Oscar 2015: segundo round de apostas

Oscar 2015

filme

minhas apostas

Birdman, Alejandro Gonzalez Iñarritu
Boyhood, Richard Linklater
Garota Exemplar, David Fincher
O Jogo da Imitação, Morten Tyldum
Invencível, Angelina Jolie
A Most Violent Year, J.C. Chandor
Selma, Ava DuVernay
A Teoria de Tudo, James Marsh
Whiplash, Damien Chazelle

têm chances

Caminhos da Floresta, Rob Marshall
Foxcatcher, Benett Miller
O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson
Interestelar, Christopher Nolan
Livre, Jean-Marc Vallée
Mr. Turner, Mike Leigh
Sniper Americano, Clint Eastwood
Still Alice, Richard Glatzer & Wash Westmoreland
Vício Inerente, Paul Thomas Anderson

Direção

direção

minhas apostas

Alejandro Gonzalez Iñarritu, Birdman
Angelina Jolie, Invencível
Ava DuVernay, Selma
Morten Tyldum, O Jogo da Imitação
Richard Linklater, Boyhood

têm chances

Christopher Nolan, Interestelar
Damien Chazelle, Whiplash
David Fincher, Garota Exemplar
JC Chandor, A Most Violent Year
Mike Leigh, Mr. Turner

Ator

ator

minhas apostas

Benedict Cumberbatch, O Jogo da Imitação
David Oyelowo, Selma
Eddie Redmayne, A Teoria de Tudo
Michael Keaton, Birdman
Oscar Isaac, A Most Violent Year

têm chances

Bradley Cooper, Sniper Americano
Jake Gyllenhaal, O Abutre
Ralph Fiennes, O Grande Budapeste Hotel
Steve Carell, Foxcatcher
Timothy Spall, Mr. Turner

atriz

atriz

minhas apostas

Felicity Jones, A Teoria de Tudo
Jennifer Aniston, Cake
Julianne Moore, Still Alice
Reese Witherspoon, Livre
Rosamund Pike, Garota Exemplar

têm chances

Amy Adams, Big Eyes
Emily Blunt, Caminhos da Floresta
Gugu Mbatha-Raw, Belle
Hilary Swank, The Homesman
Shailene Woodley, A Culpa é das Estrelas

ator coadjuvante

ator coadjuvante

minhas apostas

Edward Norton, Birdman
Ethan Hawke, Boyhood
J.K. Simmons, Whiplash
Miyavi, Invencível
Tom Wilkinson, Selma

têm chances

John Goodman, The Gambler
Josh Brolin, Vício Inerente
Logan Lerman, Corações de Ferro
Mark Ruffalo, Foxcatcher
Robert Duvall, O Juiz

atriz coadjuvante

atriz coadjuvante

minhas apostas

Carmen Ejogo, Selma
Emma Stone, Birdman
Jessica Chastain, A Most Violent Year
Keira Knightley, O Jogo da Imitação
Patricia Arquette, Boyhood

têm chances

Jessica Chastain, Interestelar
Katherine Waterston, Vício Inerente
Kristen Stewart, Still Alice
Laura Dern, Livre
Meryl Streep, Caminhos da Floresta

roteiro original

roteiro original

minhas apostas

Birdman, Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris & Armando Bo
Boyhood, Richard Linklater
O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson & Hugo Guinness
Selma, Ava DuVernay, Paul Webb
Whiplash, Damien Chazelle

têm chances

O Abutre, Dan Gilroy
Foxcatcher, E. Max Frye & Dan Futterman
A Most Violent Year, J.C. Chandor
Mr. Turner, Mike Leigh
Top Five, Chris Rock

roteiro adaptado

roteiro adaptado

minhas apostas

Garota Exemplar, Gillian Flynn
Invencível, Joel Coen, Ethan Coen, Richard LaGravenese & William Nicholson
O Jogo da Imitação, Graham Moore
Still Alice, Richard Glatzer & Wash Westmoreland
A Teoria de Tudo, Anthony McCarten

têm chances

Caminhos da Floresta, Jame Lapine
Livre, Nick Hornby
Rosewater, John Stewart
Sniper Americano, Jason Dean Hall
Vício Inerente, Paul Thomas Anderson

Uma Aventura Lego

filme de animação

minhas apostas

Uma Aventura Lego, Phil Lord & Christopher Miller
Os Boxtrolls, Graham Annable & Anthony Stacchi
Como Treinar Seu Dragão 2, Dean DeBlois
O Conto da Princesa Kaguya, Isao Takahata
Operação Big Hero, Don Hall & Chris Williams

têm chances

Cheatin’, Bill Plympton
Festa no Céu, Jorge R. Gutierrez
Rio 2, Carlos Saldanha
Song of the Sea, Tomm Moore
Tante Hilda!, Benoît Chieux & Jacques-Rémy Girerd

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho

filme estrangeiro

minhas apostas

Dois Dias, Uma Noite (Bélgica)
Ida (Polônia)
Mommy (Canadá)
Relatos Selvagens (Argentina)
Timbuktu (Mauritânia)

têm chances

Força Maior (Suécia)
Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (Brasil)
Leviatã (Rússia)
O Vale Sombrio (Áustria)
Winter Sleep (Turquia)

fotografia

minhas apostas

Birdman, Emmanuel Lubezki
Interestelar, Hoyt Van Hoytema
Invencível, Roger Deakins
Mr. Turner, Dick Pope
Selma, Bradford Young

têm chances

Corações de Ferro, Roman Vasyanov
Garota Exemplar, Jeff Cronenweth
Ida, Ryszard Lenczewksi & Lukasz Zal
A Most Violent Year, Bradford Young
A Teoria de Tudo, Benôite Delhomme

Garota Exemplar

montagem

Birdman, Douglas Crise
Boyhood, Sandra Adair
Garota Exemplar, Kirk Baxter
O Jogo da Imitação, William Goldenberg
Whiplash, Tom Cross

têm chances

Corações de Ferro, Jay Cassidy & Dody Dorn
Interestelar, Lee Smith
Invencível, Tim Squyres
A Most Violent Year, Ron Petane
Selma, Spencer Averick

O Grande Hotel Budapeste

desenho de produção

minhas apostas

Caminhos da Floresta, Dennis Gassner & Anna Pinnock
Êxodo: Deuses e Reis, Arthur Max & Celia Bobak
O Grande Hotel Budapeste, Adam Stockhausen
O Jogo da Imitação, Maria Djurkovic
Mr. Turner, Suzie Davies & Charlotte Watts

têm chances

O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, Dan Hennah & Ra Vincent
Interestelar, Nathan Crowley, Gary Fettis & Paul Healy
Invencível, Jon Hutman & Lisa Thompson
Malévola, Dylan Cole, Gary Freeman & Lee Sandales)
Noé, Dylan Cole, Gary Freeman & Lee Sandales

