A História da Eternidade

A História da Eternidade

As mesas de almoço são fartas em A História da Eternidade. O sertão do filme de Camilo Cavalcante é tão árido quantos os outros sertões da ficção, mas não é a fome ou a miséria que está em questão. O longa fala de um certo peso ancestral que cai sobre os ombros dos moradores dos confins do Nordeste brasileiro. Nesse sentido, o diretor traz uma visão um tanto mística sobre essas pessoas, como se elas fossem condenadas pelo destino, amaldiçoadas pela inevitabilidade da tragédia. Não por acaso, as três protagonistas das histórias entrelaçadas que costuram o filme são mulheres, o que acentua sua sina de sofrimento.

Cada uma começa o filme com um martírio: Querência enfrenta a perda; Das Dores encara a solidão; Alfonsina padece com a falta de perspectivas. No decorrer de duas horas, Cavalcante irá ajudar a escrever o destino destas três mulheres, incorporando fatalidades recorrentes ao microcosmo sertanejo, fantasmas que assombram este povo geração atrás de geração. É verdade que o diretor abusa de uma poesia calculada em vários momentos do filme. A personagem de Irandhir Santos estrela vários deles e parece uma figura improvável naquele contexto de conhecimento limitado. Mas os excessos do papel e do próprio filme ajudam a entregar algumas cenas memoráveis, como a bela recriação de “Fala”, dos Secos & Molhados. Uma epifania em meio a uma história com os pés no chão.

Talvez os abusos de Cavalcante, um estreante em longas-metragens que traz uma nova perspectiva ao prolífico cinema pernambucano, talvez estes abusos sejam exatamente isso, epifanias, momentos de liberdade poética extremos no meio de um filme tão fatalista. Por isso mesmo, o excesso parece encontrar um espaço adequado nessa reflexão sobre a “Grande Tragédia do Sertão”. Não bastasse, Camilo Cavalcante cria uma lindíssima cena final. Uma cena em que declara seu carinho pelas três personagens principais, curando Querência, confortando Das Dores e libertando Alfonsina.

A História da Eternidade EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[A História da Eternidade, Camilo Cavalcante, 2014]

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Oscar 2015: why so serious?

Birdman

Deveria ter sido o Oscar mais emocionante em muito tempo, com disputas acirradas em boa parte das categorias: filme, diretor, ator, roteiros pra ficar somente nas principais, mas a festa deste ano foi bem maçante. Neil Patrick Harris começou muito bem no número de abertura, mas ficou pequeno e sem graça ao longo da noite, com poucos momentos inspirados, com exceção da corrida de Birdman, da leitura de suas previsões e da piada com John Travolta. Mas, mais do que o apresentador, havia um clima excessivamente sério no ar. Todo mundo parecia tentar encorpar seus momentos, seja nas lágrimas que rolaram soltas durante a apresentação de “Glory” (todo mundo chorando, mas cadê a diretora e o ator entre os indicados?), seja nos discursos de Eddie Redmayne, Julianne Moore, levando para fora do cinema os méritos por suas vitórias, ou Patricia Arquette, Graham Cooper e Johh Legend, tentando amplificar o efeito delas.

O prêmio da Academia, como qualquer outra coisa, reflete o tempo e o mundo em que vivemos, mas coincidentemente também é um prêmio de melhores do ano. Arbitrário e maneirista como qualquer prêmio de melhores do ano, inclusive os de festivais como Cannes e Berlim, que geralmente são apontados como reservas morais perto do Oscar. Então, esse maniqueísmo para tentar causar comoção – que me parece inerente e até automático ao Oscar, como se os premiados se sentissem obrigados a se explicar por ganhar – é completamente indevido. Talvez mais autêntico seja Alejandro Gonzalez Iñarritu, que fala em “arte verdadeira” quando Birdman leva o prêmio por seu roteiro original. A arrogância do cineasta pelo menos mostra que ele acredita e quer vender seu peixe, seu filme, seu “talento”.

Birdman não é ruim, mas seu discurso é. Mas isso realmente importa? Por quanto tempo dura um Oscar de melhor filme? Um ano? Alguns meses? O longa do Homem Pássaro foi eleito pela Academia como o melhor do ano, mas será que ele será o filme que entra para a História? E, por outro lado, será que um filme precisa entrar para a História? Se um dos indicados deste ano tem esse poder, certamente será Boyhood porque, diante de muitas biografias e pequenas histórias, ele e talvez O Grande Hotel Budapeste são os mais únicos. O filme de Richard Linklater, que merecia muito mais ter levado os dois prêmios principais do que o de Iñarritu, ficou marcado apenas por seus 12 anos de serviços, como se não fosse um retrato delicado do americano médio, do sonho americano em sua versão realidade.

A escolha de Birdman reprisa de certa forma a de Crash, oito anos atrás. Enquanto um supostamente desnuda Hollywood e suas figuras de cera, o outro tira a máscara de Los Angeles, a cidade do cada um por si. Premiar o filme de Inãrritu parece um voto político, de protesto, quando na verdade não se observou bem todas as nuances do filme. Mais estranho ainda é que este filme ganhe na categoria principal, em direção, roteiro original e fotografia, mas não consiga vender seu protagonista, Michael Keaton, que literalmente personifica o personagem criado pelo mexicano. Mas é preciso lembrar que a Academia geralmente considera os comebacks como café-com-leite, como fez com Mickey Rourke em O Lutador. Uma indicação já é vista como prêmio suficiente. Keaton perdeu para a caricatura bem feita de Redmayne num filme medíocre. Birdman, pelo menos, é um filme mais ousado.

