Oscar 2017: primeiro round de apostas

oscar 2017

Comecei tarde neste ano, mas aqui vão minhas primeiras apostas para as principais categorias do Oscar 2017. A base é a de sempre: os sites que acompanham a corrida pelo prêmio da Academia, as críticas dos filmes lançados e o retrospecto de indicados, não indicados e vencedores de anos anteriores. Apesar de um certo buzz em torno de La La Land, ainda não há um claro favorito ao prêmio principal. Além do filme de Damien Chazelle, Moonlight, Manchester à Beira-Mar e Fences parecem ter indicações garantidas neste ano e Silence, de Martin Scorsese, que ninguém viu ainda, também é uma aposta recorrente.

Entre as categorias de atuação, a de melhor atriz é a mais disputada, com Emma Stone, Natalie Portman e Annette Bening se revezando no favoritismo. Denzel Washington e Casey Affleck parecem as mais sólidas opções para melhor ator, enquanto a corrida de ator coadjuvante está bem embolada. Viola Davis, decretando para Hollywood que deve ser considerada coadjuvante, pode ter assegurado seu Oscar.

Será que a eleição de Donald Trump pode fazer a indústria, tradicionalmente mais liberal, se manifestar premiando filmes mais políticos e atores negros, como uma reação à postura xenóbofa, misógina e excludente do novo presidente? Há quem diga que sim, ainda mais depois de dois anos de #OscarSoWhite, numa época em que as mulheres conseguiram bons papéis e os filmes de cunho étnico chegaram em bom número.

A lista abaixo contempla os números de indicados nas principais categorias (as outras virão em breve) e traz minhas apostas pessoais (10 em melhor filme e 5 nas outras categorias) e mais uma relação de possibilidades e alternativas (em número igual ao total de indicados por categoria). Deixem seu comentários e suas apostas!

filme
minhas apostas

1 La La Land (Summit)
2 Manchester à Beira-Mar (Roadside)
3 Fences (Paramount)
4 Moonlight (A24)
5 Silence (Paramount)
6 Lion (Weinstein)
7 A Lei da Noite (Warner)
8 Jackie (Fox Searchlight)
9 Estrelas Além do Tempo (20th Century Fox)
10 Loving (Focus Features)

têm chances

11 Sully (Warner)
12 A Chegada (Paramount)
13 Até o Último Homem (Lionsgate)
14 Florence – Quem é Esta Mulher? (Paramount)
15 A Qualquer Custo (CBS)
16 Aliados (Paramount)
17 20th Century Women (A24)
18 Ouro e Cobiça (Weinstein)
19 Rules Don’t Apply (20th Century Fox)
20 Mogli – O Menino Lobo (Disney)

direção
minhas apostas

1 Damien Chazelle, La La Land
2 Denzel Washington, Fences
3 Barry Jenkins, Moonlight
4 Kenneth Lonergan, Manchester à Beira-Mar
5 Martin Scorsese, Silence

têm chances

6 Garth Davis, Lion
7 Ben Affleck, A Lei da Noite
8 Pablo Larraín, Jackie
9 Clint Eastwood, Sully
10 Dennis Villeneuve, A Chegada

ator
minhas apostas

1 Denzel Washington, Fences
2 Casey Affleck, Manchester à Beira-Mar
3 Tom Hanks, Sully
4 Warren Beatty, Rules Don’t Apply
5 Joel Edgerton, Loving

têm chances

6 Ryan Gosling, La La Land
7 Andrew Garfield, Silence
8 Andrew Garfield, Até o Ultimo Homem
9 Matthew McCounaughey, Ouro e Cobiça
10 Ben Affleck, A Lei da Noite

atriz
minhas apostas

1 Emma Stone, La La Land
2 Natalie Portman, Jackie
3 Annette Bening, 20th Century Wome
4 Meryl Streep, Florence: Quem é Essa Mulher?
5 Ruth Negga, Loving

