Boyhood

Boyhood

O recurso narrativo mais comum quando um cineasta resolve contar “a história de uma vida” é a catarse. É ela que amarra a trajetória da personagem, pontua seus grandes momentos e ajuda a determinar sua personalidade. Numa obra tão peculiar como Boyhood, filme idealizado e realizado por Richard Linklater ao longo de doze anos, com os mesmos atores interpretando os mesmos papéis, envelhecendo diante das câmeras, seria muito natural que a catarse fosse a espinha dorsal do projeto para justificar os caminhos do protagonista e do próprio filme, que pela própria natureza já traz embutido um tom épico.

Mas Linklater, o cineasta do diálogo, tinha outros planos para aquele que talvez seja “o projeto de uma vida”. Não há grandes cenas em Boyhood. Pelo menos não no conceito clássico do que seria uma “grande cena”. Não há momentos fundamentalmente emocionais que marcam a história do garoto Mason, que entreguem o personagem para a próxima etapa de sua vida. Festa de aniversário, separações e formaturas são menos importantes do que o dia-a-dia. O diretor trabalha essencialmente com o microcosmo familiar do garoto, lançando o foco muito mais em sua relação cotidiana com os pais, a irmã e o mundo a sua volta do que numa história retrancada, que pontuasse os fatos mais importantes de sua vida.

Abrir mão de um recurso tão hábil numa biografia, ainda que numa biografia de um personagem fictício, é só mais um golpe de coragem de Linklater numa obra que, de tão arriscada, só foi “descoberta” no ano passado, quando os trabalhos já estavam praticamente concluídos. A cada ano, nos últimos doze anos, o cineasta reuniu o mesmo elenco para gravar uma sequência que dava continuidade à história do protagonista. Foi preciso 1) ajustar as filmagens às agendas de Ethan Hawke e Patricia Arquette; 2) lidar com o fato de que sua filha, Lorelei, que interpreta a irmã de Mason, chegou a desistir de ser atriz e pediu para que sua personagem fosse eliminada do filme, e 3) se adaptar a um protagonista inexperiente que teria que submeter ao projeto por mais de uma década: Ellar Coltrane foi escolhido aos 5 anos para um trabalho de onde só saíria aos 18.

Os risco eram grandes, mas acompanhar o envelhecimento de Ellar na tela cria uma cumplicidade inédita entre personagem e espectador, independentemente do carisma do garoto, que se modifica ao longo das filmagens, e do talento nada excepcional do ator. Michael Apted já havia feito algo parecido com sua Up Series, em que registra os mesmos personagens por quase 50 anos. Mas Apted fez isso em filmes diferentes e trabalhando com personagens reais. Boyhood até tem bastante de documentário, mas é essencialmente uma história de ficção, um artifício, o que de certa forma dá maior controle ao diretor sobre os rumos a seguir, mas também o expõe a fragilidade do filme diante de qualquer possibilidade de interferência externa.

Mirando nas cenas do dia-a-dia, nos diálogos que vão se perder na memória – porque a memória prefere os grandes tópicos -, Linklater nos oferece a intimidade de ver alguém crescer. Mason (ou Ellar) é como nosso irmão ou o amigo de toda a juventude, aquele a quem acompanhamos a vida inteira.  As transformações f’ísicas do garoto vêm junto de sua formação emocional. O ritmo que o diretor adota é algo bem próximo do ritmo da vida. A direção de atores é naturalista. Patricia Arquette, que faz a mãe de Mason, nem parece estar interpretando e Ethan Hawke, parceiro de longa data de Linklater, está bem à vontade como pai liberal, meio riponga e boa gente. Ambos fogem de qualquer arquétipo (pai ausente, mãe dominadora, etc). O conflito está nos detalhes.

Boyhood parece buscar a emoção genuína e ela, para Linklater, não passa necessariamente por cenas lacrimosas nem se apóia em curvas dramáticas com efeitos colaterais. A cena final da mãe, extremamente realista, prova como o diretor subverte as regras. O choro vem sem maniqueísmo, sem cálculo. O sentimento real, parece dizer o diretor, está na identificação com Mason, que ressalta a humanidade (ou as humanidades) da personagem e do espectador. Essa recusa pelo modelo mais tradicional, e consequentemente mais fácil, limita o lirismo em potencial do filme. Boyhood não é o filme “lindo” como estamos acostumados a ver. A beleza está muito mais no segundo plano. É preciso alcançá-la. A questão, para o cineasta, parece ser: por que usar de artifícios quando o ser humano já é demasiadamente interessante?

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[Boyhood, Richard Linklater, 2014]

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Sin City: A Dama Fatal

Sin City: A Dama Fatal

Revoluções têm prazo de validade. Lançado há nove anos, Sin City, parceria de Robert Rodriguez com Frank Miller mudou para sempre a tradução de HQs para o cinema. Pela primeira vez – e numa técnica que viria a servir de base para várias experiências futuras – um filme tentou e conseguiu reproduzir o “movimento” de uma história em quadrinhos. Trabalhando com um cenário completamente virtual em mais de 90% das cenas, a dupla encontrou uma forma que ao mesmo tempo era um elogio à arte de Miller quanto era uma adaptação fiel que realmente funcionava no cinema.

Desde aquela época, fala-se de uma possível sequência para o filme e, depois de nove anos e uma série de questões, Sin City: A Dama Fatal finalmente chega aos cinemas. O novo filme, assinado mais uma vez em parceria, obedece à mesma lógica do projeto original: recriar quadro a quadro, com o máximo de fidelidade, as histórias noir concebidas por Miller. O problema é que, no hiato que separa os dois filmes, a tecnologia deu saltos de qualidade, mas o impacto deste segundo longa-metragem é metade do anterior.

