Os Campos Voltarão

Os Campos Voltarão

Um soldado canta do alto de uma trincheira. Sua voz poderosa, que cruza os campos num raro momento de paz no front, ganha elogios de seus inimigos, que pedem mais uma. É assim, com este absurdo de guerra, que Ermanno Olmi inicia seu novo filme, que fala sobre o absurdo da guerra. Entre longas e curtas, este é o 84º título da carreira de um cineasta de 84 anos: são apenas 80 minutos que valem muito mais do que os últimos dez anos de filmes sobre conflitos mundiais. A guerra de Os Campos Voltarão é a primeira das grandes, mas que o diretor apresenta de dentro para fora. Praticamente todas as cenas do filme acontecem dentro do bunker em que a tropa italiana tenta resistir ao inimigo. A guerra em si se resume a explosões perto de onde estão os soldados e “fogos de artifício” no céu. Os diálogos são sobre a guerra, mas são mais ainda sobre a vida, o medo, a incerteza. O humano vem antes da política para Olmi, que desbota as cores do longa até bem perto do preto-e-branco e envolve seu filme numa trilha sonora improvável composta pelo jazzista Paolo Fresu. A paleta pálida e a música estranha ajudam a encenação algo teatral a transportar aquela história para uma espécie de dimensão diferente, reforçando o lado bizarro do conflito com uma poesia triste e dura, estranha e de beleza esquisita. A batalha dos soldados de Olmi acontece mais dentro deles do que do lado de fora. É uma batalha contra um inimigo invisível, um fantasmas onipresente e sem forma definida, o horror da guerra.

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[Torneranno i Prati, Ermanno Olmi, 2014]

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A Academia das Musas

A Academia das Musas

Há filmes que são muito mais do que filmes, que abrem espaço para reflexões sobre a vida, que filosofam sobre a existência, que vêm para abalar nossas certezas. A Academia das Musas é mais ou menos isso. Transita por vários níveis de cinema. Os créditos, a câmera e as cenas iniciais vendem um documentário sobre um professor de filologia que debate com seus alunos em sala de aula o amor, a arte e a inspiração. Para Raffaele Pinto, o amor é uma criação dos poetas e as musas são essenciais para que os artistas produzam seus conteúdos intelectuais, o que gera uma discussão em especial com suas alunas, que vêem nesta condição da mulher como objeto do desejo uma postura machista que reproduz séculos de cultura patriarcal. Como debate intelectual, o filme pode ser delicioso para quem se interessar pela verborragia interminável dos discursos entre professor e estudantes, entre os alunos, e entre o mestre e sua esposa, em casa. As discussões acontecem de maneira tão orgânica quanto Guerín dispõe sua câmera, quase um outro personagem no filme, que fica íntima dos interlocutores acompanhando cada tópico dentro da classe ou através dos vidros da casa, do carro e da cafeteria para onde os debates migram naturalmente. E, deste mesmo modo natural, quando amplia o espaço da palavra, quando leva teorias e conceitos para fora da sala de saula, o diretor transforma seu próprio filme, que incorpora suas discussões à própria vida e, de maneira quase invisível, transforma aquelas pessoas em personagens e aquele documentário vira uma ficção, que vai explorar as mesmas ideias debatidas nas aulas, levando-as a cabo, registrando na prática o que se debateu no verbo: toda mulher tem o desejo e a obrigação de ser uma musa? O amor existe ou é invenção da arte? A perguntas como essas, Guerín adiciona pelo menos mais dumas: o que é vida e o que é simulacro? Onde termina o registro e começa a criação?

