Top 10: os melhores filmes do primeiro semestre

Metade do ano já foi pro saco e chegou a hora de listar meus filmes favoritos entre os que entraram em circuito. Muita coisa boa chegou aos cinemas brasileiros e o segundo semestre promete ainda mais, incuindo dois ótimos e quilométricos filmes do filipino Lav Diaz. Obedeci apenas meu gosto pessoal, então, podem discordar à vontade, mas sempre com educação, certo?

Foxcatcher

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[Foxcatcher, Bennett Miller, 2104]

De um lado é possível reconhecer um esforço gigantesco do diretor em tornar tudo muito importante. Do outro, esse esforço parece realmente ter capturado um sentimento de estranhamento, como se fosse o filme realmente se realizasse como o prelúdio de uma tragédia. Foxcatcher talvez seja incômodo por seu diretor ter encontrado a maneira mais fiel de apresentar homens verdadeiramente tristes, buscando uma maneira de materializar o vazio de suas vidas, revelando para a América o que os americanos têm de mais frágil.

A Gangue

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[Plemya, Miroslav Slaboshpitsky, 2014]

Se ficarmos no clichê, A Gangue é uma monumental “experiência sensorial”. Afinal, qual foi a última vez que fizeram um filme de 132 minutos completamente “falado” em linguagem de sinais? A proposta parece assustadora, mas é exatamente disso que se trata o projeto: derrubar pré-conceitos. Nas primeiras imagens, o letreiro informa que o filme não trará legenda alguma para traduzir os gestos que os personagens do longa, principalmente garotos e garotas que moram numa espécie de internato para surdo-mudos, fazem para se comunicar. Ao espectador comum, é oferecida a experiência de ver o filme em condições semelhantes às que um deficiente auditivo assiste a um longa “normal”. Mas o que poderia se transformar num experimento típico de festival de cinema se revela um filme poderoso sobre jovens que raramente encontram “voz” numa Ucrânia dominada, nos mais variados níveis, pela corrupção.

Divertidamente

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[Inside Out, Pete Docter & Ronaldo Del Carmen, 2015]

A ideia central de Divertidamente, mapear o funcionamento da mente de uma pessoa, personificando as principais emoções que comandam o cérebro, poderia ser executada no modo engraçadinho e, ainda assim, seria um sucesso. No entanto, a Pixar tinha ambições bem maiores e, depois de patinar por cinco anos em filmes “menores”, voltou a tratar o material com seriedade. O resultado é uma exame detalhado e sensível das transformações de um ser humano. Ao mesmo tempo que mantém o humor afiado, exigência para qualquer animação que pretenda conquistar seu público, o roteiro lida com situações delicadas com tanto equilíbrio e inteligência, inclusive quando precisa ser cruel, que vira uma tradução muito sincera dos sentimentos de uma criança.

Um Ano Mais Violento

7 Um Ano Mais Violento
[A Most Violent Year, JC Chandor, 2014]

Deveria ser um filme de máfia, mas a ação é quase um sujeito oculto neste novo filme de JC Chandor, novamente às voltas, com a luta do homem contra o status quo. Oscar Isaac emula Al Pacino assim como a direção de fotografia remete às cores de um épico de Coppola, mas o diretor se mostra mais interessado em dissecar a situação pelo avesso. Chandor não vê muita escapatória para os problemas em que o protagonista está mergulhado. Parece obcecado, isso sim, em entender como um homem comum reage e enfrenta o sistema. Sua visão, talvez um pouco fria, surge também na personagem principal, que discursa contra algo que tem certeza que não pode vencer. Esse drible nas expectativas torna Um Ano Mais Violento menos efetivo e muito mais interessante do que sugeriria qualquer sinopse.

Acima das Nuvens

6 Acima das Nuvens
[Clouds of Sils Maria, Olivier Assayas, 2014]

Se Binoche faz a atriz europeia e veterana que vive à margem dos holofotes e Chloë Grace Moretz encarna a nova mini-diva hollywoodiana, Kristen Stewart tem, na verdade, uma metapersonagem, que catalisa as discussões sobre exposição sem ser uma caricatura da atriz fora das telas. O casting de Stewart é excelente e faz com que ela própria questione sua persona pública e exerça uma espécie de direito de resposta à maneira como a mídia a trata, uma escolha corajosa da atriz em aceitar alguns diálogos que se referem diretamente a sua vida pessoal.

