente, uma mistura de gêneros que, no olhar particular da diretora, encontrou um formato diferente e bem resolvido. Há um clara evolução na direção de atores, na montagem e no próprio fluxo do roteiro em relação ao longa anterior (assim como no primeiro trabalho solo de Dutra, Quando Eu Era Vivo). As músicas de ambos os filmes, por sinal, parecem fazer parte do mesmo disco: de melodias bonitas, autorais, de estruturas complexas. Elas ajudam Juliana a contar a história do aprendiz de coveiro que é convocado para para fazer o recadastramento de túmulos abandonados no cemitério. À medida em que analisa e ironiza o crescimento urbano e homenageia, inclusive no título, Berlim, Sinfonia da Metrópole, Juliana Rojas encontra uma maneira completamente original de fazer cinema no Brasil.

As Horas Finais

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[These Final Hours, Zak Hilditch, 2014]

As Horas Finais é uma peça rara no cinema de ficção-científica com poucos recursos feito sobretudo longe dos Estados Unidos. O maior acerto do australiano Zak Hilditch foi de acreditar no potencial dramático de seu material, apostando em diálogos fortes, administrando uma melancolia sincera e fugindo de toda e qualquer solução fácil para as dezenas de armadilhas que o gênero, o filme apocalíptico, prepara. Entendemos a motivação de James em fugir para aquela que promete ser a última grande festa do planeta, que poderia ser um alívio cômico para o filme, mas se revela um ambiente de desespero, à mesma medida em que entendemos quando ele atrasa seus planos para ajudar Rose. Hilditch espalha pelo filme pequenos detalhes que ajudam a compor o cenário da catástrofe iminente. Essa inteligência também se percebe na condução de atores. Além de Rose, vivida pela pequena e ótima Angourie Rice, há pelos menos duas grandes atrizes no filme: Kathryn Beck, que faz Vicky, a namorada de James, e Lynette Curran, que interpreta a mãe do protagonista, brilhante em cada minuto da cena em que aparece. A relação entre mãe e filho é costurada de maneira dura e sem concessões. Um filme para comemorar.

A Professora do Jardim da Infância

A Professora do Jardim da Infância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hagenenet, Nadav Lapid, 2014]

Este filme oferece uma oportunidade para variar o leque temático que geralmente é oferecido pelo cinema israelense. Pelo menos o que atravessa o Atlântico. Yoav, o menino prodígio de cinco anos que faz poemas intrincadíssimos, é a personagem central do longa sobre a obsessão de uma mulher. Em seu segundo longa-metragem, Nadav Lapid discute os limites da relação entre professor e aluno e a exploração da criança pelo adulto, colocando a ética e a sanidade no cento do debate e costurando o filme na linha do suspense psicológico. Ainda que o adorável garotinho Avi Shnaidman pareça muito cru para dar credibilidade a sua personagem, Sarit Larry se entrega com tanta intensidade ao papel-título que rouba o filme para ela.

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