Malévola

figurinos

minhas apostas

Caminhos da Floresta, Colleen Atwood
Êxodo: Deuses e Reis, Janty Yates
O Grande Hotel Budapeste, Milena Canonero
Malévola, Anna B. Sheppard
Mr. Turner, Jacqueline Durran

têm chances

Big Eyes, Colleen Atwood
O Jogo da Imitação, Sammy Sheldon
Saint Laurent, Anaïs Romand
Selma, Ruth E. Carter
Vício Inerente, Mark Bridges

Foxcatcher

maquiagem

minhas apostas

Caminhos da Floresta
Foxcatcher
Guardiões da Galáxia

têm chances

Êxodo: Deuses e Reis
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Malévola

Interestelar

trilha sonora

minhas apostas

Birdman, Antonio Sanchez
Interestelar, Hans Zimmer
Invencível, Alexandre Desplat
O Jogo da Imitação, Alexandre Desplat
A Teoria de Tudo, Jóhann Jóhannsson

têm chances

Como Treinar Seu Dragão 2, John Powell
Corações de Ferro, Steven Price
Foxcatcher, Rob Simonsen
Garota Exemplar, Trent Reznor & Atticus Ross
O Grande Hotel Budapeste, Alexandre Desplat

Boyhood

canção

minhas apostas

“Glory”, Selma
“Mercy Is”, Noé
“Lost Stars”, Mesmo Se Nada Der Certo
“Split the Difference”, Boyhood
“Wish I Was Here”, Wish I Was Here

têm chances

“Everything is Awesome”, Uma Aventura Lego
“I’ll Get You What You Want”, Muppets 2: Procurados e Amados
“Miracles”, Invencível
“Not About the Angels”, A Culpa é das Estrelas
“The Last Goodbye”, O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos

mixagem de som

minhas apostas

Caminhos da Floresta
Corações de Ferro
Invencível
James Brown
Whiplash

têm chances

Godzilla
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Interestelar
Planeta dos Macacos: O Confronto
Transformers: A Era da Extinção

Planeta dos Macacos: O Confronto

edição de som

minhas apostas

Corações de Ferro
Godzilla
Interestelar
Invencível
Planeta dos Macacos: O Confronto

têm chances

No Limite do Amanhã
Garota Exemplar
Guardiões da Galáxia
Sniper Americano
Transformers: A Era da Extinção

Guardiões da Galáxia

efeitos visuais

minhas apostas

Godzilla
Guardiões da Galáxia
Interestelar
O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos
Planeta dos Macacos: O Confronto

têm chances

Capitão América: O Soldado Invernal
Malévola
Noé
Transformers: A Era da Extinção
X-Men: Dias de um Futuro Esquecido

Elena

documentário

minhas apostas

The Case Against 8, Ben Cotner & Ryan White
CITIZENFOUR, Laura Poitras
Keep On Keepin’ On, Alan Hicks
Life Itself, Steve James
Red Army, Gabe Polsky

têm chances

Elena, Petra Costa
National Gallery, Frederick Wiseman
The Overnighters, Jesse Moss
O Sal da Terra, Juliano Ribeiro Salgado & Wim Wenders
Tales of the Grim Sleeper, Nick Broomfield

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Oscar 2015: como anda a corrida do ouro

Oscar 2015

Invencível, de Angelina Jolie, teve sua première mundial esta semana, em Sydney, na Austrália, país em que foi rodado, mas ninguém pode publicar opinião sobre o filme antes do dia 2 de dezembro. A prática do “embargo” é comum em algumas exibições para a imprensa de longas que ainda vão demorar para ser lançados e o segundo filme de ficção de Jolie só chega aos cinemas no dia 25 do próximo mês. Mas a decisão ajuda a refletir: se os criadores do filme realmente apostassem todas as fichas nele, não seria mais natural alimentar as expectativas deixando as críticas positivas fazendo propaganda?

Bem, Jolie não foi exatamente muito feliz em sua estreia numa trama ficcional. Na Terra de Amor e Ódio era uma sucessão de clichês e estereótipos e este novo longa tem material suficiente para qualquer um desconfiar. Conta a história real de um piloto americano que foi abatido durante a Segundo Guerra Mundial, sobreviveu no mar por 47 dias para ser capturado e torturado pelos japoneses. Ainda assim, Invencível está cotado para concorrer ao Oscar desde que o projeto foi anunciado. Resta saber se ele chega lá.

Faltam cerca de duas semanas para que a temporada de prêmios de cinema de 2014, que culmina com a entrega do prêmio da Academia, comece oficialmente. O Círculo de Críticos de Cinema de Nova York e o National Board of Review, as duas mais antigas entidades da crítica americana, vão anunciar seus escolhidos, sedimentando os palpites, apostas e bochichos que vêm sendo desenhados desde o dia seguinte à última cerimônia do Oscar, em março passado. Até agora, tudo não passa de especulação. Os experts na temporada de ouro fazem suas apostas a partir de uma mistura de perfil do filme (tom épico, histórias reais ou roteiros adaptados de livros conceituados geralmente agradam) currículo do diretor (se ele já foi indicado ao Oscar, nunca sairá do mapa) e quantidade de astros para só depois descobrir se os longas realmente “funcionaram” junto a público e crítica.

A estreia dos filmes, em circuito ou em festivais, elimina uns, aumentas as chances de outros e revela novos concorrentes. Mas o que determina mesmo quem permanece na próxima fase da disputa são os prêmios da crítica. E esses críticos parecem dizer que Boyhood, de Richard Linklater, e Birdman, de Alejandro Gonzalez Iñarritu, ganharam força com a queda ou as fragilidades de outros favoritos. Meses atrás, o primeiro só era realmente cotado para a categoria de roteiro, onde o diretor Richard Linklater já esteve duas vezes; o segundo era mais lembrado como um azarão. Resultado: ambos cresceram depois da estreia e aparecem em todas as listas de apostas para filme e direção.

Boyhood

Boyhood, que a princípio parecia um projeto haribô de Linklater, que sempre esteve mais pro cinema de autor do que para a engrenagem de Hollywood tem a seu favor a exclusividade do projeto. O filme foi rodado ao longo de 12 anos com o mesmo grupo de atores (entre eles Ethan Hawke e Patricia Arquette), o que já o deixa num patamar diferenciado. Birdman, sobre um ator assombrado por super-herói que interpretou, também conseguiu ultrapassar seu nicho de filme indie. Iñarritu é um diretor respeitado – e já indicado – pela Academia e a presença de Michael Keaton, que muitos apostam ser a “volta por cima” do ano, alavanca as possibilidades.

