Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood

Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood

Sentimentos contraditórios em relação ao novo Os Saltimbancos Trapalhões, reimaginação do longa original de 1981, um dos favoritos e mais icônicos do quarteto. Ao mesmo tempo em que as memórias invadem a cabeça a cada cena, em cada reinterpretação da trilha sonora que mais ouvi na vida, faz falta um roteiro que explore melhor a herança que filme deixou. Os Trapalhões mereciam um texto mais bem construído, uma homenagem realmente reverente a tudo o que eles criaram. O filme de João Daniel Tikhomiroff é bem bonito plasticamente (embora pareça um bastidor eterno), mas o roteiro parece uma sucessão de improvisos que retornam ao conceito original da maneira mais óbvia possível.

Uma das coisas mais interessantes é o uso dos figurantes como um coral grego, que se agrupa a cada música, mas essa citação explícita do circo causa um problema: mesmo num filme que preza pela beleza plástica, os personagens, não raramente, estão de costas para a câmera. Mas há trunfos. Outro, muito bom, é a sequência inicial, em “Hollywood”, numa brincadeira/homenagem/tiração de sarro com os comentários de Rubens Ewald Filho nas cerimônias de entrega do Oscar. A ideia de fazer uma reinterpretação do filme original parece um tanto acomodada, ainda mais diante da importância do longa original. Os papeis de Karina, Satã e Tigrana são entregues para outros atores, que se esforçam, mas não acrescentam muita coisa ao que já tinha sido criado. Letícia Colin é uma graça, mas Lucinha Lins era a própria encarnação da delicadeza no primeiro filme.

As críticas a esses filmes que partem das premissas originais de outros filmes, geralmente de sucesso, podem parecer preciosismos nostálgicos, principalmente neste caso dos Trapalhões. Porque, afinal, roteiros bem acabados e interpretações incríveis nunca foram exatamente o forte dos filmes do quarteto, embora haja longas notáveis do grupo de humoristas. Mas, se o princípio do filme é justamente esse, explorar a nostalgia, o espectador, sobretudo aquele que assistiu a esses filmes na infância, no cinema, que tem uma ligação sentimental com esses longas têm todo o direito de querer mais. Ainda assim, é sempre muito bom remexer nos arquivos do coração.

Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood ★★½
[Os Saltimbancos Trapalhões: Rumo a Hollywood, João Daniel Tikhomiroff, 2017]

P.S.: Qual o melhor filme dos Trapalhões? Veja meu Top 10.

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Manchester à Beira-Mar

Manchester à Beira-Mar

A mesma dor que machuca o peito de Lee todos os dias, todas as horas, é a razão pela qual ele ainda continua respirando. Faz muito tempo desde que aconteceu a maior tragédia da vida deste típico americano médio, homem simples, que cresceu por seus próprios méritos e talentos. Mas, por mais que todos em volta dele tenham reconstruído suas histórias esquecendo o passado, mirando nos próximos passos, Lee escolheu – aliás, se dedicou – ao luto. A estratégia não era apenas uma maneira de se despedir ou homenagear quem ele perdeu. E nem era somente um refúgio para esquecer e se curar. Lee precisava de mais. A dor se tornou não apenas a força motora na vida deste homem, mas prisão eterna para suas culpas, razão para sua existência.

O luto já foi retratado muitas vezes pelo cinema americano, mas poucas com a profundidade e a complexidade do texto de Kenneth Lonergan. O novaiorquino é essencialmente um dramaturgo, embora suas peças sempre tenham sido escritas para a tela grande. Em seu terceiro filme como diretor-roteirista, Lonergan visita uma cidade portuária de pouco mais e cinco mil habitantes, Manchester-by-the-Sea, em Massachussetts. É para lá, a cidade que tentou esquecer, que Lee tem que voltar porque precisa cuidar de seu sobrinho, que acabou de perder o pai. Joe morreu há pouco tempo e deixou a cargo de Lee a responsabilidade de tomar contra de Patrick. Num ato final generoso, o irmão que sai de cena oferece uma outra chance para o irmão que se auto-condenou.

Com uma delicadeza que nunca o impede de ser fiel ao devastador sentimento do protagonista, Lonergan desenha o caminho para a redenção, o reecontro entre duas pessoas que sempre se amaram e que, a partir de agora, só têm um a outro, e debate a escolha. O cineasta abre espaço, estende a mão, dá permissão para a mudança, mas, interessado em investigar os limites de uma dor, parece deixar a cargo do personagem principal a possibilidade de um recomeço. Lonergan entende que só Lee consegue medir o imenso vazio que sente, só cabe a ele abrir mão do luto que estranhamente o conforta e faz com que sua existência tenha algum sentido. “Aos outros eu devolvo a dó, eu tenho a minha dor”, o personagem parece gritar, em silêncio.

Além de Lee, Lonergan só aceita dividir a responsabilidade sobre o que está por vir com Casey Affleck. De intérprete mediano de voz irritante, Casey cresceu como ator. E aqui ficou imenso. Poucos defenderiam Lee com a paciência, a sutileza e a intensidade com que ele faz, um equilíbrio praticamente impossível, mas que parece fazer muito sentido para um homem que nasceu numa cidade um pouco maior, a menos de duas horas daquele cenário. É só por causa do encontro entre Affleck e Lonergan que começamos a entender a pertinência da dor. É a partir deste mesmo encontro que Manchester à Beira-Mar se estabelece como um dos grandes melodramas do cinema americano, uma obra implacável com quem está de qualquer lado da tela.

Machester à Beira-Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Manchester by the Sea, Kenneth Lonergan, 2016]

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La La Land – Cantando Estações

La La Land

De todas as artes, o cinema talvez tenha sido a que mais rápido olhou para trás, em vez de continuar procurando novos caminhos. Olhou, gostou e aprendeu que pode reinventar histórias, fórmulas e conceitos eternamente, viver de sua própria coleção de pastiches, assimilar, copiar, traduzir, reinterpretar. Na maioria das vezes, o motivo deste eterno retorno é meramente comercial. Em outras tantas, serve para alimentar a nostalgia, sentimento nobre cada vez mais crescente numa sociedade que parece sempre buscar no passado saídas, soluções ou um simples descanso de tempos tão difíceis. La La Land, o musical de Damien Chazelle, parece ser o melhor exemplo deste cinema-homenagem.