Basicamente, Miller e Rodriguez tinham o mesmo objetivo e usaram a mesma fórmula. O fato de o resultado ter sido o mesmo não parecia uma grande surpresa. Se essas novas histórias tivessem sido contadas logo em seguida ao longa original, ainda no rastro da revolução estética que o filme lança, talvez o impacto tivesse sido maior. Quase uma década depois, a expectativa criada era de uma nova revolução e não da mesma revolução requentada.

As histórias não ajudam muito porque perdem muito em comparação ao noir barato do original. A que dá título ao filme é a mais redonda, mas as outras parecem reciclagens do que já vimos. Nenhum personagem – novo ou velho – traz um interpretação da grandiosidade que cerca cada aparição de Mickey Rourke como Marv no primeiro longa. Nenhuma cena, embora haja algumas tecnicamente muito bem construídas, tem algum apelo a mais do que apenas plástico. E, para um filme que é pura tecnologia, ficar preso ao passado é mais fatal do que personagem do título.

Sin City: A Dama Fatal EstrelinhaEstrelinha
[Sin City: A Dame to Kill For, Robert Rodriguez & Frank Miller, 2014]

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Oscar 2015: primeiro round de apostas

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho driblou concorrentes fortes e é o candidato oficial do Brasil ao Oscar de filme em língua estrangeira. Outros 40 países já escolheram seus representantes, número que deve crescer até pelos menos 70 títulos. Os integrantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas começarão a definir os indicados para o próximo Oscar no dia 29 de dezembro e a as indicações serão anunciadas no dia 15 de janeiro do ano que vem. Mas muitos dos filmes que deverão disputar as principais categorias estão bombando nas bolsas de apostas (alguns sem sequer ter estreado). Essas previsões seguem algumas lógicas: perfis dos filmes, pedigree (diretor, atores), origem (adaptação de livros famosos, biografias) e celebração em festivais. Com base nisso, montei uma lista com minhas apostas nas principais categorias para o Oscar 2015.

filme

filme

minhas apostas

Birdman, Alejandro Gonzalez Iñarritu
Boyhood, Richard Linklater
Corações de Ferro, David Ayer
Foxcatcher, Benett Miller
Garota Exemplar, David Fincher
The Imitation Game, Morten Tyldum
Interestelar, Christopher Nolan
Invencível, Angelina Jolie
A Teoria de Tudo, James Marsh

têm chances

Big Eyes, Tim Burton
Caminhos da Floresta, Rob Marshall
O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson
A Most Violent Year, J.C. Chandor
Mr. Turner, Mike Leigh
Selma, Ava DuVernay
Vício Inerente, Paul Thomas Anderson
Whiplash, Damien Chazelle
Wild, Jean-Marc Vallée

Direção

direção

minhas apostas

Alejandro Gonzalez Iñarritu, Birdman
Angelina Jolie, Invencível
Benett Miller, Foxcatcher
Morten Tyldum, The Imitation Game
Richard Linklater, Boyhood

têm chances

Ava DuVernay, Selma
Christopher Nolan, Interestelar
David Ayer, Corações de Ferro
David Fincher, Garota Exemplar
James Marsh, A Teoria de Tudo
Mike Leigh, Mr. Turner
Paul Thomas Anderson, Vício Inerente

Ator

ator

minhas apostas

Benedict Cumberbatch, The Imitation Game
Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo
Michael Keaton, Birdman
Steve Carell, Foxcatcher
Timothy Spall, Mr. Turner

têm chances

Bill Murray, St. Vincent
Brad Pitt, Corações de Ferro
Chadwick Boseman, Get On Up
David Oyelowo, Selma
Jack O’Connell, Invencível
Joaquin Phoenix, Vício Inerente
Ralph Fiennes, O Grande Budapeste Hotel

atriz

atriz

minhas apostas

Amy Adams, Big Eyes
Felicity Jones, The Theory of Everything
Julianne Moore, Still Alice
Reese Witherspoon, Wild
Rosamund Pike, Garota Exemplar

têm chances

Anne Hathaway, Interestelar
Hilary Swank, The Homesman
Jessica Chastain, A Most Violent Year
Maggie Smith, My Old Lady
Marion Cotillard, Era Uma Vez em Nova York
Meryl Streep, Caminhos da Floresta
Shailene Woodley, A Culpa é das Estrelas

ator coadjuvante

ator coadjuvante

minhas apostas

Edward Norton, Birdman
J.K. Simmons, Whiplash
Logan Lerman, Corações de Ferro
Mark Ruffalo, Foxcatcher
Tom Wilkinson, Selma

têm chances

Channing Tatum, Foxcatcher
Domhnall Gleeson, Invencível
Ethan Hawke, Boyhood
James Corden, Caminhos da Floresta
John Goodman, The Gambler
Josh Brolin, Inherent Vice
Robert Duvall, The Judge
Tim Roth, Selma

atriz coadjuvante

atriz coadjuvante

minhas apostas

Emma Stone, Birdman
Katherine Waterston, Vício Inerente
Keira Knightley, The Imitation Game
Laura Dern, Wild
Patricia Arquette, Boyhood

têm chances

Carmen Ejogo, Selma
Emily Blunt, Caminhos da Floresta
Jennifer Garner, Men, Women & Children
Jessica Chastain, Interestelar
Jessica Chastain, A Most Violent Year
Kristen Stewart, Still Alice
Naomi Watts, St. Vincent