Dois Dias, Uma Noite

5 Dois Dias, Uma Noite
[Deux Jours, Une Nuit, Jean-Pierre Dardenne & Luc Dardenne, 2014]

Embora guarde todos os elementos de seus filmes mais célebres, como a câmera orgânica, as interpretações naturalistas e o tempo contínuo, este longa talvez indique uma virada dos irmãos Dardenne em direção a um público mais amplo. É a primeira vez que eles recorrem a um intérprete que não nasceu na Bélgica como protagonista de um filme. Marion Cotillard mudou seu acento e se revelou uma escolha acertada para viver a mulher que, para recuperar seu emprego, tenta convencer seus colegas a votarem contra um bônus que só será concedido se ela for demitida. Os Dardenne continuam sua sina de analistas da Europa contemporânea, desta vez discutindo bem especificamente a crise financeira do continente e o impacto na vida do cidadão comum. Os interesses individuais são confrontados com os interesses do mercado numa luta desigual pela sobrevivência.

Selma

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[Selma, Ava DuVernay, 2014]

O filme não é sobre uma luta étnica ou religiosa (ou também é). Nem procura revelar o Messias escondido em Martin Luther King (ou também revela). Selma é, sim, um filme edificante e inspirador porque a cineasta consegue traduzir e reverberar a jornada do protagonista pelo que ele acredita. O espectador é conquistado pela identificação. DuVernay cria uma obra sobre a humanidade em cada um de nós. Dignifica o trabalho Martin Luther King sem necessariamente vendê-lo como herói, mas entende sua batalha como ser humano. E David Oyelowo merece os maiores créditos. Recria um homem imenso da maneira mais discreta, simples e bonita possível.

O Pequeno Quinquin

3 O Pequeno Quinquin
[P'tit Quinquin, Bruno Dumont, 2014]

O Pequeno Quinquin incomoda muito mais do que qualquer coisa. É difícil não se abalar com algumas das opções de Bruno Dumont para esta minissérie para a TV francesa, convertida num filme de 200 minutos. Ao contrário do que se poderia imaginar pela imagem de filme infantil, o cinema e os debates do Bruno Dumont aparecem nesta nova obra e mais firmes do que nunca. Todas as questões religiosas, todas as dúvidas espirituais, todos os conflitos, sobretudo o medo do Mal, crescem à medida que descobrimos que Quinquin não é o protagonista do filme. Dumont utiliza a personagem para se aproximar de elementos que o assombram, como se a maldade inocente das crianças aliviasse essa proximidade.

Mad Max: Estrada da Fúria
2 Mad Max: Estrada da Fúria
[Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015]

George Miller teve trinta anos para reimaginar Mad Max e o fututo. E o cineasta australiano foi buscar as raízes de seu guerreiro do fim do mundo, trituradas pela máquina hollywoodiana quando a franquia migrou para os Estados Unidos no, então, último filme da série. O desafio do diretor, do alto de seus 70 anos de idade, foi enorme: resgatar a essência da personagem, remodelar o pós-apocalipse aos olhos e exigências atuais e, mais do que tudo, descobrir o tom certo para o cinema de ação dos dias de hoje. É impressionante como o diretor, já na primeira aparição do protagonista, joga o espectador numa sequência ininterrupta de cenas de ação e só o devolve para a vida real depois que o filme acaba.

Leviatã

1 Leviatã
[Leviathan, Andrei Zvyagintsev, 2014]

A gigantesca carcaça do Leviatã ainda assombra um vilarejo russo onde tudo parece estar fadado ao fracasso. O monstro marinho, descrito no Antigo Testamento, é a alegoria escolhida pelo cineasta Andrei Zvyagintsev para escancarar seu pessimismo em relação a seu país, um estado de descrença que persegue e se transforma em principal temática de seu cinema. Para o diretor, a corrupção se instalou na coração da Rússia e se espalhou como metástase pela política, pela justiça, pela igreja e pela moral. Um exército cruel e onipresente que cerca e atropela os elementos dissonantes. O novo filme do cineasta é como uma profecia bíblica que não guarda muita salvação para seus protagonistas.

No fim das contas, três longas brasileiros foram considerados, mas terminaram saindo da relação final: Últimas Conversas, de Eduardo Coutinho; Casa Grande, de Fellipe Barbosa, e A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante. Entre os estrangeiros que também chegaram perto, estão Whiplash, de Damien Chazelle; O Amor é Estranho, de Ira Sachs; e Kingsman: Serviço Secreto, de Matthew Vaughn. A lista completa dos filmes vistos no circuito em 2015 está aqui, na ordem de preferência.

