Mostra SP 2014: post oito

Sinfonia da Necrópole

Sinfonia da Necrópole EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Sinfonia da Necrópole, Juliana Rojas, 2014]

O horror sempre foi material de trabalho para Juliana Rojas. Os elementos fantásticos e sobrenaturais estão presentes em praticamente todos seus curtas e em seu longa de estreia, Trabalhar Cansa, codirigido pelo parceiro de sempre, Marco Dutra. O que ninguém imaginava é que em seu primeiro trabalho solo, Juliana fosse usar o terror apenas como ambientação para fazer um musical. Sinfonia da Necrópole é um filme único no cinema brasileiro recente, uma mistura de gêneros que, no olhar particular da diretora, encontrou um formato diferente e bem resolvido. Há um clara evolução na direção de atores, na montagem e no próprio fluxo do roteiro em relação ao longa anterior (assim como no primeiro trabalho solo de Dutra, Quando Eu Era Vivo). As músicas de ambos os filmes, por sinal, parecem fazer parte do mesmo disco: de melodias bonitas, autorais, de estruturas complexas. Elas ajudam Juliana a contar a história do aprendiz de coveiro que é convocado para para fazer o recadastramento de túmulos abandonados no cemitério. À medida em que analisa e ironiza o crescimento urbano e homenageia, inclusive no título, Berlim, Sinfonia da Metrópole, Juliana Rojas encontra uma maneira completamente original de fazer cinema no Brasil.

As Horas Finais

As Horas Finais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[These Final Hours, Zak Hilditch, 2014]

As Horas Finais é uma peça rara no cinema de ficção-científica com poucos recursos feito sobretudo longe dos Estados Unidos. O maior acerto do australiano Zak Hilditch foi de acreditar no potencial dramático de seu material, apostando em diálogos fortes, administrando uma melancolia sincera e fugindo de toda e qualquer solução fácil para as dezenas de armadilhas que o gênero, o filme apocalíptico, prepara. Entendemos a motivação de James em fugir para aquela que promete ser a última grande festa do planeta, que poderia ser um alívio cômico para o filme, mas se revela um ambiente de desespero, à mesma medida em que entendemos quando ele atrasa seus planos para ajudar Rose. Hilditch espalha pelo filme pequenos detalhes que ajudam a compor o cenário da catástrofe iminente. Essa inteligência também se percebe na condução de atores. Além de Rose, vivida pela pequena e ótima Angourie Rice, há pelos menos duas grandes atrizes no filme: Kathryn Beck, que faz Vicky, a namorada de James, e Lynette Curran, que interpreta a mãe do protagonista, brilhante em cada minuto da cena em que aparece. A relação entre mãe e filho é costurada de maneira dura e sem concessões. Um filme para comemorar.

A Professora do Jardim da Infância

A Professora do Jardim da Infância EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Hagenenet, Nadav Lapid, 2014]

Este filme oferece uma oportunidade para variar o leque temático que geralmente é oferecido pelo cinema israelense. Pelo menos o que atravessa o Atlântico. Yoav, o menino prodígio de cinco anos que faz poemas intrincadíssimos, é a personagem central do longa sobre a obsessão de uma mulher. Em seu segundo longa-metragem, Nadav Lapid discute os limites da relação entre professor e aluno e a exploração da criança pelo adulto, colocando a ética e a sanidade no cento do debate e costurando o filme na linha do suspense psicológico. Ainda que o adorável garotinho Avi Shnaidman pareça muito cru para dar credibilidade a sua personagem, Sarit Larry se entrega com tanta intensidade ao papel-título que rouba o filme para ela.