Entre as atrizes, levou Julianne Moore, por Para Sempre Alice, que merecia ter ganho por Boogie Nights, Fim de Caso, Longe do Paraíso e As Horas. E por Magnolia, A Salvo, Tio Vânia em Nova York e A Fortuna de Cookie, pelos quais ela nem foi indicada. É a prática de premiar o conjunto da obra somado a uma isca que o Oscar adora, os filmes de doença. Mas é a Julianne e o conjunto estava fraco, exceto Marion Cotillard e Rosamund Pike. Patricia Arquette foi um prêmio merecido numa categoria fraca, atriz coadjuvante, onde só Emma Stone merecia alguma atenção. E olha que muita gente ficou de fora. J.K. Simmons, por sua vez, estava numa categoria disputada (ator coadjuvante), mas seu histórico de vitórias como ator coadjuvante o deixou numa liderança isolada.

No fim das contas, se Birdman ganhou quatro prêmios, O Grande Hotel Budapeste também levou quatro, inclusive trilha sonora, e as coisas ficam mais equilibradas. Wes Anderson fez um filme leve, doce, autorreferente e referente a um cinema que ficou na memória. Como Boyhood, deve entrar mais fácil para a História. Whiplash, triplamente premiado, é um caso mais à parte, mas merece toda a atenção. Ida venceu entre os estrangeiros porque a trilogia europeu, preto-e-branco, Segunda Guerra conta mais do que as profundezas da Rússia em Leviatã ou as pontualidades de Timbuktu, Tangerines e Relatos Selvagens.

Operação Big Hero ganhou de Como Treinar Seu Dragão 2 no que era uma das únicas quase-surpresas da noite. E Uma Aventura LEGO, que o Oscar nem indicou, rendeu o número musical mais divertido entre as indicadas a melhor canção. “Everything is Awesome” deixou o desafinado Adam Levine no chinelo – e olha que ele tinha uma música bem melhor -, mas não emocionou tanto quanto “Glory”, da qual a gente já falou. No entanto, foi justamente Lady Gaga, o patinho feio do ano, quem brilhou no palco, cantando “The Sound of Music”, e passando a bola para a incrível Julie Andrews, 80 anos neste ano. Idina Menzel voltou ao Oscar para garantir a piada com John Travolta, prêmio de pior maquiagem da festa (a melhor foi a do Capitão América, que estava com um lápis forte nos olhos). Valeu a piada. Foi a segunda melhor da noite. Só perdeu para a vitória de O Jogo da Imitação em roteiro adaptado. Ah, não era piada, o rapaz até disse que tentou se matar e que agora estava ali, ganhando um Oscar. Quis inspirar.

Por outro lado, o plano de Edward Snowden deu certo e Citizenfour foi o premiado na categoria de documentário. O timing faz do filme melhor do que ele é. Sniper Americano faturou mais de U$ 300 milhões, mas terminou com um prêmio solitário para edição de som, o que mostra que seu tema polêmico não conquistou Hollywood em cheio. Interestelar ganhou em efeitos visuais, só para empatar com 2001, em que ele mira antes de acertar no poder do amor. Idiossincrasias à parte, esse Oscar da disputa acirrada se revelou um dos mais óbvios dos últimos doze anos. Doze? Não, este aí é outro filme. Um muito melhor. Este, sim, bateu asas e voou sem precisar de ajuda.

Filme: Birdman
Direção: Alejandro Gonzalez Iñarritu, Birdman
Ator: Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo
Atriz: Julianne Moore, Para Sempre Alice
Ator coadjuvante: J.K. Simmons, Whiplash
Atriz coadjuvante: Patricia Arquette, Boyhood
Roteiro original: Birdman
Roteiro adaptado: O Jogo da Imitação
Filme estrangeiro: Ida
Filme de animação: Operação Big Hero
Fotografia: Birdman
Montagem: Whiplash
Direção de arte: O Grande Hotel Budapeste
Figurinos: O Grande Hotel Budapeste
Maquiagem: O Grande Hotel Budapeste
Trilha sonora: O Grande Hotel Budapeste
Canção: “Glory”, Selma
Mixagem de som: Whiplash
Edição de som: Sniper Americano
Efeitos visuais: Interestelar
Documentário: CITIZENFOUR
Documentário curta: Crisis Hotline: Veterans Press 1
Curta de ação: The Phone Call
Curta de animação: O Banquete

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Oscar 2015: minhas apostas e preferências

É muito mais divertido imaginar quem serão os indicados ao Oscar do que prever os vencedores da festa da Academia. Primeiro, porque muitos dos melhores filmes do ano jamais teriam condição de virar candidatos com chances de vitória, então, é muito mais interessante perceber como esses outsiders entram nessa disputa dos “grandes” e como a temporada de prêmios influencia em quem será finalista. Apostar nos ganhadores é mais fácil, muitas vezes óbvio e as opções que restam são tão menos instigantes que  brincadeira perde parte da graça. No entanto, é preciso ir até o final, então, preparei este post com minhas últimas apostas para o Oscar (só pulei os curtas). Decifrando:

num mundo provável: o filme que eu acho que tem mais chances de ganhar.
num mundo possível: o filme que pode tirar o prêmio do favorito.
num mundo perfeito: o filme indicado em que eu votaria.
em outra dimensão: o filme que merecia ganhar, mas não foi indicado.