O Jogo da Imitação, estreia hollywoodiana do norueguês Morten Tyldum, entrou forte na disputa. Embora o filme tenha apenas 68 de 100 pontos nas resenhas do site Metacritic, que indexa crítricas feitas mundo afora, está sendo distribuído pela The Weinstein Company, tem os astros Benedict Cumberbatch, um dos atores do momento, e Keira Knightley e, como Invencível, se passa na Segunda Guerra. Temas históricos costumam agradar à Academia, o que tem beneficiado Selma, da pouco conhecida Ava DuVernay, sobre a marcha de Martin Luther King (um elogiado David Oyelowo) pelos direitos iguais para brancos e negros. O filme tem sido bastante elogiado e nenhuma lista de apostas o ignora.

Outro personagem histórico que pode impulsionar um filme é o físico inglês Stephen Hawkings. A Teoria de Tudo, baseado no livro escrito por sua mulher, também é um título fácil nas bolsas dos especialistas em Oscar, que comparam a transformação física de Eddie Remayne com a de Daniel Day-Lewis em Meu Pé Esquerdo, mas o filme não tem o mesmo apoio crítico de outros candidatos. Mais unânime é Whiplash, exibido recentemente no Festival do Rio, que reinventa a fórmula do filme professor x aluno com um roteiro inteligente, uma montagem acertada e um duelo saudável entre Miles Teller e J.K. Simmons. Parece cada vez com mais chances de ser indicado na categoria principal.

Com seis filmes consolidados (Boyhood, Birdman, O Jogo da Imitação, Selma, A Teoria de Tudo e Whiplash) e um enigma (Invencível), resta saber que outros candidatos podem ocupar as vagas finais. Ao todo, dez filmes podem ser indicados na categoria de melhor filme, mas desde que a Academia criou a regra da elasticidade que permite de cinco a dez concorrentes, somente nove conseguem chegar lá. Há três anos que é assim. Supondo que o número se repita na temporada deste ano e considerando os seis longas citados acima como boas apostas, três vagas estão em jogo; duas se mantivermos o filme de Angeline Jolie na parada.

O Incontention aposta em Sr. Turner, de Mike Leigh, para fechar a lista (para eles, seriam apenas 8 indicados). Tem fundamento: a Academia adora o diretor; o filme é uma biografia e tem um quê refinado, o que agrada um bom quinhão dos votantes; deve ser indicado em categorias técnicas como fotografia, direção de arte e figurinos, e tem chances de emplacar Timothy Spall, ótimo, entre os atores. O Awards Circuit faz apostas mais populares. Para o site, Caminhos da Floresta, nova versão de Cinderela, assinada por Rob Marshall, e Interestelar, de Christopher Nolan. O primeiro é um tiro no escuro já que ninguém viu e o tom infantil pode não ajudar. O segundo é um caso à parte.

Desde Batman, o Cavaleiro das Trevas, muita gente acha que Nolan já deveria ter sido indicado ao Oscar de direção, mas isso nunca acontece. O filme tem aquele tom épico comum às obras do diretor, mas essa grandiosidade também tem seus detratores. As bilheterias estão boas, mas o filme teve apenas a 17ª melhor estreia do ano, perdendo a primeira posição no primeiro fim de semana em circuito. E justamente depois que chegou aos cinemas a maioria dos sites desistiu de apostar em Nolan e em Jessica Chastain, nas categorias de direção e atriz coadjuvante. A campanha realmente se apequenou. O filme terá que receber bastante apoio dos prêmios de crítica para continuar com chances.

Foxcatcher

O The Film Experience é mais tradicional. Segue apostando, ainda que nas últimas posições, em Garota Exemplar e Foxcatcher. Ambos apareciam na maior parte das listas no começo da corrida, mas foram perdendo espaço aos poucos. Muita gente parece achar que o filme de David Fincher não tem cada de Oscar por ser baseado num romance policial. Só Rosamund Pike parece inabalável. Mas as qualidades do longa podem surpreender. Já o longa de Benett Miller se prejudicou pelo fato de ter tido o lançamento atrasado em um ano. As críticas foram boas, mas os experts do Oscar parecem preferir apostar nas novidades. Hoje, poucos prevêem mais indicações do que as de Steve Carrell, que anda meio desacreditado, e a da maquiagem. No entanto, como há vagas ainda incertas, ambos os filmes podem se beneficiar das boas resenhas e encontrar forças nas indicações dos críticos.

Correndo por fora, Inherent Vice, de Paul Thomas Anderson, que a Academia sempre enxergou como transgressor (só Sangue Negro chegou lá); O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson, que também parece ser visto pelo Oscar como café-com-leite (só aparece como roteirista); e A Most Violent Year, de JC Chandor, que ganhou indicação de roteiro por seu primeiro filme, mas passou quase em branco com o segundo. Livre, de Jean-Marc Vallée, deve se restringir à indicação de Reese Whitherspoon. Já Sniper Americano, de Clint Eastwood, que não convence a Academia há uns dez anos, foi recebido com críticas mornas, assim como Big Eyes, de Tim Burton; e Corações de Ferro, de David Ayer. Com esses três fragilizados, Still Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland, que deve dar o Oscar de atriz a Julianne Moore, até cresce um pouco na disputa.

minhas apostas por ordem

1 Boyhood, Richard Linklater;
2 O Jogo da Imitação, Morten Tyldum;
3 Birdman, Alejandro Gonzalez Iñarritu;
4 Selma, Ava DuVernay;
5 A Teoria de Tudo, James Marsh;
6 Whiplash, Damien Chazelle;
7 Invencível, Angelina Jolie;
8 Garota Exemplar, David Fincher;

têm chances

9 Foxcatcher, Benett Miller;
10 Interestelar, Christopher Nolan;
11 Sr. Turner, Mike Leigh;
12 Vício Inerente, Paul Thomas Anderson;
13 A Most Violent Year, J.C. Chandor;
14 Still Alice, de Richard Glatzer e Wash;
15 Caminhos da Floresta, Rob Marshall;
16 O Grande Hotel Budapeste, Wes Anderson;

quase fora da disputa

17 Sniper Americano, Clint Eastwood;
18 Corações de Ferro, David Ayer;
19 Big Eyes, Tim Burton;
20 Wild, Jean-Marc Vallée.

