Certo Agora, Errado Antes

Certo Agora, Errado Antes

Hong Sang-soo não se cansa de emular Woody Allen, inclusive com a câmera variando para lugares inusitados como a copa de uma árvore seca depois que é abandonada pelo ator, que sai de quadro. De Allen, o coreano também rouba o improviso das situações e um certo descaso com as explicações: as personagens surgem e desaparecem meio do nada e o que é dito numa cena é desmentido na outra sem que ninguém ligue muito pra isso. Posto isso, Certo Agora, Errado Antes, vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, guarda muitas semelhanças com o filme anterior do cineasta, Montanha da Liberdade, também na seleção do Festival do Rio. Todos os longas de Hong Sang-Soo são muito parecidos entre si, mas o fato dos dois filmes terem um casal de protagonistas errando pela cidade – que parece a mesma – e passando por cafés pode incomodar quem assiste aos dois títulos num intervalo pequeno de tempo. Mas a impressão muda um pouco no decorrer deste novo filme que vai crescendo aos poucos e se transforma em dois. O casal de protagonista, Jae-yeong Jeong e Min-hee Kim, não têm a mesma química dos protagonistas do filme anterior, mas funcionam bem. A grande sacada de Sang-soo é a brincadeira com a estrutura, que já parecia super bem resolvida em Montanha da Liberdade, onde uma cena em que papéis se embaralharam literalmente muda a cronologia do próprio longa. Aqui, as coisas parecem mais simples. Duas linhas narrativas, como o próprio Allen já fez em Melinda e Melinda, mas desta vez bastante separadas uma da outra. E o que parecia simples ganha complexidade aos poucos, com o humor de Sang-soo valorizando as personagens e dando a quem assiste ao filme um motivo para se apegar àquela história que se reiventou.

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[Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da, Hong Sang-soo, 2015]

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São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi é um filme de super-heróis. Seus muitos protagonistas, que aparecem ou simplesmente estão representados na tela, passaram as três décadas registradas no longa-metragem de Lufe Steffen enfrentando vilões cruéis, como a Ditadura Militar, a Aids e, aquele que talvez seja o mais perigoso de todos eles, o preconceito. O documentário mapeia a história da noite gay paulistana desde o surgimento das primeiras casas noturnas destinadas ao público homossexual, nos anos 60, até o final da década de 80, quando o surgimento do HIV transformou a relação do ser humano com o sexo e fez muitas baixas na comunidade.

O fio condutor que o diretor utiliza para contar essa história é o aparecimento de boates e clubes gays na cidade, o que tem três funções bem importantes. A primeira é relacionar aquele a trajetória daquele universo com o próprio movimento histórico do Brasil e do mundo, exibir o contexto em que tudo aquilo aconteceu, alfinetando o Regime Militar. A segunda é devassar os costumes desse pessoal, explicando as estratégias dos homossexuais de São Paulo para driblar a Ditadura, seja em casas noturnas ou em locais de pegação. Por fim, a geografia narrativa de São Paulo em Hi-Fi apresenta ao espectador seus personagens. E é aí que o filme acerta em cheio.

Como documentário, São Paulo em Hi-Fi é um registro até bastante clássico, com depoimentos, fotos e vídeos da época sendo intercalados numa estrutura que obedece a uma cronologia de acontecimentos. Sua força maior está na maneira como ele trata e retrata seus personagens. Travestis, escritores, jornalistas, empresários, entre outros, falam abertamente sobre todos os aspectos da vida LGBT nessas três décadas, desnudando da militância ao sexo. O filme os apresenta como heróis da resistência que ajudaram a construir um universo paralelo, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade comum, que foi essencial para sua própria sobrevivência.

Os depoimentos não se furtam em invadir tabus como o sexo fácil ou os cinemas de pegação, mas o filme não trata os temas com descaso ou vergonha, nem como meros detalhes, mas como elementos essenciais para o exercício do desejo e a formação de uma consciência de classe. Os relatos de aventuras e as histórias dos bastidores da noite são apresentados como pequenas vitórias pessoais de personagens que pareciam relegados a uma vida escondida. O filme captura bem esse sentimento de libertação, que ganha força, por exemplo, em todas as declarações de Kaká di Polly, cuja língua ferina e o despudor trazem detalhes da cena gay para uma espécie de mainstream universal.