Filme

filme

Birdman, Alejandro Gonzalez Iñarritu
Boyhood, Richard Linklater
O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson
O Jogo da Imitação, Morten Tyldum
Selma, Ava DuVernay
Sniper Americano, Clint Eastwood
A Teoria de Tudo, James Marsh
Whiplash, Damien Chazelle

num mundo provável: Birdman
num mundo possível: Boyhood
num mundo perfeito: Boyhood
em outra dimensão: Era Uma Vez em Nova York

direção

direção

Alejandro Gonzalez Iñarritu, Birdman
Bennett Miller, Foxcatcher
Morten Tyldum, O Jogo da Imitação
Richard Linklater, Boyhood
Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste

num mundo provável: Richard Linklater, Boyhood
num mundo possível: Alejandro Gonzalez Iñarritu, Birdman
num mundo perfeito: Richard Linklater, Boyhood
em outra dimensão: James Gray, Era Uma Vez em Nova York

Ator

ator

Benedict Cumberbatch, O Jogo da Imitação
Bradley Cooper, Sniper Americano (*)
Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo
Michael Keaton, Birdman
Steve Carell, Foxcatcher

num mundo provável: Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo
num mundo possível: Michael Keaton, Birdman
num mundo perfeito: Michael Keaton, Birdman
em outra dimensão: Timothy Spall, Sr. Turner

Atriz

atriz

Felicity Jones, A Teoria de Tudo
Julianne Moore, Para Sempre Alice
Marion Cotillard, Dois Dias, Uma Noite
Reese Witherspoon, Livre
Rosamund Pike, Garota Exemplar

num mundo provável: Julianne Moore, Para Sempre Alice
num mundo possível: Reese Witherspoon, Livre
num mundo perfeito: Marion Cotillard, Dois Dias, Uma Noite
em outra dimensão: Marion Cotillard, Era Uma Vez em Nova York

Ator coadjuvante

ator coadjuvante

Edward Norton, Birdman
Ethan Hawke, Boyhood
J.K. Simmons, Whiplash
Mark Ruffalo, Foxcatcher
Robert Duvall, O Juiz

num mundo provável: J.K. Simmons, Whiplash
num mundo possível: Edward Norton, Birdman
num mundo perfeito: Ethan Hawke, Boyhood
em outra dimensão: Robert Pattinson, The Rover – A Caçada

Atriz coadjuvante

atriz coadjuvante

Emma Stone, Birdman
Keira Knightley, O Jogo da Imitação
Laura Dern, Livre
Meryl Streep, Caminhos da Floresta
Patricia Arquette, Boyhood

num mundo provável: Patricia Arquette, Boyhood
num mundo possível: Emma Stone, Birdman
num mundo perfeito: Patricia Arquette, Boyhood
em outra dimensão: Rene Russo, O Abutre

Foxcatcher

roteiro original

O Abutre, Dan Gilroy
Birdman, Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris & Armando Bo
Boyhood, Richard Linklater
Foxcatcher, E. Max Frye & Dan Futterman
O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson & Hugo Guinness

num mundo provável: O Grande Hotel Budapeste
num mundo possível: Birdman
num mundo perfeito: Foxcatcher
em outra dimensão: Leviatã

Whiplash

roteiro adaptado

O Jogo da Imitação, Graham Moore
Sniper Americano, Jason Dean Hall
A Teoria de Tudo, Anthony McCarten
Vício Inerente, Paul Thomas Anderson
Whiplash, Damien Chazelle

num mundo provável: Whiplash
num mundo possível: O Jogo da Imitação
num mundo perfeito: Whiplash
em outra dimensão: Planeta dos Macacos: O Confronto

filme de animação

Os Boxtrolls, Graham Annable & Anthony Stacchi
Como Treinar Seu Dragão 2, Dean DeBlois
O Conto da Princesa Kaguya, Isao Takahata
Operação Big Hero, Don Hall & Chris Williams
Song of the Sea, Tomm Moore

num mundo provável: Como Treinar Seu Dragão 2
num mundo possível: Operação Big Hero
num mundo perfeito: O Conto da Princesa Kaguya
em outra dimensão: Uma Aventura LEGO

Leviatã

filme estrangeiro

Ida (Polônia)
Leviatã (Rússia)
Relatos Selvagens (Argentina)
Tangerines (Estônia)
Timbuktu (Mauritânia)

num mundo provável: Ida (Polônia)
num mundo possível: Relatos Selvagens (Argentina)
num mundo perfeito: Leviatã (Rússia)
em outra dimensão: E Agora? Lembra-me (Portugal)

Ida

fotografia

Birdman, Emmanuel Lubezki
O Grande Hotel Budapeste, Robert D. Yeoman
Ida, Ryszard Lenczewksi & Lukasz Zal
Invencível, Roger Deakins
Sr. Turner, Dick Pope

num mundo provável: Birdman
num mundo possível: Ida
num mundo perfeito: Sr. Turner
em outra dimensão: Sob a Pele

Boyhood

montagem

Boyhood, Sandra Adair
O Grande Hotel Budapeste, Barney Pilling
O Jogo da Imitação, William Goldenberg
Sniper Americano, Joel Cox, Gary Roach
Whiplash
, Tom Cross

num mundo provável: Boyhood
num mundo possível: O Grande Hotel Budapeste
num mundo perfeito: Whiplash
em outra dimensão: Garota Exemplar

O Grande Hotel Budapeste

desenho de produção

Caminhos da Floresta, Dennis Gassner & Anna Pinnock
O Grande Hotel Budapeste, Adam Stockhausen
Interestelar, Nathan Crowley, Gary Fettis & Paul Healy
O Jogo da Imitação, Maria Djurkovic
Sr. Turner, Suzie Davies & Charlotte Watts

num mundo provável: O Grande Hotel Budapeste
num mundo possível: Caminhos da Floresta
num mundo perfeito: O Grande Hotel Budapeste
em outra dimensão: Guardiões da Galáxia