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Interestelar

Interestelar

William Shakespeare, nos tempos idos de 1600, já dizia que “há mais coisas entre o Céu e a Terra do que supõe nossa vã filosofia”. Mais de quatrocentos anos depois, alguns mistérios celestes já foram desvendados pelo ser humano, mas a maior parte deles continua desafiando nossa imaginação. Christopher Nolan, que sempre foi um cineasta bem esperto, mira nesse vácuo entre o que conhecemos do nosso planeta e do resto do universo para tentar responder algumas das grandes perguntas da humanidade, mas não se decide muito bem entre a ciência, uma metafísica não assumida, a mais absoluta ficção e “o poder do amor”. Interestelar nasce dessa indefinição: é um filme confuso, completamente estruturado como um dramalhão e que tem um roteiro cheio de buracos negros.

Estamos numa Terra pós-colapso global. Nos Estados Unidos, depois da “praga” destruir várias culturas, só se planta e se colhe milho. Pelo menos até que a natureza elimine também essa última alternativa. Todo mundo virou fazendeiro. A agricultura é de subsistência. Os governos caíram. O que restou deles eliminou os exércitos. E orientou às escolas a ensinar que o homem nunca foi à Lua. Para Nolan, num planeta onde a fome atinge praticamente todos, apagar os milhões gastos com militares e projetos espaciais conforta os famintos e os que ainda comem milho. Ele só não explica quem teve a ideia de lidar com uma multidão de pessoas que não têm como se alimentar, onde as revoltas seriam iminentes, sem soldados. Mas estamos numa ficção-científica, num futuro pós-apocalíptico. Nem tudo precisa ter lógica.

Spoilers a partir daqui

Em Interestelar, as probabilidades são mais elásticas do que a margem de erro do Ibope. As nuvens podem ser sólidas e ainda flutuar sobre nossas cabeças, é possível navegar ao lado de um buraco negro sem ser automaticamente destroçado e uma viagem no tempo, ou no espaço-tempo, pode ajudar a mudar o futuro sem criar realidades alternativas. Tudo bem. Embora essas liberdades que desafiam o que já conhecemos possam entrar na pasta “ainda não temos informações suficientes, então, deixa a gente divagar”, é bem difícil explicar algumas coisas mais palpáveis, como quando nossos queridos astronautas precisam de apenas alguns segundos para chegar a conclusões que os cientistas tentam alcançar há uns cinco séculos.

Ou o plano da personagem do Matt Damon.

Toda a sequência em que surge o Dr. Mann parece apenas existir para desviar a atenção das explicações pé-de-chinelo que Nolan arruma para a parte final de sua saga espacial. Fica mais fácil comprar toda a jornada metamísticocientífica do protagonista, vivido por um Matthew McConaughey que nunca tinha chorado tanto em cena, quando ainda se está tentando decifrar o que Damon fazia naquele filme e quais eram as intenções de sua personagem. Adivinhar o que existe dentro de um buraco negro, imaginar como seria a vida em cinco dimensões, fazer crer que os códigos de uma tecnologia milênios à frente podem ser transmitidos por um relógio de pulso. Nada disso é pecado. A fantasia está aí desde que as histórias começaram a ser contadas. A questão é que todo é que esse cenário se passa num filme de Christopher Nolan.

E o grande problema deste filme é o grande problema do cinema de Nolan. Para o diretor, tudo precisa ser feito em larga escala, todo filme é construído num tom solene, quase megalomaníaco. Todos seus filmes, desde Batman Begins, parecem querer ser versões definitivas para o que se propõem. E como eles têm temas divertidos como heróis em quadrinhos, truques de mágica, o mundo dos sonhos e viagem espaciais, a brincadeira inevitavelmente se perde. Em Interestelar, como em centenas de ficções-científicas, o objetivo é salvar a humanidade, mas o peso que o diretor imprime a cada cena, a construção dramática que tenta dar profundidade ao menor dos diálogos, a ideia de chamar o físico Kip Thorne para dar credibilidade a cada solução mal explicada, resumindo, essa intenção de fazer o scifi definitivo, jogam todo o trabalho para as estrelas.

Thorne assina como produtor-executivo. Ou seja, garantiu sua parte nesse latifúndio espaço-temporal, o que pode explicar a quantidade de buracos negros que ele deixou passar no roteiro. Os atores parecem dirigidos para que todas cenas pareçam muito sofridas, dolorosas mesmo, como se o filme buscasse numa base espiritual outro suporte para suas invenções pseudo-científicas. McConaughey chora. Jessica Chastain chora. Anne Hathaway chora e protagoniza um dos momentos mais constrangedores dos diálogos do filme, quando Nolan quer dar um crédito científico para o já citado “poder do amor”, como um meio confiável para tomar decisões no espaço sideral. E quem não se debulha em lágrimas vive tenso, como Michael Caine e Casey Affleck. Aliás, a quantidade de nomes de peso no elenco só parece confirmar que o diretor queria um filme importante: Topher Grace, John Lithgow, Wes Bentley e Ellen Burstyn parecem jogados, sem função real no longa a não ser para criar momentos “olha, ele também está no elenco”.

O mais lamentável é como o filme segue em frente após cada cratera no roteiro, como se pulasse num buraco de minhoca para se livrar de um planeta de explicações que ele não consegue dar. É o roteiro mais mal acabado entre todos os filmes de Nolan. O cineasta parece confiar que o espectador vá se contentar com sua condição de leigo e passar por cima das respostas que o filme não oferece, mas finge ter oferecido. Num projeto menos ambicioso, coerência não seria o mais importante. A diversão cimentaria todas as rachaduras. Mas numa obra tão supostamente fundamental, tensa, séria, como quer o diretor de Interestelar, chegar naquele final choroso é no mínimo um desrespeito com quem assiste aos 169 minutos deste filme.

Interestelar Estrelinha½
[Interstellar, Christopher Nolan, 2014]

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Mostra SP 2014: post dezoito

A Ilha dos Milharais

A Ilha dos Milharais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[სიმინდის კუნძული / Simindis Kundzuli, George Ovashvili, 2014]

Não sabemos de onde vêm e quem são os protagonistas de A Ilha dos Milharais. Eles nunca aparecem fora do cenário que dá título ao filme, a não ser quando estão chegando de barco ao lugar ou coletando mandeira na outra margem do rio. Esse mistério ajuda a dar ao filme uma aura de delicadeza que invade um campo quase místico embora o longa, o segundo do diretor, trabalhe basicamente com o realismo. O mais bonito no filme talvez nem passe pelos personagens, avô e neta num recorte do que é um período do ano em suas vidas, mas em como a passagem do tempo transforma a paisagem. O cenário reduzido, um barranco de terra que surge sazonalmente no leito de um rio que divide a Geórgia e o Azerbaidjão, e onde os moradores aproveitam para plantar milho, é recompensado por uma fotografia que sempre oferece um novo ângulo do lugar. George Ovashvili quer retratar o ciclo da vida. E o faz com tantos detalhes que a sutileza perde um pouco de sua força. Se não quisesse parecer tão importante, o filme poderia ser mais sucedido, mas ainda assim há um punhado de belas cenas que ajudam a transformar esta numa experiência de rara beleza mesmo para um “filme de festival”.