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Jauja

Jauja

Jauja é um lugar mítico onde, diz a lenda, as pessoas não precisam trabalhar e há abundância e felicidade. Lisandro Alonso invade o mito transportando seus elementos para uma Argentina de paisagens improváveis no século 19. Em sua Jauja, o protagonista, encarnado pelo norte-americano Viggo Mortensen, é um dinamarquês enviado para o novo mundo com sua filha. Tanto ele quanto ela parecem perdidos numa terra estranha até que ela se deixa encantar por um morador local e foge. É então que o cineasta transforma Jauja, o filme, num road movie em que tempo e espaço se confundem, uma jornada existencial que dura uma eternidade e onde o presente pode visitar o futuro e os personagens podem se perder na imensidão. Essa jornada do protagonista, vivido por um dedicado Mortensen, essa busca em si, parece importar mais a Alonso do que a personagem ou a amarração da trama. Depois de algum tempo de procura, a exaustão do caminho inóspito leva Gunnar Dinesen para um estado de transe onde a realidade é o que menos interessa. Talvez tenhamos finalmente chegado em Jauja.

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[Jauja, Lisandro Alonso, 2014]

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O Último Poema do Rinoceronte

O Último Poema do Rinoceronte

A presença da musa italiana Monica Bellucci indica que o cinema de Bahman Ghobadi está mais internacional do que nunca, mas, embora a obra do iraniano guarde muitas delicadezas e alguns posicionamentos de protesto, raramente seus filmes “de festival” assumiram uma postura política tão direta contra o governo de seu país. O Último Poema do Rinoceronte é muito mais prático e convencional em relação aos filmes anteriores do diretor, que abusam de uma espécie de exotismo mágico que às vezes funciona, mas em outras parece pura perfumaria. A história é a do poeta curdo que é libertado depois de trinta anos de prisão e descobre que sua esposa acha que ele está morto. Enquanto evoca o thriller político, mais documental, mesmo em sua bagunça cronológica, a “temporada de rinocerontes” segue mais interessante do que quando Ghobadi tenta aplicar cores mais pessoais e liberdades poéticas, que destoam do conjunto. Um trabalho válido que pisa em falso aqui e ali.

 

O Último Poema do Rinoceronte EstrelinhaEstrelinha½
[Rhino Season, Bahman Ghobadi, 2013]

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Jurassic World

Jurassic World

O cinema pode ser bem mais simples do que a gente imagina e, muitas vezes, cobrar de um filme intenções que ele nunca teve revela muito mais quem não entrou na brincadeira do que problemas concretos na obra. Numa época em que o número de reboots, continuações e spin offs é maior do que nunca, nosso olhar parece condicionado a esperar o pior desses roteiros poucos originais. Mas isso nem sempre é verdade. Jurassic World não passa de um remake não assumido – e em escala maior – do neoclássico Jurassic Park. E é exatamente essa suposta falta de imaginação que deixa o filme tão atraente.

Colin Trevorrow, que assina a direção e a coautoria do roteiro, parece mais do que tudo um devotado fã do longa de Steven Spielberg. Tanto que praticamente clona, em maior ou menor grau, cada aspecto da história do filme original, reimaginando todas as principais cenas, do bote do T-Rex em cima das crianças até a sequência final, na parte construída do parque. O conjunto de referências, incluindo o reaproveitamento de uma personagem secundária e a intenção de trazer os principais protagonistas animais do primeiro longa para o centro desse novo filme, fazem de Jurassic World uma obra de reverência explícita.

Assumir-se como filme homenagem é o grande trunfo do longa de Trevorrow, que recicla inclusive a premissa mais básica proposta por Spielberg, que há 22 anos já questionava os limites éticos do uso da tecnologia e reavivava o velho dilema do homem que tenta ser Deus. Essa honestidade do novo longa, que renova os votos a essa ingenuidade tão essencialmente spielberguiana, e que ainda tem como protagonistas uma dupla de irmãos que parece saída diretamente de um filme dos anos 80 (Ty Simpkins está particularmente adorável) e um casal de namoradinhos que vive brigando (Chris Pratt e Bryce Dallas Howard em ótima forma), no melhor estilo dos filmes de aventura de “antigamente”, deixa muito claro que nostalgia é a matéria-prima aqui.

