Ranking: o Universo Cinematográfico Marvel e seus 12 primeiros filmes

A estratégia da Marvel de se transformar num estúdio e assumir o comando das adaptações de suas principais personagens para o cinema deu certo. Sete anos e bilhões de dólares depois, chega ao fim da chamada segunda fase do universo cinematográfico da editora, que já rendeu 12 longas, estabeleceu uma franquia interessante e lucrativa e, mais do que qualquer coisa, realizou o sonho de milhões de leitores mundo afora: transportou com dignidade alguns dos maiores heróis dos quadrinhos para o cinema. A fórmula da Marvel é simples: respeitar, mesmo que nem sempre literalmente, as HQs, sem abrir mão da ironia e da ação. O saldo é bom, mas alguns filmes são bem mais interessantes do que os outros. E, na minha humilde opinião, a Marvel funciona melhor quando faz cinema de gênero, seja filme de assalto, de espionagem ou óperas espaciais A lista abaixo relaciona todos os longas do estúdio por ordem de preferência, tentando justificar a posição de cada um. Deixem suas listas nos comentários.

Thor: O Mundo Sombrio

12 Thor: O Mundo Sombrio
[Thor: The Dark World, Alan Taylor, 2013]

Mesmo sendo o mais fraco dos filmes da Marvel, a segunda aventura solo do Deus do Trovão traz uma cena excepcional em que Tom Hiddleston mostra seu talento dramático num diálogo entre Lóki e Thor. Os Gigantes de Gelo podem não ser adversários formidáveis, mas a batalha no mundo sombrio rende algumas sequências de ação empolgantes.

O Incrível Hulk

11 O Incrível Hulk
[The Incredible Hulk, Louis Leterrier, 2008]

Sai Eric Bana e entra Edward Norton, que é muito mais ator. A segunda aventura solo do Hulk não tem uma assinatura de peso, mas, além de pagar as contas, é um filme de ação até eficiente (cuja história começa no Brasil!) e apaga da existência aquela performance horrorosa do Nick Nolte como pai de Bruce Banner no longa de Ang Lee, que era melhor diretor, mas não entrou no clima.

Homem de Ferro 2

10 Homem de Ferro 2
[Iron Man 2, Jon Favreau, 2010]

O maior mérito do filme é introduzir a Viúva Negra no Universo Marvel e Scarlett Johansson mostra a que veio numa cena de tirar o fôlego, mas o filme é muito mais feliz no desenvolvimento da personalidade de Tony Stark do que na história em si. Tantos “homens de ferro” tiram o peso do original e o vilão do Mickey Rourke, que até está sóbrio, não é lá grande coisa.

Thor

9 Thor
[Thor, Kenneth Branagh, 2011]

O primeiro longa solo do Thor foi o filme mais arriscado da Marvel. Trazer o panteão de deuses nórdicos para a tela e erguer Asgard poderia dar incrivelmente errado, mas sob o comando do shakespeareano Kenneth Branagh o filme mostrou solidez. E Chris Hemsworth, a primeira grande aposta do estúdio, segura a onda. Está longe de ser um grande filme, mas cumpre seu papel com alguma classe.

Vingadores: Era de Ultron

8 Vingadores: Era de Ultron
[Avengers: Age of Ultron, Joss Whedon, 2015]

Se o primeiro longa do supergrupo realizou um sonho de infância, o segundo aponta para aquele que talvez seja o principal problema da Marvel daqui pra frente: o que fazer com tantas personagens? Para dar espaço para todas as estrelas e ainda criar uma história de alcance global, Joss Whedon terminou não desenvolvendo bem os novatos no time: Feiticeira Escarlate, Mercúrio e Visão, dono de um visual excepcional, ganharam intérpretes dignos, mas aparecem menos do que a gente gostaria.

Homem de Ferro 3

7 Homem de Ferro
[Iron Man Three, Shane Black, 2013]

A transformação da personagem do Mandarim, considerada heresia por muitos fãs, foi uma das ousadias mais bem-vindas da Marvel no cinema. Ben Kingsley tem o talento necessário para encarar o desafio e o filme, embora tenha aquela desnecessária aparição da “mulher de ferro”, mais uma vez ajuda a desenvolver a história do protagonista. Robert Downey Jr. tem uma cena especial com Ty Simpkins.

