Trailer: Vingadores: Era de Ultron

Vingadores: Era de Ultron
[Avengers: Age of Ultron, Joss Whedon, 2015]

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Mostra SP 2014: post onze

Noites Brancas no Píer

Noites Brancas no Píer EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Nuits Blanches sur la Jetée, Paul Vecchiali, 2014]

Paul Vecchiali elege a palavra como centro de seu cinema em Noites Brancas no Píer. A releitura da novela de Dostoievski tem uma cenografia mínima e um cenário único, o que ressalta o poder do texto do mestre russo, que conta a história de um homem e uma mulher que se conhecem e passam a dividir segredos até que surge o amor. O diretor trabalha praticamente com dois atores (ele mesmo faz uma ponta no início e há um flashback em que o protagonista conversa com a mãe), reforçando que a encenação também está a serviço da palavra. Para o cineasta, quanto menos elementos adornarem os diálogos, mais eles se mostram fundamentais. Quando os personagens não estão num plano aberto, emoldurados “pelo mundo”, a iluminação é alternada para escolher aquele que está com a palavra. Vecchiali não se preocupa em “traduzir” o texto de Dostoievski. As interpretaçõessão anti-naturalistas, em especial a de Pascal Cervo. Embora ele acompanhe o ritmo do longa, os holofotes vão para Astrid Adverbe, que apresentou a sessão, excelente quase que todo o tempo e dona da cena mais bonita do filme, em que estrela um balé para a câmera. O filme pode parecer excessivamente teatral, mas revela um cineasta bem particular.

Filha

Filha Estrelinha½
[Dukhtar, Afia Nathaniel, 2014]

Filha é o primeiro longa-metragem de Afia Nathaniel, que pode ser considerada uma heroína só de conseguir fazer um filme tão bem produzido num país com tradição zero em cinema. As boas notícias terminam por aí já que o longa de estreia da diretora se apóia única e exclusivamente no quão exótica a história que conta pode parecer para quem está fora do Paquistão. A cineasta parte de uma premissa bem intencionada, denunciar o costume dos casamentos arranjados com crianças para selar disputas, mas segue um modelinho batido de dramalhão televisivo que trabalha basicamente com a pena devemos sentir das personagens. Figurinos coloridos, paisagens bonitas e uma trilha sonora que “explica” ao espectador que reação ele deve ter são costurados a sonhos premonitórios e com algum grau de metafísica para vender melhor a trama. O galã bollywoodiano de chapinha não ajuda a dar mais credibilidade ao filme.

Heróis Improváveis

Heróis Improváveis EstrelinhaEstrelinha
[Schweizer Helden, Peter Luisi, 2014]

O cinema suíço não tem um perfil público, como a produção de outros países do centro-leste europeu, o que abre espaço para comédias nonsense ou pequenos dramas de superação, caso deste Heróis Improváveis, bem influenciado pela narrativa das Sessões da Tarde hollywoodianas. O filme acompanha uma mulher madura que se sente solitária depois que foi abandonada pelo marido e após a filha sair de casa e descobre que pode ensinar teatro para um grupo de refugiados políticos que tentam conseguir abrigo na Suíça. A partir daí, o clássico modelo de um-personagem-aprende-com-o-outro é pilotado pelo diretor Peter Luisi, com algum carinho em compor os personagens. O destaque vai para a boa protagonista, Esther Gemsch, que empresta delicadeza a sua Sabine. Nada que o espectador guarde na memória por muito tempo.

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Mostra SP 2014: post dez

Livre

Livre EstrelinhaEstrelinha
[Wild, Jean-Marc Vallée, 2014]