E olha que há algumas boas ideias novas, como o ataque dos “pássaros” no melhor estilo hitchcockiano, com direito a mortes que talvez não estivessem num filme de Spielberg. Mas o que conta mais é ouvir o tema do John Williams pra voltar duas décadas atrás e se divertir pra caramba com T-Rexes e velociraptors voltando à ativa com força total. E qual é o problema em querer lembrar dos velhos tempos, não é? Os U$ 500 milhões de dólares que o filme fez no seu fim de semana de abertura provam que muita gente está disposta a abraçar a memória. Então, vamos relaxar. Saudosismo e culpa não precisam andar de mãos dadas.

Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros  EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Jurassic World, Colin Trevorrow, 2015]

P.S.: meu sobrinho de seis anos adorou o filme. Eu acho que ele conversa muito bem com as novas gerações.

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Retorno à Ítaca

Retorno à Ítaca

Diretor de filmes excepcionais como A Agenda e Entre os Muros da Escola, Laurent Cantet pousou em Cuba para fazer o típico filme sobre o reencontro de velhos amigos. À primeira vista, o filme tem a agilidade e a cadência de uma rumba, apresentando as personagens, literalmente, em pequenos goles, fazendo observações bem conscientes e independentes sobre liberdade e política no país, envolvendo o espectador com aquele encontro de histórias. Havana é filmada de maneira documental do topo do edifício onde mora um dos cinco protagonistas e a cidade invade as conversas, brincadeiras e danças do grupo de uma maneira natural e cheia de vitalidade como poucos diretores conseguem fazer. A tática coloca o espectador tanto na posição de observador da cidade, do país, da Cuba socialista que deu e não deu certo, quanto nas peles daqueles amigos. A questão é que, a partir de determinado ponto, os inevitáveis conflitos entre as personagem afloram no melhor estilo do gênero e a roupa suja é lavada ali na laje mesmo, com direito a pelo menos uma “grande revelação”, que atropela muito o ritmo e a fluidez do filme.

 

Retorno a Ítaca EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Retour à Ithaque, Laurent Cantet, 2014]

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Top 40: os melhores filmes gays de todos os tempos

Somente nas duas últimas décadas, o largo espectro de temas homossexuais conseguiu encontrar um variado e substancioso conjunto de representações no cinema. Gays, lésbicas, bissexuais, drag queens, travestis, entre outros, podem ser encontrados, hoje, em larga escala, em filmes que ultrapassaram o gueto do cinema de classe e que assumem tanto as estruturas de gêneros clássicos, como dramas, comédias e filmes de suspense e de terror, como trazem a orientação sexual para um campo de normalidade que permite se ater a detalhes antes soterrados porque a questão maior já era a ousadia do tema em si.

Embora o cinema gay tenha conseguido renegociar sua posição na produção de filmes, ao longo desses 120 anos de cinema, houve muitos projetos que foram pioneiros em explorar as questões ligadas ao comportamento e ao universo homossexual. Há críticos que insistem que um dos primeiros filmes, o curta-metragem The Dickson Experimental Sound Film, de William Dickson, um filme sonoro realizado mais de 30 anos antes do som chegar de fato ao cinema, teria personagens com um comportamento nitidamente homossexual. No filme, que você pode assistir abaixo, dois homens dançam ao som de um instrumento musical.

Há bastante controvérsia. Alguns estudiosos dizem que o registro da dança entre dois homens teria chocado plateias, enquanto outros afirmam que aquele comportamento seria comum entre homens na época. A época é, no caso, 1895, o ano da “invenção do cinema”. Forçação de barra ou não, outros exemplos de possíveis manifestações homossexuais no cinema podem ser conferidos – e geram polêmica – nos anos seguintes. Em 1907, Georges Méliès dirigiu O Eclipse: Ou a Corte do Sol à Lua, em que um astro-rei viril seduz uma lua efeminada. Alguns estudos dizem que sol e lua seriam do gênero masculino e que o momento do eclipe seria, de fato, uma relação homossexual. A primeira do cinema.

Nos anos seguintes, as comédias flertaram com os temas gays. Algie, The Miner, de Alice Guy-Blaché, mostra um homem efeminado que precisa se livrar do estigma de que “beija cowboys” para conseguir namorar a filha de um ricaço. Charles Chaplin usou roupas femininas em A Mulher e seduziu vários homens. E em A Florida Enchantment, de Sidney Drew, uma mulher engole uma semente mágica que a transforma em homem e seu noivo faz o mesmo e vira um homem “afetado”. Todos estes filmes são da primeira metade da década de 1910 e todos têm um quê de brincadeira. Mas pouco depois disso começaram na Europa as primeiras tentativas de se fazer filmes “sérios” sobre o assunto.