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Homem-Formiga

Homem-Formiga

O filme acaba e antes das cenas extras – são duas e ambas valem a pena – o garotinho de uns 10 ou 11 anos, que provavelmente gostou do que viu a julgar pela ótima reação da plateia, faz uma reflexão: “eu acho que o primeiro filme tinha que ser com o Hank Pym como Homem-Formiga”. A reclamação do marvel boy faz sentido. Ao longo de todo este projeto, as notícias relacionadas à produção causaram desconfiança nos mais puristas, o autor do texto incluído: 1 Scott Lang é o protagonista; 2 o filme é uma comédia com Paul Rudd no papel principal; 3 Edgar Wright abandona a direção; 4 Peyton Reed assume a direção; 5 cadê a Vespa?

Mas depois que o tumulto de troca de comando e de se acostumar com a ideia de Lang ser o herói principal (para quem não conhece a história, Hank Pym é o Homem-Formiga original e Lang assume o uniforme bem depois), as expectativas mudaram em relação ao filme, sobretudo depois que a segunda aventura dos Vingadores não empolgou tanto assim. Um longa com um herói fora dos holofotes e com ótimas possibilidades de efeitos visuais parecia ter mais chances de funcionar. Faltava descobrir se Rudd colocaria seu talento como humorista em favor da personagem ou se Homem-Formiga viraria mais um exemplar desta nova comédia americana, chata que só.

E o resultado é surpreendente em todos os sentidos. Primeiro, Peyton Reed impõe uma leveza ao material que falta em muitos filmes da Marvel, mas sem perder o respeito com a criação de Stan Lee. O roteiro encontra uma maneira inteligente de espalhar o humor ao longo do filme, em doses homeopáticas, o que levanta a bola para o desenvolvimento da história e não enxerga as piadas como objetivo final. O próprio Rudd entende bem até onde deve ir com a comédia e parece bem à vontade com o papel. O filme flui que é uma beleza, quase tão bem quanto Guardiões da Galáxia.

Segundo, o texto é tão bem amarrado que a ideia de trazer Lang para o centro da história parece mesmo uma boa ideia. Como Homem-Formiga é um filme de assalto clonado para o universo dos super-heróis, é mais lógico colocar um “escape artist” como protagonista, o que não significa escantear Hank Pym, que ganha um Michael Douglas inspirado em sua defesa e estrela uma das cenas mais emocionantes do longa, um flashback em que assume o uniforme do herói. Esta mesma construção inteligente encontra um meio de homenagear e explicar a ausência – ausência? – da Vespa. E ainda há espaço para citar o The Cure.

Além disso, como já era de se esperar, o filme acontece num momento perfeito, em que a tecnologia fornece um aparato mais do que suficiente para se criar um longa com uma personagem minúscula: os efeitos visuais parecem simples ao mesmo tempo em que são espetaculares e o roteiro aproveita muito bem suas possibilidades. Há um punhado de cenas deliciosas, como a primeira vez de Lang no traje, a descida pela tubulação e o momento mais impressionante do filme, em que o herói diminui até o nível subatômico, o que permite que os artistas gráficos criem um belíssimo trabalho fora da casinha.

No saldo, ainda há de se comemorar o fato deste ser um dos filmes mais bem costurados a um Universo Marvel cada vez maior e mais definido. Todos os diálogos e cenas que ajudam a inserir o longa ao lado de seus pares são bem construídas e verdadeiramente empolgantes, principalmente, aquela em que o herói encontra com um dos Vingadores. A primeira das cenas escondidas é especial e dá novas perspectivas para a personagem de Evangeline “Lost” Lilly. Se o lado mais fraco da balança é o vilão unidimensional de Corey Stoll, com Homem-Formiga, a Marvel prova que é possível seguir um caminho bem mais discreto sem perder as características de seus heróis. Tamanho, neste caso, não é mesmo documento.