roteiro original

roteiro original

minhas apostas

Birdman, Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris & Armando Bo
Boyhood, Richard Linklater
Corações de Ferro, David Ayer
Mr. Turner, Mike Leigh
A Most Violent Year, J.C. Chandor

têm chances

Big Eyes, Scott Alexander & Larry Karaszewski
Foxcatcher, E. Max Frye, Dan Futterman
O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson & Hugo Guinness
Interestelar, Christopher Nolan & Jonathan Nolan
Love is Strange, Ira Sachs & Mauricio Zacharias
Selma, Ava DuVernay, Paul Webb
Whiplash, Damien Chazelle

roteiro adaptado

roteiro adaptado

minhas apostas

Garota Exemplar, Gillian Flynn
The Imitation Game, Graham Moore
Invencível, Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese & William Nicholson
A Teoria de Tudo, Anthony McCarten
Wild, Nick Hornby

têm chances

American Sniper, Jason Dean Hall
Caminhos da Floresta, Jame Lapine
The Homesman, Kieran Fitzgerald, Tommy Lee Jones, Wesley Oliver & Miles Hood Swarthout
The Hundred-Foot Journey, Steven Knight
Men, Women & Children, Jason Reitman & Erin Cressida Wilson
Still Alice, Richard Glatzer & Wash Westmoreland
Vício Inerente, Paul Thomas Anderson

Uma Aventura Lego

filme de animação

minhas apostas

Uma Aventura Lego
Big Hero 6
The Boxtrolls
Como Treinar Seu Dragão 2
The Tale of Princess Kaguya

têm chances

The Book of Life
O Menino e o Mundo
Mr. Peabody & Sherman
Os Pinguins de Madagascar
Rio 2
Song of the Sea
Tante Hilda!

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

filme estrangeiro

minhas apostas

Cantinflas (México)
Force Majeure (Suécia)
Mommy (Canadá)
Ida (Polônia)
Winter Sleep (Turquia)

têm chances

1001 Grams (Noruega)
Beloved Sisters (Alemanha)
Cowboys (Croácia)
The Dark Valley (Áustria)
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Brasil)
The Liberator (Venezuela)
White God (Hungria)

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Festival do Rio 2014: títulos confirmados

O Festival do Rio anunciou a primeira – e maior – lista de filmes programados para as duas semanas de evento. Entre os destaques, os novos títulos de Richard Linklater, David Fincher, Philippe Garrel e Mohsen Makhmalbaf. O festival acontece entre 24 de setembro a 8 de outubro.

Mostra Panorama

- Boyhood – Da infância à juventude (Boyhood), de Richard Linklater
- Carvão Negro (Black Coal, Thin Ice), Diao Yinan
- Manglehorn (Manglehorn), de David Gordon Green
- Garota exemplar (Gone Girl), de David Fincher
- Timbuktu (Timbuktu), de Abderrahmane Sissako
- Incompreendida (Misunderstood), de Asia Argento
- O Amor É Estranho (Love is Strange), de Ira Sachs
- Whiplash – Em busca da perfeição (Whiplash), de Damien Chazelle
- Solness, o construtor (A Master Builder), de Jonathan Demme
- Homens, mulheres e filhos (Men, Women & Children), de Jason Reitman
- Três Corações (3 Hearts), de Benoit Jacquot
- God Help the Girl (God Help the Girl), de Stuart Murdoch
- O Ciúme (Jealousy), de Philippe Garrel
- Massagem cega (Blind Massage), de Lou Ye
- O Presidente (The President), de Moshen Makhmalbaf
- Só Deus sabe (Heaven Knows What), de Ben Safdie, Joshua Safdie
- Cavalo dinheiro (Horse Money), de Pedro Costa
- Catedrais da cultura 3D (Cathedrals of Culture), de Wim Wenders, Michael Glawogger, Michael Madsen, Robert Redford, Margreth Olin, Karim Aïnouz
- ’71 (’71), de Yann Demange
- Stations of the cross (Stations of the Cross), de Dietrich Brüggemann
- Stratos (Stratos), de Yannis Economides
- O juiz (The Judge), de David Dobkin
- Ida (Ida), de Pawel Pawlikowski
- Uma promessa (A Promise), de Patrice Leconte
- Onírica (Field of Dogs), de Lech Majewski
- Short Plays (Short Plays), de Sebastián Cordero, Doris Dörrie, Vincent Gallo, Daniel Gruener, Luca Lucini, Carlos Moreno, Gaspar Noé, Carlos Reygadas, Apichatpong Weerasethakul, Ik-Joon Yang
- Mapa para as estrelas (Maps to the Stars), de David Cronenberg
- Mommy (Mommy), de Xavier Dolan
- Mr. Turner (Mr. Turner), de Mike Leigh
- Jimmy’s Hall (Jimmy’s Hall), de Ken Loach
- The Disappearance of Eleanor Rigby: Them (The Disappearance of Eleanor Rigby: Them), de Ned Benson
- Pessoas-pássaro (Bird People), de Pascale Ferran
- O país de Charlie (Charlie’s Country), de Rolf de Heer
- Fantasia (Fantasia), de Chao Wang
- Frank (Frank), de Lenny Abrahamson
- Coming Home (Coming Home), de Zhang Yimou
- Maïdan: Protestos na Ucrânia (Maïdan), de Sergei Loznitsa
- Bande de Filles (Girlhood), de Céline Sciamma
- National Gallery (National Gallery), de Frederick Wiseman
- Metamorfoses (Metamorphoses), de Christophe Honoré
- O preço da glória (The Prince of Fame), de Xavier Beauvois
- O cheiro da gente (The Smell of Us), de Larry Clark
- Contos iranianos (Tales), de Rakhshan Banietemad
- Aloft (Aloft), de Claudia Llosa
- The Face of an Angel (The Face of an Angel), de Michael Winterbottom
- Rio 50 graus (Rio 50 Degrees), de Julien Temple
- Jornada ao Oeste (Journey to the West), de Tsai Ming-Liang
- Falando com Deuses (Words with Gods), de Warwick Thornton, Héctor Babenco, Mira Nair, Hideo Nakata, Amos Gitai,Álex de la Iglesia, Emir Kusturica, Bahman Ghobadi, Guillermo Arriaga
- A sapiência (La Sapience), de Eugène Green
- Corações famintos (Hungry Hearts), de Saverio Costanzo
- Amnésia Vermelha (Red Amnesia), de Wang Xiaoshuai
- Gomorrah (Gomorrah), de Stefano Sollima
- Odisseia iraquiana (Iraqi Odyssey), de Samir
- Vôo noturno (Night Flight), de LeeSong Hee-il
- Dentre por dente (One on One), de Kim Ki-duk
- The Humbling (The Humbling), de Barry Levinson
- Tsili (Tsili), de Amos Gitai