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[La Accademia de las Musas, José Luís Guerín, 2015]

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Paulina

Paulina

Em tempos de discussão sobre cultura do estupro, assistir Paulina é essencial. Mesmo que seja para não gostar. O filme argentino, coproduzido pelo brasileiro Walter Salles, ganhou o prêmio da Semana da Crítica em Cannes muito por causa das polêmicas que alimenta em relação à violência sofrida por sua protagonista. Santiago Mitre, roteirista de três filmes de Pablo Trapero, sabe bem como levar os dilemas ao extremo, alimentando cada situação com uma postura discutível de sua protagonista, que ganhou uma ótima intérprete em Dolores Fonzi, que tinha o principal papel feminino de Truman, que fez sucesso no circuito de arte brasileiro. Um dos pontos delicados do longa é quando percebemos o quanto Mitre é afeito a truques: ele abre o filme com uma discussão ideológica entre pai juiz e filha, que quer largar uma carreira promissora para fazer trabalhos sociais numa região pobre, afastada dos grandes centros. Esse dilema parece que vai estar na espinha dorsal da trama, mas Mitre transfere as discussões para uma questão mais impactante, a da violência sexual. Aborda todos os aspectos e tenta frustrar as expectativas do espectador com comportamentos e reações de Paulina. O longa é um remake de La Patota, de 1960, mas o filme original tinha uma diferença fundamental em relação ao trabalho de Mitre: a Paulina de 50 anos atrás era bastante religiosa, bem diferente da intelectual encarnada por Dolores Fonzi, o que ajudava a entender as decisões da protagonista. Um jogo um tanto maniqueísta, mas ainda assim interessante.

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[La Patota, Santiago Mitre, 2015]

Discutimos Paulina no episódio 26 do Cinema na Varanda.

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Campo Grande

Campo Grande

Há oito anos, numa edição da Mostra de Cinema de São Paulo, a cineasta Sandra Kogut estreava na ficção com uma arriscada e acertada adaptação de Guimarães Rosa. Miguilim, um dos contos de Campo Geral, se transformou em Mutum, uma obra delicadíssima sobre a brutalidade do sertão para com quem ainda não tem idade para entender o mundo. À época, a diretora já revelava um enorme talento para dirigir uma criança. A interpretação do pequeno Thiago da Silva Mariz no filme é encantadora, dona de nuances impressionantes para quem ainda nem tinha chegado à adolescência. Demorou quase uma década para Sandra voltar à direção. E mais uma vez ela invade o universo infantil e revela não um, mas dois atores mirins. A primeira que aparece em cena é a belezinha Rayane do Amaral, que Kogut nos faz acreditar que vai ser a protagonista do filme, mas que depois de alguns minutos entrega o posto para Ygor Manoel, que faz seu irmão no filme. Como o Thiago de Mutum, Ygor também interpreta um Ygor. Ele e a irmã, meninos pobres, foram deixados pela mãe na porta de um apartamento na zona sul do Rio de Janeiro. É lá onde mora Regina, personagem de Carla Ribas, uma mulher que começa a empacotar os móveis para deixar o lugar onde viveu durante muitos anos. Onde seu casamento começou e terminou e onde nasceu sua filha, que decidiu morar com o pai.

O encontro dos meninos com Regina, um encontro filmado por Sandra Kogut com delicadeza, mas de maneira bastante realista é o que move Campo Grande. Se Thiago foi forçado a crescer diantes das agruras do Sertão no filme anterior da diretora, desta vez é Ygor que tem que encarar o mundo no meio da desesperança de uma cidade grande. A procura pela mãe, cheia de imprevisibilidades, é filmada com um olhar documental, graças ao trabalho de um dos maiores diretores de fotografia do país no momento, Ivo Lopes, que registra as ruas do Rio sem maneirismos. Um dos pontos fortes de Campo Grande é como Kogut conduz sua narrativa, sem se preocupar em amarrar cada momento desta procura pela mãe, sem fechar arestas ou desatar nós, sem a necessidade de didatizar a identificação entre a mulher e o menino, sem se render à tentação de deixar as duas crianças, treinadas pela preparadora de elenco Fátima Toledo, juntas o tempo todo. Carla Ribas talvez seja a grande atriz do ano, comovente em todas suas cenas. O filme é cheio de elipses e de pequenas histórias que não se completam, mas que não fazem falta ao propósito da diretora: registrar um Rio em obras (dos Jogos Olímpicos), uma mulher em reconstrução e dois meninos que querem apenas recomeçar suas vidas. A sequência final de Campo Grande aborta qualquer compromisso com um desfecho convencional. O filme se despede triste, mas feliz.