Jauja

Jauja EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Jauja, Lisandro Alonso, 2014]

Jauja é um lugar mítico onde, diz a lenda, as pessoas não precisam trabalhar e há abundância e felicidade. Lisandro Alonso invade o mito transportando seus elementos para uma Argentina de paisagens improváveis no século 19. Em sua Jauja, o protagonista é um dinamarquês enviado para o novo mundo com sua filha. Tanto ele quanto ela parecem perdidos numa terra estranha até que ela se deixa encantar por um morador local e foge. É então que o cineasta transforma Jauja, o filme num road movie em que tempo e espaço se confundem, uma jornada existencial que dura uma eternidade e onde o presente pode visitar o futuro e os personagens podem se perder na imensidão. Essa jornada do protagonista, vivido por um dedicado Viggo Mortensen, essa busca em si, parece importar mais a Alonso do que a personagem ou a amarração da trama. Depois de algum tempo de procura, a exaustão do caminho inóspito leva Gunnar Dinesen para um estado de transe onde a realidade é o que menos interessa. Talvez tenhamos finalmente chegado em Jauja.

A Fuga

A Fuga EstrelinhaEstrelinha½
[A Blast, Syllas Tzoumerkas, 2014]

O cinema grego recente parece se utilizar de um certo estado de demência para retratar o caos sócio-político-financeiro que atingiu o país nos últimos anos. Syllas Tzoumerkas escolheu um caminho diferente: A Fuga, seu segundo longa-metragem, é um filme urgente, nervoso, que com uma câmera tensa, uma montagem acelerada e anacrônica, e uma protagonista sempre prestes a explodir, tenta inserir o espectador no redemoinho que devassou a Grécia. Nesse sentido, o filme parece mais fiel ao desespero da condição grega do que Attenberg, por exemplo, mas a intensidade de seu retrato é tanta que se transforma num tipo de esquizofrenia cinematográfica e compromete não apenas a fluidez da trama como a própria credibilidade da proposta. Angeliki Papoulia, atriz de um marco do cinema contemporâneo do país, Dente Canino, é o grande trunfo do filme. Assume os excessos da personagem sem excessos de interpretação e justifica seu comportamento e seu desejo sexual. Pena que o filme não consiga acompanhar seu ritmo.

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Mostra SP 2014: post dezessete

A História da Eternidade

A História da Eternidade EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[A História da Eternidade, Camilo Cavalcante, 2014]

As mesas de almoço são fartas em A História da Eternidade. O sertão do filme de Camilo Cavalcante é tão árido quantos os outros sertões da ficção, mas não é a fome ou a miséria que está em questão. O longa fala de um certo peso ancestral que cai sobre os ombros dos moradores dos confins do Nordeste brasileiro. Nesse sentido, o diretor traz uma visão um tanto mística sobre essas pessoas, como se elas fossem condenadas pelo destino, amaldiçoadas pela inevitabilidade da tragédia. Não por acaso, as três protagonistas das histórias entrelaçadas que costuram o filme são mulheres, o que acentua sua sina de sofrimento. Cada uma começa o filme com um martírio: Querência enfrenta a perda; Das Dores encara a solidão; Alfonsina padece com a falta de perspectivas. No decorrer de duas horas, Cavalcante irá ajudar a escrever o destino destas três mulheres, incorporando fatalidades recorrentes ao microcosmo sertanejo, fantasmas que assombram aquele povo geração atrás de geração. É verdade que o diretor abusa de uma poesia calculada em vários momentos do filme. A personagem de Irandhir Santos estrela vários deles e parece uma personagem improvável naquele contexto de conhecimento limitado. Mas os excessos do papel e do próprio filme ajudam a entregar algumas cenas memoráveis, como a bela recriação de “Fala”, dos Secos e Molhados. Uma epifania em meio a uma história com os pés no chão. Talvez os abusos de Cavalcante sejam exatamente isso, epifanias, momentos de liberdade poética extremos no meio de um filme tão fatalista. Por isso mesmo, o excesso parece encontrar um espaço adequado nessa reflexão sobre a Grande Tragédia do Sertão. Não bastasse, Camilo Cavalcante cria uma lindíssima cena final. Uma cena em que declara seu carinho pelas três personagens principais, curando Querência, confortando Das Dores e libertando Alfonsina.

O Pequeno Quinquin

O Pequeno Quinquin EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[P'tit Quinquin, Bruno Dumont, 2014]

O Pequeno Quinquin incomoda muito mais do que qualquer coisa. É difícil não se abalar com algumas das opções de Bruno Dumont para esta minissérie para a TV francesa, convertida num filme de 200 minutos exibidos em festivais de cinema. Ao contrário do que se poderia imaginar pela imagem de filme infantil, o cinema e os debates do Bruno Dumont aparecem nesta nova obra e mais firmes do que nunca. Todas as questões religiosas, todas as dúvidas espirituais, todos os conflitos, sobretudo o medo do Mal, crescem à medida que descobrimos que Quinquin não é o protagonista do filme. Dumont utiliza a personagem para se aproximar de elementos que o assombram, como se a maldade inocente das crianças aliviasse essa proximidade. A quantidade de atores com algum tipo de deficiência física ou mental impressiona. O diretor parece querer incomodar e faz isso de forma mais contundente quando o espectador se percebe rindo das trapalhadas dos atores. Se o filme não exatamente explora a condição deles, também não os poupa de nada, deixando para quem assiste a responsabilidade sobre as risadas nas piadas que surgem como consequências de suas deficiências. Essas camadas secretas fazem de Quinquin, se não um bom filme, uma obra perturbadora e obrigatória.