Mostra Expectativa 2014

- A distância (The Distance), de Sergio Caballero
- Ela perdeu o controle (She’s Lost Control), de Anja Marquardt
- O Seqüestro de Michel Houellebecq (The Kidnapping of Michel Houellebecq), de Guillaume Nicloux
- Sonhos imperiais (Imperial Dreams), de Malik Vitthal
- Land Ho! (Land Ho!), de Martha Stephens, Aaron Katz
- Listen Up Philip (Listen Up Philip), de Alex Ross Perry
- Obvious Child (Obvious Child), de Gillian Robespierre
- Os mais jovens (Young Ones), de Jake Paltrow
- The Skeleton Twins (The Skeleton Twins), de Craig Johnson
- Pescando sem redes (Fishing Without Nets), de Cutter Hodierne
- Toda terça-feira (52 Tuesdays), de Sophie Hyde
- Na cadência do amor (Lilting), de Hong Khaou
- Algo a romper (Something Must Break), de Ester Martin Bergsmark
- Noivas (Brides), de Tinatin Kajrishvili
- Cinco Estrelas (Five Star), de Keith Miller
- Forma (Forma), de Ayumi Sakamoto
- Party Girl (Party Girl), de Marie Amachoukeli, Claire Burger, Samuel Theis
- Titli (Titli), de Kanu Behl
- Uma garota à porta (A Girl at My Door), de July Jung
- Xenia (Xenia), de Panos H. Koutras
- Ao Seu Lado (Next to Her), de Asaf Korman
- Coma seus mortos (Eat Your Bones), de Jean-Charles Hue
- Te peguei dormindo, Nicole (Tu Dors Nicole), de Stéphanie Lafleur
- Mais sombrio que a meia-noite (Darker Than Midnight), de Sebastiano Riso
- Canções do norte (Songs from the North), de Soon-Mi Yoo
- Os nossos meninos (The Dinner), de Ivano de Matteo
- Goob (The Goob), de Guy Myhill
- 10.000 Km (10.000 Km), de Carlos Marques-Marcet
- Brooklyn (Brooklyn), de Pascal Tessaud
- Sobrevivente (Alive), de Jungbum Park
- Blind (Blind), de Eskil Vogt

Mostra Midnight (ficção e documentários)

- Prop 8: O casamento gay em julgamento (The Case Against 8), de Ben Cotner, Ryan White (midnight docs)
- Espetáculo: O julgamento de Pamela Smart (Captivated, The Trials of Pamela Smart), de Jeremiah Zagar (midnight docs)
- O caso Galápagos – Quando Satã veio ao paraíso (The Galapagos Affair: Satan Came to Eden), de Dayna Goldfine, Dan Geller (midnight docs)
- Last Hijack (Last Hijack), de Tommy Pallotta, Femke Wolting (midnight docs)
- Muito além das patricinhas de Beverly Hills (Beyond Clueless), de Charlie Lyne (midnight docs)
- Exército vermelho (Red Army), de Gabe Polsky (midnight docs)
- Kumiko, a caçadora de tesouros (Kumiko, the Treasure Hunter), de David Zellner (midnight)
- Um dia difícil (A Hard Day), de Kim Seong-hun (midnight)
- Patema invertida (Patema Inverted), de Yasuhiro Yoshiura (midnight)
- Gangues de Tóquio (Tokyo Tribe), de Sion Sono (midnight)
- Cold in July (Cold in July), de Jim Mickle (midnight)
- Burying the Ex (Burying the Ex), de Joe Dante (midnight)
- Por cima do seu cadáver (Over Your Dead Body), de Takashi Miike (midnight)

Mostra Midnight Terror

- Aleluia (Alleluia), de Fabrice Du Welz (midnight terror)
- Corrente do mal (It Follows), de David Robert Mitchell (midnight terror)
- Annabelle (Annabelle), de John Leonetti (midnight terror)
- Primavera (Spring), de Justin Benson, Aaron Moorhead (midnight terror)
- O ABC da morte 2 (ABCs of Death 2), de Vários (midnight terror)
- O Massacre da Serra Elétrica (Versão Original Restaurada) (The Texas Chainsaw Massacre), de Tobe Hooper (midnight terror)