Malévola

figurinos

Caminhos da Floresta, Colleen Atwood
O Grande Hotel Budapeste, Milena Canonero
Malévola, Anna B. Sheppard
Sr. Turner, Jacqueline Durran
Vício Inerente, Mark Bridges

num mundo provável: O Grande Hotel Budapeste
num mundo possível: Sr. Turner
num mundo perfeito: O Grande Hotel Budapeste
em outra dimensão: Era Uma Vez em Nova York

Guardiões da Galáxia

maquiagem

Foxcatcher
O Grande Hotel Budapeste
Guardiões da Galáxia

num mundo provável: O Grande Hotel Budapeste
num mundo possível: Foxcatcher
num mundo perfeito: Guardiões da Galáxia

em outra dimensão: Malévola

Interestelar

trilha sonora

O Grande Hotel Budapeste, Alexandre Desplat
Interestelar, Hans Zimmer
O Jogo da Imitação, Alexandre Desplat
Sr. Turner, Gary Yearshon
A Teoria de Tudo, Jóhann Jóhannsson

num mundo provável: A Teoria de Tudo
num mundo possível: O Grande Hotel Budapeste
num mundo perfeito: O Grande Hotel Budapeste
em outra dimensão: Sob a Pele

Uma Aventura Lego

canção

“Everything is Awesome” (Shawn Patterson, Joshua Bartholomew, Lisa Harriton, The Lonely Island), Uma Aventura LEGO
“Glory” (John Legend & Common), Selma
“Grateful” (Diane Warren), Além das Luzes
“I’m Not Gonna Miss You” (Glen Campbell), Glen Campbell: I’ll Be Me
“Lost Stars” (Gregg Alexander, Danielle Brisebois, Nick Lashley, Nick Southwood), Mesmo Se Nada Der Certo

num mundo provável: “Glory”, Selma
num mundo possível: “I’m Not Gonna Miss You”, Glen Campbell: I’ll Be Me
num mundo perfeito: “Lost Stars”, Mesmo Se Nada Der Certo em outra dimensão: “Let Me In”, A Culpa é das Estrelas

Birdman

mixagem de som

Birdman, Jon Taylor, Frank A. Montaño & Thomas Varga
Interestelar, Gary A. Rizzo, Gregg Landaker & Mark Weingarten
Invencível, Jon Taylor, Frank A. Montaño & David Lee
Sniper Americano, John Reitz, Gregg Rudloff & Walt Martin
Whiplash, Craig Mann, Ben Wilkins & Thomas Curley

num mundo provável: Whiplash
num mundo possível: Sniper Americano
num mundo perfeito: Whiplash
em outra dimensão: Garota Exemplar

Interestelar

edição de som

Birdman, Martín Hernández & Aaron Glascock
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, Brent Burge & Jason Canovas
Interestelar, Richard King
Invencível, Becky Sullivan & Andrew DeCristofaro
Sniper Americano, Alan Robert Murray & Bub Asman

num mundo provável: Sniper Americano
num mundo possível: Birdman
num mundo perfeito: Sniper Americano
em outra dimensão: Sob a Pele

X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

efeitos visuais

Capitão América: O Soldado Invernal, Dan DeLeeuw, Russell Earl, Bryan Grill & Dan Sudick
Guardiões da Galáxia, Stephane Ceretti, Nicolas Aithadi, Jonathan Fawkner & Paul Corbould
Interestelar, Paul Franklin, Andrew Lockley, Ian Hunter & Scott Fisher
Planeta dos Macacos: O Confronto, Joe Letteri, Dan Lemmon, Daniel Barrett & Erik Winquist
X-Men: Dias de um Futuro Esquecido, Richard Stammers, Lou Pecora, Tim Crosbie & Cameron Waldbauer

num mundo provável: Interestelar
num mundo possível: Planeta dos Macacos: O Confronto
num mundo perfeito: Planeta dos Macacos: O Confronto
em outra dimensão: Godzilla

Life Itself

documentário

CITIZENFOUR, Laura Poitras
A Fotografia Oculta de Vivian Maier, John Maloof & Charlie Siskel
Last Days in Vietnam, Rory Kennedy
O Sal da Terra, Juliano Ribeiro Salgado & Wim Wenders
Virunga, Orlando von Einsiedel

num mundo provável: CITIZENFOUR
num mundo possível: Virunga
num mundo perfeito: CITIZENFOUR
em outra dimensão: Elena

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A esquizofrenia do Oscar

Oscar

Existe uma certa esquizofrenia na maneira como a maioria das pessoas lida com o Oscar. É extremamente comum ouvir críticas ao prêmio por sua arbitrariedade, caretice ou suas escolhas erradas. Mas talvez seja ainda mais costumeiro escutar alguém dizer que “o filme A é muito bom, mas não para ganhar o Oscar”. Ou seja, muitas vezes as mesmas pessoas que criticam o prêmio da Academia acreditam, lá no fundo, que ele é mesmo o reconhecimento máximo do cinema. Vejamos bem, o Oscar é um prêmio norte-americano, criado nos anos 1920 para dar um certo status a uma arte que era considerada mera diversão. Ajudou a dar estofo para o cinema, mas nunca deixou de ser uma láurea da indústria. E da indústria norte-americana.

Faz-se muitas listas com as injustiças do Oscar como se o prêmio fosse resultado dos méritos dos candidatos e não o ápice de um imenso processo – cada vez mais de conhecimento público – que envolve muitos outros elementos (festas para lançar os filmes, anúncios, envio de DVDs para quem vota na Academia, sessões especiais, prêmios de críticos e da indústria). É muito ingênuo falar do “absurdo” do filme x perder pro filme y quando na corrida daquele ano, no contexto daquele ano, o filme x não tinha a menor chance de ganhar. Cada edição do Oscar reflete os doze meses anteriores à festa e, muitas vezes, esses doze meses negam o ano anterior.