Cássia

Cássia EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Cássia, Paulo Henrique Fontenelle, 2014]

É engraçado como um filme bate de maneira diferente para cada pessoa. A subjetividade vem da memória, das experiências. É impossível ter exatamente a mesma impressão que outra pessoa depois de uma sessão de cinema. Louco é quando um mesmo filme bate de maneiras diferentes para a mesma pessoa. Cássia, documentário de Paulo Henrique Fontenelle sobre a Cássia Eller, não é um grande filme. Por sinal, é um filme tradicional, até quadrado, que parece menor do que sua protagonista. Ainda mais quando a gente sabe que o diretor fez o excelente Loki, sobre o mutante Arnaldo Baptista. Mas curiosamente esse longa convencional deixa a impressão de que sua protagonista é uma gigante. Cássia é um filme bastante emocional e não por causa de sua excelente pesquisa de imagens, sobe sons e depoimentos, mas porque assisti-lo faz crer que seu diretor se envolveu tão profundamente com o projeto ao ponto de não achar pontos de corte num filme que claramente tem um excesso de material. O foco numa Cássia Eller por trás do microfone cria uma identificação grande do espectador com o longa. Faz pensar muito sobre o que é importante. Sobre o que nós construímos. Sobre quem amamos. Sobre família e amigos. Não achar Cássia um grande filme não inviabiliza dizer que Fontenelle fez um trabalho especial. Vai entender o ser humano, né?

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Mostra SP 2014: post dezesseis

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre sua Existência

Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre sua Existência EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[En Duva Satt på en Gren och Funderade på Tillvaron, Roy Andersson, 2014]

O cinema de Roy Andersson tem uma fórmula que se repete: seus filmes são formados por esquetes de humor nonsense que geralmente preparam o espectador para uma mensagem ou um questionamento final. O sueco é um bom encenador, tem um dom para criar quadros sólidos, que funcionam isoladamente, mas que também dialogam uns com os outros e, muitas vezes, consegue oferecer boa comédia em suas microestórias melancólicas. Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre sua Existência, premiado em Veneza, segue essa proposta de cinema, expondo o absurdo do cotidiano para denunciar a hipocrisia da vida. Em cada pequeno capítulo, Andersson usa a maquiagem excessiva, a encenação nada naturalista e a idiossincrasia das situações retratadas para chamar atenção para o ridículo no ser humano. Seu plano é deixar o espectador anestesiado, mas atento para que ele perceba onde o homem pode chegar. Essa reflexão sobre a própria existência só peca justamente pela repetição da fórmula. O processo do cinema de Andersson fica muito exposto e diminui o impacto de suas próprias revelações. O mecanismo parece tão ou mais importante do que as conclusões filosóficas do cineasta. As Maravilhas

As Maravilhas EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Le Meraviglie, Alice Rohrwacher, 2014]

Gelsomina, como a personagem homônima vivida por Giulietta Masina em A Estrada da Vida, está descobrindo o mundo. A adolescente, filha de uma família que vive de produzir mel no interior da Itália, começa a se interessar por um garoto e vê na possibilidade de participar de um programa de TV a chance para conhecer novos horizontes. A maior qualidade de As Maravilhas é sua fortíssima ligação com a memória. O filme é uma espécie de diário poético sobre uma infância idealizada, onde é permitido acrescentar fantasia e elementos mágicos para construir uma lembrança perfeita. A cineasta Alice Rohrwacher se baseou em passagens de sua juventude para escrever o longa e escalou a irmã, Alba, para o papel da mãe de Gelsomina. Muito mais complexo do que parece, o filme costura essa caderneta de notas do passado com referências sutis ou explícitas a Federico Fellini, uma crítica colorida à televisão italiana (com a ajuda de Monica Bellucci) e uma poesia sincera que servem para basear a história da transformação de uma menina em adolescente. Mary, Rainha da Escócia

Mary, Rainha da Escócia EstrelinhaEstrelinha½
[Mary Queen of Scots, Thomas Imbach, 2013]

A narrativa de Mary, Rainha da Escócia é em missivas. Thomas Imbach usa as cartas de Mary para Elizabeth e de Elizabeth para Mary como base para construir a trama política intrincada sobre as duas primas-rainhas como um livro de história. O diretor acerta em cheio em apostar na ausência física de Elizabeth. Mostrar a Rainha da Inglaterra sempre pareceu irresistível para os cineastas que contaram antes esta história, mas, ausente, Elizabeth cresce fantasmagórica. As belas imagens no entanto se perdem um pouco por causa do tom do filme. Da trilha à montagem, tudo é solene no filme, baseado na novela de Stefan Zweig, menos a interpretação esquálida da protagonista Camille Rutherford, que nunca consegue alcançar a pompa que Imbach tenta impor ao longa. Para realizar seu intento, o diretor precisaria de uma atriz muito mais poderosa. O duelo entre a intérprete e a protagonista prejudica muito o resultado. Mas o cinema de Imbach é bastante vigoroso.

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Mostra SP 2014: post quinze

Minha Amiga Victoria

Minha Amiga Victoria EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Mon Amie Victoria, Jean-Paul Civeyrac, 2014]

A vida de Victoria não tem capítulos diferentes da história de qualquer pessoa. Encontros, reencontros, despedidas. Maridos, namorados, filhos. Em determinada cena do filme, a amiga da protagonista diz que ainda vai escrever um livro sobre ela. E ouve: “minha vida não tem nada demais”. A personagem principal da novela de Doris Lessing é uma mulher comum, mas que no lápis da escritora e sob a direção peculiar de Jean-Paul Civeyrac ganha ares de heroína da vida real. Mas o cineasta envolve cada momento da história da personagem com uma embalagem delicada que torna especiais situações banais para qualquer um. Este tom raro reformula as questões étnicas que podem surgir do fato da protagonista negra ter um filho de um pai branco de uma espécie de esquerda caviar francesa. Civeyrac evita qualquer tipo de maniqueísmo e Victoria chega a ser simples de tão complexa, de tão real.

Retorno a Ítaca

Retorno a Ítaca EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Retour à Ithaque, Laurent Cantet, 2014]

Diretor de filmes excepcionais como A Agenda e Entre os Muros da Escola, Laurent Cantet pousou em Cuba para fazer o típico filme sobre o reencontro de velhos amigos. À primeira vista, o filme tem a agilidade e a cadência de uma rumba, apresentando as personagens em pequenos goles, fazendo observações bem conscientes e independentes sobre liberdade e política no país, envolvendo o espectador com aquele encontro de histórias. Havana é filmada de maneira documental do topo do edifício onde mora um dos cinco protagonistas e a cidade invade as conversas, brincadeiras e danças do grupo de uma maneira natural e cheia de vitalidade como poucos diretores conseguem fazer. A questão é que, a partir de determinado ponto, os inevitáveis conflitos entre as personagem afloram no melhor estilo do gênero e a roupa suja é lavada ali na laje mesmo, com direito a pelo menos uma “grande revelação”, que atropela muito o ritmo e a fluidez do filme.