Mostra Filme Doc

- Life Itself – A vida de Roger Ebert ( Life Itself), de Steve James
- Mr Leos CaraX (Mr X), de Tessa Louise-Salomé
- Feliz por ser diferente (Happy to be Different), de Gianni Amelio
- Altman, um cineasta americano (Altman), de Ron Mann
- Estúdio Ghibli, reino de sonhos e loucura (The Kingdom of Dreams and Madness), de Mami Sunada
- Go-Go Boys: os bastidores da Cannon Films (The Go-Go Boys: The Inside Story of Cannon Films), de Hilla Medalia
- A Voz de Sokurov (The Voice of Sokurov), de Leena Kilpeläinen
- Remake, Remix, RipOff (Remake, Remix, RipOff), de Cem Kaya

Mostra Itinerários Únicos

- Martha Argerich – Meu sangue ( Bloody Daughter), de Stéphanie Argerich
- Nan Goldin – Lembro do seu rosto (Nan Goldin – I Remember Your Face), de Sabine Lidl
- Criado na internet: A história de Aaron Swartz (The Internet’s Own Boy), de Brian Knappenberger
- Sarah Lucas: escultora (About Sarah), de Elisa Miller
- O cidadão Himmler (The Decent One), de Vanessa Lapa
- Dior e eu (Dior and I), de Frédéric Tcheng
- Sobre Susan Sontag (Regarding Susan Sontag), de Nancy Kates
- O último produtor de teatro (The Last Impresario), de Gracie Otto
- Poesia precisa – A arquitetura de Lina Bo Bardi (Precise Poetry – Lina Bo Bardi’s Architecture), de Belinda Rukschcio
- Viagens noturnas com Jim Jarmusch (Travelling at Night with Jim Jarmusch), de Léa Rinaldi
- The New York Review of Books: Uma reflexão de 50 anos (The 50 Year Argument), de Martin Scorsese, David Tedeschi
- Microtopia (Microtopia), de Jesper Wachtmeister
- Domingo (Sunday), de Karim Ainouz

Música

- Procurando Fela Kuti (Finding Fela), de Alex Gibney
- Nick Cave – 20.000 dias na Terra (20.000 Days on Earth), de Iain Forsyth, Jane Pollard
- Pulp – Vida, morte e supermercados (Pulp), de Florian Habicht
- Que caramba é a vida (Que Caramba es la Vida), de Doris Dörrie
- American Interior – A viagem de Gruff Rhys pela América (American Interior), de Gruff Rhys, Dylan Goch
- Björk: Biophilia Live (Björk: Biophilia Live), de Peter Strickland, Nick Fenton
- Beautiful Noise – A era shoegazer (Beautiful Noise), de Eric Green
- A Hard Day’s Night: Os reis do iê iê iê (Versão Restaurada) (A Hard Day’s Night), de Richard Lester
- Quando Björk conheceu David Attenborough (When Björk Met Attenborough), de Louise Hooper
- David Bowie Is (David Bowie Is), de Hamish Hamilton

Mostra Fronteiras

- Um verão de liberdade ( Freedom Summer), de Stanley Nelson
- Vietnã: batendo em retirada (Last Days in Vietnam), de Rory Kennedy
- Nós, o gigante acordado (We Are the Giant), de Greg Barker
- Amigos, amigos, negócios à parte (We Come as Friends), de Hubert Sauper
- Câmera Escura: Os fotógrafos negros e a emergência de uma raça (Through A Lens Darkly: Black Photographers and the Emergence of a People), de Thomas Allen Harris
- A Primeira Baixa (First to Fall), de Rachel Beth Anderson
- Colocando a vida em jogo (The Supreme Price), de Joanna Lipper
- Água prateada, um autorretrato da Síria (Eau Argentee, Syrie autoportrait), de Ossama Mohammed, Wiam Simav Bedirxan
- Revolução ao contrário (Revolution in Reverse – Debito & Lavoro: il Nuovo Colonialismo), de Chiara Cavalazzi
- Suspiros das cidades (Hams al-mudam), de Kasim Abid

Mostra Geração

- Belle e Sebastian (Belle et Sébastien), de Nicolas Vanier
- Violeta ( Violet), de Bas Devos
- Maria e o Homem Aranha (María y el Araña), de María Victoria Menis
- Finn (Finn), de Frans Weisz
- Encantados (Encantados), de Tizuka Yamasaki
- Dixie e a revolução dos zumbis (Dixie y la Rebelión Zombi), de Ricardo Ramón, Beñat Beitia
- Primeiros amores (Amori Elementari), de Sergio Basso
- Desligando Charleen (Charleen macht Schluss ), de Mark Monheim

Foco México

- Manto aquífero (Manto Acuífero), de Michael Rowe
- Peixes insólitos (Los insólitos peces gato), de Claudia Sainte-Luce
- Güeros (Güeros), de Alonso Ruizpalacios
- Los Angeles (Los Ángeles), de Damian John Harper
- González (González), de Christian Díaz Pardo
- Os ausentes (Los ausentes), de Nicolás Pereda
- Asteróide (Asteroide), de Marcelo Tobar
- Cumes (Cumbres), de Gabriel Nuncio
- Somos Mari Pepa (Somos Mari Pepa), de Samuel Kishi Leopo
- Cantinflas (Cantinflas), de Sebastian del Amo
- A guerra de Manuela Jankovic (La Guerra de Manuela Jankovic), de Diana Cardozo
- Primaveras escuras (), de Ernesto Contreras
- As Horas Mortas (Las Horas Muertas), de Aaron FERNANDEZ
- Somos Mari Pepa (Somos Mari Pepa), de Samuel Kishi Leopo