Esse talvez seja o grande trunfo do filme: Lude Steffen é muito mais carinhoso do que militante. Seu filme é muito mais histórico do que panfletário. Ele não só entende e defende seus personagens, mas com dialoga com todos. Por isso, é bem estranho que o documentário ainda tenha demorado três anos para encontrar espaço no circuito comercial brasileiro, sendo que, neste mesmo período, filmes com temática homossexual, como Hoje eu Quero Voltar Sozinho e Tatuagem, encheram cinemas semanas a fio. Um registro tão sério e um filme de memórias tão memorável merece uma plateia mais ampla, cheia de todos os tipos de super-heróis.

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[São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen, 2013]

entrevista com o cineasta Lufe Steffen

Por que “São Paulo em Hi-Fi”, que foi exibido em 2013 no Mix Brasil, só agora conseguiu entrar em circuito? Houve preconceito em relação ao tema do filme?

Não, nunca houve preconceito, pelo contrário, o filme era sempre muito pedido, requisitado, solicitado. Mas na época eu finalizei o filme de forma mais underground, sem recursos, sem o acabamento técnico necessário, sem a arte-final que eu desejava. Somente no final de 2014, quando o filme recebeu um apoio através de um edital, é que pude finalizar a obra devidamente, cuidar da trilha sonora definitiva, fazer enfim, o “director’s cut” rs… E é essa versão repaginada que estreia agora.

A versão que chega ao Cinesesc é a mesma que vimos nos festivais? Quais as chances do filme ser exibido em outros cinemas/cidades?

Como respondi na anterior, não, a versão que estreia é um tanto diferente da versão que passou em festivais em 2013 e 2014. As chances são boas, estamos montando uma espécie de “turnê” do filme em capitais e cidades brasileiras. Inclusive vale dizer que quem quiser ajudar a levar o filme para sua cidade, basta entrar em contato com a nossa página do Facebook pra ver essa possibilidade.

A sessão no Mix Brasil foi histórica, com uma plateia que se reconhecia na tela, às vezes literalmente. Para quem você acha que é o filme? Qual o público que você pretendia atingir? Aliás, você pensou nisso?

Acho que o filme é para todos, mesmo. Quando eu estava fazendo, acreditava que o interesse principal seria para o público LGBT com mais de 40 anos. Mas conforme as sessões foram ocorrendo, me surpreendi com a quantidade de gente jovem que se apaixona pelo filme, que vem me dizer que amou, que gostaria de ter vivido nessa época e tal. Também aparecem muitas senhoras casadas com seus maridos que vêm elogiar, dizer que adoravam essa época, mesmo não tendo frequentado a noite gay. Outro dia tivemos uma sessão com um público todo de galera entre 20 e 30 anos, a maioria não gay e também foi muito bem recebido. E o público gay com mais de 40, 50, 60, 70 anos, sempre vem comentar o quanto se emocionou, o quanto se envolveu com o filme. Mesmo esse público me surpreende porque eu não imaginava que as pessoas iam se emocionar tanto. Então tem sido surpreendente. Minha conclusão é que o filme é para todos.

É seu segundo documentário sobre a noite gay paulistana. O que te fascina sobre o assunto?

Boa pergunta! A noite sempre me fascinou, sempre gostei de sair de noite nas festas e noitadas, e vivenciei a vida noturna com muito empenho e bastante inquietação. Tentei registrar, imortalizar a noite gay de São Paulo nos dois longas que fiz, na tentativa de capturar a essência dessas noites. Como se assim eu conseguisse dominar esse universo. Claro que não consegui! Acho que tem a ver com minha dificuldade em lidar com o lado efêmero da vida, e a noite é uma síntese disso: uma noite passa, e pronto. Como a vida.

Imagino que deva ter sido uma jornada para encontrar vídeos, fotos e depoimentos que retratassem as mais de três décadas pelas quais o filme atravessa. Como foi essa pesquisa?

Foi difícil, porque quase não havia (não há) registro do assunto. A noite LGBT de São Paulo só passa a ser bastante documentada a partir dos anos 90. Então foi uma batalha mesmo. A pesquisa englobou arquivos de revistas e jornais, acervos pessoais de amigos e entrevistados do filme, coleções particulares.

Não sei se você concorda, mas o cinema gay parece finalmente sair de um gueto nos últimos anos, especialmente o brasileiro. Como você vê esse momento?