Obra

Obra EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Obra, Gregório Graziosi, 2014]

A estreia de Gregório Graziosi em longas-metragens faz uma válida tentativa de incorporar a cidade a sua forma e a sua narrativa. São Paulo e seu subsolo mais profundo parecem ser os verdadeiros protagonistas de Obra, um filme que assume a arquitetura, profissão do personagem de Irandhir Santos, não apenas para a plástica, mas para a própria estrutura do filme. Rodado num preto-e-branco que ora impressiona pelos enquadramentos, ora parece artificializar demais algumas cenas, o longa trabalha com o conceito de arquitetura em vários níveis. Ousado, mas nem sempre funciona. Primeiro temos um homem que encontra na base de uma obra que comanda num terreno de sua família rica um segredo que muda a maneira como ele enxerga seus ancestrais. Este mesmo homem sofre com uma hérnia de disco, problema que se agrava à medida em que escava o passado de seus parentes. Graziosi utiliza esses trocadilhos não ditos de uma forma bem interessante para amarrar a proposta de seu longa, mas o filme peca por embutir demais a frieza e a assepsia desse mesmo conceito em sua espinha dorsal. No entanto, o problema maior talvez nem seja este, mas o casting de Irandhir Santos. O ator é um dos melhores que surgiram no Brasil nos últimos anos, mas fica difícil acreditar nele como um paulistano coxinha quando não se percebe o mínimo esforço para transformar seu sotaque. O estranhamento pode até ter sido proposital, mas não ajuda a sustentar essa obra.

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Mostra SP 2014: post catorze

As Noites Brancas do Carteiro

As Noites Brancas do Carteiro EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Belye Nochi Pochtalona Alekseya Tryapitsyna, Andrei Konchalovsky, 2014]

A câmera de Andrei Konchalovsky segue o carteiro de uma vila no norte da Rússia, onde boa parte dos moradores sobrevive de pensões por terem sido militares. O diretor, mais uma vez, usa atores amadores para interpretar a si mesmos num roteiro ficcional, mas inspirado em suas próprias vidas. O resultado dá cor à melancolia das personagens, que parecem bem à vontade ao encenar suas rotinas. Cada cena é filmada num longo take único em que a câmera tenta ficar o mais invisível possível para que o “elenco” evolua com naturalidade. Konchalovsky mistura as imagens documentais que captura do interior das casas dos protagonistas com as cenas “roteirizadas”, costurando uma narrativa brejeira que faz o espectador mergulhar numa Rússia que sobrevive dos cacos do passado ao mesmo tempo em que é condenada por este mesmo passado. A curva é sutil e transforma As Noites Brancas do Carteiro num programa duplo dos mais provocadores com Leviatã, de Andrei Zvyagintsev.

Nabat

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[Nabat, Elchin Musaoglu, 2014]

Anos 90, Azerbaidjão. A vila em cujos arredores Nabat mora com o marido doente está no meio de um conflito territorial. O casal já perdeu o filho na guerra e a rotina da mulher, de caminhar sozinha até a cidade para vender o leite que sua única vaca produz, é interrompida quando ela percebe que a população abandonou o lugar. De repente, a protagonista vaga por aquelas ruas de pedra sem os encontros que enchem seu dia-a-dia e faz o que pode para manter acesa o que lhe resta de esperança. Desse ritual cíclico de solidão, o cineasta Elchin Musaoglu consegue extrair uma boa dose de lirismo com a ajuda de sua atriz principal, Fatemeh Motamed Arya, que cria uma personagem talhada pela brutalidade da vida. Mas a tristeza genuína de Nabat ganha um maniqueísmo incômodo depois que sua nova rotina fica clara para o espectador. Musaoglu acerta na construção da relação de Nabat com a loba, mas a trilha sonora e a imagem final da protagonista parecem exigir do espectador lágrimas que ele já pode até ter entregado de graça.

O Medo

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[La Por, Jordi Cadena, 2014]

A construção que Jordi Cadena impõe para seu filme, um suspense psicológico que guarda sempre seu vilão sob uma névoa sufocante, é interessante para apresentar os protagonistas, mas tem uns pecados que me parecem imperdoáveis. O fatalismo do filme não dá qualquer chance para entendermos o personagem do pai e suas motivações. O tom, sempre acima, nos incita a ter pena do restante do elenco apenas com a insinuação do que acontece dentro daquela casa. O uso do silêncio para construir a narrativa é um ponto forte, mas esse mesmo silêncio vira um maneirismo para que o diretor modele suas intenções. A metáfora gratuita na cena da aula de ciências parece pura preguiça do roteiro, assim como as cenas no cemitério. Por fim, o desfecho de O Medo, com direito a uma fala irônica de muito mau gosto, parece apenas guardar o choque final para cooptar quem está do outro lado da tela.

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Boyhood

Boyhood

O recurso narrativo mais comum quando um cineasta resolve contar “a história de uma vida” é a catarse. É ela que amarra a trajetória da personagem, pontua seus grandes momentos e ajuda a determinar sua personalidade. Numa obra tão peculiar como Boyhood, filme idealizado e realizado por Richard Linklater ao longo de doze anos, com os mesmos atores interpretando os mesmos papéis, envelhecendo diante das câmeras, seria muito natural que a catarse fosse a espinha dorsal do projeto para justificar os caminhos do protagonista e do próprio filme, que pela própria natureza já traz embutido um tom épico.

Mas Linklater, o cineasta do diálogo, tinha outros planos para aquele que talvez seja “o projeto de uma vida”. Não há grandes cenas em Boyhood. Pelo menos não no conceito clássico do que seria uma “grande cena”. Não há momentos fundamentalmente emocionais que marcam a história do garoto Mason, que entreguem o personagem para a próxima etapa de sua vida. Festa de aniversário, separações e formaturas são menos importantes do que o dia-a-dia. O diretor trabalha essencialmente com o microcosmo familiar do garoto, lançando o foco muito mais em sua relação cotidiana com os pais, a irmã e o mundo a sua volta do que numa história retrancada, que pontuasse os fatos mais importantes de sua vida.

Abrir mão de um recurso tão hábil numa biografia, ainda que numa biografia de um personagem fictício, é só mais um golpe de coragem de Linklater numa obra que, de tão arriscada, só foi “descoberta” no ano passado, quando os trabalhos já estavam praticamente concluídos. A cada ano, nos últimos doze anos, o cineasta reuniu o mesmo elenco para gravar uma sequência que dava continuidade à história do protagonista. Foi preciso 1) ajustar as filmagens às agendas de Ethan Hawke e Patricia Arquette; 2) lidar com o fato de que sua filha, Lorelei, que interpreta a irmã de Mason, chegou a desistir de ser atriz e pediu para que sua personagem fosse eliminada do filme, e 3) se adaptar a um protagonista inexperiente que teria que submeter ao projeto por mais de uma década: Ellar Coltrane foi escolhido aos 5 anos para um trabalho de onde só saíria aos 18.