Homem-Formiga EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Ant-Man, Peyton Reed, 2015]

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O Conto da Princesa Kaguya

O Conto da Princesa Kaguya

Lançado em 2013 e disponível na internet mais próxima de você, o documentário O Reino dos Sonhos e da Loucura esclarece muitas coisas sobre o Estúdio Ghibli, a referência máxima na animação japonesa que há alguns anos está ameaçado de fechar as portas. Um dos temas sobre os quais o filme de Mami Sunada se debruça é a diferença entre os dois principais nomes por trás do estúdio, Hayao Miyazaki e Isao Takahata, duas lendas vivas quando o assunto é animação. Seja no Japão, seja em qualquer parte do planeta.

Miyazaki e Takahata são basicamente opostos complementares. Enquanto o primeiro, 74 anos, simpático e expansivo, ficou conhecido mundo afora por abraçar o lúdico e a fantasia em pérolas da animação como Meu Vizinho Totoro e A Viagem de Chihiro, o segundo, 79, reservado e um tanto ressentido pelo sucesso do parceiro, sempre preferiu que personagens reais em situações plausíveis estrelassem seus filmes, como nos clássicos O Túmulo dos Vagalumes e Only Yesterday.

A questão é que os maiores mitos do anime trocaram de lado em seus filmes mais recentes. Miyazaki trocou os personagens fantásticos pela biografia de Jiro Horikoshi, o homem que desenhou os aviões que o Japão usou na Segunda Guerra em Vidas ao Vento, seu filme mais pé no chão desde, basicamente, sempre. Enquanto isso, Takahata abandonou seus protagonistas cotidianos para se dedicar a fazer a versão definitiva para aquela que é considerada a mais antiga narrativa japonesa, O Conto do Cortador de Bambu ou A Princesa Kaguya.

Escrito no século X, o conto faz parte do imaginário popular japonês, ganhou inúmeras versões em livros, mangás, produções para a TV, já foi adaptado algumas vezes para o cinema (entre as versões, uma do célebre Kon Ichikawa, com Toshiro Mifune no elenco) e inspirou até o roteiro de um anime em longa-metragem da Sailor Moon. Mas a bela história do cortador de bambu que encontra uma princesa da Lua, uma mistura esquisita e impressionante de mitologia e ficção-científica, nunca tinha ganho um tratamento de obra de arte como nesta versão de Takahata.

E dá pra chamar cada cena de O Conto da Princesa Kaguya de obra de arte. Na contramão das animações digitais em 3D, todo o filme foi desenhado e colorido a lápis, a mão, no papel, ora com traços mais definidos, ora em forma de rabiscos que se movimentam lindamente ao som da trilha do gênio Joe Hisaishi. As cores esmaecidas reforçam o tom de fábula como se uma névoa de conto de fadas emoldurasse cada momento na tela. Tela, por sinal, é uma boa definição para cada cena do filme.

E Takahata, ao contrário de outros mestres da animação, não desenha. Mas aqui ele usa seu talento de maestro para traduzir a magia do conto, sobretudo na primeira parte do filme, em que Kaguya ainda mora no campo, onde há dezenas de cenas de uma delicadeza imemorial por causa de tanta singeleza. E também sabe explorar o moral da história. O filme, como o conto, faz uma leitura da sociedade japonesa no período Heian, lançando uma crítica à desonestidade e, sobretudo, à ganância das pessoas, inclusive a dos pais da protagonista.

O terceiro ato do filme, em que a protagonista cumpre seu destino, é um golpe mortal na narrativa clássica do cinema, em que o que vemos ao longo da obra prepara, explica, justifica o desfecho. A lógica do conto, que Takahata reproduz no filme, é a da liberdade. Em todos os sentidos.

O Conto da Princesa Kaguya EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Kaguyahime no Monogatari, Isao Takahata, 2013]

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Rua Secreta

Rua Secreta

Um dos maiores méritos de Vivian Qu é oferecer um cinema chinês bem diferente do que geralmente circula pelo mundo. Rua Secreta, seu filme de estreia como diretora, corre na direção oposta dos trabalhos ora históricos, ora fantásticos, e quase sempre “pitorescos” de Zhang Yimou e seu séquito de cineastas que, se não realizam um cinema literalmente oficial, apostam numa espécie de exotismo delicado para vender pequenas histórias de redenção. Por outro lado, Qu não tem as pretensões dos filmes de Jia Zhang-ke, o maior investigador dos mecanismos da China contemporânea e de suas conseqüências para quem vive no país.