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[Campo Grande, Sandra Kogut, 2015]

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Top 110: os melhores filmes LGBT de todos os tempos

Enquanto Alexandre Frota vai ao Ministério da Educação junto com integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), grupo financiado por PMDB, PSDB, DEM e Solidariedade, para discutir ideologia de gênero, o cinema amplia as discussões sobre todas as formas de sexualidade. Tempos atrás, depois de uma extensa pesquisa que tomou meses, assistindo filmes, entendendo contextos, medindo relevâncias, relacionando expressão artística aos movimentos da sociedade, elaborei uma lista com os que eu considerava ser os 40 melhores filmes de temática gay de todos os tempos. A palavra gay estava lá muito mais para indicar sexualidades diferentes do padrão heteronormativo. Na verdade, e agora eu corrijo no título, a ideia era englobar os melhores filmes de temáticas LGBT.

Alguns anos se passaram e chegou a hora de revisitar e reeditar esta lista. Nos últimos anos, obras importantes como Carol e Tangerine, para ficar em apenas dois exemplos, chegaram aos cinemas, ganharam prêmios, geraram discussão. Nos últimos anos também, tive mais acesso a outras obras de referência e a filmografias de cineastas realmente engajados politicamente com a causa LGBT, como Rainer Werner Fassbinder, Rosa von Praunheim e Derek Jarman. Revisar esta lista era, mais do que instigante, necessário, embora eu ache que todas as listas refletem uma época, um recorte, o pensamento de quem a elaborou e não me arrependa nada da minha primeira relação.

Cada filme que aparece, tanto na relação original quanto nesta nova versão, está por um motivo, seja pioneirismo, engajamento, representatividade, apuro estético, experimento de linguagem. As razões são diversas. Todas, a meu ver, importantes. Na minha revisão, a lista ganhou uma edição metabolizada. O Top 40 agora tem a companhia de mais 14 títulos, são 54, e ainda acrescento uma relação extra, sem ordem de preferência com outros 56 filmes bastante significativos para as questões LGBT, que podem e devem servir de referência para quem se interessa pelo assunto.

Primeiro, a lista complementar:

Adeus Minha Concubina
[Ba Wang Bie Ji, Chen Kaige, 1993]
Amigas de Colégio
[Fucking Åmål, Lukas Moodysson, 1998]
O Amor Não Tem Sexo
[Prick Up Your Ears, Stephen Frears,1987]
O Banquete de Casamento
[Xi Yan, Ang Lee, 1993]
Born in Flames
[Born in Flames, Lizzie Borden, 1983]
Cabaret
[Cabaret, Bob Fosse, 1972]
Café com Leite (assista)
[Café com Leite, Daniel Ribeiro, 2007]
Canções de Amor
[Le Chansons d'Amour, Christopher Honoré, 2007]
Um Canto de Amor
[Un Chant d'Amour, Jean Genet, 1950]
Contracorrente
[Contracorriente, Javier Fuentes-León, 2009]
Coronel Redl
[Oberst Redl, István Szabó, 1985]
Delicada Relação
[Yossi & Jagger, Eytan Fox, 2002]
Deuses e Monstros
[Gods and Monsters, Bill Condon, 1998]
Doce Amianto
[Doce Amianto, Guto Parente & Uirá dos Reis, 2013]
E a Vida Continua
[And the Band Played On, Roger Spottiswoode, 1993]
Eduardo II
[Edward II, Derek Jarman, 1991]
Eu Não Quero Dormir Sozinho
[Hei Yan Quan, Tsai Ming-Liang, 2006]
Eu Não Quero Voltar Sozinho (assista)
[Eu Não Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, 2010]
Filadélfia
[Philladelphia, Jonathan Demme, 1993]
Furyo, em Nome da Honra
[Merry Christmas Mr. Lawrence, Nagisa Ôshima, 1983]
A Gaiola das Loucas
[La Cage aux Folles, Édouard Molinaro, 1978]
Hairspray – Éramos Todos Jovens
[Hairspray, John Waters, 1988]
O Jovem Törless
[Der Junge Törless, Volker Schlöndorff, 1966]
Juventude Transviada
[Rebel Without a Cause, Nicholas Ray, 1955]
Madame Satã
[Madame Satã, Karim Aïnouz, 2002]
Maurice
[Maurice, James Ivory, 1987]
O Menino e o Vento
[O Menino e o Vento, Carlos Hugo Christensen, 1967]
Meninos Não Choram
[Boys Don't Cry, Kimberly Pierce, 1999]
Mikaël
[Mikaël, Carl Th. Dreyer, 1924]
Mistérios da Carne
[Mysterious Skin, Gregg Araki, 2007]
Morango e Chocolate
[Fresa y Chocolate, Tomás Gutiérrez Alea & Juan Carlos Tabío, 1993]
Onda Nova
[Onda Nova, José Antonio Garcia & Ícaro Martins, 1983]
Orlando, a Mulher Imortal
[Orlando, Sally Potter, 1992]
Otto; Or Up with Dead People
[Otto; Or Up with Dead People, Bruce LaBruce, 2008]
Pariah
[Pariah, Dee Rees, 1001]
Perdidos na Noite
[Midnight Cowboy, John Schlesinger, 1968]
Plata Quemada
[Plata Quemada, Marcelo Piñeyro, 2000]
Portrait of Jason
[Portrait of Jason, Shirley Clarke, 1967]
The Queen
[The Queen, Frank Simon, 1968]
Querelle
[Querelle, Rainer Werner Fassbinder, 1982]
A Rainha Diaba
[A Rainha Diaba, Antonio Carlos da Fontoura, 1974]
O Rio
[He Liu, Tsai Ming-liang, 1997]
The Rocky Horror Picture Show
[The Rocky Horror Picture Show, Jim Sharman, 1975]
São Paulo em Hi-Fi
[São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen, 2013]
Sex in Chains
[Geschlecht in Fesseln, William Dieterle, 1928]
Shortbus
[Shortbus, John Cameron Mitchell, 2006]
Tabu
[Gohatto, Nagisa Ôshima, 1999]
Taxi para o Banheiro Masculino
[Taxi Zum Klo, Frank Ripploh, 1980]
O Tempo que Resta
[Le Temps qui Reste, François Ozon, 2005]
As Testemunhas
[Les Témoins, André Techiné, 2007]
Thelma & Louise
[Thelma & Louise, Ridley Scott, 1991]
Triângulo Feminino
[The Killing of Sister George, Robert Aldrich, 1968]
Tudo Sobre o Meu Pai
[Alt om Min Far, Even Benestad, 2002]
Velvet Goldmine
[Velvet Goldmine, Todd Haynes, 1997]
Veneno
[Poison, Todd Haynes, 1991]
Vitor ou Vitória
[Victor/Victoria, Blake Edwards, 1982]

Um breve histórico do cinema LGBT

Somente nas duas últimas décadas, o largo espectro das orientações e condições sexuais conseguiu encontrar um variado e substancioso conjunto de representações no cinema. Gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, drag queens, entre outros, podem ser encontrados, hoje, em larga escala, em filmes que ultrapassaram o gueto do cinema de classe e que assumem tanto as estruturas de gêneros clássicos, como dramas, comédias e filmes de suspense e de terror, como trazem a orientação sexual para um campo de normalidade que permite se ater a detalhes antes soterrados porque a questão maior já era a ousadia do tema em si.

Embora o cinema “gay” – e aqui gay engloba todas essas sexualidades diferente do padrão homem-mulher, tenha conseguido renegociar sua posição na produção de filmes, ao longo desses 120 anos de cinema, houve muitos projetos que foram pioneiros em explorar as questões ligadas ao comportamento e ao universo homossexual. Há críticos que insistem que um dos primeiros filmes, o curta-metragem The Dickson Experimental Sound Film, de William Dickson, um filme sonoro realizado mais de 30 anos antes do som chegar de fato ao cinema, teria personagens com um comportamento nitidamente homossexual. No filme, que você pode assistir abaixo, dois homens dançam ao som de um instrumento musical.