O Oscar não evolui ou involui em suas escolhas como muita gente quer determinar. Ele acerta ou erra (e isso é bem subjetivo) a cada ano. Anna Paquin ganhou seu primeiro Oscar aos 11 anos, enquanto Peter O’Toole e Richard Burton foram indicados várias vezes ao longo de suas longas carreiras e nunca levaram um prêmio. Nada disso foi planejado. Talvez a Academia apenas tenha achado que esses dois grandes atores nunca foram os melhores em cada ano em que estiveram na disputa. Do mesmo jeito que Meryl Streep foi indicada 19 vezes não apenas porque ela é uma ótima atriz, mas porque a própria lenda que se criou em torno de sua história no Oscar deixa mais fácil para os integrantes da Academia, gente que ao contrário dos críticos não é paga para ver filmes, sempre a considerarem já que ela sempre está ali, dando sopa.

Os prêmios dos críticos que vêm antes do Oscar são muito importantes porque esses, sim, recebem para ver filmes e dizer que qualidades ou não vêem neles. E ajudam a nortear quem está ou não valendo naquele ano. Só que ao longo dos anos, essas premiações criam suas próprias histórias e as “injustiças” de nunca terem premiado esse ou aquele ator no Oscar nem sempre se repetem nos outros prêmios, que têm outras dinâmicas. E aí, as influências mudam. E a Academia decide por si. Quando alguém ganha um Oscar pelo “conjunto da obra”, como deve acontecer com a Julianne Moore neste ano, sem demérito porque é uma boa interpretação, talvez conte mais o fato dela, uma atriz respeitadíssima, ter sido indicada quatro vezes antes e nunca ter ganho do que sua performance em si. Curioso que Julianne deve ganhar e todo mundo provavelmente vai achar merecido, inclusive eu, pelas razões erradas: ela é uma grande atriz e merece ter um Oscar, independentemente do papel, do filme.

Então, é meio maluco que ao mesmo tempo em que se critique o Oscar pelo conformismo, tradicionalismo, intervenção dos estúdios, campanhas de marketing acima da qualidade dos concorrentes, cite-se essas justiças e injustiças como se o Oscar tivesse acertado ou falhado nesses momentos. Afinal, o Oscar é normalmente justo e erra às vezes, justificando listas de injustiças? Ou o Oscar é um prêmio conceitualmente equivocado que de vez em quando premia quem realmente merece? Falta uma coerência aí. Eu realmente espero que Boyhood ganhe o Oscar porque eu gosto muito do filme e ficaria feliz em vê-lo premiado. Mas entendo se Birdman vencer porque conversa mais com anseios da indústria de cinema. Só não vou sair falando da grande injustiça que a Academia cometeu porque as coisas não são tão simples assim.

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O Oscar dos meus sonhos: versão 2015

Todo ano eu faço a lista do Oscar dos Meus Sonhos, que consiste em, a partir dos filmes elegíveis (inclusive na lista de estrangeiros e animações) e espelhando o número de indicados em cada categoria, apontar quais deveriam concorrer e ganhar o Oscar do período. Minha lista para a temporada 2014/2015 dá a Era Uma Vez em Nova York, de James Gray, o destaque que, na minha opinião, ele deveria ter recebido dos críticos e da indústria – e mistura blockbusters e projetos mais independentes. Algumas categorias foram bem difíceis de fechar. Em ator, por exemplo, acho que David Oyelowo, de Selma, e Channing Tatum, de Foxcatcher, mereciam tanta atenção quanto os cinco que terminei indicando. Estas são minhas opções (as estrelas entre parênteses indicam em quem eu votaria para ganhar):

filme

Boyhood, Richard Linklater
Era Uma Vez em Nova York, James Gray (Estrelinha)
Um Estranho no Lago, Alain Guiraudie
Foxcatcher, Bennett Miller
O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson
Leviatã, Andrei Zvyagintsev
Planeta dos Macacos: O Confronto, Matt Reeves
Whiplash, Damien Chazelle

direção

Alain Guiraudie, Um Estranho no Lago
Andrei Zvyagintsev, Leviatã
James Gray, Era Uma Vez em Nova York (Estrelinha)
Richard Linklater, Boyhood
Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste

ator

Jake Gyllenhaal, O Abutre
Joaquin Phoenix, Era Uma Vez em Nova York
Michael Keaton, Birdman
Steve Carrel, Foxcatcher
Timothy Spall, Sr. Turner (Estrelinha)

atriz

Julianne Moore, Para Sempre Alice
Marion Cotillard, Era Uma Vez em Nova York (Estrelinha)
Rosamund Pike, Garota Exemplar
Scarlett Johansson, Sob a Pele
Tilda Swinton, Amantes Eternos