Depois de um trabalho tão simples e bem resolvido como Clube de Compras Dallas, o novo filme de Jean-Marc Vallée, Livre, que ainda tem a assinatura de Nick Hornby no roteiro, parece um pouco decepcionante. Seguindo a linha das viagens transformadoras, o longa traz a história real de Cheryl Strayed, uma mulher que sai para uma trilha de milhares de quilômetros em busca da cura para as feridas de uma vida de sofrimento. Um dos grandes problemas do filme é exatamente que Vallée, Hornby nem Reese Whitherspoon conseguem dar a dimensão das tragédidas na vida da protagonista. A sensação é que ela sofre por ter tido uma história comum a muita gente ou mais fácil do que tantas outras por aí. Seu desespero nunca consegue ser propriamente justificado e a solução encontrada para remontar sua vida, um excesso de flashbacks e de “fantasminhas” incomoda. Mesmo os medianos Na Natureza Selvagem, que pelo menos tem uma filosofia, e 127 Horas, com um protagonista infinitamente mais inspirado, exploram melhor a relação de encontro com a natureza. A viagem de Cheryl parece mais um passeio e Reese, que ficou mais bonita depois de madura, não impressiona em nenhuma cena (e ainda assim está cotada para o Oscar).

Ciências Naturais

Ciências Naturais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Ciencias Naturales, Matías Lucchesi, 2014]

Este primeiro longa-metragem do argentino Matías Lucchesi revela algumas fragilidades, mas insinua um autor delicado na busca da verdade de suas personagens. A protagonista do filme é Lila, interpretada por uma promissora Paula Galinelli Hertzog, uma adolescente bicho-do-mato que estuda num internato no meio da Patagônia e está determinada a encontrar pai biológico que nunca conheceu. Para justificar o título do longa, o diretor deu à personagem principal uma única aliada, a professora de ciências. Os cenários naturais ajudam e Lucchesi os filma sem afetação, o que, combinada com a trilha, garante uma ambientação melancólica, simples e honesta. Em pouco mais de 70 minutos, as duas enfrentam uma pequena jornada com todos os tropeços e ingenuidades que o tema e a inexperiência do cineasta de primeira viagem permitem, mas cujo desfecho, silencioso e bonito, amarra de maneira sofisticada uma história simples.

Camaradas

Camaradas EstrelinhaEstrelinha
[Camarades, Marin Karmitz, 2014]

Camaradas é um panfleto comunista dirigido Marin Karmitz, homenageado pela Mostra por sua carreira espetacular como faz-tudo do cinema. O filme conta a história de um jovem idealista que não consegue se decidir sobre seu futuro e começa a e envolver com o ativismo político. Enquanto diretor, Karmitz aqui parece ingênuo, mas firme em suas convicções esquerdistas. O mais surpreendente do filme é como ele assume a condição de propaganda ideológica e encontra um formato até interessante para conduzi-la, utilizando canções, verdadeiros hinos socialistas, para costurar a narrativa.

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Mostra SP 2014: post nove

A Gangue

A Gangue EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Plemya, Miroslav Slaboshpitsky, 2014]

Se ficarmos no clichê, A Gangue é uma monumental “experiência sensorial”. Afinal, qual foi a última vez que fizeram um filme de 132 minutos completamente “falado” em linguagem de sinais? A proposta parece assustadora, mas é exatamente disso que se trata o projeto: derrubar pré-conceitos. Nas primeiras imagens, o letreiro informa que o filme não trará legenda alguma para traduzir os gestos que os personagens do longa, principalmente garotos e garotas que moram numa espécie de internato para surdo-mudos, fazem para se comunicar. Ao espectador comum, é oferecida a experiência de ver o filme em condições semelhantes às que um deficiente auditivo assiste a um longa “normal”. Mas o que poderia se transformar num experimento típico de festival de cinema se revela um filme poderoso sobre jovens que raramente encontram “voz” numa Ucrânia dominada, nos mais variados níveis, pela corrupção.

O cineasta, que deve ser um fiel espectador dos filmes da vizinha Romênia, pega emprestado em seu primeiro longa-metragem, a maneira documental de contar uma história de ficção e cria um conceito estético que dá um ritmo surpreendente ao longa: cada cena é um plano-sequência comprido, mas cheio de movimento, geralmente com vários personagens interagindo. A fórmula funciona para capturar a atenção de quem assiste e ajuda a decodificar a linguagem de A Gangue. É impossível decifrar cada diálogo, mas a história envolvente é desenhada sem grandes traumas. O sexo e a violência, que geraram certa polêmica aparecem naturalmente na trama, completamente costurados ao desenrolar da ação. Mais do que a “experiência sensorial” que o filme vende, A Gangue é a prova de que o cinema ainda continua a driblar os limites da linguagem.