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Mostra SP 2014: post sete

Casa Grande

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[Casa Grande, Fellipe Barbosa, 2014]

O grande cinema brasileiro nos últimos tempos é aquele cuja narrativa ousada vira plataforma para o discurso político de seus autores. A ousadia na linguagem parecia ser o principal caminho para a revolução. Fellipe Barbosa, em sua estreia num longa-metragem de ficção, encontrou uma forma mais simples de fazer seu comentário sobre a situação econômica brasileira, transformando experiências reais vividas por ele mesmo num filme irônico e de discurso direto sobre a crise da classe média do país. Filmou no bairro onde cresceu e na escola em que estudou – e utilizou no elenco pessoas que conhecem de perto a realidade que o Casa Grande apresenta. Thales Cavalcanti interpreta o adolescente coxinha que estuda num colégio tradicional e se apaixona pela aluna de uma escola pública enquanto seu pai (Marcello Novaes muito bem) vive uma derrocada financeira. Sem grandes arquiteturas de roteiro, Barbosa monta um mosaico que engloba a família, os colegas e os empregados da casa do protagonista. Os diálogos irônicos devassam os mínimos detalhes em relação a cada situação e a cada personagem. Todos, por sinal, são tratados com extremo carinho pelo diretor, como se ele buscasse entender suas motivações, mas sem deixar de questioná-los. Poucas vezes um filme brasileiro tratou tão bem e tão amplamente de um tema tão complexo, com tantos braços e pernas e tentáculos. E o melhor: com um humor inteligente que não se nivela com a comédia rasa brasileira produzida a quilo por aí e que também não ameniza as coisas para nenhum lado.

A Moça e os Médicos

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[Tirez la Langue, Mademoiselle, Axelle Ropert, 2014]

Depois de um filme de estreia excelente como A Família Wolberg, exibido na Mostra cinco anos atrás, é de certa forma decepcionante assistir ao novo longa de Axelle Ropert. A Moça e os Médicos está longe de ser um filme ruim, mas a maneira como a diretora constrói a trama deixa pouquíssimo espaço para que se desenvolva o mote principal do filme, o amor de dois irmãos, médicos e parceiros profissionais, pela mesma mulher. Metade do longa é reservada para apresentar essas duas personagens, suas rotinas, sua relação íntima. Um deles é vivido pelo cineasta Cédric Kahn, numa rara aparição como ator, que divide as cenas com Laurent Stocker, da Comédie Française. Os diálogos diferenciados e a maneira original de olhar para um lugar comum, que brotam no filme anterior da diretora, aqui são trocados por uma maneira bem mais convencional de lidar com as motivações das personagens. Ainda assim, depois que se estabelece, o filme cresce bastante.

Lamento

Lamento EstrelinhaEstrelinha½
[Lamento, Jöns Jönsson, 2014]

O grande trunfo de Lamento é sua protagonista, a ótima Gunilla Röör, que dá literalmente vida a Magdalena, uma mulher que não sabe lidar com a dor da morte. Ela esconde a perda de alguém bem próximo criando uma rotina em que anula tudo o que faz com que ela lembre de seu sofrimento, mas a vida resolve colocá-la invariavelmente diante daquilo que ela não quer enfrentar. Lamento é o trabalho de graduação do alemão Jöns Jönsson, que apresentou a sessão de seu filme na Mostra de Cinema de São Paulo. Embora recicle alguns temas já recorrentes no cinema de seu país, como o distanciamento e a solidão, o diretor consegue manter uma curva de roteiro satisfatória para revelar os segredos da personagem e é feliz em encontrar emoção na aridez fria da dramaturgia daquelas bandas.

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Mostra SP 2014: post seis

Força Maior

Força Maior EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Force Majeure, Ruben Östlund, 2014]

O instinto de sobrevivência tirou Tomas da mesa naquele almoço na estação de esqui. Uma reação instantânea ao medo da morte que custou a ele a confiança de sua família. Afinal, o que nos move?, pergunta o cineasta Ruben Östlund. O protagonista de Força Maior precisa arcar com as consequências de ter agido por impulso num momento de perigo. O filme coloca Tomas no meio de um dilema moral que ele tenta evitar a qualquer modo. Ele acha o que aconteceu tão inconcebível que nega sua atitude de autopreservação não apenas para os outros, mas para si mesmo. A força maior do filme de Östlund não é a natureza, mas a natureza humana. Retirados todos os construtos da sociedade, o que sobra na nossa essência? Como lidar com o animal que guardamos dentro de nós? É tão devastador perceber o quão primitiva é nossa alma que a Tomas sobra apenas a possibilidade de ficcionalizar a vida. O cineasta constrói bem o medo que a personagem tem de si mesmo e desenvolve um melodrama familiar gélido como manda a tradição escandinava. Se o final serve para empatar as coisas para o marido, o estrago na relação com a esposa, com os filhos e com ele mesmo já está feito.