(o ideal mesmo seria Marion Cotillard indicada também por Dois Dias, Uma Noite, mas como o Oscar limita a uma o número de indicações do mesmo ator na mesma categoria, fico com minha favorita)

ator coadjuvante

Ethan Hawke, Boyhood 
J.K. Simmons, Whiplash (Estrelinha)
Robert Pattinson, The Rover – A Caçada
Roman Madyanov, Leviatã
Sergey Pokhodaev, Leviatã

atriz coadjuvante

Emma Stone, Birdman
Marisa Tomei, O Amor é Estranho
Naomi Watts, Birdman
Patricia Arquette, Boyhood (Estrelinha)
Rene Russo, O Abutre

roteiro original

Boyhood
Era Uma Vez em Nova York
O Grande Hotel Budapeste
Leviatã (Estrelinha)
Selma

roteiro adaptado

Garota Exemplar
Guardiões da Galáxia
Planeta dos Macacos: O Confronto (Estrelinha)
Sob a Pele
Whiplash

filme estrangeiro

Dois Dias, Uma Noite (Bélgica)
E Agora? Lembra-me (Portugal)
Leviatã (Rússia) (Estrelinha)
Matar um Homem (Chile)
Norte, o Fim da História (Filipinas)

filme de animação

Uma Aventura LEGO
Os Boxtrolls
Como Treinar Seu Dragão 2 (Estrelinha)
O Conto da Princesa Kaguya
Operação Big Hero

fotografia

Era Uma Vez em Nova York
Ida
Leviatã
Sob a Pele (Estrelinha)
Sr. Turner

montagem

O Abutre
Dois Dias, Uma Noite
Garota Exemplar
O Grande Hotel Budapeste
Whiplash (Estrelinha)

direção de arte

Era Uma Vez em Nova York
O Grande Hotel Budapeste (Estrelinha)
Guardiões da Galáxia
Selma
Sr. Turner

figurinos

Era Uma Vez em Nova York
Êxodo: Deuses e Reis
O Grande Hotel Budapeste (Estrelinha)
Malévola
Sr. Turner

maquiagem

Foxcatcher
O Grande Hotel Budapeste
Guardiões da Galáxia (Estrelinha)

trilha sonora

Birdman
O Conto da Princesa Kaguya
Garota Exemplar
O Grande Hotel Budapeste
Sob a Pele (Estrelinha)

canção

“Glory”, Selma
“Hal”, Amantes Eternos
“Let Me In”, A Culpa é das Estrelas (Estrelinha)
“Lost Stars”, Mesmo Se Nada Der Certo
“Mercy Is”, Noé

edição de som

Capitão América: O Soldado Invernal
Guardiões da Galáxia
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Sniper Americano
Sob a Pele (Estrelinha)

mixagem de som

Capitão América: O Soldado Invernal
De Volta ao Jogo
Garota Exemplar
Sniper Americano
Whiplash (Estrelinha)

efeitos visuais

Godzilla
Guardiões da Galáxia
Lucy
Planeta dos Macacos: O Confronto (Estrelinha)
X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

 

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Selma

Selma

Uma personagem conhecida, uma obra célebre. A combinação perfeita para um filme acomodado, que elege a trajetória de vida e seus highlights em detrimento de entender quem é a pessoa por trás da figura histórica. Encontrar a sensibilidade certa para dirigir um biografia é um dos maiores desafios para qualquer cineasta. Porque a própria indústria do cinema criou um modelo muito fechado para este gênero, que serve para trabalhar catarses, induzir às lágrimas, manipular os sentimentos do espectador para que ele se identifique com o tom edificante e inspirador deste tipo de filme.

Ava DuVernay transforma as regras deste jogo em Selma. A diretora encontra uma maneira delicadíssima de evitar a burocracia que geralmente ronda os filmes que recriam histórias reais, mirando no humanismo. A cada cena, desvenda o homem, revela suas fragilidades, aponta seus defeitos, dúvidas e carências. E faz isso de maneira inusitada, como na cena em que a esposa questiona o marido sobre sua fidelidade ou no telefonema para uma cantora gospel no meio da noite. A noite, por sinal, parece mostrar o outro lado do protagonista, quando ele deixa de ser personagem.

O filme não é sobre uma luta étnica ou religiosa (ou também é). Nem procura revelar o Messias escondido em Martin Luther King (ou também revela). Selma é, sim, um filme edificante e inspirador porque a cineasta consegue traduzir e reverberar a jornada do protagonista pelo que ele acredita. O espectador é conquistado pela identificação. DuVernay cria uma obra sobre a humanidade em cada um de nós. Dignifica o trabalho Martin Luther King sem necessariamente vendê-lo como herói, mas entende sua batalha como ser humano. E David Oyelowo merece os maiores créditos. Recria um homem imenso da maneira mais discreta, simples e bonita possível.

Selma EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Selma, Ava DuVernay, 2014]

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O Destino de Júpiter

O Destino de Júpiter

Todo mundo que merece respeito encontra razões para ter um ou dois ou vários bons guilty pleasures, aqueles filmes que não são lá grande coisa, mas que são tão divertidos que seus problemas ficam menores. Parecia ser o caso de O Destino de Júpiter. Kitsch não define o longa como a hiperbólica opereta espacial dos irmãos Wachowski merece. Para acompanhar a grandiosidade da trama do filme, Andy & Lana – aqui jaz Larry – elevaram o conceito de cafona a um nível épico, universal, interestelar. Até aqui, nenhum problema. A comparação mais próxima seria com Guardiões da Galáxia, um filme que equilibra muito (anos-luz) melhor o humor e as liberdades do que o novo trabalho dos criadores de Matrix. Este, além de ultrapassar e muito as fronteiras do bom gosto encontra uma inconsistência fundamental no tom que nunca se define muito bem. A lista abaixo traz os dez maiores erros do filme, em ordem decrescente:

10 Protagonista engole qualquer uma

Para quem recentemente descobriu a existência de aliens e que tem um novo papel no universo – papel de destaque, por sinal -, Jupiter, a mocinha vivida por Mila Kunis, personagem principal do filme, aceita essa nova realidade muito facilmente. A resistência dura até a segunda explicação de seu herói. E isso acontece o filme inteiro. Não precisa fazer ser sisudo, como manda a regra atual da fantasia, mas seria bom dar a chance para o espectador comprar a ideia.