No ano em que Hollywood responde às críticas com filmes mais politizados, mais igualdade de gênero e mais espaço e emprego para um cinema étnico e atores de todas as etnias, Chazelle, o garoto-prodígio que colecionou prêmios com Whiplash, entrega uma fábula escapista que abusa da palheta de cores, que referencia o “sonho americano” e, mais ainda, que declara amor ao cinema de Hollywood. Basicamente, um filme reverencia o passado, que canta o passado. Em termos práticos, os números musicais de La La Land soariam ingênuos, alienados ou até excessivamente conformados para um momento em que o cinema precisaria encher o peito para discursar contra a onda conservadora que promete se instalar de vez nos Estados Unidos a partir de agora.

Mas ter a nostalgia como matéria-prima não significa abraçar a ingenuidade ou fazer um cinema conservador. La La Land parte de uma série de referências muito maior do que as mais óbvias e sabe coletá-las, reinterpretá-las e nunca meramente copiá-las. A homenagem de Chazelle não apenas remonta os musicais clássicos de Vincente Minnelli ou Stanley Donen, embora Cantando na Chuva apareça em várias citações. Existe muito da leveza e da delicadeza de Jacques Demy, seja na luz, nas cores vivas, nos arranjos simples e nas coreografias simpáticas demarcando a narrativa.

Pouco importa se Ryan Gosling não convence tanto assim como jazzista ou se Emma Stone parece crua demais para acreditarmos nela como grande estrela. Cabe tudo na fábula, dos sonhos românticos às pequenas alfinetadas no sistema e falta de identidade daquela massa de concorrentes a um posto abaixo dos holofotes. Holofotes muitíssimo bem posicionados, é bom observar. A sequência do observatório, que começa com uma citação explícita a Juventude Transviada termina com mais uma homenagem a Cantando na Chuva ou, se for para citar um filme menos “pé no chão”, que namora com a liberdade criativa de um Núpcias Reais.

Se escalar Ryan Gosling e Emma Stone, em sua terceira parceria, parece uma aposta pouco arriscada para uma comédia romântica, Chazelle ousa ao colocar seus heróis não-cantores para cantar, explorando suas vozes até o limite, bem pequeno no caso dele, um pouco maior no caso dela. O mais interessante é que a experiência não apenas funciona satisfatoriamente, mas vai além porque humaniza os personagens e valoriza as belas melodias de Justin Hurwitz, que poderiam morrer em gritos de ex-competidores do American Idol. Ao proteger seu impecável conjunto de canções, La La Land tanto preserva esse charme nostálgico dos musicais de outros tempos quanto chega bem pertinho do espectador.

O primeiro mandamento de Chazelle é sempre jogar limpo com quem está do outro lado da tela. E mesmo quando o clichê ameaça se instalar no único momento de virada da narrativa, Chazelle parece se recusar a seguir a fórmula de sempre e, em cinco minutos, resolve as arestas e abre caminho para um desfecho surpreendente. Uma sequência circular que, mesmo frustrando as regras mais rígidas dos filmes românticos, é de um amor imenso pelos personagens e pelo cinema.

La La Land – Cantando Estações EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[La La Land, Damien Chazelle, 2016]

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#Cinema2016: melhores do ano

Há alguns anos, o Filmes do Chico convida críticos, blogueiros, jornalistas e cinéfilos para elegerem os melhores do ano no cinema. Paralelamente a isso, na fanpage do blogue no Facebook, convido os leitores a votar também em várias categorias. Estes são os resultados de 2016. Obrigado a todos que participaram.

filme

filme

críticos

1 Elle, Paul Verhoeven
2 Aquarius, Kleber Mendonça Filho
3 Carol, Todd Haynes
4 O Cavalo de Turim, Béla Tarr
5 As Montanhas Se Separam, Jia Zhang-ke
6 Certo Agora, Errado Antes, Hong Sang-soo
7 A Chegada, Denis Villeneuve
8 A Assassina, Hou Hsiao-hsien
9 A Bruxa, Robert Eggers
10 Os Oito Odiados, Quentin Tarantino

leitores

1 Aquarius, Kleber Mendonça Filho
2 Carol, Todd Haynes
3 Elle, Paul Verhoeven
4 A Bruxa, Robert Eggers
5 Os Oito Odiados, Quentin Tarantino
6 A Chegada, Denis Villeneuve
7 Boi Neon, Gabriel Mascaro
8 Spotlight, Tom McCarthy
9 O Abraço da Serpente, Ciro Guerra
10 A Grande Aposta, Adam McKay

direção

direção

críticos

1 Paul Verhoeven, Elle
2 Kleber Mendonça Filho, Aquarius
3 Todd Haynes, Carol
4 Béla Tarr, O Cavalo de Turim (codireção: Ágnes Hranitzky)
5 Denis Villeneuve, A Chegada
5 László Nemes, O Filho de Saul

leitores

1 Kleber Mendonça Filho, Aquarius
2 Paul Verhoeven, Elle
3 Todd Haynes, Carol
4 Denis Villeneuve, A Chegada
5 Quentin Tarantino, Os Oito Odiados

ator

ator

críticos

1 Michael Fassbender, Steve Jobs
2 Jacob Tremblay, O Quarto de Jack
3 Juliano Cazarré, Boi Neon
4 Geza Röhrig, O Filho de Saul
5 Tom Hanks, Sully – O Herói do Rio Hudson

leitores

1 Jacob Tremblay, O Quarto de Jack
2 Juliano Cazarré, Boi Neon
3 Leonardo DiCaprio, O Regresso
4 Michael Fassbender, Steve Jobs
5 John Goodman, Rua Cloverfield 10

atriz

atriz

críticos

1 Isabelle Huppert, Elle
2 Sonia Braga, Aquarius
3 Cate Blanchett, Carol
4 Isabelle Huppert, O Que Está por Vir
5 Brie Larson, O Quarto de Jack

leitores

1 Sonia Braga, Aquarius
2 Isabelle Huppert, Elle
3 Cate Blanchett, Carol
4 Rooney Mara, Carol
5 Amy Adams, A Chegada

ator coadjuvante

ator coadjuvante

críticos

1 Christian Bale, A Grande Aposta
2 Teruyuki Kagawa, Creepy
3 Samuel L. Jackson, Os Oito Odiados
4 John Goodman, Rua Cloverfield 10
4 Alden Ehrenreich, Ave, César!