Há bastante controvérsia. Alguns estudiosos dizem que o registro da dança entre dois homens teria chocado plateias, enquanto outros afirmam que aquele comportamento seria comum entre homens na época. A época é, no caso, 1895, o ano da “invenção do cinema”. Forçação de barra ou não, outros exemplos de possíveis manifestações homossexuais no cinema podem ser conferidos – e geram polêmica – nos anos seguintes. Em 1907, Georges Méliès dirigiu O Eclipse: Ou a Corte do Sol à Lua, em que um astro-rei viril seduz uma lua efeminada. Alguns estudos dizem que sol e lua seriam do gênero masculino e que o momento do eclipe seria, de fato, uma relação homossexual. A primeira do cinema.

Nos anos seguintes, as comédias flertaram com os temas gays. Algie, The Miner, de Alice Guy-Blaché, mostra um homem efeminado que precisa se livrar do estigma de que “beija cowboys” para conseguir namorar a filha de um ricaço. Charles Chaplin usou roupas femininas em A Mulher e seduziu vários homens. E em A Florida Enchantment, de Sidney Drew, uma mulher engole uma semente mágica que a transforma em homem e seu noivo faz o mesmo e vira um homem “afetado”. Todos estes filmes são da primeira metade da década de 1910 e todos têm um quê de brincadeira. Mas pouco depois disso começaram na Europa as primeiras tentativas de se fazer filmes “sérios” sobre o assunto.

Na Suécia, Mauritz Stiller adaptou o romance Mikaël, de Herman Bang, sobre a relação entre um pintor aclamado e seu pupilo, abalada pela chegada de uma condessa que seduz o jovem, em The Wings, de 1916. O dinamarquês Carl Theodore Dreyer refilmou o livro em 1924 usando o título original, Mikaël. Pela primeira vez, se a história não engoliu algum pioneiro, temos personagens gays representados no cinema. Em 1919, numa Alemanha onde a Constituição considerava a prática homoafetiva como crime, Richard Oswald se une ao físico e sexólogo Magnus Hirschfeld para rodar Diferente dos Outros, que também conta a história de um artista, um músico, e um homem mais jovem. A chantagem contra os homossexuais, algo que era comum no país na época, é um dos temas centrais do filme.

Nas décadas seguintes, nos mais diversos cantos do planeta, censurados ou não, usando subtextos ou sendo mais explícitos, muitos diretores, alguns bastante conceituados, no auge de suas carreiras e heterossexuais, resolveram contar histórias de homoafetividade. De simples romances ao retrato de comportamento de guetos, de cidadãos “comuns” a estereótipos, muitos deles foram bastante felizes em dar sua contribuição para o gênero no cinema. Basta clicar no link abaixo para acessar minha lista com os melhores filmes com temática LGBT de todos os tempos.

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Café com Leite

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[Café com Leite, Daniel Ribeiro, 2007]

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Eu Não Quero Voltar Sozinho

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[Eu Não Quero Voltar Sozinho, Daniel Ribeiro, 2010]