Na Suécia, Mauritz Stiller adaptou o romance Mikaël, de Herman Bang, sobre a relação entre um pintor aclamado e seu pupilo, abalada pela chegada de uma condessa que seduz o jovem, em The Wings, de 1916. O dinamarquês Carl Theodore Dreyer refilmou o livro em 1924 usando o título original, Mikaël. Pela primeira vez, se a história não engoliu algum pioneiro, temos personagens gays representados no cinema. Em 1919, numa Alemanha onde a Constituição considerava a prática homoafetiva como crime, Richard Oswald se une ao físico e sexólogo Magnus Hirschfeld para rodar Diferente dos Outros, que também conta a história de um artista, um músico, e um homem mais jovem. A chantagem contra os homossexuais, algo que era comum no país na época, é um dos temas centrais do filme.

Nas décadas seguintes, censurados ou não, usando subtextos ou sendo mais explícitos, muitos diretores, alguns bastante conceituados, no auge de suas carreiras e heterossexuais, resolveram contar histórias de homoafetividade. De simples romances ao retrato de comportamento de guetos, de cidadãos “comuns” a estereótipos, muitos deles foram bastante felizes em dar sua contribuição para o gênero no cinema. A lista que você acompanha a partir de agora abre uma série de Top 40s que eu devo publicar até o fim de 2014, quando eu completo 40 anos, que vão tentar vasculhar os mais variados aspectos do cinema, juntando meus filmes preferidos e aqueles que escreveram a história da sétima arte.

Basta clicar no link abaixo para acessar minha lista com os 40 melhores filmes com temática homossexual de todos os tempos.

Aqui tem a versão da lista com 100 títulos, mas sem comentários.

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Poltergeist, o Fenômeno

Poltergeist, o Fenômeno 2015

A intenção deste texto nunca foi alimentar o ranço saudosista com que geralmente se julga como pior o que é produzido nos dias de hoje em comparação com o que se fez décadas atrás, sobretudo em se tratando de remakes. Mas é bem difícil não sentir uma imensa nostalgia de tudo o que o primeiro Poltergeist, o Fenômeno conseguia ser depois de sair de uma sessão desta refilmagem/reboot comandada por Gil Kenan. E o maior pecado do novo filme é justamente passar irresponsavelmente apressado por tudo o que o longa original conquistou para chegar na sequência final “nova”, que deveria ser seu trunfo e seu diferencial, mas é sua vergonha.

Para começar, no filme de 1982, Steven Spielberg gastou muito tempo com a ambientação. A cena inicial daquele Poltergeist, o Fenômeno é fundamental para introduzir o espectador na maldição da família Freeling. Descobrimos junto com os pais e os irmãos que existe algo de errado com Carol Anne. Alguma coisa que só vai ser explicada ao longo do filme, que antes se dedica a apresentar aqueles americanos de classe média. E como nos melhores trabalhos de Spielberg, todas as personagens são introduzidas com bastante carinho à medida que a história vai se desenhando.

O novo filme abre mão de todo esse encanto. O casal vivido por Sam Rockwell e Rosemarie DeWitt, ambos bons atores, desaparece na comparação com as personagens criados por Craig T. Nelson e JoBeth Williams, estupidamente simples e felizes e levemente libertários, ainda sob o efeito dos resquícios da década de 70. As interpretações da dupla original namoram com o patético e o exagero, o que reforça sua humanidade, enquanto Rockwell e DeWitt apelam para um realismo que achata qualquer tentativa de deixar suas personagens mais complexas.

Poltergeist, o Fenômeno 1982

Existe ainda um descaso com Madison, a Carol Anne desta segunda versão. Ao contrário da protagonista encantadora/assustadora criada por Heather O’Rourke, que tem sua relação com os poltergeists delineada em algumas cenas fundamentais, como a das cadeiras da cozinha ou todos os momentos em que está em frente à TV, Maddie mal aparece na tela. Difícil lembrar inclusive do rosto dela, quanto mais se identificar com a menina. A pressa em levá-la para o outro lado e chegar num material realmente inédito neste filme novo é tanta que até a antológica sequência com a árvore ganha uma versão diminuta.