leitores

1 Alden Ehrenreich, Ave, César!
2 Samuel L. Jackson, Os Oito Odiados
2 Christian Bale, A Grande Aposta
3 Steve Carrell, A Grande Aposta
4 Humberto Carrão, Aquarius
4 Mark Ruffalo, Spotlight

atriz coadjuvante

atriz coadjuvante

críticos

1 Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
2 Mya Taylor, Tangerine
3 Daniela Nefussi, Mãe Só Há Uma
4 Maeve Jinkings, Boi Neon
4 Rooney Mara, Carol

leitores

1 Jennifer Jason Leigh, Os Oito Odiados
2 Maeve Jinkings, Aquarius
3 Maeve Jinkings, Boi Neon
4 Kate Winslet, Steve Jobs
5 Mya Taylor, Tangerine

brasileiro

filme brasileiro

críticos

1 Aquarius, Kleber Mendonça Filho
2 Boi Neon, Gabriel Mascaro
3 Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas
4 O Silêncio do Céu, Marco Dutra
5 Mãe Só Há Uma, Anna Muylaert
6 Mate-me Por Favor, Anita Rocha da Silveira
7 Ela Volta na Quinta, André Novais
8 Cinema Novo, Eryk Rocha
9 Campo Grande, Sandra Kogut
10 A Frente Fria que a Chuva Traz, Neville de Almeida

leitores

1 Aquarius, Kleber Mendonça Filho
2 Boi Neon, Gabriel Mascaro
3 Mãe Só Há Uma, Anna Muylaert
4 Nise – O Coração da Loucura, Roberto Berliner
5 Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas

filme de estreia

filme de estreia

críticos

1 A Bruxa, Robert Eggers
2 O Filho de Saul, László Nemes
3 Mate-me, Por Favor, Anita Rocha da Silveira

leitores

1 A Bruxa, Robert Eggers
2 Rua Cloverfield, 10, Dan Trechtenberg
3 Para Minha Amada Morta, Aly Muritiba

Para as demais categorias, quesitos mais técnicos, eu consultei somente os críticos, que, em voto único, elegiam seu favorito em cada categoria.

técnicos

roteiro

1 Elle, David Birke & Harold Manning
2 Sieranevada, Cristi Puiu, e Aquarius, Kleber Mendonça Filho
3 Certo Agora, Errado Antes, Hong Sang-soo

fotografia

1 A Assassina, Ping Bin Lee
1 Carol, Edward Lachman
3 O Cavalo de Turim, Fred Kelemen

montagem

1 A Grande Aposta, Hank Corwin
2 Elle, Job ter Burg
3 Cinema Novo, Renato Valone, e Coração de Cachorro, Melody London & Katherine Nolfi

direção de arte

1 Carol, Judy Becker
2 A Assassina, Wen-Ying Huang
3 Demônio de Neon, Elliott Hostetter

trilha sonora

1 Carol, Carter Burwell
2 Os Oito Odiados, Ennio Morricone
3 Demônio de Neon, Cliff Martinez

som

1 A Chegada
2 O Cavalo de Turim
3 Aquarius e A Assassina

efeitos visuais

1 Doutor Estranho
2 A Chegada, Mogli, o Menino Lobo e Rogue One: Uma História Star Wars
3 Sully – O Herói do Rio Hudson

Votaram nesta edição:

Adriano Garrett, Ailton Monteiro, Alex Gonçalves, Alysson Oliveira, Amanda Aouad, Ana Clara Matta, André Dib, Bruno Ghetti, Camila Vieira, Carlos Massari, Cecilia Barroso, Chico Fireman, Christopher Faust, Cristiane Massuyama, Daniel Dalpizzolo, Daniel Feix, Daniel Herculano, Daniel Schenker, Davi Mello, Diego Maia, Eduardo Gomes, Egídio La Pasta Jr., Fabricio Cordeiro, Felipe Moraes, Filippo Pitanga, Francisco Carbone, Francisco Russo, Gabriel Carneiro, Guilherme Martins, Gustavo Joseph, Hélio Flores, Isabel Wittmann, Ivonete Pinto, Kamila Azevedo, Layo Barros, Leo Name, Luiza Luzvarghi, Marcelo Costa, Marcelo Miranda, Márcia Schmidt, Maria do Rosário Caetano, Mariane Morisawa, Michel Simões, Nayara Renaud, Paulo Henrique Silva, Pedro Butcher, Pedro Strazza, Rafael Argemon, Rafael Carvalho, Rodrigo Salem, Rodrigo Torres, Ronald Perrone, Samantha Brasil, Sandro Serpa, Saymon Nascimento, Sérgio Rizzo, Suzana Vidigal, Tatá Snow, Tatiana Babadoubolos, Tiago Faria, Tiago Ramos, Tuna Dwek, Vitor Búrigo, Wallace Andrioli.