Eu concordo. Parece que está mesmo acontecendo um momento de avanço. Eu, que comecei a fazer curtas de temas gays em 1997 – de lá para cá foram 9 curtas de ficção, todos ligados ao universo LGBT -, acompanhei esse processo bem de perto mesmo. Acho importante dizer que é um processo que já vem de muito antes. Um dos cineastas brasileiros que mais admiro, o Djalma Limongi Batista, fez seu primeiro curta gay já em 1968, Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora. Em 66, o Carlos Hugo Christensen – outro cineasta que adoro – já havia feito o longa O Menino e o Vento. Então no final dos 60, e durante toda a década de 70 e a de 80, vejo que muitos filmes se aproximaram da questão gay, de uma maneira ou de outra.

Na maior parte de seu tempo, “São Paulo em Hi-Fi” relata fatos acontecidos durante a Ditadura. E, nos últimos anos, o Brasil caminha para um cenário cada vez mais conservador. É justamente no meio desse processo que seu filme estreia. O que você espera dele?

Pois é, curiosamente o filme estreia nesse momento ambíguo do país, assim como foi ambígua a época da ditadura. Naquele momento, apesar da repressão e da homofobia que já existia, é claro, o universo gay conseguia encontrar brechas (ainda que no underground, na noite e nunca no dia) para se manifestar, e o filme mostra essa atitude. Hoje, vivemos um momento contraditório: ao mesmo tempo em que os direitos LGBT e a visibilidade gay aumentaram sensivelmente, enfrentamos a reação dos conservadores, reacionários, homofóbicos, manipulados e manipuladores, e hipócritas em geral. Não sei como serão os próximos anos, mas espero que o filme (assim como outras iniciativas culturais desbravadoras que tem acontecido, no cinema, no teatro, na literatura, nas artes enfim) contribua para avançarmos ainda mais, impondo mesmo o direito de liberdade, o direito de você ser quem você quiser ser. Acredito que nada é por acaso, e se o filme estreia justamente agora, é porque tem algo a dizer sobre tudo isso.

Por fim, você consegue listar 5 filmes essenciais de temática LGBT, sejam brasileiros ou não?

Vou citar só brasileiros:
O Menino e o Vento, de Carlos Hugo Christensen (1966)
Asa Branca, um Sonho Brasileiro, de Djalma Limongi Batista (1980)
Onda Nova, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins (1984)
Anjos da Noite, de Wilson Barros (1987)
Meu Amigo Claudia, de Dacio Pinheiro (2009)

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Maravilhoso Boccaccio

Maravilhoso Boccaccio

Embora tenha uma ideia central que remete a um dos maiores clássicos da dupla, Kaos, inspirado em contos de Pirandello, Maravilhoso Boccaccio lembra mais os filmes de época que os próprios irmãos Paolo e Vittorio Taviani dirigiram nos anos 90, uma safra menos celebrada do que os feitos dos diretores na década anterior. A trama se passa em 1348, quando a Europa era devastada pela Peste Negra, e mostra um grupo de jovens que foge da cidade em que moram para se refugiar da doença num castelo e, entendiados, contam histórias de amor uns para os outros. Como no roteiro original de Aconteceu na Primavera ou na adaptação de As Afinidades Eletivas, de Goethe, as relações entre as personagens eram mais simples e a própria construção das histórias mais clássicas. Se os textos das fábulas, livremente inspiradas no Decameron de Giovanni Boccaccio, livro adaptado com mais assinatura por Pier Paolo Pasolini, são parábolas morais bem contadinhas que atendem às expectativas do espectador e remontam a uma certa zona de conforto para os diretores, falta ao filme a pungência de Pai Patrão ou A Noite de São Lourenço, dois de seus filmes mais celebrados, ou o risco de César Deve Morrer, seu trabalho anterior, cheio de fôlego e frescor, talvez sua obra mais particular. Falta assinatura a esse novo trabalho.

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[Maraviglioso Boccaccio, Paolo & Vittorio Taviani, 2015]

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O Conto dos Contos

O Conto dos Contos

O primeiro filme em inglês do italiano Matteo Garrone é uma fantasia clássica que amarra três contos morais retirados do livro Pentamerone, do escritor italiano Giambattista Basile, sobre abusos de poder de três monarcas diferentes. Salma Hayek, Toby Jones e Vincent Cassel colhem os frutos de suas obsessões numa produção de época ambiciosa, cheia de efeitos visuais – alguns bons, outros nem tanto – que evoca um cinema às antigas. É curioso notar a escolha de Garrone, que sempre lidou com temas mais sérios e atuais em seus filmes (Gomorra é sobre a máfia e Reality sobre um homem comum encantado com a possibilidade de virar celebridade). O problema é que durante todo o filme o cineasta, que se disse atraído pela possibilidade de contar fábulas mais cruas, nunca se mostra totalmente à vontade em entrar por este universo. E, além disso, se as histórias remetem a tramas clássicas, os contos com lição de moral parecem bem ingênuos para os dias de hoje. As tramas e as soluções de roteiro são bem óbvias e nenhum ator está especialmente bem nos papéis. A cena do escafandro, com direito a um “monstro do lago” é uma das melhores, remetendo diretamente a Fritz Lang em Os Nibelungos: A Morte de Siegfried.