Algum Lugar Belo

Algum Lugar Belo Estrelinha
[Somewhere Beautiful, Albert Kodagolian, 2014]

Difícil entender as intenções de Albert Kodagolian com Algum Lugar Belo. O cineasta que estreia em longas-metragens vende o filme como uma releitura de Calendar, obra da época em que o cinema de Atom Egoyan ainda tinha algum valor. Mas este drama em dois tempos confuso e inócuo que o diretor de origem iraniana apresenta nunca parece encontrar um propósito. De um lado, há um cineasta, interpretado pelo próprio Kodagolian (ah, sério?), que vive uma crise no casamento nos Estados Unidos. Do outro um fotografo que viaja pela Patagônia com a namorada (María Alche, de A Menina Santa) e um guia local. As duas histórias, que nunca se encontram nem na trama, nem na temática, não funcionam nem isoladamente, nem combinadas.

Viver é Fácil com os Olhos Fechados

Viver é Fácil com os Olhos Fechados EstrelinhaEstrelinha½
[Vivir es Fácil con los Ojos Cerrados, David Trueba, 2013]

Uma viagem transformadora e três personagens que precisam ser salvos de si mesmos. O mote é uma sucessão de lugares comuns, mas o diretor David Trueba, irmão mais novo de Fernando, conduz a trama com certa graça. O filme, que ganhou o último Goya, o Oscar espanhol, acompanha o professor de inglês fanático pelos Beatles, vivido por Javier Cámara, que descobre que John Lennon está num set de filmagens na Espanha e decide ir atrás do grande ídolo. No meio do caminho, encontra dois adolescentes fugitivos. O elenco, todo acertado, é um trunfo para Trueba, mas o que mais conta a seu favor é o carinho e a sensibilidade com que narra os eventos. O resultado é um filme simpático, mas que não tem muito mais a oferecer do que um clima de Sessão da Tarde das antigas para o espectador.

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Mostra SP 2014: post cinco

Leviatã

Leviatã EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Leviathan, Andrei Zvyagintsev, 2014]

A gigantesca carcaça do Leviatã ainda assombra um vilarejo russo onde tudo parece estar fadado ao fracasso. O monstro marinho, descrito no Antigo Testamento, é a alegoria escolhida pelo cineasta Andrei Zvyagintsev para escancarar seu pessimismo em relação a seu país, um estado de descrença que persegue e se transforma em principal temática de seu cinema. Para o diretor, a corrupção se instalou na coração da Rússia e se espalhou como metástase pela política, pela justiça, pela igreja e pela moral. Um exército cruel e onipresente que cerca e atropela os elementos dissonantes. O novo filme do cineasta é como uma profecia bíblica que não guarda muita salvação para seus protagonistas. Nikolay enfrenta o prefeito da cidade, que quer tomar suas terras a qualquer custo. Sua recusa em ceder inicia uma série de tragédias. Zvyagintsev administra essas tragédias com certas doses de fatalismo, mas parece justificar a escala que utiliza para o desastre a cada entrelinha. Os capitães do mal mudam de nome, mas permanecem no poder. O diretor não poupa nenhum deles de suas culpas e ainda convida o espectador a acertá-los com um tiro de espingarda, mas ironicamente preserva quem aqueles ainda não foram condenados pela “história”, mas estão presentes em cada parede.

Pássaro Branco na Nevasca

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[White Bird in a Blizzard, Gregg Araki, 2014]

O novo filme do outsider Gregg Araki tem menos bizarrices do que os trabalhos anteriores do cineasta – quer dizer, melhor você chegar antes ao final deste aqui, sobre o desaparecimento de uma mulher, que aparentemente abandona o marido e a filha numa cidade do interior. O longa é estrelado por Shailene Woodley, do ótimo Os Descendentes, que está no auge da beleza. Durante boa parte do filme, Araki mantém seus maneirismos indies em favor de criar um ambiente delicado para explorar os dilemas da adolescente. A trilha sonora assinada por Robin Guthrie, um dos fundadores do Cocteau Twins, dá um diferencial. Oito das doze faixas compostas para o filme são de autoria dele e remetem diretamente à sonoridade de seu grupo de origem. De bônus, ainda ouvimos “Dazzle”, do Siouxise and the Banshees. O problema é que o universo que o diretor consegue criar enfraquece gradativamente à medida que a trama cobra o fim do mistério.