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Oscar 2017: primeiro round de apostas

oscar 2017

Comecei tarde neste ano, mas aqui vão minhas primeiras apostas para as principais categorias do Oscar 2017. A base é a de sempre: os sites que acompanham a corrida pelo prêmio da Academia, as críticas dos filmes lançados e o retrospecto de indicados, não indicados e vencedores de anos anteriores. Apesar de um certo buzz em torno de La La Land, ainda não há um claro favorito ao prêmio principal. Além do filme de Damien Chazelle, Moonlight, Manchester à Beira-Mar e Fences parecem ter indicações garantidas neste ano e Silence, de Martin Scorsese, que ninguém viu ainda, também é uma aposta recorrente.

Entre as categorias de atuação, a de melhor atriz é a mais disputada, com Emma Stone, Natalie Portman e Annette Bening se revezando no favoritismo. Denzel Washington e Casey Affleck parecem as mais sólidas opções para melhor ator, enquanto a corrida de ator coadjuvante está bem embolada. Viola Davis, decretando para Hollywood que deve ser considerada coadjuvante, pode ter assegurado seu Oscar.

Será que a eleição de Donald Trump pode fazer a indústria, tradicionalmente mais liberal, se manifestar premiando filmes mais políticos e atores negros, como uma reação à postura xenóbofa, misógina e excludente do novo presidente? Há quem diga que sim, ainda mais depois de dois anos de #OscarSoWhite, numa época em que as mulheres conseguiram bons papéis e os filmes de cunho étnico chegaram em bom número.

A lista abaixo contempla os números de indicados nas principais categorias (as outras virão em breve) e traz minhas apostas pessoais (10 em melhor filme e 5 nas outras categorias) e mais uma relação de possibilidades e alternativas (em número igual ao total de indicados por categoria). Deixem seu comentários e suas apostas!

filme
minhas apostas

1 La La Land (Summit)
2 Manchester à Beira-Mar (Roadside)
3 Fences (Paramount)
4 Moonlight (A24)
5 Silence (Paramount)
6 Lion (Weinstein)
7 A Lei da Noite (Warner)
8 Jackie (Fox Searchlight)
9 Estrelas Além do Tempo (20th Century Fox)
10 Loving (Focus Features)

têm chances

11 Sully (Warner)
12 A Chegada (Paramount)
13 Até o Último Homem (Lionsgate)
14 Florence – Quem é Esta Mulher? (Paramount)
15 A Qualquer Custo (CBS)
16 Aliados (Paramount)
17 20th Century Women (A24)
18 Ouro e Cobiça (Weinstein)
19 Rules Don’t Apply (20th Century Fox)
20 Mogli – O Menino Lobo (Disney)

direção
minhas apostas

1 Damien Chazelle, La La Land
2 Denzel Washington, Fences
3 Barry Jenkins, Moonlight
4 Kenneth Lonergan, Manchester à Beira-Mar
5 Martin Scorsese, Silence

têm chances

6 Garth Davis, Lion
7 Ben Affleck, A Lei da Noite
8 Pablo Larraín, Jackie
9 Clint Eastwood, Sully
10 Dennis Villeneuve, A Chegada

ator
minhas apostas

1 Denzel Washington, Fences
2 Casey Affleck, Manchester à Beira-Mar
3 Tom Hanks, Sully
4 Warren Beatty, Rules Don’t Apply
5 Joel Edgerton, Loving

têm chances

6 Ryan Gosling, La La Land
7 Andrew Garfield, Silence
8 Andrew Garfield, Até o Ultimo Homem
9 Matthew McCounaughey, Ouro e Cobiça
10 Ben Affleck, A Lei da Noite

atriz
minhas apostas

1 Emma Stone, La La Land
2 Natalie Portman, Jackie
3 Annette Bening, 20th Century Wome
4 Meryl Streep, Florence: Quem é Essa Mulher?
5 Ruth Negga, Loving

têm chances

6 Amy Adams, A Chegada
7 Jessica Chastain, Miss Sloane
8 Taraji P. Henson, Estrelas Além do Tempo
9 Isabelle Huppert, Elle
10 Marion Cotillard, Aliados

ator coadjuvante
minhas apostas

1 Jeff Bridges, A Qualquer Custo
2 Hugh Grant, Florence: Quem é Essa Mulher?
3 Mahershala Ali, Moonlight
4 Lucas Hedges, Manchester à Beira-Mar
5 Liam Neeson, Silence

têm chances

6 Stephen McKinley Henderson, Fences
7 Dev Patel, Lion
8 Mykelti Williamson, Fences
9 Aaron Eckhardt, Sully
10 Michael Shannon, Animais Noturnos

atriz coadjuvante
minhas apostas

1 Viola Davis, Fences
2 Naomi Harris, Moonlight
3 Michelle Williams, Manchester à Beira-Mar
4 Nicole Kidman, Lion
5 Greta Gerwig, 20th Century Women

têm chances

6 Janelle Monae, Estrelas Alem do Tempo
7 Octavia Spencer, Estrelas Alem do Tempo
8 Sienna Miller, A Lei da Noite
9 Felicity Jones, Sete Minutos Depois da Meia-Noite
10 Molly Shannon, Other People

roteiro original
minhas apostas

1 Moonlight, Barry Jenkins
2 Manchester à Beira-Mar, Kenneth Lonergan
3 La La Land, Damien Chazelle
4 20th Century Women, Mike Mills
5 A Qualquer Custo, Taylor Sheridan

têm chances

6 Loving, Jeff Nichols
7 Jackie, Noah Oppenheim
8 Florence – Quem É Esta Mulher?, Nicholas Martin
9 Miss Sloane, Jonathan Perera
10 Toni Erdmann, Maren Ade

roteiro adaptado
minhas apostas

1 Fences, August Wilson
2 Lion, Luke Davies
3 Silence, Jay Cocks
4 Estrelas Além do Tempo, Allison Schroeder
5 A Chegada, Eric Heisserer

têm chances

6 A Lei da Noite, Ben Affleck
7 Até o Último Homem, Andrew Knight, Robert Schenkkan
8 Sully, Todd Komarnicki
9 Indignação, James Schamus
10 Amor & Amizade, Whit Stillman