A Caverna

A Caverna Estrelinha½
[La Cueva, Alfredo Montero, 2014]

O segundo filme do espanhol Alfredo Montero é uma sucessão de tropeços. O primeiro deles é transformar seus cinco protagonistas num bando de idiotas que saem numa excursão “muito maneira” por lugares selvagens e descolados. Quando os personagens começam a viver uma experiência perigosa, ninguém está mais torcendo por qualquer um deles. O segundo problema é se apoiar numa estética que já está exaurida há algum tempo: a do terror feito por câmeras de vídeo que passa a impressão de “vida real” inaugurada por A Bruxa de Blair e banalizada em trocentos filmes como a série Atividade Paranormal. O terceiro – e talvez o pior – é retomar todos os temas possíveis derivados do isolamento, sempre da maneira mais tradicional. Embora garanta alguns sustos, A Caverna é uma reciclagem tão gratuita que seus 80 minutos parecem uma eternidade.

Mateo

Mateo EstrelinhaEstrelinha
[Mateo, Maria Gamboa, 2014]

A estreante Maria Gamboa tenta tornar Mateo um filme importante dentro de um pouco profícuo cinema colombiano. Cria uma história que cutuca as estruturas de poder em pequenas comunidades, a violência da periferia e alerta para como a juventude se seu país se encanta pelo crime como uma forma de mudança de vida. O problema é que fora dos limites de seu país o filme, eleito pela Colômbia para disputar o Oscar, parece uma experiência bem-intencionada, mas muito banal. A dramaturgia parece televisiva e o encantamento do protagonista pelo grupo de teatro que deveria espionar guarda algumas semelhanças com o brasileiro, Tatuagem, que é muito mais refinado, bem dirigido e interpretado. Diante disso, Mateo é mais curioso do que necessariamente um bom filme.

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Mostra SP 2014: post oito

Sinfonia da Necrópole

Sinfonia da Necrópole EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas, 2014]

O horror sempre foi material de trabalho para Juliana Rojas. Os elementos fantásticos e sobrenaturais estão presentes em praticamente todos seus curtas e em seu longa de estreia, Trabalhar Cansa, codirigido pelo parceiro de sempre, Marco Dutra. O que ninguém imaginava é que em seu primeiro trabalho solo, Juliana fosse usar o terror apenas como ambientação para fazer um musical. Sinfonia da Necrópole é um filme único no cinema brasileiro recente, uma mistura de gêneros que, no olhar particular da diretora, encontrou um formato diferente e bem resolvido. Há um clara evolução na direção de atores, na montagem e no próprio fluxo do roteiro em relação ao longa anterior (assim como no primeiro trabalho solo de Dutra, Quando Eu Era Vivo). As músicas de ambos os filmes, por sinal, parecem fazer parte do mesmo disco: de melodias bonitas, autorais, de estruturas complexas. Elas ajudam Juliana a contar a história do aprendiz de coveiro que é convocado para para fazer o recadastramento de túmulos abandonados no cemitério. À medida em que analisa e ironiza o crescimento urbano e homenageia, inclusive no título, Berlim, Sinfonia da Metrópole, Juliana Rojas encontra uma maneira completamente original de fazer cinema no Brasil.

As Horas Finais

As Horas Finais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[These Final Hours, Zak Hilditch, 2014]

As Horas Finais é uma peça rara no cinema de ficção-científica com poucos recursos feito sobretudo longe dos Estados Unidos. O maior acerto do australiano Zak Hilditch foi de acreditar no potencial dramático de seu material, apostando em diálogos fortes, administrando uma melancolia sincera e fugindo de toda e qualquer solução fácil para as dezenas de armadilhas que o gênero, o filme apocalíptico, prepara. Entendemos a motivação de James em fugir para aquela que promete ser a última grande festa do planeta, que poderia ser um alívio cômico para o filme, mas se revela um ambiente de desespero, à mesma medida em que entendemos quando ele atrasa seus planos para ajudar Rose. Hilditch espalha pelo filme pequenos detalhes que ajudam a compor o cenário da catástrofe iminente. Essa inteligência também se percebe na condução de atores. Além de Rose, vivida pela pequena e ótima Angourie Rice, há pelos menos duas grandes atrizes no filme: Kathryn Beck, que faz Vicky, a namorada de James, e Lynette Curran, que interpreta a mãe do protagonista, brilhante em cada minuto da cena em que aparece. A relação entre mãe e filho é costurada de maneira dura e sem concessões. Um filme para comemorar.