9 Mocinho gato por lebre

O filme inteiro anuncia que Caine Wise, papel de Channing Tatum, pode explodir a qualquer momento, mas ele nunca explode de verdade. Sua “natureza/origem” de homem-lobo meio albino, é muito mal explicada e nunca é verdadeiramente explorada pelo roteiro, que prefere abrir espaço para o ator exibir o tórax no melhor estilo das novelas do Carlos Lombardi. Talvez a ideia fosse fazer um teaser da parte 2 de Magic Mike.

8 Shakespeare de araque

As intrigas palacianas dos três irmãos malvados parecem saídas de uma versão pocket de algumas das peças de William Shakespeare, mas além das performances rasas de Douglas Booth, Tuppence Middleton e Eddie Redmayne, a quem voltaremos ainda neste texto, o filme não tem a mínima competência em aprofundar ou oferecer os bastidores desta disputa do trio pelo poder. Algumas soluções são tão apressadas que tiram qualquer nuance da trama.

7 Tecnologia usada para tapar buracos

A lei do mínimo esforço aqui é: vamos colocar tudo na conta do avanço tecnológico. Então, do mesmo jeito que vimos em tantos outros filmes, as feridas cicatrizam rapidinho no longa espacial dos Wachowski. Mas aqui eles fazem isso em larga escala: Chicago é reconstruída em algumas horas, culpa da tecnologia, e ninguém vai lembrar de nada (porque é mais fácil assim), culpa novamente da tecnologia e da preguiça em ter que cuidar de mais um elemento na trama.

6 Kitsch tem limite

Tudo é exagerado no filme, sobretudo seu visual. Se fosse num conceito série B como aquele Os Vingadores do final do anos 90, com Raplh Fiennes e Uma Thurman, filme ruim, mas muito bem cenografado, tudo bem, mas os delírios visuais dos diretores são muito cansativos. Em se tratando de embalagem, o novo longa está muito mais próximo de A Viagem do que de Matrix.

5 A indefinição do tom

Afinal, o que é O Destino de Júpiter: uma aventura rocambolesca espacial ou mais um besteirol americano? O filme não se define quanto ao tom e enquanto o espectador faz esforço para entrar na brincadeira, os Wachowski chegam com aquela sequência de burocarcia interestelar, que mais parece uma versão revista e ampliada da mesma ideia que Tim Burton teve em Os Fantasmas se Divertem. Precisava daquela piadinha da Mila Kunis no fim dessa parte do filme?

4 Efeitos visuais que não impressionam

Cada milímetro de O Destino de Júpiter tem intervenções digitais, mas praticamente nada é marcante plasticamente no filme, à exceção das botas voadoras, que não bem uma novidade, mas que garantem as cenas mais bem resolvidas do longa. Os cenários digitais são óbvios, sem imaginação, preguiçosos mesmo. O general réptil do vilão parece uma versão CGI do Escamoso, dos Thundercats.

3 As soluções fáceis

A cena dos óvulos e a sequência do casamento são exemplos de como o roteiro dá saltos no espaço-tempo e perde momentos importantes que ajudariam a desenvolver a história. Tudo apressado demais. O que acontece com Kiza, filha da personagem de Sean Bean na hora da invasão da casa? A explicação para o início da destruição do planeta de Balem é boba e quebra o barato de quem tenta acompanhar a trama.

2 O destino de Júpiter

Mais uma prova da preguiça do roteiro: a solução encontrada para a personagem de Mila Kunis é a mais óbvia e a menos crível possível. O sacrifício que a protagonista faz pela família não casa com o que o universo reserva para ela nos próximos tempos. Novamente, o espectador se sente enganado pela “ingenuidade” da trama, que parece querer homenagear um subgênero sem adaptá-lo aos dias de hoje.

1 Eddie Redmayne

Está muito claro que o ator que pode ganhar o Oscar por viver Stephen Hawking no burocrático A Teoria de Tudo quis entrar no clima de ópera espacial e construir uma personagem caricata em trejeitos e tom de voz. Parecia o caminho certo, mas Redmayne não faz apenas uma caricatura, ele apenas reprisa uma porrada de tiques que não acrescentam nada e, por sinal, só desmerecem o papel de vilão principal do filme; papel que merecia ser bem menos raso.

O maior pecado do filme, no entanto, é que a combinação de suas liberdades criativas, seus exageros, seu tom fora de tom, suas caricaturas poderiam fazer um filme delicioso de assistir, mas no final da sessão, cara, no IMAX, a palavra anódino fazia muito sentido.

O Destino de Júpiter Estrelinha½
[Jupiter Ascending, Andy Wachowski & Lana Wachowski, 2015]

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Dois Dias, Uma Noite

Dois Dias, Uma Noite

A crise econômica da Europa tem rendido alguns filmes bem interessantes, mas o novo trabalho dos irmãos Dardenne é um dos melhores. E também o melhor longa da dupla em mais de uma década. Embora guarde todos os elementos de seus filmes mais célebres, como a câmera orgânica, as interpretações naturalistas e o tempo contínuo, Dois Dias, Uma Noite talvez indique uma virada de Jean-Pierre e Luc Dardenne em direção a um público mais amplo. Salvo engano, é a primeira vez que eles recorrem a um intérprete que não nasceu na Bélgica como protagonista de um filme. Marion Cotillard mudou seu sotaque e se revelou uma escolha acertada para viver a mulher que, para recuperar seu emprego, tenta convencer seus colegas a votarem contra um bônus que só será concedido se ela for demitida.