filme estrangeiro
minhas apostas

1 Toni Erdmann (Alemanha), Maren Ade
2 O Dia Mais Feliz na Vida Olli Mäki (Finlândia), Juho Kuosmanen
3 O Ídolo (Palestina), Hany Abu Assad
4 Neruda (Chile), Pablo Larraín
5 Julieta (Espanha), Pedro Almodóvar

têm chances

6 Sieranevada (Romênia), Cristi Puiu
7 Fogo no Mar (Itália) Gianfranco Rosi
8 O Apartamento (Irã), Asghar Farhadi
9 De Longe Te Observo (Venezuela), Lorenzo Vigas
10 Land of Mine (Dinamarca), Martin Zandvliet

filme de animação
minhas apostas

1 Procurando Dory (Pixar)
2 Zootopia (Disney)
3 Kubo e as Cordas Mágicas (Laika/Focus Features)
4 A Tartaruga Vermelha (Sony Classics)
5 My Life as a Zucchini (GKIDS)

têm chances

6 Moana (Disney)
7 Miss Hokusai (GKIDS)
8 Abril e o Mundo Extraordinário (GKIDS)
9 Pets: A Vida Secreta dos Bichos (Universal)
10 Sing: Quem Canta Seus Males Espanta (Universal)

documentário
minhas apostas

1 O.J.: Made in America, Ezra Edelman
2 13th, Ava DuVernay
3 I Am Not Your Negro, Raoul Peck
4 Gleason, Clay Tweel
5 The Eagle Huntress, Otto Bell

têm chances

6 Life, Animated, Roger Ross Williams
7 Zero Days, Alex Gibney
8 The Ivory Game, Kief Davidson, Richard Ladkani
9 Tower, Keith Maitland
10 Weiner, Josh Kriegman & Elyse Steinberg

fotografia
minhas apostas

1 Silence, Rodrigo Prieto
2 La La Land, Linus Sandgren
3 A Chegada, Bradford Young
4 Jackie, Stéphane Fontaine
5 A Lei da Noite, Robert Richardson

têm chances

6 Ave, César!, Roger Deakins
7 Rules Don’t Apply, Caleb Deschanel
8 Animais Noturnos, Seamus McGarvey
9 Mogli, o Menino Lobo, Bill Pope
10 Café Society, Vittorio Storaro

montagem
minhas apostas

1 La La Land, Tom Cross
2 Silence, Thelma Schoonmaker
3 A Lei da Noite, William Goldenberg
4 Sully, Blu Murray
5 Fences, Hughes Winborne

têm chances

6 Até o Último Homem, John Gilbert
7 Lion, Alexandre de Francheschi
8 Moonlight, Joi McMillon, Nat Sanders
9 A Chegada, Joe Walker
10 Manchester à Beira-Mar, Jennifer Lame

desenho de produção
minhas apostas

1 La La Land, David Wasco; Sandy Reynolds-Wasco
2 Silence, Dante Ferretti; Francesca Lo Schiavo
3 A Lei da Noite, Jess Gonchor; Nancy Haigh
4 Animais Fantásticos e Onde Habitam, Stuart Craig, James Hambige; Anna Pinnock
5 A Criada, Ryu Seong-he

têm chances

6 Jackie, Jean Rabasse; Veronique Melery
7 A Chegada, Patrice Vermette; Paul Hotte
8 Rules Don’t Apply, Jeannine Oppewall; Nancy Haigh
9 Florence – Quem É Essa Mulher?, Alan MacDonald
10 Aliados, Gary Freeman; Raffaella Giovannetti

figurinos
minhas apostas

1 Silence, Sandy Powell
2 Jackie, Madeline Fontaine
3 A Lei da Noite, Jacqueline West
4 Animais Fantásticos e Onde Habitam, Colleen Atwood
5 La La Land, Mary Zophres

têm chances

6 Aliados, Joanna Johnston
7 Amor e Amizade, Eimer Ni Mhaoldomhnaigh
8 A Criada, Seong-hie Ryu
9 Florence – Quem É Essa Mulher?, Consolata Boyle
10 Rules Don’t Apply, Albert Wolsky

maquiagem
minhas apostas

1 Star Trek: Sem Fronteiras
2 Jackie
3 Até o Último Homem

têm chances

4 Silence
5 Animais Fantásticos e Onde Habitam
6 Florence – Quem É Esta Mulher?
7 Rogue One: Uma História Star Wars

trilha sonora
minhas apostas

1 O Bom Gigante Amigo, John Williams
2 Animais Fantásticos e Onde Habitam, James Newton Howard
3 Florence – Quem É Essa Mulher?, Alexandre Desplat
4 A Chegada, Jóhann Jóhannsson
5 La La Land, Justin Hurwitz

têm chances

6 Mogli, o Menino Lobo, John Debney
7 Jackie, Mica Levi
8 Silence, Kim Allen Kluge, Kathryn Kluge
9 Lion, Hauschka, Dustin O’Halloran
10 Rogue One: Uma História Star Wars, Michael Giacchino

canção
minhas apostas

1 “Audition (The Fools Who Dream)”, La La Land
2 “How Far I’ll Go”, Moana
3 “City of Stars”, La La Land
4 “I See a Victory”, Hidden Figures
5 “I’m Still Here”, Miss Sharon Jones!

têm chances

6 “Runnin’, Hidden Figures
7 “Can’t Stop the Feeling!”, Trolls
8 “We Know the Way”, Moana
9 “A Letter to the Free”, 13th
10 “Rules Don’t Apply”, Rules Don’t Apply

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Snowden: Herói ou Traidor

Snowden

Snowden perde um pouco de seu poder aterrorizante se você assistiu, alguns dias antes, o documentário Zero Days, sobre como os EUA invadiram e desestabilizaram vários sistemas operacionais no Irã e podem e fazem o mesmo com você. Mas a história do homem que revelou o Big Brother da vida real patrocinado pela “América” ainda tem seu lado fascinante. A grande questão é que, na intenção de colocar Edward Snowden como herói solitário, posto com o qual certamente deve se identificar, Oliver Stone realiza uma biografia burocrática do “inimigo íntimo” número um da terra que elegeu Donald Trump.