A Vida Pode Ser

A Vida Pode Ser EstrelinhaEstrelinha
[Life May Be, Mania Akbari & Mark Cousins, 2014]

A iraniana Mania Akbari, atriz de Dez, de Abbas Kiarostami, e também cineasta, faz, neste filme, uma espécie de troca de correspondências com o crítico e documentarista Mark Cousins, autor do excelente livro História do Cinema, que também virou série de TV. A cada troca de mensagens, os dois divagam sobre temas importantes e complexos como o exílio, o mundo de hoje e os cinema. Mas a combinação de seus estilos diferentes, que prometia produzir um cinema simples e sincero, sempre disposto a refletir sobre a existência, cai num espiral de onde não consegue sair. O resultado é uma intenção quase sempre forçada de fazer poesia, ora com imagens parecem ter sido escolhidas a dedo – no Google -, ora com um texto que não se acerta nunca, passando do “visceral”, com Akbari falando sobre sexo, ao pretensamente delicado.

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Mostra SP 2014: post quatro: Acima das Nuvens

Acima das Nuvens

O novo filme de Olivier Assayas se arrisca em tantas camadas que é realmente surpreendente que ele seja tão bem resolvido. Juliette Binoche interpreta Maria Enders, atriz de sucesso convidada para fazer uma nova montagem da peça que a lançou, mas desta vez em vez de viver a personagem jovem que a consagrou, caberá a ela o papel da mulher mais madura. A partir desta premissa muito simples, o diretor lança uma série de questionamentos que se desdobram em outros ainda maiores.

Paralelamente às dúvidas da protagonista em aceitar o papel, que geram uma discussão sobre o passar do tempo, a velhice e, mais tarde, sobre as perspectivas que maturidade traz, inicia-se um diálogo/duelo com Kristen Stewart, ótima no papel da assistente pessoal e voz da consciência de Enders. Esta segunda personagem introduz um debate, que parece velho, sobre a Hollywood de hoje e o culto à celebridade que devorou o culto ao artista, mas que o cineasta nos apresenta por outro prisma. Stewart atua como porta voz de Assayas, que reconhece valores num ambiente tão hostil ao talento.

Se Binoche faz a atriz europeia e veterana que vive à margem dos holofotes e Chloë Grace Moretz encarna a nova mini-diva hollywoodiana, Kristen Stewart tem, na verdade, uma metapersonagem, que catalisa as discussões sobre exposição sem ser uma caricatura da atriz fora das telas. O casting de Stewart é excelente e faz com que ela própria questione sua persona pública e exerça uma espécie de direito de resposta à maneira como a mídia a trata, uma escolha corajosa da atriz em aceitar alguns diálogos que se referem diretamente a sua vida pessoal.

A vampira da Saga Crepúsculo também aciona outro dispositivo importante no filme, a discussão sobre representação. Ao ajudar Enders na leitura da peça, assumindo o papel da jovem enquanto Binoche lê as falas da mulher mais velha, as duas questionam a representação em si. Não no nível quase laboratorial de “Jogo de Cena”, de Eduardo Coutinho, mas em diálogos com ecos bergmaníanos que transformam essas leituras em ensaios comentados do próprio texto. Assayas comanda todas essas discussões com uma habilidade para revezá-las e justificá-las, deixando o fluxo das coisas orgânico em Acima das Nuvens.