A Professora do Jardim da Infância

A Professora do Jardim da Infância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hagenenet, Nadav Lapid, 2014]

Este filme oferece uma oportunidade para variar o leque temático que geralmente é oferecido pelo cinema israelense. Pelo menos o que atravessa o Atlântico. Yoav, o menino prodígio de cinco anos que faz poemas intrincadíssimos, é a personagem central do longa sobre a obsessão de uma mulher. Em seu segundo longa-metragem, Nadav Lapid discute os limites da relação entre professor e aluno e a exploração da criança pelo adulto, colocando a ética e a sanidade no cento do debate e costurando o filme na linha do suspense psicológico. Ainda que o adorável garotinho Avi Shnaidman pareça muito cru para dar credibilidade a sua personagem, Sarit Larry se entrega com tanta intensidade ao papel-título que rouba o filme para ela.

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Mostra SP 2014: post sete

Casa Grande

Casa Grande EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Casa Grande, Fellipe Barbosa, 2014]

O grande cinema brasileiro nos últimos tempos é aquele cuja narrativa ousada vira plataforma para o discurso político de seus autores. A ousadia na linguagem parecia ser o principal caminho para a revolução. Fellipe Barbosa, em sua estreia num longa-metragem de ficção, encontrou uma forma mais simples de fazer seu comentário sobre a situação econômica brasileira, transformando experiências reais vividas por ele mesmo num filme irônico e de discurso direto sobre a crise da classe média do país. Filmou no bairro onde cresceu e na escola em que estudou – e utilizou no elenco pessoas que conhecem de perto a realidade que o Casa Grande apresenta. Thales Cavalcanti interpreta o adolescente coxinha que estuda num colégio tradicional e se apaixona pela aluna de uma escola pública enquanto seu pai (Marcello Novaes muito bem) vive uma derrocada financeira. Sem grandes arquiteturas de roteiro, Barbosa monta um mosaico que engloba a família, os colegas e os empregados da casa do protagonista. Os diálogos irônicos devassam os mínimos detalhes em relação a cada situação e a cada personagem. Todos, por sinal, são tratados com extremo carinho pelo diretor, como se ele buscasse entender suas motivações, mas sem deixar de questioná-los. Poucas vezes um filme brasileiro tratou tão bem e tão amplamente de um tema tão complexo, com tantos braços e pernas e tentáculos. E o melhor: com um humor inteligente que não se nivela com a comédia rasa brasileira produzida a quilo por aí e que também não ameniza as coisas para nenhum lado.

A Moça e os Médicos

A Moça e os Médicos EstrelinhaEstrelinha½
[Tirez la Langue, Mademoiselle, Axelle Ropert, 2014]

Depois de um filme de estreia excelente como A Família Wolberg, exibido na Mostra cinco anos atrás, é de certa forma decepcionante assistir ao novo longa de Axelle Ropert. A Moça e os Médicos está longe de ser um filme ruim, mas a maneira como a diretora constrói a trama deixa pouquíssimo espaço para que se desenvolva o mote principal do filme, o amor de dois irmãos, médicos e parceiros profissionais, pela mesma mulher. Metade do longa é reservada para apresentar essas duas personagens, suas rotinas, sua relação íntima. Um deles é vivido pelo cineasta Cédric Kahn, numa rara aparição como ator, que divide as cenas com Laurent Stocker, da Comédie Française. Os diálogos diferenciados e a maneira original de olhar para um lugar comum, que brotam no filme anterior da diretora, aqui são trocados por uma maneira bem mais convencional de lidar com as motivações das personagens. Ainda assim, depois que se estabelece, o filme cresce bastante.