Clássicos Mexicanos

- O Compadre Mendoza (El Compadre Mendoza), de Fernando de Fuentes
- Vamos com Pancho Villa! (¡Vámonos con Pancho Villa!), de Fernando de
Fuentes
- A Mulher do Porto (La Mujer del Puerto), de Arcady Boytler
- Redes (Redes), de Fred Zinnemann, Emilio Gómez Muriel
- A Outra (La Otra), de Roberto Gavaldón

Première Latina

- Ar Livre (Aire Libre), de Anahí Berneri
- Matar um homem (Matar a un hombre) de Alejandro Fernández Almendras
- A terceira margem (La Tercera orilla) de Celina Murga
- Bem Perto de Buenos Aires (Historia del miedo) de Benjamin Naishtat
- Feriado (Feriado) de Diego Araujo
- Mauro (Mauro) de Hernán Rosselli
- La Salada (La Salada) de Juan Martín Hsu
- As irmãs Quispe (Las niñas Quispe) de Sebastián Sepúlveda
- Gente de bem (Gente de bien) de Franco Lolli
- Mãos sujas (Manos sucias) de Josef Wladyka
- A princesa de França (La Princesa de Francia) de Matías Piñeiro
- Sétimo (Séptimo) de Patxi Amezcua
- Dois Disparos (Dos Disparos) de Martín Rejtman
- Os inimigos da dor (Los Enemigos del Dolor) de Arauco Hernández
- Los Hongos (Los Hongos) de Oscar Ruiz Navia
- O mistério da felicidade (El Misterio de la Felicidad) de Daniel Burman
- A voz em off (La Voz en Off) de Cristián Jiménez
- Lulu, de Luis Ortega

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Era Uma Vez em Nova York

Era Uma Vez em Nova York

Em pouco mais de vinte anos de carreira, James Gray dirigiu apenas cinco filmes. Eis um cineasta que gosta de ter tempo para conceber projetos especiais que homenageiam o cinema clássico de seu país ao mesmo tempo que não se furtam em subverter lógicas e padrões deste mesmo cinema. Os filmes de Gray oferecem um humanismo raro que vem à tona em personagens de uma complexidade mais rara ainda. Em Era Uma Vez em Nova York – título brasileiro que tenta metabolizar o original mais singelo e sincero, A Imigrante -, o diretor faz um filme romântico que ironicamente desromantiza a terra dos sonhos. Gray filma a grande tragédia americana.

Marion Cotillard é a imigrante polonesa que chega aos Estados Unidos fugindo da Primeira Guerra Mundial para ser, em seus primeiros minutos em solo americano, separada da irmã doente. Joaquin Phoenix é o nova-iorquino que a ‘resgata’ de uma deportação arquitetada e oferece os meios para sobreviver no novo país. Um ponto de partida algo épico, cujos elementos e personagens são apresentados e desvirtuados simultaneamente. A grandiosidade da imagem em que os imigrantes olham para a Estátua da Liberdade é rapidamente substituída por um realismo quase steinbeckiano, com sua denúncia social emoldurada por um pessimismo que flerta com o lírico sempre que este namoro é permitido.

Esta última via ganha força quando o personagem de Jeremy Renner entra em cena. Ele é o ilusionista que reforça a promessa do sonho, enquanto Phoenix encarna a realidade mais dura. A imigrante de Cotillard se vê no meio de duas possibilidades bastante distintas, incompatíveis entre si, mas que se confundem o tempo inteiro. Não há heróis ou vilões, culpados ou inocentes no filme de James Gray porque o grau de nuances com que ele desenha seus personagens e a inteligência delicada com que dirige seus atores não permitem muitas simplificações. O trio de protagonistas captura essas orientações. Cotillard domina a primeira metade do filme com um minimalismo emocionante enquanto Phoenix cresce na segunda parte até tomar o longa para si.

A luz amarela e os enquadramentos especialíssimos criados por Darius Khondji, um diretor de fotografia que não impressionava havia muito tempo, reconstroem toda uma época, mas também servem de moldura para uma história pequena, aparentemente sem implicações fora de seu espectro. No entanto, essa história pequena narrada por James Gray funciona como espelho para as relações humanas de um país em construção, de uma futura megalópole que, em seu nascimento multiétnico, já insinuava a natureza devoradora de homens e sua tendência para envolver seus moradores na mais profunda solidão. Traduzir esses sentimentos de uma maneira tão lírica quanto desromantizada, numa saga de proporções mínimas, não é tarefa simples. James Gray fez uma obra-prima cujo plano final está entre as mais belas imagens que o cinema produziu.

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[The Immigrant, James Gray, 2013]

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Mais um Ano

Mais um Ano

Nem um prêmio em Cannes, nem uma indicação ao Oscar de roteiro original. Nada foi suficiente para que o elogiadíssimo Mais um Ano, filme que Mike Leigh lançou em 2010, conseguisse a sorte de ganhar espaço no circuito comercial brasileiro. Somente quatro anos depois, o longa conseguiu interromper esse boicote, que se estendeu até aos festivais de cinema brasileiros (o Festival do Rio só exibiu o filme em 2012). Uma injustiça com o belo trabalho, de um diretor cujos últimos seis títulos tiveram lançamento no Brasil.