Kenan simplesmente dá tempo para o espectador se instalar, o que é uma preocupação principal para Spielberg. Apesar de ter assinado o longa original como roteirista e produtor, deixando o crédito de direção para Tobe Hooper, Steven Spielberg foi quem efetivamente comandou as filmagens, presente no set todos os dias e dirigindo os atores. Sua mão é que dá um corpo diferente ao Poltergeist de 1982, que ultrapassa as barreiras do filme de terror. Kenan, que já mostrou talento no ótimo A Casa Monstro, parecia ansioso para dar sua assinatura ao novo filme, mas abandonou o, com o perdão do trocadilho, espírito do primeiro filme.

A chegada da parapsicóloga vivida por Jane Adams, uma atriz que sempre parece estar pronta para desmoronar, dá alguma vida ao remake, mas, mais uma vez, Kenan não consegue criar a intimidade entre a personagem e a família, ao contrário do que Spielberg fez com Beatrice Straight há 30 anos. A “reencarnação” de Tangina, agora na pele de Jarred Harris, tenta reeditar aquele algo ridículo que a personagem carregava, mas o diretor parece que não entendeu que ela ria de si mesma e cria uma mutação deformada, arrogante e sem qualquer simpatia que deixa saudade de Zelda Rubinstein.

Quando o filme chega, finalmente, ao ponto que Kenan, e talvez o produtor executivo Sam Raimi, pretendem, pouco se salva além de algumas soluções visuais. Mas aí surge aquela dúvida: o melhor é mostrar ou insinuar, como Hooper e Spielberg fizeram no original? Aquele Poltergeist, o Fenômeno que assustava ao mesmo tempo em que era charmosamente desajeitado, namorando com o humor sem deixar de tratar o tema com respeito, fez um herdeiro que elimina esse respiro, entrega as coisas no piloto automático e pesa a mão na história para, no final, jogar tudo pro alto e tentar fazer graça, sem graça. E nem tem trilha do Jerry Goldsmith. A cena que encerra o filme, depois dos primeiros créditos, dá vergonha.

Poltergeist – o Fenômeno EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Poltergeist, Tobe Hooper, 1982]

Poltergeist – o Fenômeno Estrelinha½
[Poltergeist, Gil Kenan, 2015]

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O Desejo da Minha Alma

O Desejo da Minha Alma

Haruna tem apenas doze anos e já carrega o mundo nas costas. Já na primeira cena de O Desejo da Minha Alma, a menina escava os destroços da casa onde morava, tentando salvar sua família – ou o que restou dela. Em sua tentativa de entender a tragédia que a cerca e aplacar sua dor, Haruna ganha a certeza de que o terremoto que devastou a vizinhança e matou seu pai e sua mãe aconteceu por causa dela. À garota, resta conviver com uma culpa que não divide com ninguém e a obrigação de proteger o irmãozinho, Shôta, que aos cinco anos precisa ser preservado da notícia de que perdeu os pais.

Se a personagem principal está ensaiando os primeiros passos de uma precoce vida adulta, Masakazu Sugita também está começando. Este é seu primeiro longa-metragem como diretor, mas a temática e a abordagem que ele utiliza para contar sua história revelam um cineasta incrivelmente maduro para tratar de temas delicados com uma abordagem ainda mais delicada e sob o olhar de uma criança. Sugita faz de seu filme, muito mais do que uma história de luto. O Desejo da Minha Alma parece tentar decifrar a complexa relação que a sociedade japonesa tem com a morte.

Se de um lado, a história ensinou o japonês a enxergar o fim da vida como um processo natural e honrado, como provam dos harakiris dos samurais aos cortejo fúnebres que cumprem uma liturgia de celebração; do outro, o Japão é um país que sobreviveu a uma das maiores tragédias humanas e transformou sua reconstrução econômica num modelo de comportamento.  Não é difícil entender porque um povo afeito a uma rotina rígida de planejamento desmorone diante de uma catástrofe natural. Além de ser uma menina que acabou de perder os pais, Haruna carrega a herança traumática de um povo, o que torna as coisas bem mais difíceis pra ela.