têm chances

6 Amy Adams, A Chegada
7 Jessica Chastain, Miss Sloane
8 Taraji P. Henson, Estrelas Além do Tempo
9 Isabelle Huppert, Elle
10 Marion Cotillard, Aliados

ator coadjuvante
minhas apostas

1 Jeff Bridges, A Qualquer Custo
2 Hugh Grant, Florence: Quem é Essa Mulher?
3 Mahershala Ali, Moonlight
4 Lucas Hedges, Manchester à Beira-Mar
5 Liam Neeson, Silence

têm chances

6 Stephen McKinley Henderson, Fences
7 Dev Patel, Lion
8 Mykelti Williamson, Fences
9 Aaron Eckhardt, Sully
10 Michael Shannon, Animais Noturnos

atriz coadjuvante
minhas apostas

1 Viola Davis, Fences
2 Naomi Harris, Moonlight
3 Michelle Williams, Manchester à Beira-Mar
4 Nicole Kidman, Lion
5 Greta Gerwig, 20th Century Women

têm chances

6 Janelle Monae, Estrelas Alem do Tempo
7 Octavia Spencer, Estrelas Alem do Tempo
8 Sienna Miller, A Lei da Noite
9 Felicity Jones, Sete Minutos Depois da Meia-Noite
10 Molly Shannon, Other People

roteiro original
minhas apostas

1 Moonlight, Barry Jenkins
2 Manchester à Beira-Mar, Kenneth Lonergan
3 La La Land, Damien Chazelle
4 20th Century Women, Mike Mills
5 A Qualquer Custo, Taylor Sheridan

têm chances

6 Loving, Jeff Nichols
7 Jackie, Noah Oppenheim
8 Florence – Quem É Esta Mulher?, Nicholas Martin
9 Miss Sloane, Jonathan Perera
10 Toni Erdmann, Maren Ade

roteiro adaptado
minhas apostas

1 Fences, August Wilson
2 Lion, Luke Davies
3 Silence, Jay Cocks
4 Estrelas Além do Tempo, Allison Schroeder
5 A Chegada, Eric Heisserer

têm chances

6 A Lei da Noite, Ben Affleck
7 Até o Último Homem, Andrew Knight, Robert Schenkkan
8 Sully, Todd Komarnicki
9 Indignação, James Schamus
10 Amor & Amizade, Whit Stillman

filme estrangeiro
minhas apostas

1 Toni Erdmann (Alemanha), Maren Ade
2 O Dia Mais Feliz na Vida Olli Mäki (Finlândia), Juho Kuosmanen
3 O Ídolo (Palestina), Hany Abu Assad
4 Neruda (Chile), Pablo Larraín
5 Julieta (Espanha), Pedro Almodóvar

têm chances

6 Sieranevada (Romênia), Cristi Puiu
7 Fogo no Mar (Itália) Gianfranco Rosi
8 O Apartamento (Irã), Asghar Farhadi
9 De Longe Te Observo (Venezuela), Lorenzo Vigas
10 Land of Mine (Dinamarca), Martin Zandvliet

filme de animação
minhas apostas

1 Procurando Dory (Pixar)
2 Zootopia (Disney)
3 Kubo e as Cordas Mágicas (Laika/Focus Features)
4 A Tartaruga Vermelha (Sony Classics)
5 My Life as a Zucchini (GKIDS)

têm chances

6 Moana (Disney)
7 Miss Hokusai (GKIDS)
8 Abril e o Mundo Extraordinário (GKIDS)
9 Pets: A Vida Secreta dos Bichos (Universal)
10 Sing: Quem Canta Seus Males Espanta (Universal)

documentário
minhas apostas

1 O.J.: Made in America, Ezra Edelman
2 13th, Ava DuVernay
3 I Am Not Your Negro, Raoul Peck
4 Gleason, Clay Tweel
5 The Eagle Huntress, Otto Bell