Lamento

Lamento EstrelinhaEstrelinha½
[Lamento, Jöns Jönsson, 2014]

O grande trunfo de Lamento é sua protagonista, a ótima Gunilla Röör, que dá literalmente vida a Magdalena, uma mulher que não sabe lidar com a dor da morte. Ela esconde a perda de alguém bem próximo criando uma rotina em que anula tudo o que faz com que ela lembre de seu sofrimento, mas a vida resolve colocá-la invariavelmente diante daquilo que ela não quer enfrentar. Lamento é o trabalho de graduação do alemão Jöns Jönsson, que apresentou a sessão de seu filme na Mostra de Cinema de São Paulo. Embora recicle alguns temas já recorrentes no cinema de seu país, como o distanciamento e a solidão, o diretor consegue manter uma curva de roteiro satisfatória para revelar os segredos da personagem e é feliz em encontrar emoção na aridez fria da dramaturgia daquelas bandas.

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Mostra SP 2014: post seis

Força Maior

Força Maior EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Force Majeure, Ruben Östlund, 2014]

O instinto de sobrevivência tirou Tomas da mesa naquele almoço na estação de esqui. Uma reação instantânea ao medo da morte que custou a ele a confiança de sua família. Afinal, o que nos move?, pergunta o cineasta Ruben Östlund. O protagonista de Força Maior precisa arcar com as consequências de ter agido por impulso num momento de perigo. O filme coloca Tomas no meio de um dilema moral que ele tenta evitar a qualquer modo. Ele acha o que aconteceu tão inconcebível que nega sua atitude de autopreservação não apenas para os outros, mas para si mesmo. A força maior do filme de Östlund não é a natureza, mas a natureza humana. Retirados todos os construtos da sociedade, o que sobra na nossa essência? Como lidar com o animal que guardamos dentro de nós? É tão devastador perceber o quão primitiva é nossa alma que a Tomas sobra apenas a possibilidade de ficcionalizar a vida. O cineasta constrói bem o medo que a personagem tem de si mesmo e desenvolve um melodrama familiar gélido como manda a tradição escandinava. Se o final serve para empatar as coisas para o marido, o estrago na relação com a esposa, com os filhos e com ele mesmo já está feito.

Algum Lugar Belo

Algum Lugar Belo Estrelinha
[Somewhere Beautiful, Albert Kodagolian, 2014]

Difícil entender as intenções de Albert Kodagolian com Algum Lugar Belo. O cineasta que estreia em longas-metragens vende o filme como uma releitura de Calendar, obra da época em que o cinema de Atom Egoyan ainda tinha algum valor. Mas este drama em dois tempos confuso e inócuo que o diretor de origem iraniana apresenta nunca parece encontrar um propósito. De um lado, há um cineasta, interpretado pelo próprio Kodagolian (ah, sério?), que vive uma crise no casamento nos Estados Unidos. Do outro um fotografo que viaja pela Patagônia com a namorada (María Alche, de A Menina Santa) e um guia local. As duas histórias, que nunca se encontram nem na trama, nem na temática, não funcionam nem isoladamente, nem combinadas.

Viver é Fácil com os Olhos Fechados

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[Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados, David Trueba, 2013]

Uma viagem transformadora e três personagens que precisam ser salvos de si mesmos. O mote é uma sucessão de lugares comuns, mas o diretor David Trueba, irmão mais novo de Fernando, conduz a trama com certa graça. O filme, que ganhou o último Goya, o Oscar espanhol, acompanha o professor de inglês fanático pelos Beatles, vivido por Javier Cámara, que descobre que John Lennon está num set de filmagens na Espanha e decide ir atrás do grande ídolo. No meio do caminho, encontra dois adolescentes fugitivos. O elenco, todo acertado, é um trunfo para Trueba, mas o que mais conta a seu favor é o carinho e a sensibilidade com que narra os eventos. O resultado é um filme simpático, mas que não tem muito mais a oferecer do que um clima de Sessão da Tarde das antigas para o espectador.