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Certo Agora, Errado Antes

Certo Agora, Errado Antes

Hong Sang-soo não se cansa de emular Woody Allen, inclusive com a câmera variando para lugares inusitados como a copa de uma árvore seca depois que é abandonada pelo ator, que sai de quadro. De Allen, o coreano também rouba o improviso das situações e um certo descaso com as explicações: as personagens surgem e desaparecem meio do nada e o que é dito numa cena é desmentido na outra sem que ninguém ligue muito pra isso. Posto isso, Certo Agora, Errado Antes, vencedor do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, guarda muitas semelhanças com o filme anterior do cineasta, Montanha da Liberdade, também na seleção do Festival do Rio. Todos os longas de Hong Sang-Soo são muito parecidos entre si, mas o fato dos dois filmes terem um casal de protagonistas errando pela cidade – que parece a mesma – e passando por cafés pode incomodar quem assiste aos dois títulos num intervalo pequeno de tempo. Mas a impressão muda um pouco no decorrer deste novo filme que vai crescendo aos poucos e se transforma em dois. O casal de protagonista, Jae-yeong Jeong e Min-hee Kim, não têm a mesma química dos protagonistas do filme anterior, mas funcionam bem. A grande sacada de Sang-soo é a brincadeira com a estrutura, que já parecia super bem resolvida em Montanha da Liberdade, onde uma cena em que papéis se embaralharam literalmente muda a cronologia do próprio longa. Aqui, as coisas parecem mais simples. Duas linhas narrativas, como o próprio Allen já fez em Melinda e Melinda, mas desta vez bastante separadas uma da outra. E o que parecia simples ganha complexidade aos poucos, com o humor de Sang-soo valorizando as personagens e dando a quem assiste ao filme um motivo para se apegar àquela história que se reiventou.

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[Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da, Hong Sang-soo, 2015]

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São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi

São Paulo em Hi-Fi é um filme de super-heróis. Seus muitos protagonistas, que aparecem ou simplesmente estão representados na tela, passaram as três décadas registradas no longa-metragem de Lufe Steffen enfrentando vilões cruéis, como a Ditadura Militar, a Aids e, aquele que talvez seja o mais perigoso de todos eles, o preconceito. O documentário mapeia a história da noite gay paulistana desde o surgimento das primeiras casas noturnas destinadas ao público homossexual, nos anos 60, até o final da década de 80, quando o surgimento do HIV transformou a relação do ser humano com o sexo e fez muitas baixas na comunidade.

O fio condutor que o diretor utiliza para contar essa história é o aparecimento de boates e clubes gays na cidade, o que tem três funções bem importantes. A primeira é relacionar aquele a trajetória daquele universo com o próprio movimento histórico do Brasil e do mundo, exibir o contexto em que tudo aquilo aconteceu, alfinetando o Regime Militar. A segunda é devassar os costumes desse pessoal, explicando as estratégias dos homossexuais de São Paulo para driblar a Ditadura, seja em casas noturnas ou em locais de pegação. Por fim, a geografia narrativa de São Paulo em Hi-Fi apresenta ao espectador seus personagens. E é aí que o filme acerta em cheio.

Como documentário, São Paulo em Hi-Fi é um registro até bastante clássico, com depoimentos, fotos e vídeos da época sendo intercalados numa estrutura que obedece a uma cronologia de acontecimentos. Sua força maior está na maneira como ele trata e retrata seus personagens. Travestis, escritores, jornalistas, empresários, entre outros, falam abertamente sobre todos os aspectos da vida LGBT nessas três décadas, desnudando da militância ao sexo. O filme os apresenta como heróis da resistência que ajudaram a construir um universo paralelo, muitas vezes invisível aos olhos da sociedade comum, que foi essencial para sua própria sobrevivência.

Os depoimentos não se furtam em invadir tabus como o sexo fácil ou os cinemas de pegação, mas o filme não trata os temas com descaso ou vergonha, nem como meros detalhes, mas como elementos essenciais para o exercício do desejo e a formação de uma consciência de classe. Os relatos de aventuras e as histórias dos bastidores da noite são apresentados como pequenas vitórias pessoais de personagens que pareciam relegados a uma vida escondida. O filme captura bem esse sentimento de libertação, que ganha força, por exemplo, em todas as declarações de Kaká di Polly, cuja língua ferina e o despudor trazem detalhes da cena gay para uma espécie de mainstream universal.

Esse talvez seja o grande trunfo do filme: Lude Steffen é muito mais carinhoso do que militante. Seu filme é muito mais histórico do que panfletário. Ele não só entende e defende seus personagens, mas com dialoga com todos. Por isso, é bem estranho que o documentário ainda tenha demorado três anos para encontrar espaço no circuito comercial brasileiro, sendo que, neste mesmo período, filmes com temática homossexual, como Hoje eu Quero Voltar Sozinho e Tatuagem, encheram cinemas semanas a fio. Um registro tão sério e um filme de memórias tão memorável merece uma plateia mais ampla, cheia de todos os tipos de super-heróis.