Mais um Ano é uma obra peculiar na filmografia de Mike Leigh. Criador de personagens sempre envoltos numa melancolia que geralmente dá o tom dos filmes, aqui o diretor aposta em um casal solar de protagonistas, que dilui o peso das angústias trazidas pelos coadjuvantes. Esse contraste empresta ao longa a leveza de um romance que deu certo e que dura anos, décadas. É um filme romântico por natureza, onde Leigh exibe mais uma vez sua habilidade no comando do melodrama.

Emboras os elogios tenham caído principalmente no colo da boa Leslie Manville, que interpreta uma mulher com sérios problemas de auto-estima, são os desempenhos de Jim Broadbent e Ruth Sheen, ambos inspiradíssimos, que chamam atenção. Seus personagens oferecem ao espectador uma esperança que diferencia o longa de obras como Segredos e Mentiras e Agora ou Nunca, filmes belíssimos, mas cujo pessimismo é quase determinista. Tom e Gerri, versões light da protagonista de Simplesmente Feliz, estão cercados por gente problemática e vidas caóticas, mas nada parece abalar o casal, cujo principal objetivo parece ser mediar conflitos e oferecer um ombro amigo.

O título do filme os resume bem: um ano a mais em seu casamento sólido, um ano a mais em sua “missão” de ouvir os problemas e administrar as crises alheias. Mas também reflete a própria obra de Leigh, um homem dono de um texto direto e vigoroso, um diretor que, filme após filme, reassume um compromisso com um cinema simples, cheio de personagens complexos e incrivelmente reais.

Mais Um Ano EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Another Year, Mike Leigh, 2010]

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Lucy

Lucy

Existem cineastas que alimentam uma aura de criador competente e adentra os círculos alternativos durante décadas sem realmente ter feito um só filme bom. Kevin Smith? OK, talvez Procura-se Amy. Luc Besson? Com alguma condescendência, podemos lembrar de Subway ou Nikita. Mas a verdade é que o francês mais internacional dos diretores de cinema ou pula no raso quando quer fazer filme profundo, como Imensidão Azul ou Joana D’Arc, ou disfarça suas limitações em diversões ligeiras que demoram demais e divertem de menos, como O Quinto Elemento ou o recente A Família. Dito isso, é preciso fazer justiça ao novo trabalho do cineasta: Lucy, o thriller de ficção-científica estrelado por Scarlett Johansson, talvez seja seu melhor filme.

As primeiras cenas do longa, com uma viagem temporal aos princípios da vida humana na Terra, remetem de imediato aos momentos mais viajandões de A Árvore da Vida, com o espectador sabendo que, por mais que tentasse, Besson nunca chegaria à complexidade de um Terrence Malick. A impressão se desfaz quando a trama chega em terra firme e se estabelece como um guilty pleasure que mantém o pé no acelerador até seu último minuto. Besson acerta em cheio em levar a sério a história de uma loira burra que acidentalmente se vê obrigada a ingerir uma nova droga que amplia sua capacidade mental. Levar a sério, mas só até a segunda página. Porque, por mais que flerte com algum existencialismo, Lucy é feito para divertir.

Scarlett Johansson, cada vez mais à vontade como heroína de filmes de ação, incorpora a angústia de uma personagem que tenta correr contra o tempo para repassar o conhecimento que adquiriu, mas não tem capacidade de manter. Na melhor cena do filme, talvez a que mais tenha algum cuidado científico, conceitualmente falando, sua Lucy tenta se manter literalmente inteira no banheiro de um avião. Besson, que é o autor do roteiro, parte do princípio do mito de que utilizamos apenas 10% do cérebro e encontra ganchos leves, mas bem amarradinhos para transformar a história da personagem num thriller delicioso, onde a velocidade é tão ou mais importante do que as ideias de que o filme se aproveita.

Em tempos de filmes sérios, com cineastas preocupados em não ofender ninguém e em encontrar explicações científicas para tudo – sobretudo para não serem acusados de levianos -, são justamente as leviandades que o diretor cometeu em Lucy, enfileiradas num esqueleto coerente e funcional e com o suporte de soluções visuais bonitas e bem resolvidas, que servem tanto como respiro descompromissado para estes filme orgulhosamente baseados nos livros de ciência quanto como prova inquestionável de que precisamos de apenas 10% do cérebro para entender e nos divertir com um filme de Luc Besson. Sem culpa, sem vergonha nenhuma.

Lucy  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha [Lucy, Luc Besson, 2014]

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Metéora

Metéora

Metéora é o nome de um complexo de seis mosteiros que ficam sobre imensos picos rochosos na região central da Grécia, uma paisagem única que inspirou o cineasta Spiros Stathoulopoulos a criar uma história de amor bem particular, batizada com o mesmo nome do lugar. Metéora, o filme, é um respiro no cinema recente grego, que adotou a demência para se expressar sobre a condição político-econômica do país, um dos mais abalados pela crise que se abateu sobre a Europa nos últimos anos. Stathoulopoulos encontra no cenário natural da região a matéria-prima para criar um libelo contra o desespero, que parece ser a metáfora perfeita para falar da Grécia.

O filme é protagonizado por dois monges, um homem e uma mulher, que vivem em mosteiros diferentes, um de frente para o outro, separados pelo abismo que divide as montanhas que os guardam. Mesmo à beira do abismo, como o povo grego, os dois se encontram e se apaixonam. Fogem escondidos, se encontram em terra firme e se amam. O diretor aproveita essa história para revelar os habitantes da região e costurar lendas e tradições ao amor proibido dos dois monges, muitas vezes recorrendo à animação como recurso para ilustrar esse peso histórico. Cria cenas de uma beleza clássica e refinada, envolve os personagens num manto de culpa para depois afirmar que o desespero é a única coisa que não tem jeito. Serve para os monges, serve para a Grécia, serve para o mundo.