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Mostra SP 2014: post cinco

Leviatã

Leviatã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Leviathan, Andrei Zvyagintsev, 2014]

A gigantesca carcaça do Leviatã ainda assombra um vilarejo russo onde tudo parece estar fadado ao fracasso. O monstro marinho, descrito no Antigo Testamento, é a alegoria escolhida pelo cineasta Andrei Zvyagintsev para escancarar seu pessimismo em relação a seu país, um estado de descrença que persegue e se transforma em principal temática de seu cinema. Para o diretor, a corrupção se instalou na coração da Rússia e se espalhou como metástase pela política, pela justiça, pela igreja e pela moral. Um exército cruel e onipresente que cerca e atropela os elementos dissonantes. O novo filme do cineasta é como uma profecia bíblica que não guarda muita salvação para seus protagonistas. Nikolay enfrenta o prefeito da cidade, que quer tomar suas terras a qualquer custo. Sua recusa em ceder inicia uma série de tragédias. Zvyagintsev administra essas tragédias com certas doses de fatalismo, mas parece justificar a escala que utiliza para o desastre a cada entrelinha. Os capitães do mal mudam de nome, mas permanecem no poder. O diretor não poupa nenhum deles de suas culpas e ainda convida o espectador a acertá-los com um tiro de espingarda, mas ironicamente preserva quem aqueles ainda não foram condenados pela “história”, mas estão presentes em cada parede.

Pássaro Branco na Nevasca

Pássaro Branco na Nevasca EstrelinhaEstrelinha
[White Bird in a Blizzard, Gregg Araki, 2014]

O novo filme do outsider Gregg Araki tem menos bizarrices do que os trabalhos anteriores do cineasta – quer dizer, melhor você chegar antes ao final deste aqui, sobre o desaparecimento de uma mulher, que aparentemente abandona o marido e a filha numa cidade do interior. O longa é estrelado por Shailene Woodley, do ótimo Os Descendentes, que está no auge da beleza. Durante boa parte do filme, Araki mantém seus maneirismos indies em favor de criar um ambiente delicado para explorar os dilemas da adolescente. A trilha sonora assinada por Robin Guthrie, um dos fundadores do Cocteau Twins, dá um diferencial. Oito das doze faixas compostas para o filme são de autoria dele e remetem diretamente à sonoridade de seu grupo de origem. De bônus, ainda ouvimos “Dazzle”, do Siouxise and the Banshees. O problema é que o universo que o diretor consegue criar enfraquece gradativamente à medida que a trama cobra o fim do mistério.

A Vida Pode Ser

A Vida Pode Ser EstrelinhaEstrelinha
[Life May Be, Mania Akbari & Mark Cousins, 2014]

A iraniana Mania Akbari, atriz de Dez, de Abbas Kiarostami, e também cineasta, faz, neste filme, uma espécie de troca de correspondências com o crítico e documentarista Mark Cousins, autor do excelente livro História do Cinema, que também virou série de TV. A cada troca de mensagens, os dois divagam sobre temas importantes e complexos como o exílio, o mundo de hoje e os cinema. Mas a combinação de seus estilos diferentes, que prometia produzir um cinema simples e sincero, sempre disposto a refletir sobre a existência, cai num espiral de onde não consegue sair. O resultado é uma intenção quase sempre forçada de fazer poesia, ora com imagens parecem ter sido escolhidas a dedo – no Google -, ora com um texto que não se acerta nunca, passando do “visceral”, com Akbari falando sobre sexo, ao pretensamente delicado.

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Mostra SP 2014: post quatro: Acima das Nuvens

Acima das Nuvens

O novo filme de Olivier Assayas se arrisca em tantas camadas que é realmente surpreendente que ele seja tão bem resolvido. Juliette Binoche interpreta Maria Enders, atriz de sucesso convidada para fazer uma nova montagem da peça que a lançou, mas desta vez em vez de viver a personagem jovem que a consagrou, caberá a ela o papel da mulher mais madura. A partir desta premissa muito simples, o diretor lança uma série de questionamentos que se desdobram em outros ainda maiores.

Paralelamente às dúvidas da protagonista em aceitar o papel, que geram uma discussão sobre o passar do tempo, a velhice e, mais tarde, sobre as perspectivas que maturidade traz, inicia-se um diálogo/duelo com Kristen Stewart, ótima no papel da assistente pessoal e voz da consciência de Enders. Esta segunda personagem introduz um debate, que parece velho, sobre a Hollywood de hoje e o culto à celebridade que devorou o culto ao artista, mas que o cineasta nos apresenta por outro prisma. Stewart atua como porta voz de Assayas, que reconhece valores num ambiente tão hostil ao talento.