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[São Paulo em Hi-Fi, Lufe Steffen, 2013]

entrevista com o cineasta Lufe Steffen

Por que “São Paulo em Hi-Fi”, que foi exibido em 2013 no Mix Brasil, só agora conseguiu entrar em circuito? Houve preconceito em relação ao tema do filme?

Não, nunca houve preconceito, pelo contrário, o filme era sempre muito pedido, requisitado, solicitado. Mas na época eu finalizei o filme de forma mais underground, sem recursos, sem o acabamento técnico necessário, sem a arte-final que eu desejava. Somente no final de 2014, quando o filme recebeu um apoio através de um edital, é que pude finalizar a obra devidamente, cuidar da trilha sonora definitiva, fazer enfim, o “director’s cut” rs… E é essa versão repaginada que estreia agora.

A versão que chega ao Cinesesc é a mesma que vimos nos festivais? Quais as chances do filme ser exibido em outros cinemas/cidades?

Como respondi na anterior, não, a versão que estreia é um tanto diferente da versão que passou em festivais em 2013 e 2014. As chances são boas, estamos montando uma espécie de “turnê” do filme em capitais e cidades brasileiras. Inclusive vale dizer que quem quiser ajudar a levar o filme para sua cidade, basta entrar em contato com a nossa página do Facebook pra ver essa possibilidade.

A sessão no Mix Brasil foi histórica, com uma plateia que se reconhecia na tela, às vezes literalmente. Para quem você acha que é o filme? Qual o público que você pretendia atingir? Aliás, você pensou nisso?

Acho que o filme é para todos, mesmo. Quando eu estava fazendo, acreditava que o interesse principal seria para o público LGBT com mais de 40 anos. Mas conforme as sessões foram ocorrendo, me surpreendi com a quantidade de gente jovem que se apaixona pelo filme, que vem me dizer que amou, que gostaria de ter vivido nessa época e tal. Também aparecem muitas senhoras casadas com seus maridos que vêm elogiar, dizer que adoravam essa época, mesmo não tendo frequentado a noite gay. Outro dia tivemos uma sessão com um público todo de galera entre 20 e 30 anos, a maioria não gay e também foi muito bem recebido. E o público gay com mais de 40, 50, 60, 70 anos, sempre vem comentar o quanto se emocionou, o quanto se envolveu com o filme. Mesmo esse público me surpreende porque eu não imaginava que as pessoas iam se emocionar tanto. Então tem sido surpreendente. Minha conclusão é que o filme é para todos.

É seu segundo documentário sobre a noite gay paulistana. O que te fascina sobre o assunto?

Boa pergunta! A noite sempre me fascinou, sempre gostei de sair de noite nas festas e noitadas, e vivenciei a vida noturna com muito empenho e bastante inquietação. Tentei registrar, imortalizar a noite gay de São Paulo nos dois longas que fiz, na tentativa de capturar a essência dessas noites. Como se assim eu conseguisse dominar esse universo. Claro que não consegui! Acho que tem a ver com minha dificuldade em lidar com o lado efêmero da vida, e a noite é uma síntese disso: uma noite passa, e pronto. Como a vida.

Imagino que deva ter sido uma jornada para encontrar vídeos, fotos e depoimentos que retratassem as mais de três décadas pelas quais o filme atravessa. Como foi essa pesquisa?

Foi difícil, porque quase não havia (não há) registro do assunto. A noite LGBT de São Paulo só passa a ser bastante documentada a partir dos anos 90. Então foi uma batalha mesmo. A pesquisa englobou arquivos de revistas e jornais, acervos pessoais de amigos e entrevistados do filme, coleções particulares.

Não sei se você concorda, mas o cinema gay parece finalmente sair de um gueto nos últimos anos, especialmente o brasileiro. Como você vê esse momento?