Metéora EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Metéora, Spiros Stathoulopoulos, 2012]

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Amantes Eternos

Amantes Eternos

“A beleza não tem causa. É. Quando a perseguimos apaga-se. Quando paramos – permanece”. O pensamento é da poetisa norte-americana Emily Dickinson e pode ser aplicado a boa parte da produção artística dos dias atuais. A busca pela plástica não raramente abate o conteúdo e mesmo o objetivo estético fica comprometido pelo excesso de filtros e pelas ideias vazias que se resolvem em si mesmas. Esta pequena elocubração serve para apresentar o texto sobre o novo filme de Jim Jarmusch, um diretor cuja obra sempre teve uma marca bastante distinta, tanto em seus aspectos visuais quanto em temáticas e visões de mundo. Em maior ou menor grau, o cineasta encontrou a beleza com alguma sorte e bastante sensibilidade.

Amantes Eternos, embora trate novamente de um microcosmo, tem maiores pretensões do que outros longas de Jarmusch porque evoca uma maldição milenar, lida com conceitos etéreos e místicos como herança e destino e tem representações externas. Tom Hiddleston e Tilda Swinton, dois dos atores mais delicados e versáteis dos últimos anos, vivem Adam e Eva, um casal de criaturas imortais que há séculos deixou de lado uma sina sanguinária para procurar novas formas de permanecer vivos. Mas a reflexão que o filme lança vai muito além dos meios que uma espécie encontra para garantir sua longevidade. O tempo não é apenas fio condutor da história, mas o elemento definidor dos preceitos e das decisões dos personagens. Adam e Eva não são reféns do tempo. Há muito fizeram as pazes com ele e nele encontraram sabedoria que os mantém.

No filme de Jarmusch não há guerras pelo poder nem conflitos entre raças. Não há lados, mas posturas. O cineasta utiliza sua alegoria, que recicla figuras clássicas da literatura de fantasia, para refletir sobre o próprio fluxo da vida. Martin, de George A. Romero, pode ter sido uma influência para o diretor. Aqui há a mesma consciência do vampirismo como uma doença contemporânea. Os protagonistas buscam nos porões desse mundo atual soluções para suas deficiências. Assumem suas condições de marginais, vivem à margem. Fatigados pela própria história, preferem o conforto do anonimato, vivem um presente eterno até que o presente acabe, sugam da vida o que não sugam dos outros. Encontraram equilíbrio e alguma dignidade, coisas que nem sempre são fáceis de se administrar.

Esse caminho inusitado empresta a Amante Eternos uma singeleza bastante particular, que Jarmusch tenta cultivar em imagens delicadas, uma trilha blasé e cenários que se não são artificiais traduzem uma vida artificial, a vida que foi possível. A mistura parece intangível, mas convida a um reflexão existencialista sobre o propósito de continuar vivo. Há uma certa beleza em perceber certas sutilizas, em entender o sacrifício e a privação pelos quais aqueles personagens e em constatar que a veradeira maldição milenar dos vampiros de Jarmusch é a própria vida.

Amantes Eternos EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Only Lovers Left Alive, Jim Jarmusch, 2013]

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Lauren Bacall, o último clássico de Holywood

Lauren Bacall

Em 1997, Lauren Bacall era a favorita para ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante. O filme era a comédia O Espelho Tem Duas Faces, dirigido e estrelado por Barbra Streisand. Bacall fazia a mãe da protagonista e utilizava um senso de humor refinado para dar molho ao longa. Mas Hollywood tinha comprado a proposta de O Paciente Inglês e pareceu irresistível entregar o prêmio para outra candidata nobre, a francesa Juliette Binoche, que ficou chocada quando foi anunciada como vencedora e, utilizando uma sinceridade e uma delicadeza genuínas, deixou bem claro que achou que a veterana atriz dos filmes noir, viúva de Humphrey Bogart, lenda viva do cinema americano ganharia a estatueta. “E eu acho que ela merece”, disse Binoche.

Foi a única vez em que o Oscar lembrou da atriz, que somente 13 anos depois mereceria um prêmio pelo conjunto da obra. Justamente numa época em que estas homenagens pela carreira eram feitas em festas menores, ganhando apenas uma menção na cerimônia principal. Lauren Bacall não pode agradecer ao vivo. Apareceu na plateia, acenando. Um descaso e tanto para uma intérprete que nunca foi uma atriz excelente, mas estrelou filmes de Howard Hawks, John Huston, Sidney Lumet e Robert Altman, e foi coestrela de Gary Cooper, Gregory Peck, Henry Fonda e Tony Curtis, entre muitos outros.

Seu primeiro filme, Uma Aventura na Martinica, lhe rendeu fama e um marido. Bogart não resistiu aos encantos da loira e os dois foram casados por mais de doze anos, até a morte do ator, em 1957. Mas não foi só o astro de Casablanca que se deixou seduzir pela atriz. O charme de Bacall lhe garantiu o status de musa do filme noir, com destaque para À Beira do Abismo e Paixões em Fúria. Fez comédias deliciosas, como Teu Nome é Mulher e Como Agarrar um Milionário e, já madura, protagonizou O Fã – Obsessão Cega, suspense rodado nos anos 80, que brinca com sua própria capacidade de sedução.

Não havia mais lugar para Lauren Bacall nesse mundo sem glamour. Sua morte leva a atriz para o lugar ao qual ela pertence, um mundo onde a fantasia da clássica Hollywood vai viver pra sempre.

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