O filme de Vivian Qu traz é mais urbano e a cineasta tenta costurar o crescimento desordenado do país e das cidades nos últimos anos com a história do protagonista, Li Qiuming, um rapaz que trabalha na confecção de um mapa digital de Nanjing, um dos grandes centros da China, com mais de 10 milhões de pessoas. Ele passa os dias catalogando ruas até se interessar por uma mulher que freqüenta uma rua sem saída, que não aparece nos mapas. Sua obsessão o transporta para um submundo desconhecido da maioria da população.

A premissa é mais interessante do que o resultado. Falta peso dramático na condução do filme para justificar sua metamorfose. A câmera e o ritmo documentais da primeira metade do longa não ajudam tanto a construir o suspense que a cineasta, que até então só havia trabalhado como produtora, quer oferecer. O cinema de gênero com um subtexto político parece ser o objetivo de Qu, mas a virada de roteiro acontece sem que o mistério tenha sido propriamente estabelecido, o que não tira os méritos da diretora. Ela parece saber onde colocar a câmera, constrói quadros rigorosos e existe uma força escondida em todo lugar, mas talvez falte um pouco de vigor.

A coragem do tema, que adentra pela corrupção diária da sociedade chinesa, mantém o interesse, mas a impressão é que esta diretora ainda não disse tudo o que pode.

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[Shuiyin Jie, Vivian Qu, 2013]

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Enquanto Somos Jovens

Enquanto Somos Jovens

Noah Baumbach, que sempre foi um hipster genuíno, como mostram os filmes que dirigiu e escreveu, usou a caricatura de uma geração para denunciar a caricatura de uma geração. Se Enquanto Somos Jovens é uma tentativa de teorizar sobre o conflito, justamente delas, das gerações, o filme parece simplificar todas as questões a que se propõe a discutir. O encantamento do casal mais velho pelo casal mais novo é extremamente plausível. A sedução pela energia, pela vitalidade, pelo novo. O problema é que para dar peso a esse encanto, Baumbach parte para uma visão preconceituosa tanto do “mundo jovem”, que segundo o diretor vive dos extremos (“campeonato de quem levanta mais o pé”), quanto do “mundo adulto”, com a ridicularização de tudo o que se refere à rotina do terceiro casal do filme, que acabou de ter um filho. Isso sem falar na sessão de ayahuasca, que parece uma esquete de um programa de humor da TV. Daqueles “antigos”.

E haja chapéu e haja patins. E haja Naomi Watts dançando hip hop de maneira ridícula. Pior que essa era a ideia, mas não deu certo.

A maneira como o diretor impõe sua mensagem chega a ser agressiva de tão didática: enquanto o casal mais velho usa ipods e smart phones, tentando – infantilmente, em sua visão -, se conectar com o presente, o casal hipster tem uma coleção gigantesca de discos de vinil e cria uma galinha dentro de casa, tentando – novamente infantilmente – recuperar uma essência perdida. A galinha se chama Nico pra que as coisas fiquem bem claras. O didatismo é reforçado na relação que a personagem de Ben Stiller tem com o sogro, com quem divide a mesma profissão, documentarista, negando toda e qualquer possibilidade de diálogo, colocando-se na posição de vítima sem que um ataque seja deflagrado.

Baumbach queria mesmo falar do choque de gerações. Mas se perde desde o começo. A melancolia da maioria de seus filmes é deixada de lado, como se o diretor não tivesse chegado à conclusão sobre que tom deveria dar ao filme: não é Tenenbaums, nem Woody Allen, nem aquele Baumbach de sempre, ame-o ou odeie-o. Adam Driver, o hipster alfa do momento, assume o papel do hipster do filme. Baumbach não se decide se quer denunciá-lo por não ser verdadeiro ou se quer denunciar a personagem de Ben Stiller por não entendê-lo. O maior problema do filme nem é lançar estereótipos por todos os lados. É não dizer porque existe. Se, como diz a cena final, era tudo uma questão de gerações, Baumbach não parece ter nem a maturidade para travar essa discussão nem o frescor para entender o novo. “Eu lembro de quando essa música era considerada ruim” talvez seja a única boa piada do filme. E Amanda Seyfried, olha só, é a melhor atriz em cena.