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[Il Racconto dei Racconti, Matteo Garrone, 2015]

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Truman

Truman

Assim como Já Sinto Saudades, de Catherine Hardwicke, que chegou aos cinemas no fim do ano passado, Truman, do catalão Cesc Gay, tenta olhar para seu protagonista doente sem comiseração. Um dos trunfos do filme é apontar o foco para o momento de descoberta da gravidade do problema em vez de mostrar o processo gradativo de sofrimento da personagem. Truman também é uma aposta segura, um “filme de Ricardo Darín”, quase um subgênero cinematográfico (pelo menos, no Brasil) que passeia pelo agridoce com muito humor e algumas delicadezas para agradar um público mais velho que geralmente associa esse tipo de filme a uma obra de arte. Embora mantenha a sobriedade e o equilíbrio durante um bom tempo, Gay comete alguns deslizes melosos aqui e ali, como na cena em que o protagonista chama os amigos para fazer uma “grande revelação”. O resultado fica fragilizado, mas ainda é honesto. A química entre Darín e Javier Cámara, de Fale com Ela, funciona muito bem. Dolores Fonzi, que tem o único papel feminino de destaque no filme, bem boa, também o polêmica Paulina.

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[Truman, Cesc Gay, 2015]

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Sinfonia da Necrópole

Sinfonia da Metrópole

O horror sempre foi material de trabalho para Juliana Rojas. Os elementos fantásticos e sobrenaturais estão presentes em praticamente todos seus curtas e em seu longa de estreia, Trabalhar Cansa, codirigido pelo parceiro de sempre, Marco Dutra. O que ninguém imaginava é que em seu primeiro trabalho solo, Juliana fosse usar o terror apenas como ambientação para fazer um musical. Sinfonia da Necrópole é um filme único no cinema brasileiro recente, uma mistura de gêneros que, no olhar particular da diretora, encontrou um formato diferente e bem resolvido. Há um clara evolução na direção de atores, na montagem e no próprio fluxo do roteiro em relação ao longa anterior (assim como no primeiro trabalho solo de Dutra, Quando Eu Era Vivo). As músicas de ambos os filmes, por sinal, foram compostas pelos dois parceiros: melodias bonitas, autorais, de estruturas complexas, com letras cheias de ironia. Elas ajudam Juliana a contar a história do aprendiz de coveiro que é convocado para para fazer o recadastramento de túmulos abandonados no cemitério. À medida em que analisa e ironiza o crescimento urbano e homenageia, inclusive no título, Berlim, Sinfonia da Metrópole, Juliana Rojas encontra uma maneira completamente original de fazer cinema no Brasil.

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[Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas, 2014]

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Zoom

Zoom

Cinema adolescente com roteiro adolescente, piadas adolescentes e uma sensação adolescente de que tudo aquilo é extremamente original. Pedro Morelli tinha feito um trabalho consideravelmente melhor em Entre Nós, que nem era um grande filme, mas pelo menos era mais coeso e bem menos pretensioso. Talvez o pulo para uma produção internacional tenha redimensionado as coisas – pro lado errado. Trabalhar com um elenco estrangeiro e majoritariamente em inglês pode ter influenciado em encontrar uma trama mais truqueira, que reprisa aquela velha máxima das histórias paralelas que têm relação entre si – relação esta que aqui encontrou o pior gancho possível. Mariana Ximenes ficou robótica atuando em inglês e a virada de sua personagem é a mais tosca do filme. Allison Pill, sempre simpática, tenta encontrar algum caminho mais interessante embora sua personagem seja boba demais. O maior acerto é deixar a narrativa de Gael García Bernal toda em animação, mas isso não é suficiente para fortalecer o conjunto.