Se Binoche faz a atriz europeia e veterana que vive à margem dos holofotes e Chloë Grace Moretz encarna a nova mini-diva hollywoodiana, Kristen Stewart tem, na verdade, uma metapersonagem, que catalisa as discussões sobre exposição sem ser uma caricatura da atriz fora das telas. O casting de Stewart é excelente e faz com que ela própria questione sua persona pública e exerça uma espécie de direito de resposta à maneira como a mídia a trata, uma escolha corajosa da atriz em aceitar alguns diálogos que se referem diretamente a sua vida pessoal.

A vampira da Saga Crepúsculo também aciona outro dispositivo importante no filme, a discussão sobre representação. Ao ajudar Enders na leitura da peça, assumindo o papel da jovem enquanto Binoche lê as falas da mulher mais velha, as duas questionam a representação em si. Não no nível quase laboratorial de “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, mas em diálogos com ecos bergmaníanos que transformam essas leituras em ensaios comentados do próprio texto. Assayas comanda todas essas discussões com uma habilidade para revezá-las e justificá-las, deixando o fluxo das coisas orgânico em Acima das Nuvens.

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[Clouds of Sils Maria, Olivier Assayas, 2014]

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Mostra SP 2014: post três

Detetive D: O Dragão do Mar

Detetive D: O Dragão do Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Di Renjie: Shen du Long Wang, Tsui Hark, 2013]

Prequel de Detetive D e o Império Celestial, este filme do ás do cinema de ação oriental Tsui Hark mostra um diretor interessadíssimo em mergulhar na tecnologia. Rodado em 3D, mais da metade das cenas do longa tem efeitos especiais em larga escala, sem medo da comparação com as superproduções hollywoodianas. Hark volta no tempo para acompanhar a primeira missão do Detetive D, que precisa desvendar uma conspiração para tomar o poder dentro da família imperial e ainda descobre um monstro marinho. Saem Andy Lau e Tony Leung Ka-Fai e entram Mark Chao e Angelababy. O diretor mistura elementos históricos com fantasia sem qualquer pudor e o resultado é um filme cheio de cenas de ação memoráveis. Embora o 3D não seja de primeira grandeza, o longa garante a diversão.

O Segredo das Águas

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[Futatsume no Mado, Naomi Kawase, 2014]

Embora ainda não tenha conseguido reeditar seus melhores momentos (Shara ou Suzaku), O Segredo das Águas tira Naomi Kawase de uma fórmula mezzo documental, mezzo ficcional que vinha se repetindo em seus últimos filmes e que parecia uma prisão formal. O longa, no entanto, guarda muitas das ideias e dos temas que a diretora vem desenhando ao longo dos anos em sua obra, sobretudo a relação entre homem e natureza e a chegada da morte como elemento transformador. Aqui, dois adolescentes são assombrados por medos. Ele pelo medo do mar. Ela pelo medo da morte. Juntos, eles descobrem como lidar com suas pauras e como explorar seus corpos. Existe algo meio didático em alguns diálogos nesse processo e o interesse de Kawase pelo espiritual quase faz o filme dialogar com a auto-ajuda, o que não acontece, mas as cenas subaquáticas mostram que Kawase tenta se esquivar do lugar comum.

Tristeza e Alegria

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[Sorg og Glæde, Nils Malmros, 2013]

A cena de abertura do filme de Nils Malmros é uma das mais impactantes dos últimos tempos. Um homem volta para casa e recebe a notícia devastadora de que a esposa matou a filhinha do casal. O diretor, um dos mais importantes nomes do cinema dinamarquês nas últimas décadas, embora tenha feito só três filmes em dez anos, faz um poderoso melodrama sobre a dor da perda. Embora honre a tradição de excelência da dramaturgia escandinava,  o filme é muito mais forte quando se concentra no que acontece no tempo presente, trabalhando basicamente com personagens destruídos. Os flashbacks, que Malmros julga necessários para explicar a relação entre Johannes e Signe e o estado de saúde mental dela, fragilizam a narrativa, justificando excessivamente os atos dela. O desespero e a desesperança da sequência de abertura humanizam muito mais os caminhos do protagonista.

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