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[When We're Young, Noah Baumbach, 2014]

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Dez incríveis curtas de animação que ganharam o Oscar para ver online

Desde 1932, o Oscar tem uma categoria para os curta-metragens de animação. Durante um bom tempo, os vencedores eram filmes destinados ao público infantil, financiados pelos grandes estúdios. A Disney, por exemplo, ganhou os oito primeiros prêmios, para depois alternar vitórias com a Metro e a Warner. Mas depois de algumas décadas, esta categoria começou a se tornar um reduto para filmes mais arriscados, que geralmente ganhavam certificado de qualidade em festivais de animação como o de Annecy, abrindo espaço para experimentações formais e estéticas, como nos lindíssimos O Homem que Plantava Árvores e O Velho e o Mar. Por sorte, muitos dos curtas que ganharam o Oscar estão disponíveis online. Aqui tem uma seleção com dez filmes excelentes. Eles não têm legendas, mas a maioria é só música e imagem. O único que realmente tem um texto – por sinal, com uma narração maravilhosa de Mel Brooks, é o primeiro, O Crítico. E vale muito testar o inglês para ver a ironia desta belezinha. A não-inclusão de filmes da Disney e da Pixar aqui é proposital, para fugir do mais óbvio.

O Crítico
[The Critic, Ernest Pintoff, 1963]

A Mosca
[A Légy, Ferenc Rófusz, 1980]

Tango
[Tango, Zbigniew Rybczyński, 1982]

O Homem Que Plantava Árvores
[L'homme qui Plantait des Arbres, Frédéric Back, 1987]

Balance
[Balance, Wolfgang & Christoph Lauenstein, 1989]

Mona Lisa Descendo uma Escada
[Mona Lisa Descending a Staircase, Joan C. Gratz, 1992]

O Velho e o Mar
[The Old Man and the Sea, Aleksandr Petrov, 1999]

Pai e Filha
[Father and Daughter, Michaël Dudok de Wit, 2000]

A Casa em Pequenos Cubos
[La Maison en Petits Cubes, Kunio Katō, 2008]

A Coisa Perdida
[The Lost Thing, Shaun Tan & Andrew Ruhemann, 2010]

Mais dicas e notícias sobre cinema na fanpage do Filmes do Chico no Facebook.

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Trailer: Batman vs Superman – O Alvorecer da Justiça

O trailer de Batman vs Superman – O Alvorecer da Justiça oferece um filme mais interessante do que aquela massaroca que reintroduz o Homem de Aço no cinema. Continuo achando que esse não é um trabalho para Zack Snyder. Continuo achando estranho um Batman tão mais velho do que um Superman, embora não me incomode mesmo que seja o Ben Affleck. Continuo achando estranho Jesse Eisenberg ser o rival de Henry Cavill. Continuo achando que existiam umas mil opções melhores do que a Gal Gadot para fazer a Maravilha, mas, enfim, como decenauta de nascença, sempre espero o melhor. Espero que esse universo da DC no cinema seja minimamente aceitável. Dito isso, acho que tem boas coisas no trailer. Gostei das cenas do Affleck (lembrando que sempre considerei o Christian Bale equivocado no papel e nunca fui muito fã dos filmes do Christopher Nolan) e acho que esta coisa de rechaçar o alien pode funcionar. Torcendo. Vamos ver no que é que dá.

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Phoenix

Phoenix

A cena final de Phoenix, de Christian Petzold, é matadora. Ela explica, catalisa e ratifica um filme que leva a sério uma história que parece inacreditável a fim de louvar o melodrama como forma de arte. A verdade é que o romance Le Retour des Cendres facilmente poderia ter virado filme nas mãos de Douglas Sirk, talvez o maior nome do gênero no cinema. Quando foi escrito, em 1961, a Europa ainda não tinha se recuperado do fantasma da Segunda Guerra Mundial. Eram anos de reconstrução não apenas para a história, mas para a arte e para as pessoas. Ambas abraçavam o melodrama como forma de expurgo e bálsamo necessário antes de uma transformação maior.