Eu concordo. Parece que está mesmo acontecendo um momento de avanço. Eu, que comecei a fazer curtas de temas gays em 1997 – de lá para cá foram 9 curtas de ficção, todos ligados ao universo LGBT -, acompanhei esse processo bem de perto mesmo. Acho importante dizer que é um processo que já vem de muito antes. Um dos cineastas brasileiros que mais admiro, o Djalma Limongi Batista, fez seu primeiro curta gay já em 1968, Um Clássico, Dois em Casa, Nenhum Jogo Fora. Em 66, o Carlos Hugo Christensen – outro cineasta que adoro – já havia feito o longa O Menino e o Vento. Então no final dos 60, e durante toda a década de 70 e a de 80, vejo que muitos filmes se aproximaram da questão gay, de uma maneira ou de outra.

Na maior parte de seu tempo, “São Paulo em Hi-Fi” relata fatos acontecidos durante a Ditadura. E, nos últimos anos, o Brasil caminha para um cenário cada vez mais conservador. É justamente no meio desse processo que seu filme estreia. O que você espera dele?

Pois é, curiosamente o filme estreia nesse momento ambíguo do país, assim como foi ambígua a época da ditadura. Naquele momento, apesar da repressão e da homofobia que já existia, é claro, o universo gay conseguia encontrar brechas (ainda que no underground, na noite e nunca no dia) para se manifestar, e o filme mostra essa atitude. Hoje, vivemos um momento contraditório: ao mesmo tempo em que os direitos LGBT e a visibilidade gay aumentaram sensivelmente, enfrentamos a reação dos conservadores, reacionários, homofóbicos, manipulados e manipuladores, e hipócritas em geral. Não sei como serão os próximos anos, mas espero que o filme (assim como outras iniciativas culturais desbravadoras que tem acontecido, no cinema, no teatro, na literatura, nas artes enfim) contribua para avançarmos ainda mais, impondo mesmo o direito de liberdade, o direito de você ser quem você quiser ser. Acredito que nada é por acaso, e se o filme estreia justamente agora, é porque tem algo a dizer sobre tudo isso.

Por fim, você consegue listar 5 filmes essenciais de temática LGBT, sejam brasileiros ou não?

Vou citar só brasileiros:
O Menino e o Vento, de Carlos Hugo Christensen (1966)
Asa Branca, um Sonho Brasileiro, de Djalma Limongi Batista (1980)
Onda Nova, de José Antônio Garcia e Ícaro Martins (1984)
Anjos da Noite, de Wilson Barros (1987)
Meu Amigo Claudia, de Dacio Pinheiro (2009)

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Maravilhoso Boccaccio

Maravilhoso Boccaccio

Embora tenha uma ideia central que remete a um dos maiores clássicos da dupla, Kaos, inspirado em contos de Pirandello, Maravilhoso Boccaccio lembra mais os filmes de época que os próprios irmãos Paolo e Vittorio Taviani dirigiram nos anos 90, uma safra menos celebrada do que os feitos dos diretores na década anterior. A trama se passa em 1348, quando a Europa era devastada pela Peste Negra, e mostra um grupo de jovens que foge da cidade em que moram para se refugiar da doença num castelo e, entendiados, contam histórias de amor uns para os outros. Como no roteiro original de Aconteceu na Primavera ou na adaptação de As Afinidades Eletivas, de Goethe, as relações entre as personagens eram mais simples e a própria construção das histórias mais clássicas. Se os textos das fábulas, livremente inspiradas no Decameron de Giovanni Boccaccio, livro adaptado com mais assinatura por Pier Paolo Pasolini, são parábolas morais bem contadinhas que atendem às expectativas do espectador e remontam a uma certa zona de conforto para os diretores, falta ao filme a pungência de Pai Patrão ou A Noite de São Lourenço, dois de seus filmes mais celebrados, ou o risco de César Deve Morrer, seu trabalho anterior, cheio de fôlego e frescor, talvez sua obra mais particular. Falta assinatura a esse novo trabalho.

Maravilhoso Boccaccio EstrelinhaEstrelinha½
[Maraviglioso Boccaccio, Paolo & Vittorio Taviani, 2015]

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