Ainda que use uma montagem não-linear para dar mais dinâmica ao filme, Stone sempre esbarra em tentativas didáticas de mostrar os embates éticos do personagem. Joseph Gordon Levitt está correto como protagonista, a não ser pela incômoda ideia de emular o sotaque de Snowden, o que deixa cenas dramáticas quase engraçadas. Na ânsia de fazer um retrato fiel, Stone parece não estar muito disposto a experiências visuais, o que faz bastante diferença diante da história de um mestre dos computadores. A fotografia, geralmente acomodada, ajuda a passar esta impressão de frieza ao filme.

Há poucos momentos inspirados. O melhor deles é quando Snowden é confrontado por seu chefe numa sala de reuniões. Os dois falam por um telão, mas Stone gigantifica o personagem de Rhys Ifans, como se o embate homem contra sistema acontecesse diante de nossos olhos. A meia hora final funciona porque a tensão finalmente é adicionada ao filme e a reprodução das cenas do documentário Citizenfour ganham agilidade. O resto é clichê de um Oliver Stone sempre fadado a se repetir.

Snowden: Herói ou Traidor EstrelinhaEstrelinha½
[Snowden, Oliver Stone, 2016]

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Martírio

Martírio

É muito provável e muito lamentável que Martírio nunca seja lançado no circuito comercial. Provável porque o documentário indigenista de Vincent Carelli é um filme grande (cerca de duas horas e quarenta minutos de registros de massacres de tribos no Mato Grosso) e, principalmente, porque é um filme imenso, muito além de méritos estritamente cinematográficos. Em sua investigação histórico-social do tratamento dispensado aos Guarani-Kaiowás pelos fazendeiros, políticos e autoridades brasileiras nos últimos 40 anos, Carelli monta um panorama vasto, detalhado e complexo para mostrar como o preconceito e a caça aos índios são movidos por interesses econômicos seculares e já estão completamente introjetados na sociedade brasileira.

Como Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho, filme-mosaico da programação televisiva do país, Carelli utiliza muitas imagens de TV, registros de encontros, palestras e manifestações públicas e ataca frontalmente políticos e líderes nacionais, como a ex-ministra Kátia Abreu, a partir de seus próprios discursos. Um dos pontos mais grotescos capturados pela montagem do documentário é o depoimento do governador de Mato Grosso no Congresso, onde ele classifica os índios como assassinos selvagens que querem impedir que o homem branco, trabalhador, trabalhe.

No filme que resume sua vida, seu trabalho junto à causa indígena, Carelli remonta a historiografia do massacre do primeiro brasileiro, seu choro, sua luta. Há muitos momentos emocionantes no filme, mas dois são particularmente especiais: um é quando a câmera do diretor encontra o rosto de uma velhinha guarani-kaiowá que não consegue parar de chorar. Por um ou alguns minutos, é possível experimentar um pouco da dor daquele povo, expulso de sua própria terra, através das lágrimas daquela mulher.

O segundo momento é uma cena que faz desmoronar um dos pensamentos mais comuns e oportunistas contra o direito do índio, o de que a população indígena já está suficientemente mesclada à sociedade do homem branco, a de que o índio já está aculturado, perdeu sua pureza e com ela seu direito. Um entendimento que, por pouco não foi parar na Constituição, quando foi proposto que índios “aculturados” não deveriam estar aptos a ter terras demarcadas, por exemplo, como se tivessem atingido seu ápice civilizatório sendo brasileiros. A imagem que desmonta esse discurso é a de um índio, de terno e gravata, no microfone da Câmara Federal, explicando sua origem, enquanto pinta seu rosto de preto. Uma imagem para nunca esquecer.

Se tivesse apenas estas duas imagens, Martírio já seria grande, mas a obra de Vincent Carelli vai muito além do cinema. Seus méritos são muito mais humanistas do que necessariamente cinematográficos. Pelo filme único e inimitável que é, pelo fato de que nunca se poderá copiá-lo ou refazê-lo, Martírio é um marco histórico não apenas no documentário nacional ou no cinema brasileiro, mas na história do humanismo.

Martírio ★★★★½
[Vincent Carelli, 2016]

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Através da Sombra

Através da Sombra

Através da Sombra parecia um projeto perfeito para Walter Lima Jr. Um filme que poderia facilmente morar no intervalo entre o clássico de Menino de Engenho e o devaneio de A Lira do Delírio. Mas o cineasta de tantos êxitos parece não conseguir dar amarras a esta adaptação da mesma novela de Henry James que inspirou Os Inocentes, de Jack Clayton. Se o filme de 1961 nunca se entregava completamente ao espectador, criando um efeito complexo de suspensão da realidade, a versão tropical de A Outra Volta do Parafuso, transposta pelo próprio Lima Jr com diálogos de Adriana Falcão para o Brasil dos anos 1930, parece domesticada, explicadinha e incapaz de instaurar o clima de terror que o texto pede. O roteiro tenta acrescentar tanto um subtexto político quanto elementos de tensão sexual à história, mas eles ficam dispersos e nunca se desenvolvem propriamente.

É perceptível o esforço de Virginia Cavendish, que também produziu o filme, para colocar a protagonista num limbo entre o terror e a alucinação, mas sua histeria nunca realmente convence. A dupla de crianças com quem contracena não ajuda: podem ser bons atores de novela, mas não conseguem chegar a uma segunda camada, menos superficial, como pede a história. Curiosamente, apesar da equipe experiente, nem a fotografia nem a direção de arte funcionam plenamente em Através da Sombra. A câmera é bastante preguiçosa: nunca procura um ângulo sequer mais inventivo, raramente tenta acompanhar o delírio da personagem principal. Os figurinos são um dos pontos mais incômodos porque os atores parecem, praticamente em todas as cenas, vestirem fantasias, o que reforça a sensação de estarem apenas caminhando num cenário.