O livro de Hubert Monteilhet tem como protagonista uma mulher que tenta reconstituir a vida que perdeu no conflito. Élisabeth passou dois anos num campo de concentração e saiu de lá com o rosto completamente deformado, escondido sob faixas, mas dona de uma fortuna considerável, herança de família. Quando encontra o marido, que acredita que ela esteja morta e não a reconhece, o homem que Élisabeth ama faz uma proposta dolorosa para aquela mulher que ele acha que “parece vagamente sua esposa”: que ela finja ser sua “falecida” mulher para que ele consiga colocar as mãos no dinheiro. Parece spoiler, mas a história se concentra muito mais no que há por trás e no que vem em decorrência disso.

Este fartíssimo material melodramático é a base de Phoenix, onde a personagem mudou de nome. Nelly aceita a farsa proposta pelo marido e é exatamente isso que interessa ao cineasta alemão, que reprisa a parceria com os atores Nina Hoss e Ronald Zehrfeld, com quem tinha trabalhado em Barbara. E há ainda a excelente interpretação de outra Nina, Kunzendorf, como a mulher que ajuda a protagonista. Petzold opera como um fiel discípulo de Sirk, emprestando substância a cada um dos momentos com alto potencial rocambolesco da história com soluções relativamente simples, como, por exemplo, nunca mostrar de fato como era o antigo rosto de Nelly. O comprometimento dos atores é essencial para que a experiência funcione. Zehrfeld adiciona algo mais à mistura com uma performance em que nunca se tem plena certeza das verdadeiras intenções de sua personagem, que pode ou não ter denunciado a esposa judia aos nazistas.

Essa fidelidade ao espírito do romance ressalta que a opção do diretor é dar força dramática ao filme. Cada vez que Nelly se submete a alguma humilhação imposta pelo marido, Petzold mostra que está investigando os limites daquela mulher, namorando ele também os limites do melodrama. Como ela, que se refugia numa idealização do passado que a traz algum conforto, o cineasta recorre a um “cinema de antigamente” para encontrar a maneira mais concreta de validar algumas de suas ideias. O modelo de thriller romântico funciona perfeitamente para equilibrar a tensão de um embate emocional em que tudo pode acontecer. E, numa leitura ainda mais aprofundada, Petzold parece perguntar se a volta dos presos nos campos de concentração não traria a memória de um passado indesejado de um tempo de horror. Phoenix não busca explicações, mas incomoda por abrir as feridas.

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[Phoenix, Christian Petzold, 2014]

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Top 10: os melhores filmes do primeiro semestre

Metade do ano já foi pro saco e chegou a hora de listar meus filmes favoritos entre os que entraram em circuito. Muita coisa boa chegou aos cinemas brasileiros e o segundo semestre promete ainda mais, incuindo dois ótimos e quilométricos filmes do filipino Lav Diaz. Obedeci apenas meu gosto pessoal, então, podem discordar à vontade, mas sempre com educação, certo?

Foxcatcher

10 Foxcatcher
[Foxcatcher, Bennett Miller, 2104]

De um lado é possível reconhecer um esforço gigantesco do diretor em tornar tudo muito importante. Do outro, esse esforço parece realmente ter capturado um sentimento de estranhamento, como se fosse o filme realmente se realizasse como o prelúdio de uma tragédia. Foxcatcher talvez seja incômodo por seu diretor ter encontrado a maneira mais fiel de apresentar homens verdadeiramente tristes, buscando uma maneira de materializar o vazio de suas vidas, revelando para a América o que os americanos têm de mais frágil.

A Gangue

9 A Gangue
[Plemya, Miroslav Slaboshpitsky, 2014]

Se ficarmos no clichê, A Gangue é uma monumental “experiência sensorial”. Afinal, qual foi a última vez que fizeram um filme de 132 minutos completamente “falado” em linguagem de sinais? A proposta parece assustadora, mas é exatamente disso que se trata o projeto: derrubar pré-conceitos. Nas primeiras imagens, o letreiro informa que o filme não trará legenda alguma para traduzir os gestos que os personagens do longa, principalmente garotos e garotas que moram numa espécie de internato para surdo-mudos, fazem para se comunicar. Ao espectador comum, é oferecida a experiência de ver o filme em condições semelhantes às que um deficiente auditivo assiste a um longa “normal”. Mas o que poderia se transformar num experimento típico de festival de cinema se revela um filme poderoso sobre jovens que raramente encontram “voz” numa Ucrânia dominada, nos mais variados níveis, pela corrupção.