Acima das Nuvens EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Clouds of Sils Maria, Olivier Assayas, 2014]

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Mostra SP 2014: post três

Detetive D: O Dragão do Mar

Detetive D: O Dragão do Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Di Renjie: Shen du Long Wang, Tsui Hark, 2013]

Prequel de Detetive D e o Império Celestial, este filme do ás do cinema de ação oriental Tsui Hark mostra um diretor interessadíssimo em mergulhar na tecnologia. Rodado em 3D, mais da metade das cenas do longa tem efeitos especiais em larga escala, sem medo da comparação com as superproduções hollywoodianas. Hark volta no tempo para acompanhar a primeira missão do Detetive D, que precisa desvendar uma conspiração para tomar o poder dentro da família imperial e ainda descobre um monstro marinho. Saem Andy Lau e Tony Leung Ka-Fai e entram Mark Chao e Angelababy. O diretor mistura elementos históricos com fantasia sem qualquer pudor e o resultado é um filme cheio de cenas de ação memoráveis. Embora o 3D não seja de primeira grandeza, o longa garante a diversão.

O Segredo das Águas

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[Futatsume no Mado, Naomi Kawase, 2014]

Embora ainda não tenha conseguido reeditar seus melhores momentos (Shara ou Suzaku), O Segredo das Águas tira Naomi Kawase de uma fórmula mezzo documental, mezzo ficcional que vinha se repetindo em seus últimos filmes e que parecia uma prisão formal. O longa, no entanto, guarda muitas das ideias e dos temas que a diretora vem desenhando ao longo dos anos em sua obra, sobretudo a relação entre homem e natureza e a chegada da morte como elemento transformador. Aqui, dois adolescentes são assombrados por medos. Ele pelo medo do mar. Ela pelo medo da morte. Juntos, eles descobrem como lidar com suas pauras e como explorar seus corpos. Existe algo meio didático em alguns diálogos nesse processo e o interesse de Kawase pelo espiritual quase faz o filme dialogar com a auto-ajuda, o que não acontece, mas as cenas subaquáticas mostram que Kawase tenta se esquivar do lugar comum.

Tristeza e Alegria

Tristeza e Alegria EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Sorg og Glæde, Nils Malmros, 2013]

A cena de abertura do filme de Nils Malmros é uma das mais impactantes dos últimos tempos. Um homem volta para casa e recebe a notícia devastadora de que a esposa matou a filhinha do casal. O diretor, um dos mais importantes nomes do cinema dinamarquês nas últimas décadas, embora tenha feito só três filmes em dez anos, faz um poderoso melodrama sobre a dor da perda. Embora honre a tradição de excelência da dramaturgia escandinava,  o filme é muito mais forte quando se concentra no que acontece no tempo presente, trabalhando basicamente com personagens destruídos. Os flashbacks, que Malmros julga necessários para explicar a relação entre Johannes e Signe e o estado de saúde mental dela, fragilizam a narrativa, justificando excessivamente os atos dela. O desespero e a desesperança da sequência de abertura humanizam muito mais os caminhos do protagonista.

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Mostra SP 2014: post dois

À procura

À Procura Estrelinha
[The Captive, Atom Egoyan, 2014]

Onde foi exatamente que Atom Egoyan se perdeu? Porque O Doce Amanhã e Exótica são belos filmes, mas este À Procura é um policial rocambolesco com um roteiro que persegue um tom poético, mas que só encontra o risível em várias situações, desde a relação estabelecida entre sequestrador e sequestrada até a maneira “macabra” que Egoyan impõe para denunciar um maquiavélico esquema de pedofilia. O grandalhão Kevin Durand tem uma personagem patética, tentando emular psicopatas débeis. É possivelmente o pior casting do ano. A trilha sonora ofensiva insiste em divulgar um suspense cansado e a discussão central parece ficar sempre num plano flutuante, sem nunca ter muito compromisso com algo mais palpável. Rosario Dawson se prejudica com o desenvolvimento de sua personagem, quando o roteiro resolve “explicar” suas motivações. Ryan Reynolds é que está bem, mas a cereja do bolo é uma homenagem involuntária a Elvira, a Rainha das Trevas.