Os risco eram grandes, mas acompanhar o envelhecimento de Ellar na tela cria uma cumplicidade inédita entre personagem e espectador, independentemente do carisma do garoto, que se modifica ao longo das filmagens, e do talento nada excepcional do ator. Michael Apted já havia feito algo parecido com sua Up Series, em que registra os mesmos personagens por quase 50 anos. Mas Apted fez isso em filmes diferentes e trabalhando com personagens reais. Boyhood até tem bastante de documentário, mas é essencialmente uma história de ficção, um artifício, o que de certa forma dá maior controle ao diretor sobre os rumos a seguir, mas também o expõe a fragilidade do filme diante de qualquer possibilidade de interferência externa.

Mirando nas cenas do dia-a-dia, nos diálogos que vão se perder na memória – porque a memória prefere os grandes tópicos -, Linklater nos oferece a intimidade de ver alguém crescer. Mason (ou Ellar) é como nosso irmão ou o amigo de toda a juventude, aquele a quem acompanhamos a vida inteira.  As transformações f’ísicas do garoto vêm junto de sua formação emocional. O ritmo que o diretor adota é algo bem próximo do ritmo da vida. A direção de atores é naturalista. Patricia Arquette, que faz a mãe de Mason, nem parece estar interpretando e Ethan Hawke, parceiro de longa data de Linklater, está bem à vontade como pai liberal, meio riponga e boa gente. Ambos fogem de qualquer arquétipo (pai ausente, mãe dominadora, etc). O conflito está nos detalhes.

Boyhood parece buscar a emoção genuína e ela, para Linklater, não passa necessariamente por cenas lacrimosas nem se apóia em curvas dramáticas com efeitos colaterais. A cena final da mãe, extremamente realista, prova como o diretor subverte as regras. O choro vem sem maniqueísmo, sem cálculo. O sentimento real, parece dizer o diretor, está na identificação com Mason, que ressalta a humanidade (ou as humanidades) da personagem e do espectador. Essa recusa pelo modelo mais tradicional, e consequentemente mais fácil, limita o lirismo em potencial do filme. Boyhood não é o filme “lindo” como estamos acostumados a ver. A beleza está muito mais no segundo plano. É preciso alcançá-la. A questão, para o cineasta, parece ser: por que usar de artifícios quando o ser humano já é demasiadamente interessante?

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[Boyhood, Richard Linklater, 2014]

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Mostra SP 2014: post treze – Winter Sleep

Winter Sleep

[com quilos de spoilers]

Vou escrever este texto em primeira pessoa porque a visão que eu tive do filme de Nuri Bilge Ceylan é bastante particular e pode ser algo que só faça sentido na minha cabeça. Em tempos de eleições, é difícil desviar o olhar para outros assuntos e, se o diretor de Winter Sleep fosse brasileiro, eu suspeitaria de que o longa é uma alegoria ao comportamento de certos eleitores do nosso país. O protagonista do filme é um homem rico, culto, ilustrado, um ator aposentado que escreve colunas semanais para revistas, analisando temas amplos e complexos como religião, tristeza, o comportamento humano, a própria vida. Aydin não trabalha, ganha a vida com o hotel onde mora e recebe hóspedes de todo o mundo e com os aluguéis de várias casas que herdou do pai na Capadócia, região da Turquia o que garante um cenário único para o filme de Ceylan.

A condição confortável da personagem não o impede de explorar as pessoas pobres que moram em suas propriedades. Mas essa exploração é terceirizada por Aydin. Ele deixa com que seus correligionários cuidem das cobranças da maneira como acharem melhor. O método que eles utilizam para isso não necessariamente seria culpa dele, acredita. Esta é uma postura de vida para a personagem. Tudo o que lhe parece desconfortável é passado para terceiros, menos sua hipocrisia. Se se utiliza de seus preceitos (como “não dê o peixe; ensine a pescar”), preceitos que considera infalíveis para não conceder anistia ou algo que o valha para seus inquilinos devedores, Aydin se sente particularmente tocado quando uma fã de suas colunas escreve para ele para pedir ajuda financeira para um trabalho social. Caridade nunca foi seu forte. Aydin sempre ignorou o trabalho voluntário que a mulher, Nihal, faz há anos. Mas, desta vez, por algum motivo, parecia diferente.

Quando foi confrontado com essa idiossincrasia, Aydin corre atrás do altruísmo perdido. Ele oferece seu dinheiro para doações, ele oferece comida para o professor que vai fazer uma viagem de moto. Tenta até o último recurso buscar algo que o faça acreditar em suas boas intenções. Intenções que até então estavam escondidas lá no fundo de seu coração. Quando a mulher - cujo trabalho social se tornou uma maneira para se sentir viva, indivíduo -, reclama de suas intervenções, o protagonista do filme se arma com um discurso bem articulado, em que se utiliza de toda sua formação e capacidade de oratória para deixá-la sem argumentos e “convencê-la” (ou convencer a si mesmo de que a convenceu) de que ele – e apenas ele – pode organizar o trabalho que ela já coordena há tanto tempo.

Essa arrogância de Aydin, que tenta puxar os projetos sociais da esposa para debaixo de suas asas, foi uma prática utilizada a rodo na campanha eleitoral deste ano. Prática que serve apenas para colher os louros sobre os frutos das iniciativas de outros e reafirmar para si mesmo, no caso da personagem e de alguns partidos políticos, sua inclinação social, se cristaliza num longo e cruel diálogo com sua irmã. Por princípio, o homem enfrenta quem tem opiniões contrárias às dele, seja sobre o mundo, seja sobre ele mesmo, como um inimigo a derrubar. E a primeira arma para isso é desqualificar a argumentação alheia para depois virar o jogo e questionar quem o questiona, como os tais eleitores. Para ele, é um “acinte” que alguém não reconheça que ele está certo. Para Aydin, o fundamental é ser manter no controle. Ele nem sempre percebe, mas se enxerga como um astro com todo o resto girando ao seu redor.

Encerrado seu espetáculo, ele volta ao palco para um ato final. E em mais um golpe de seu altruísmo deformado, insinua pedir desculpas para depois revelar sua mais nova ficção. Nada de surpreendente para um homem que escreve sobre religião, mas nunca vai a uma mesquita; que disserta sobre a tristeza, mas não chorou no enterro do pai; que se apropria do trabalho alheio para remodelar sua própria história. O senão de tudo isso é que há um certo maniqueísmo na apresentação da personagem e maniqueísmo, como a gente bem sabe, é uma arma política usada a esmo para vender seu candidato e sua ideologia.

Winter Sleep EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Kis Uykusu, Nuri Bilge Ceylan, 2014]

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