Sugita acertou em cheio na escolha da protagonista. Silenciosa, Ayane Ohmori traduz o peso invisível que carrega sua personagem em olhares e gestos. Reprisando comportamentos milenares, Haruna não divide a responsabilidade sobre suas dores com ninguém, nem abre espaço para que quem está a sua volta possa ajudá-la. Existem duas cenas que demonstram claramente como o diretor enxerga a menina. Numa delas, a tia que a adotou e que penteia seu cabelo se distrai com o sobrinho pequeno e Haruna, que havia se apegado àquele minúsculo momento de epifania, desperta. Ao se perceber sozinha, expulsa o sorriso que havia se instalado em seu rosto.

Em outra cena fotografada com imensa delicadeza, a menina que acaba de ouvir de um professor que pode contar com ele neste momento difícil, se despede com a cabeça e mergulha lentamente num corredor para sair da escola. Como se, educadamente, rejeitasse a ajuda oferecida. Ao som da música melancólica que pontua todo o filme, Sugita mantém a câmera estática até que a menina desapareça no fim do corredor, como se quisesse avisar ao espectador que Haruna se mantém fiel ao sofrimento que acredita ser sua sina. Por mais que pareça pessimista, o diretor trata a personagem com todo o carinho que pode.

O contraponto e maior carrasco, mesmo que inconscientemente, de Haruna é seu irmãozinho. A alegria de Shôta, vivido pelo adorável Riku Ohishi, é um bálsamo para o pesar da menina. Mas suas perguntas insistentes sobre o paradeiro dos pais machucam a irmã mais do que qualquer coisa. Lidar com sentimentos e situações tão complexas esgota a protagonista ao mesmo tempo em que inspira um cineasta delicado a encontrar um desfecho cheio de esperança para duas crianças que carregam mais do que podem suportar.

O Desejo da Minha Alma EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Hitono Nozomino Yorokobiyo, Masakazu Sugita, 2014]

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A Gangue

A Gangue

Se ficarmos no clichê, A Gangue é uma monumental “experiência sensorial”. Afinal, qual foi a última vez que fizeram um filme de 132 minutos completamente “falado” em língua de sinais? A proposta parece assustadora, mas é exatamente disso que se trata o projeto: derrubar pré-conceitos. Nas primeiras imagens, o letreiro informa que o filme não trará legenda alguma para traduzir os gestos que os personagens do longa, principalmente garotos e garotas que moram numa espécie de internato para jovens surdos, fazem para se comunicar.

Ao espectador comum, é oferecida a experiência de ver o filme em condições semelhantes às que um deficiente auditivo assiste a um longa “normal”. Mas o que poderia se transformar num experimento típico de festival de cinema se revela um filme poderoso sobre jovens que raramente encontram “voz” numa Ucrânia dominada, nos mais variados níveis, pela corrupção.

O cineasta, que deve ser um fiel espectador dos filmes da vizinha Romênia, pega emprestado em seu primeiro longa-metragem, a maneira documental de contar uma história de ficção e cria um conceito estético que dá um ritmo surpreendente ao longa: cada cena é um plano-sequência comprido, mas cheio de movimento, geralmente com vários personagens interagindo. A fórmula funciona para capturar a atenção de quem assiste e ajuda a decodificar a linguagem de A Gangue.

É impossível decifrar cada diálogo, mas a história envolvente é desenhada sem grandes traumas. O sexo e a violência, que geraram bastante polêmica aparecem naturalmente na trama, completamente costurados ao desenrolar da ação. Mais do que a “experiência sensorial” que o filme vende, A Gangue é a prova de que o cinema ainda continua a driblar os limites da linguagem.

A Gangue EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½
[Plemya, Miroslav Slaboshpitsky, 2014]

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Mad Max: Estrada da Fúria

Mad Max: Estrada da Fúria

George Miller teve trinta anos para reimaginar Mad Max e o fututo. E o cineasta australiano foi buscar as raízes de seu guerreiro do fim do mundo, trituradas pela máquina hollywoodiana quando a franquia migrou para os Estados Unidos no, então, último filme da série. O desafio do diretor, do alto de seus 70 anos de idade, foi enorme: resgatar a essência da personagem, remodelar o pós-apocalipse aos olhos e exigências atuais e, mais do que tudo, descobrir o tom certo para o cinema de ação dos dias de hoje. Era preciso convencer o fã dos filmes originais que cresceram com a saga e conquistar um novo público. O resultado é que Mad Max: Estrada da Fúria não nos dá sossego.