Dois Dias, Uma Noite

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[Deux Jours, Une Nuit, Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne, 2014]

Embora guarde todos os elementos de seus filmes mais célebres, como a câmera orgânica, as interpretações naturalistas e o tempo contínuo, Dois Dias, Uma Noite talvez indique uma virada dos irmãos Dardenne em direção a um público mais amplo. Salvo engano, é a primeira vez que eles recorrem a um intérprete que não nasceu na Bélgica como protagonista de um filme. Marion Cotillard mudou seu acento e se revelou uma escolha acertada para viver a mulher que, para recuperar seu emprego, tenta convencer seus colegas a votarem contra um bônus que só será concedido se ela for demitida. No espaço de pouco mais de um dia, ela persegue, casa a casa, seu objetivo. Cada encontro joga Sandra num contexto diferente, muitas vezes doloroso, promovendo uma versatilidade emocional rara no cinema da dupla, que além de arejar a narrativa do longa, testa os limites da personagem, sempre à beira de um ataque de nervos, e da atriz. Aqui, os Dardenne continuam sua sina de analistas da Europa contemporânea, desta vez discutindo bem especificamente a crise financeira do continente e o impacto na vida do cidadão comum. Os interesses individuais são confrontados com os interesses do mercado numa luta desigual pela sobrevivência.

Rhino Season

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[Rhino Season, Bahman Ghobadi, 2013]

A presença de Monica Bellucci indica que o cinema de Bahman Ghobadi está mais internacional do que nunca, mas, embora a obra do iraniano guarde muitas delicadezas e alguns posicionamentos de protesto, raramente seus filmes “de festival” assumiram uma postura política tão direta contra o governo de seu país. Rhino Season é muito mais prático e convencional em relação aos filmes anteriores do diretor, que abusam de uma espécie de exotismo mágico que às vezes funciona, mas em outras parece pura perfumaria. A história é a do poeta curdo que é libertado depois de trinta anos de prisão e descobre que sua esposa acha que ele está morto. Enquanto evoca o thriller político, mais documental, mesmo em sua bagunça cronológica, a “temporada de rinocerontes” segue mais interessante do que quando Ghobadi tenta aplicar cores mais pessoais e liberdades poéticas, que destoam do conjunto. Um trabalho válido que pisa em falso aqui e ali.

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Mostra SP 2014: post um

As Bruxas de Zugarramurdi

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[Las Brujas de Zugarramurdi, Álex de la Iglesia, 2013]

Hugo Silva, o copiloto bonitão do último filme de Almodóvar, é protagonista de mais este delírio delicioso do espanhol Álex de la Iglesia, um dos autores mais coerentes do cinema espanhol. Desde o começo da carreira, o cineasta elege o fantástico como tema de todos os seus filmes, geralmente comédias que não têm pudor com o escracho. Em As Bruxas de Zugarramurdi, coloca dois homens e um garoto que acabaram de assaltar um banco diante de uma família de feiticeiras, radicadas na cidade que dá título ao filme, um local cujo paganismo levou muitas mulheres à figueira na Idade Média. De la Iglesia acerta em cheio ao combinar ritmo acelerado, humor afiado e efeitos visuais excelentes com o respeito às histórias de terror, o que dá ao filme um quê algo sério no meio de todas as ironias. O elenco é ótimo, com destaque para Carmen Maura e, especialmente, Terele Pávez, premiada com o Goya de coadjuvante.

Foxcatcher

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[Foxcatcher, Bennett Miller, 2104]

Embora haja méritos óbvios em Foxcatcher, o sentimento em relação ao filme pode ser bastante controverso. De um lado é possível reconhecer um esforço gigantesco do Bennett Miller em tornar tudo muito importante. Há um tom inato de épico intimista a essa “história real” desde a direção de atores até a utilização da trilha sonora. Do outro, esse esforço parece realmente ter capturado um sentimento de estranhamento, como se fosse o filme realmente se assumisse como prelúdio de uma tragédia. Miller acerta ao materializar o vazio nas vidas dos dois personagens principais, que encontraram intérpretes inspirados. Steve Carrell usa uma maquiagem perfeita e, embora ronde a caricatura, geralmente escapa ileso e ofereça uma melancolia dolorida. Channing Tatum, que vem se revelando bom ator, foge do esteréotipo do atleta arredio com um personagem que não cabe em si mesmo. Mark Ruffalo, com seu jeito manso de falar, completa o elenco, dando corpo a um bom coadjuvante.