Divertidamente

8 Divertidamente
[Inside Out, Pete Docter & Ronaldo Del Carmen, 2015]

A ideia central de Divertidamente, mapear o funcionamento da mente de uma pessoa, personificando as principais emoções que comandam o cérebro, poderia ser executada no modo engraçadinho e, ainda assim, seria um sucesso. No entanto, a Pixar tinha ambições bem maiores e, depois de patinar por cinco anos em filmes “menores”, voltou a tratar o material com seriedade. O resultado é uma exame detalhado e sensível das transformações de um ser humano. Ao mesmo tempo que mantém o humor afiado, exigência para qualquer animação que pretenda conquistar seu público, o roteiro lida com situações delicadas com tanto equilíbrio e inteligência, inclusive quando precisa ser cruel, que vira uma tradução muito sincera dos sentimentos de uma criança.

Um Ano Mais Violento

7 Um Ano Mais Violento
[A Most Violent Year, JC Chandor, 2014]

Deveria ser um filme de máfia, mas a ação é quase um sujeito oculto neste novo filme de JC Chandor, novamente às voltas, com a luta do homem contra o status quo. Oscar Isaac emula Al Pacino assim como a direção de fotografia remete às cores de um épico de Coppola, mas o diretor se mostra mais interessado em dissecar a situação pelo avesso. Chandor não vê muita escapatória para os problemas em que o protagonista está mergulhado. Parece obcecado, isso sim, em entender como um homem comum reage e enfrenta o sistema. Sua visão, talvez um pouco fria, surge também na personagem principal, que discursa contra algo que tem certeza que não pode vencer. Esse drible nas expectativas torna Um Ano Mais Violento menos efetivo e muito mais interessante do que sugeriria qualquer sinopse.

Acima das Nuvens

6 Acima das Nuvens
[Clouds of Sils Maria, Olivier Assayas, 2014]

Se Binoche faz a atriz europeia e veterana que vive à margem dos holofotes e Chloë Grace Moretz encarna a nova mini-diva hollywoodiana, Kristen Stewart tem, na verdade, uma metapersonagem, que catalisa as discussões sobre exposição sem ser uma caricatura da atriz fora das telas. O casting de Stewart é excelente e faz com que ela própria questione sua persona pública e exerça uma espécie de direito de resposta à maneira como a mídia a trata, uma escolha corajosa da atriz em aceitar alguns diálogos que se referem diretamente a sua vida pessoal.

Dois Dias, Uma Noite

5 Dois Dias, Uma Noite
[Deux Jours, Une Nuit, Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne, 2014]

Embora guarde todos os elementos de seus filmes mais célebres, como a câmera orgânica, as interpretações naturalistas e o tempo contínuo, este longa talvez indique uma virada dos irmãos Dardenne em direção a um público mais amplo. É a primeira vez que eles recorrem a um intérprete que não nasceu na Bélgica como protagonista de um filme. Marion Cotillard mudou seu acento e se revelou uma escolha acertada para viver a mulher que, para recuperar seu emprego, tenta convencer seus colegas a votarem contra um bônus que só será concedido se ela for demitida. Os Dardenne continuam sua sina de analistas da Europa contemporânea, desta vez discutindo bem especificamente a crise financeira do continente e o impacto na vida do cidadão comum. Os interesses individuais são confrontados com os interesses do mercado numa luta desigual pela sobrevivência.

Selma

4 Selma
[Selma, Ava DuVernay, 2014]

O filme não é sobre uma luta étnica ou religiosa (ou também é). Nem procura revelar o Messias escondido em Martin Luther King (ou também revela). Selma é, sim, um filme edificante e inspirador porque a cineasta consegue traduzir e reverberar a jornada do protagonista pelo que ele acredita. O espectador é conquistado pela identificação. DuVernay cria uma obra sobre a humanidade em cada um de nós. Dignifica o trabalho Martin Luther King sem necessariamente vendê-lo como herói, mas entende sua batalha como ser humano. E David Oyelowo merece os maiores créditos. Recria um homem imenso da maneira mais discreta, simples e bonita possível.