As cenas no trem, por exemplo, parecem querer projetar um certo distanciamento da realidade, mas soam somente artificiais – e com atores muito mal dirigidos. Falta rigor e uma mão mais forte em praticamente quase todos os aspectos do filme, o que deixa a história frouxa e o que sobra, sem rédea. É realmente uma pena porque o talento de Walter Lima Jr poderia ajudar a dar elegância e corpo ao cinema de gênero brasileiro que parece ganhar cada vez mais novos adeptos entre os cineastas recentes. O mestre ficou devendo desta vez.

Através da Sombra ★★
[Walter Lima Jr, 2015]

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Pequeno Segredo

Pequeno Segredo

A escolha de Pequeno Segredo para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro selou a sina do longa de David Schurmann: o drama familiar dirigido pelo velejador virou inimigo público número um da democracia por ter tirado a vaga de Aquarius do ringue hollywoodiano. Natural. O filme estrelado por Sonia Braga que se transformou em símbolo da luta contra o impeachment de Dilma Roussef seria, na visão de grande parte da população, o candidato natural ao pleito, enquanto o segundo trabalho de Schurmann sequer havia sido visto por alguém. Pequeno Segredo foi julgado, condenado e apedrejado com a mesma intolerância com que um homossexual ou uma mulher adúltera encontra em países regidos por fundamentalistas. Sequer foi visto, já era considerado execrável.

As coisas mudam a partir de agora, quando o filme finalmente chega aos cinemas. A avaliação, desta vez, é baseada em fatos reais, assim como a história do longa, que anuncia sua nobre origem já em seus créditos iniciais, com um lettering que cruza a tela seguido por uma marca d’água que repete a frase numa espécie de caligrafia clonada, como se Schurmann quisesse deixar claro, desde o começo, o lado humano da história. “Baseado em fatos reais” tem cada vez mais sido usado como referendo para qualquer tipo de obras, especialmente filmes, como se o fato de aquela história que está sendo contada fosse mais importante do que uma trama original. Em Pequeno Segredo, o carimbo ajuda a amaciar a inexperiência do diretor na ficção. Seu primeiro longa, Desaparecidos, que pode ser encontrado na íntegra no YouTube, não traz um exemplo muito eficiente de talento dramático.

Mas o novo filme parece um passo além. Pelo menos na maquiagem das inconsistências. Schurmann se cercou por colaboradores mais experientes, alguns até vencedores do Oscar; recrutou atores conhecidos, como Julia Lemmertz e Marcello Anthony, além de chamar Fionula Flanagan para uma participação especial; e parece realmente incumbido de contar uma história de maneira poética. A questão que seu senso de poesia, desde a marca d’água dos créditos, parece bastante questionável, seja visualmente quanto nos diálogos e no desenho dos personagens. O filme é cheio de imagens-clichê como a borboletinha virtual que dá suas caras aqui e ali, que só não incomodam mais do que a cena em que a personagem de Julia Lemmertz confronta a de Flanagan (que parece caçoar do espectador com sua vilã caricata), perguntando “o que é o amor?”.

O texto, coescrito por Marcos Bernstein, um dos autores de Central do Brasil, parece poesia ruim de aluno da quarta série. Sua incompetência falha quando a intenção é emocionar e só facilita o trabalho dos críticos, que não é tão simples, diante de uma história bonita de altruísmo e dedicação. O mais complexo na análise de um filme como Pequeno Segredo é que ele transborda boas intenções em cada cena. Schurmann dedica o filme a sua mãe e a sua irmã, o que é bastante coerente com o fato de que as duas são as protagonistas absolutas do longa. Num esforço de talvez tentar manter algum distanciamento da trama que está contando, uma história tão próxima dele, o diretor praticamente elimina a si mesmo e a seus irmãos como personagens do filme. Eles aparecem em algumas cenas, mas sem ser nominados, o que causa no mínimo um certo desconforto.

A fragilidade do filme revolta mais do que seu bom mocismo. Este parece ser um panfleto ideal para os tempos de hoje: seu visual envernizado serve para encobrir a falta de criatividade; sua armadura sentimental ajuda a esconder as inconsistências e a incapacidade de flexão dramática; e sua assinatura, “baseado em fatos reais”, é um escudo que protege tanto a falta de textura quanto o maniqueísmo de uma história que se pretende inspiradora. A comissão do Oscar estava certa mesmo: Pequeno Segredo é o representante natural para o Brasil neste momento obtuso em que vivemos.

Pequeno Segredo ★½
[David Schurmann, 2016]

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Oscar 2017: os estrangeiros

A Academia anunciou a lista final de filmes que disputam uma vaga na corrida pelo Oscar de língua estrangeira e o recorde de número de inscritos foi batido mais uma vez. Oitenta e nove países selecionaram seus candidatos oficiais, mas apenas 85 aparecem na lista da Academia (quatro a mais do que no ano passado). Os motivos para os cortes ainda não foram revelados (nem sabemos se serão), mas geralmente eles passam pela real nacionalidade de um filme e pela quantidade de diálogos que ele tem na língua do país que o indicou. Saíram da disputa:

Afeganistão: Parting, Navid Mahmoudi
Armênia: Earthquake, Sarik Andreasyan
Camarões: Yahan Ameena Bikti Hai, Kumar Raj
Tunísia: As I Open My Eyes, Leyla Bouzid

A tendência natural dos países é privilegiar filmes que estrearam em grandes festivais, como a Itália, que elegeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim, Fogo no Mar; a Venezuela, cuja escolha foi o vencedor de Veneza no ano passado, De Longe Te Observo; e ainda Alemanha, França, Espanha, Romênia e Canadá, que elegeram seus filmes em Cannes, só para citar alguns exemplos. Diretores reconhecidos estão na disputa deste ano: Paul Verhoeven, Danis Tanovic, Hany Abu-Assad, Andrzej Wajda, morto recentemente, e Andrei Konchalovsky, todos ou já premiados ou já indicados na categoria. O Brasil decidiu seguir uma estratégia diferente. Em vez do prestigiado Aquarius, celebrado em Cannes e que agora chega aos cinemas franceses elogiadíssimo pela Cahiers du Cinema, preferiu o obscuro Pequeno Segredo, de David Schurmann, sob o pretexto de ser “a cara do Oscar”.