No espaço de pouco mais de um dia, ela persegue, casa a casa, seu objetivo. Cada encontro joga sua personagem, Sandra, num contexto diferente, muitas vezes doloroso, promovendo uma versatilidade emocional rara no cinema da dupla, que além de arejar a narrativa do longa, testa os limites da personagem, sempre à beira de um ataque de nervos, e da atriz, aqui num de suas melhores interpretações. Os Dardenne continuam sua sina de analistas da Europa contemporânea, cotidiana, desprovida de beleza, incômoda, desta vez discutindo bem especificamente a crise financeira do continente e o impacto na vida do cidadão comum. Os interesses individuais são confrontados com os interesses do mercado numa luta desigual pela sobrevivência.

Dois Dias, Uma Noite EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Deux Jours, Une Nuit, Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne, 2014]

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Cássia

Cássia

É engraçado como um filme bate de maneira diferente para cada pessoa. A subjetividade vem da memória, das experiências. É impossível ter exatamente a mesma impressão que outra pessoa depois de uma sessão de cinema. Louco é quando um mesmo filme bate de maneiras diferentes para a mesma pessoa. Cássia, documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre a vida de Cássia Eller, não é exatamente um grande filme. Por sinal, como filme, é excessivamente bem tradicional, até quadrado, que parece um pouco menor do que sua protagonista, uma mulher que sempre pareceu disposta a expandir os horizontes. Ainda mais quando a gente sabe que o diretor fez o excelente Loki, sobre o mutante Arnaldo Baptista, e numa época em que o conceito de documentário é tão complexo, com filmes como Girimunho, Jogo de Cena e Santiago, colocando velhos padrões em cheque. Mas curiosamente esse longa convencional, exatamente ele, deixa a impressão de que sua protagonista é uma gigante. Cássia é um filme bastante emocional e não por causa de sua excelente pesquisa de imagens, dos sobe sons da intimidade da cantora e dos depoimentos, mas porque assisti-lo faz crer que seu diretor se envolveu tão profundamente com o projeto que lhe foi impossível encontrar pontos de corte num filme que claramente tem um excesso de material. O foco numa Cássia Eller por trás do microfone cria uma identificação grande do espectador com o longa. A viúva de Cássia Eller, por sinal, pediu que o filme abordasse drogas e romances extraconjugais. Faz pensar muito sobre o que é importante. Sobre o que nós construímos. Sobre quem amamos. Sobre família e amigos, quem realmente importa. Não achar Cássia um grande filme não inviabiliza dizer que Fontenelle fez um trabalho especial. Vai entender o ser humano, né?

Cássia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Cássia, Paulo Henrique Fontenelle, 2014]

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Birdman

Birdman

Riggan Thompson não sabe bem para onde ir. Depois de ganhar muito dinheiro e ficar famoso interpretando Birdman numa série de filmes de super-heróis, ele resolve buscar algo além do imediatismo, o aplauso. Em sua tentativa de dirigir e estrelar uma peça de teatro na Broadway e se transformar num ator sério, Thompson quer garantir não apenas sua sobrevida na profissão, mas encontrar um mínimo de sentido em continuar. Seja no trabalho, no mercado ou na vida. Thompson vive seu drama com tanta intensidade, sempre tão preso a seus problemas banais, que aqui e ali precisa escapar para outros mundos para se ver livre.

Michael Keaton está especialmente bem em Birdman. Provavelmente sua personagem não teria a força que tem se não fosse ele, com todo seu histórico de Batmans e Beetlejuices, o intérprete. A crise de Riggan Thompson – um pacote que envolve o peso da idade, a busca por reconhecimento, o medo da decadência – ganha outros contornos na performance ansiosa do ator, promove algumas sinapses e parece quase metalinguística quando investigamos o passado de pária do próprio Keaton. Mas como manda o manual dos “filmes de elenco”, ele não está só nos merecimentos: todos os outros em cena chamam a atenção. Edward Norton tem sua melhor interpretação em anos; Emma Stone revela sua maturidade como atriz; Naomi Watts parece ter voltado à boa forma.

Zack Galifianakis, Andrea Risenborough e Amy Ryan também têm, cada um, seus momentos sob os holofotes. Todos estão a serviço da intensidade que Iñarritu tenta impor ao filme, nervoso, orgânico, quase incontrolável na maior parte do tempo. E não apenas por causa de sua câmera “viva” e de seus planos-sequência em sequência, que tentam dar a impressão de non-stop, como no mítico Festim Diabólico, de Alfred Hitchcock, mas pela verborragia de todos os diálogos de todas as personagens, em todos os momentos, ao longo do filme inteiro. O diretor realmente quis cercar o espectador pela esquizofrenia dos bastidores da Broadway e pelos dilemas existenciais de Thompson, que não oferecem segurança nem a ele nem a ninguém.

Tanta eletricidade flerta com a afetação. Curiosamente são as cenas de Birdman, o herói fictício, as mais sóbrias do filme, o que cria uma certa contradição com algumas das propostas do filme. Com seu homem pássaro, Iñarritu levanta a voz contra a indústria do cinema e seus blockbusters com gente superpoderosa, contra a empostação do ator de teatro e da Broadway, contra a crítica e a imprensa que cobre cultura. Seu protagonista em crise reflete não apenas os dilemas do artista, mas as insatisfações do cineasta com o meio sob diversos prismas. Birdman vive dessa ironia. Iñarritu, em seu melhor filme, trocou suas histórias cruzadas e seus fatalismo por uma discussão um tanto antiga sobre a indústria da arte, mas encontrou no formato, no humor negro e nas interpretações uma maneira de tornar seu filme uma obra urgente (ou pelo menos de fazer parecer isso).

Birdman (ou A Inesperada Virtude da Ignorância) EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Birdman (or The Unexpected Vortue of Ignorance), Alejandro Gonzalez Iñarritu, 2014]

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