Miller jura de pés juntos que nunca teve a intenção de fazer uma refilmagem, mas, sim, de continuar e expandir o universo que criou. Universo este que estabeleceu as regras para os filmes pós-apocalípticos, mais precisamente no segundo e mais cultuado filme da série. Tem muito de verdade em sua afirmação: os princípios da trilogia original estão todos lá, mas ganharam elementos e detalhes novos. Ideias que ajudam a refrescar e atualizar a criação do cineasta. Mas não há como não perceber que, mesmo que não completamente consciente, existe uma intenção de apagar o terceiro longa, sem deixar de aproveitar muitos dos conceitos daquele roteiro.

É como se Mad Max: Além da Cúpula do Trovão finalmente tivesse saído do jeito que Miller imaginou. A Tribo Perdida, a versão dos Ewoks para o universo criado pelo australiano, dá lugar aos Garotos da Guerra, jovens que ao mesmo tempo em que precisam de transfusões de sangue para se manter vivos são guerreiros que acreditam numa espécie de vida pós-morte. Eles são apenas um dos elementos de uma sociedade complexa, distópica, comandada por um ditador deformado, em que Miller discute como o totalitarismo e o fanatismo religioso caminham juntos – e como a água, o bem mais cobiçado desse mundo, vira instrumento de chantagem espiritual.

Dito isso, é impressionante como o diretor, já na primeira aparição do protagonista, joga o espectador numa sequência ininterrupta de cenas de ação e só o devolve para a vida real depois que o filme acaba. Eis um longa que justifica, a cada 15 ou 20 minutos, o uso do 3D e o ingresso bem caro do IMAX. A ópera furiosa criada por Miller só funciona completamente quando as imagens e o som, concebidos para operarem no limite do excesso, explodem numa tela gigante de cinema. O filtro alaranjado, onipresente, que poderia incomodar, ajuda a emoldurar o mundo devastado de onde Max é sobrevivente mais célebre, o que não significa que ele receberá um tratamento especial do cineasta.

O anti-herói durão dos anos 80 passa boa parte da meia hora inicial do filme preso, apanhando ou servindo como “combustível” para os homens que o capturaram. Quase desaparece numa sequência razoavelmente grande, em que Miller apresenta a Cidadela, elemento central de sua história. Se Mel Gibson interpretava um homem embrutecido por uma sucessão de tragédias pessoais, o Max Rockatansky de Tom Hardy vive assombrado pelos fantasmas de quem não conseguiu salvar. Fragilizado, se reconstrói aos poucos. A primeira impressão é de que o ator parece intimidado com a responsabilidade de assumir uma personagem tão icônica, mas, aos poucos, a discrição de Hardy parece ser uma estratégia ousada de Miller.

Com um Max que demora para entrar no jogo, o diretor ganha tempo para vender bem duas grandes personagens: uma delas é Nux, um dos Garotos da Guerra, interpretado por um instintivamente descontrolado Nicholas Hoult, provavelmente num de seus melhores papéis no cinema. A segunda é uma das generais da Cidadela, a Imperatriz Furiosa de Charlize Theron, que parece ser uma grande atriz de filmes de ação, como vimos em sua performance impecável em Branca de Neve e o Caçador. Aqui, ela e Miller criam uma personagem memórável, a melhor personagem feminina de um filme da série, complexa e imprevisível, o verdadeiro motor do novo longa, que muitas vezes deixa Max em segundo plano.

Se existe um ponto fraco no filme talvez ele esteja nas mocinhas em perigo, que parecem saídas da São Paulo Fashion Week. No meio do deserto, isso pode ser meio estranho, mas o filme desvia sua atenção desse “problema” poucos minutos depois.

As pequenas ousadias de Miller (rivalizar o protagonismo de um filme com uma mulher, fragilizar o herói, criar guerreiros presos a tubos de sangue e ainda criar grupo de velhas motociclistas) revelam que o diretor não tem medo de correr riscos operando no limite do excesso para renovar sua obra, humanizar suas personagens, quebrar outros paradigmas de um universo que já havia quebrado paradigmas para estabelecer paradigmas. E, se uma esperada participação de Mel Gibson não acontece, o maestro Miller homenageia seus originais entregando para Hugh Keays-Byrne, o principal vilão de Mad Max, o papel de Immortan Joe, o principal vilão de Estrada da Fúria. Mas, como você vai perceber, vilões não são o mais importante aqui. O mundo acabou, tudo está fora da ordem e a única saída é pisar no acelerador.

Mad Max: Estrada da Fúria EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mad Max: Fury Road, George Miller, 2015]

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