O Pequeno Quinquin

3 O Pequeno Quinquin
[P'tit Quinquin, Bruno Dumont, 2014]

O Pequeno Quinquin incomoda muito mais do que qualquer coisa. É difícil não se abalar com algumas das opções de Bruno Dumont para esta minissérie para a TV francesa, convertida num filme de 200 minutos. Ao contrário do que se poderia imaginar pela imagem de filme infantil, o cinema e os debates do Bruno Dumont aparecem nesta nova obra e mais firmes do que nunca. Todas as questões religiosas, todas as dúvidas espirituais, todos os conflitos, sobretudo o medo do Mal, crescem à medida que descobrimos que Quinquin não é o protagonista do filme. Dumont utiliza a personagem para se aproximar de elementos que o assombram, como se a maldade inocente das crianças aliviasse essa proximidade.

Mad Max: Estrada da Fúria
2 Mad Max: Estrada da Fúria
[Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015]

George Miller teve trinta anos para reimaginar Mad Max e o fututo. E o cineasta australiano foi buscar as raízes de seu guerreiro do fim do mundo, trituradas pela máquina hollywoodiana quando a franquia migrou para os Estados Unidos no, então, último filme da série. O desafio do diretor, do alto de seus 70 anos de idade, foi enorme: resgatar a essência da personagem, remodelar o pós-apocalipse aos olhos e exigências atuais e, mais do que tudo, descobrir o tom certo para o cinema de ação dos dias de hoje. É impressionante como o diretor, já na primeira aparição do protagonista, joga o espectador numa sequência ininterrupta de cenas de ação e só o devolve para a vida real depois que o filme acaba.

Leviatã

1 Leviatã
[Leviathan, Andrei Zvyagintsev, 2014]

A gigantesca carcaça do Leviatã ainda assombra um vilarejo russo onde tudo parece estar fadado ao fracasso. O monstro marinho, descrito no Antigo Testamento, é a alegoria escolhida pelo cineasta Andrei Zvyagintsev para escancarar seu pessimismo em relação a seu país, um estado de descrença que persegue e se transforma em principal temática de seu cinema. Para o diretor, a corrupção se instalou na coração da Rússia e se espalhou como metástase pela política, pela justiça, pela igreja e pela moral. Um exército cruel e onipresente que cerca e atropela os elementos dissonantes. O novo filme do cineasta é como uma profecia bíblica que não guarda muita salvação para seus protagonistas.

No fim das contas, três longas brasileiros foram considerados, mas terminaram saindo da relação final: Últimas Conversas, de Eduardo Coutinho; Casa Grande, de Fellipe Barbosa, e A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante. Entre os estrangeiros que também chegaram perto, estão Whiplash, de Damien Chazelle; O Amor é Estranho, de Ira Sachs; e Kingsman: Serviço Secreto, de Matthew Vaughn. A lista completa dos filmes vistos no circuito em 2015 está aqui, na ordem de preferência.

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Jauja

Jauja

Jauja é um lugar mítico onde, diz a lenda, as pessoas não precisam trabalhar e há abundância e felicidade. Lisandro Alonso invade o mito transportando seus elementos para uma Argentina de paisagens improváveis no século 19. Em sua Jauja, o protagonista, encarnado pelo norte-americano Viggo Mortensen, é um dinamarquês enviado para o novo mundo com sua filha. Tanto ele quanto ela parecem perdidos numa terra estranha até que ela se deixa encantar por um morador local e foge. É então que o cineasta transforma Jauja, o filme, num road movie em que tempo e espaço se confundem, uma jornada existencial que dura uma eternidade e onde o presente pode visitar o futuro e os personagens podem se perder na imensidão. Essa jornada do protagonista, vivido por um dedicado Mortensen, essa busca em si, parece importar mais a Alonso do que a personagem ou a amarração da trama. Depois de algum tempo de procura, a exaustão do caminho inóspito leva Gunnar Dinesen para um estado de transe onde a realidade é o que menos interessa. Talvez tenhamos finalmente chegado em Jauja.

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[Jauja, Lisandro Alonso, 2014]

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