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[Zoom, Pedro Morelli, 2015]

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É o Amor

É o Amor

Os protagonistas de É o Amor parecem embriagados. Encharcados de sentimentos tortos e conflituosos, nunca completamente explicados porque não existe muita regra para sentimentos. O contador, sua mulher, seu amante, o amante deste seu amante, todas as personagens do filme parecem completamente apaixonados, mas sem saber exatamente o que fazer com isto. Paul Vecchiali comanda o longa como maestro de uma melodia curta, encantadora e meio maluca, que brinca com a métrica e com a perspectivas das cenas. O diretor, um provocador por natureza, escolhe como uma das personagens principais um ator que teria ganho o César depois de fazer um filme sobre pegação gay, numa claríssima alfinetada ao recente Um Estranho no Lago. Talvez o cineasta não enxergue afeto no drama árido de Alain Guiraudie, talvez prefira encher seus protagonistas de sentimentos conflituosos que deixam seus passos menos prováveis, mais interessantes. Vecchiali volta a dirigir o casal de protagonistas de seu filme anterior, Noites Brancas no Píer, Astrid Adverbe e Pascal Cervo. Mas duas atrizes coadjuvantes roubam as únicas cenas em que aparecem: a mãe de Odile, vivida pela excelente Simone Tassimot, cuja participação musical é encantadora, e a agente de Jean, papel de Mireille Roussel, num momento de comédia que enche o filme de esperança.

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[C'est L'amour, Paul Vecchiali, 2015]

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Autorretrato de uma Filha Obediente

Autorretrato de uma Filha Obediente

Dos filmes romenos exibidos em festivais no ano passado, Autorretrato de uma Filha Obediente pode não ser o melhor, mas é certamente o mais surpreendente (embora um western do leste europeu esteja na disputa). Surpreendente por ser dirigido por uma mulher, que entra num mundo bem fechado de Cornelius, Radus e Catalins, e oferece uma visão de mundo mais original e mais radical do que todos eles, e também por apresentar proposta diferente do que se espera do cinema romeno, onde geralmente se parte de um fato (um crime, uma proposta, um mistério) para se fazer uma observação do comportamento daquela sociedade. Ana Lungu concentra as coisas em sua protagonista, uma estudante que nunca vemos realmente estudar, que não trabalha, que sobrevive com a ajuda dos pais, mas se sente livre. Complexa e interessantíssima, sua história não segue um roteiro propriamente dito, mas uma sobreposição de cenas que não têm grande relação entre si, mas que aos poucos dizem para o espectador muito sobre quem é aquela mulher. Sua relação com o pai, um acumulador compulsivo de objetos culturais, renderia uma tese de doutorado, mas no filme rende os diálogos mais deliciosos, amorais e inteligentes diante da verborragia sarcástica do velho.

Autorretrato de uma Filha Obediente EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Autoportretul unei Fete Cuminti, Ana Lungu, 2015]

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A Bruxa

A Bruxa

A Bruxa talvez assuste menos do que deveria, mas o horror que o diretor Robert Eggers procura é outro. Embora o fantástico, o místico, o sobrenatural assombrem as personagens do filme de maneira muito concreta, o terror maior do longa de Eggers é o provocado pelo homem. A história se passa em 1630, na Nova Inglaterra, nos Estados Unidos, um lugar tomado à força de seus verdadeiros moradores, que tiveram suas terras e seus deuses roubados em troca da truculência de uma cultura e de uma religião que elegem demônios diante do menor motivo. O horror de A Bruxa é o horror de apontar culpados, de ignorar laços familiares, de ignorar o amor em prol de uma fé cega. A família de William é expulsa de uma cidade por questões religiosas, muda-se para um campo ao lado de uma floresta e, num piscar de olhos, o caçula da família, o bebê Sam, desaparece enquanto brincava com a irmã mais velha, Thomasin. Diante de uma situação sem explicação, o luto da família é trocado, literalmente, por uma caça às bruxas, onde sussurros e brincadeiras podem ser mal interpretados. A formação de Eggers é como diretor de arte, então, existe uma preocupação clínica com a reconstituição de época, o desenho de produção, os figurinos e a plástica do filme como um todo, que é impecável, embora resulte num excesso de solenidade e numa frigidez que só é quebrada pelas interpretações. Anya Taylor-Joy e, sobretudo, Harvey Scrimshaw são excelentes. A expressão Katie Dickie, revelada em Game of Thrones, e a voz de trovão de Ralph Ineson ajudam a manter a atmosfera de incertezas. Se o filme não dá os sustos que poderia, aterroriza pela maneira que mostra o ser humano.

A Bruxa EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[The Witch, Robert Eggers, 2015]

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