Relatos Selvagens

Relatos Selvagens EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Relatos Salvajes, Damián Szifrón, 2014]

A maior parte da carreira de Damián Szifrón foi como roteirista de TV e parece ter sido justamente da televisão que ele tirou a agilidade e a comédia popular de Relatos Selvagens. O filme em episódios, que abre a Mostra deste ano, no entanto, não recorre ao humor grosseiro comumente visto em programas televisivos brasileiros que inspiraram muitas comédias lançadas no país nos últimos anos. O cineasta argentino mantém um diálogo próximo com o espectador principalmente quando parece sacanear estereótipos, trollando fórmulas. Aqui, os episódios se transformam em contos ácidos de humor negro sobre tolerância e os melhores entre eles são aqueles que trabalham brincando com formatos conhecidos, como o do avião, uma aliteração deliciosa de um esquete televisivo caricato, ou o dos motoristas na estrada, um versão sarcástica e em carne-e-osso de um duelo de desenho animado. Esqueçam Ricardo Darín, o episódio dele é um dos mais bobos. Embora tenhas altos e baixos, o filme oferece uma saída diferente para quem aprecia uma boa comédia latina.

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Mostra SP 2014: programação por datas

38ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO

16/10/2014 – Quinta

ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1

Sessão 1 – 13:00
FILHA (DUKHTAR), de Afia Nathaniel (93′). PAQUISTÃO. Falado em urdu. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: Livre.
Sessão 2 – 15:00
A VIDA INVISÍVEL (A VIDA INVISÍVEL), de Vítor Gonçalves (99′). PORTUGAL. Falado em português (de portugal). Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 16 anos.
Sessão 3 – 17:00
RELATOS SELVAGENS (RELATOS SALVAJES), de Damián Szifrón (122′). ARGENTINA, ESPANHA. Falado em espanhol. Legendas em português. Indicado para: 14 anos.
Sessão 4 – 19:30
ESTRELA CADENTE (STELLA CADENTE), de Lluís Miñarro (105′). ESPANHA. Falado em catalão, espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos. Haverá debate após a sessão.
Sessão 5 – 22:00
TSILI (TSILI), de Amos Gitai (85′). ISRAEL, ITALIA, FRANÇA, RUSSIA. Falado em hebraico. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.

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Mostra SP 2014: programação por filmes

38ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA EM SÃO PAULO

(veja a programação por datas)

Lista de Filmes

10.000 NOITES EM LUGAR NENHUM (10.000 NOCHES EN NINGUNA PARTE), de RAMÓN SALAZAR (113′). ESPANHA. Falado em espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 18 anos.
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – POMPÉIA SALA 1 16/10/2014 – 19:00 – Sessão: 89 (Quinta)
CINE SABESP 17/10/2014 – 18:00 – Sessão: 124 (Sexta)
RESERVA CULTURAL 1 23/10/2014 – 19:45 – Sessão: 703 (Quinta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 28/10/2014 – 16:40 – Sessão: 1065 (Terça)

15 ANOS + 1 DIA (15 AÑOS Y UN DÍA), de GARCIA QUEREJETA (96′). ESPANHA. Falado em espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 16/10/2014 – 13:00 – Sessão: 6 (Quinta)
CINEMARK – METRÔ SANTA CRUZ – SALA 9 17/10/2014 – 19:00 – Sessão: 160 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA 1 18/10/2014 – 14:00 – Sessão: 236 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 27/10/2014 – 13:00 – Sessão: 1000 (Segunda)

3 BELEZAS (3 BELLEZAS), de Carlos Caridad Montero (97′). VENEZUELA. Falado em espanhol. Legendas em inglês. Legendas eletrônicas em português. Indicado para: 14 anos.
CINE SABESP 21/10/2014 – 22:15 – Sessão: 477 (Terça)
CINEMARK – METRÔ SANTA CRUZ – SALA 9 22/10/2014 – 19:00 – Sessão: 600 (Quarta)
CINEMATECA – SALA BNDES 23/10/2014 – 21:00 – Sessão: 657 (Quinta)
RESERVA CULTURAL 1 24/10/2014 – 14:00 – Sessão: 802 (Sexta)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 29/10/2014 – 15:15 – Sessão: 1149 (Quarta)

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