Vejam os 85 filmes confirmados:

África do Sul: Call Me Thief, Daryne Joshua
Albânia: Chromium, Bujar Alimani
Alemanha: Toni Erdmann EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Maren Ade
Arábia Saudita: Barakah Meets Barakah, Mahmoud Sabbagh
Argélia: The Well, Lotfi Bouchouchi
Argentina: O Cidadão Ilustre, Mariano Cohn e Gastón Duprat
Austrália: Tanna EstrelinhaEstrelinha½, Martin Butler & Bentley Dean
Áustria: Stefan Zweig: Farewell to Europe, Maria Schrader
Bangladesh: The Unnamed, Tauquir Ahmed
Bélgica: The Ardennes, Robin Pront
Bolívia: Sealed Cargo, Julia Vargas-Weise
Bósnia Herzegovina: Morte em Sarajevo EstrelinhaEstrelinha, Danis Tanovic
Brasil: Pequeno Segredo Estrelinha½, David Schurmann
Bulgária: Losers, Ivaylo Hristov
Camboja: Before the Fall, Ian White
Canadá: É Apenas o Fim do Mundo, Xavier Dolan
Cazaquistão: Amanat, Satybaldy Narymbetov
Chile: Neruda, Pablo Larrain
China: Xuan Zang, Huo Jianqi
Colômbia: Alias Maria, José Luis Rugeles Gracia
Coreia do Sul: The Age of Shadows, Kim Jee-Woon
Costa Rica: Entonces Nosotros, Hernán Jiménez
Croácia: On the Other Side, de Zrinko Ogresta
Cuba: El Acompañante, Pavel Giroud
Dinamarca: Land of Mine, Martin Zandvliet
Egito: Clash, Mohamed Diab
Eslováquia: Eva Nová, Marko Škop
Eslovênia: Houston, We Have a Problem!, Žiga Virc
Equador: Sin Muertos no Hay Carnaval, Sebastián Cordero
Espanha: Julieta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Pedro Almodóvar
Estônia: Mother, Kadri Kõusaare
Filipinas: Ma’ Rosa EstrelinhaEstrelinha½, Brillante Mendoza
Finlândia: O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Juho Kuosmanen
França: Elle EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Paul Verhoeven
Geórgia: House of Others, Russudan Glurjidze
Grécia: Chevalier, Athina Rachel Tsangari
Holanda: Tonio, Paula van der Oest
Hong Kong: Port of Call, Philip Yung
Hungria: Kills on Wheels, Atilla Till
Iêmen: I Am Nojoom, Age 10 and Divorced, Khadija Al-Salami
Índia: Visaranai, Vetrimaaran
Indonésia: Letters from Prague, Angga Dwimas Sasongko
Irã: O Apartamento EstrelinhaEstrelinha, Asghar Farhadi
Iraque: El Clásico, Halkawt Mustafa
Islândia: Pardais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Rúnar Rúnarsson
Israel: Sand Storm, Elite Zexer
Itália: Fogo no Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Gianfranco Rosi
Japão: Nagasaki: Memories of my Son, Yôji Yamada
Jordânia: 3000 Nights, Mai Masri
Kosovo: Home Sweet Home, Faton Bajraktari
Letônia: Dawn, Laila Pakalniņa
Líbano: Very Big Shot, Mir-Jean Bou Chaaya
Lituânia: Seneca’s Day, Kristijonas Vildziunas
Luxemburgo: Voices from Chernobyl, Pol Cruchten
Macedônia: The Liberation of Skopje, Rade Šerbedžija, Danilo Šerbedžija
Malásia: Beautiful Pain, Tunku Mona Riza
Marrocos: A Mile in My Shoes, Said Khallaf
México: Deserto, Jonás Cuarón
Montenegro: The Black Pin, Ivan Marinovic
Nepal: The Black Hen, Min Bahadur Bham
Noruega: The King’s Choice, Erik Poppe
Nova Zelândia: A Flickering Truth, Pietra Brettkelly
Palestina: O Ídolo, Hany Abu-Assad
Panamá: Salsipuedes, Ricardo Aguilar Navarro & Manuel Rodríguez
Paquistão: Mah e Mir, Anjum Shahzad
Peru: Videophilia (and Other Viral Syndromes), Juan Daniel Fernández
Polônia: Afterimage, Andrzej Wajda
Portugal: Cartas da Guerra, Ivo M. Ferreira
Quirguistão: A Father’s Will, Bakyt Mukul, Dastan Japar Uulu
Reino Unido: Sob as Sombras EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Babak Anvari
República Dominicana: Flor de Azucar, Fernando Baez
República Tcheca: Lost in Munich, Petr Zelenka
Romênia: Sieranevada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Cristi Puiu
Rússia: Paradise, Andrei Konchalovsky
Sérvia: O Diário de um Maquinista EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Miloš Radović
Singapura: Apprentice, Boo Junfeng
Suécia: A Man Called Ove, Hannes Holm
Suíça: My Life as a Courgette, Claude Barras
Tailândia: Karma, Kanittha Kwanyu
Taiwan: Hang in There, Kids!, Laha Mebow
Turquia: Cold of Kalandar, Mustafa Kara
Ucrânia: Ukrainian Sheriffs, Roman Bondarchuk
Uruguai: Breadcrumbs, Manane Rodriguez
Venezuela: De Longe Te Observo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Lorenzo Vigas
Vietnã: Yellow Flowers on the Green Grass, Victor Wu

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