têm chances

6 Life, Animated, Roger Ross Williams
7 Zero Days, Alex Gibney
8 The Ivory Game, Kief Davidson, Richard Ladkani
9 Tower, Keith Maitland
10 Weiner, Josh Kriegman & Elyse Steinberg

fotografia
minhas apostas

1 Silence, Rodrigo Prieto
2 La La Land, Linus Sandgren
3 A Chegada, Bradford Young
4 Jackie, Stéphane Fontaine
5 A Lei da Noite, Robert Richardson

têm chances

6 Ave, César!, Roger Deakins
7 Rules Don’t Apply, Caleb Deschanel
8 Animais Noturnos, Seamus McGarvey
9 Mogli, o Menino Lobo, Bill Pope
10 Café Society, Vittorio Storaro

montagem
minhas apostas

1 La La Land, Tom Cross
2 Silence, Thelma Schoonmaker
3 A Lei da Noite, William Goldenberg
4 Sully, Blu Murray
5 Fences, Hughes Winborne

têm chances

6 Até o Último Homem, John Gilbert
7 Lion, Alexandre de Francheschi
8 Moonlight, Joi McMillon, Nat Sanders
9 A Chegada, Joe Walker
10 Manchester à Beira-Mar, Jennifer Lame

desenho de produção
minhas apostas

1 La La Land, David Wasco; Sandy Reynolds-Wasco
2 Silence, Dante Ferretti; Francesca Lo Schiavo
3 A Lei da Noite, Jess Gonchor; Nancy Haigh
4 Animais Fantásticos e Onde Habitam, Stuart Craig, James Hambige; Anna Pinnock
5 A Criada, Ryu Seong-he

têm chances

6 Jackie, Jean Rabasse; Veronique Melery
7 A Chegada, Patrice Vermette; Paul Hotte
8 Rules Don’t Apply, Jeannine Oppewall; Nancy Haigh
9 Florence – Quem É Essa Mulher?, Alan MacDonald
10 Aliados, Gary Freeman; Raffaella Giovannetti

figurinos
minhas apostas

1 Silence, Sandy Powell
2 Jackie, Madeline Fontaine
3 A Lei da Noite, Jacqueline West
4 Animais Fantásticos e Onde Habitam, Colleen Atwood
5 La La Land, Mary Zophres

têm chances

6 Aliados, Joanna Johnston
7 Amor e Amizade, Eimer Ni Mhaoldomhnaigh
8 A Criada, Seong-hie Ryu
9 Florence – Quem É Essa Mulher?, Consolata Boyle
10 Rules Don’t Apply, Albert Wolsky

maquiagem
minhas apostas

1 Star Trek: Sem Fronteiras
2 Jackie
3 Até o Último Homem

têm chances

4 Silence
5 Animais Fantásticos e Onde Habitam
6 Florence – Quem É Esta Mulher?
7 Rogue One: Uma História Star Wars

trilha sonora
minhas apostas

1 O Bom Gigante Amigo, John Williams
2 Animais Fantásticos e Onde Habitam, James Newton Howard
3 Florence – Quem É Essa Mulher?, Alexandre Desplat
4 A Chegada, Jóhann Jóhannsson
5 La La Land, Justin Hurwitz

têm chances

6 Mogli, o Menino Lobo, John Debney
7 Jackie, Mica Levi
8 Silence, Kim Allen Kluge, Kathryn Kluge
9 Lion, Hauschka, Dustin O’Halloran
10 Rogue One: Uma História Star Wars, Michael Giacchino

canção
minhas apostas

1 “Audition (The Fools Who Dream)”, La La Land
2 “How Far I’ll Go”, Moana
3 “City of Stars”, La La Land
4 “I See a Victory”, Hidden Figures
5 “I’m Still Here”, Miss Sharon Jones!

têm chances

6 “Runnin’, Hidden Figures
7 “Can’t Stop the Feeling!”, Trolls
8 “We Know the Way”, Moana
9 “A Letter to the Free”, 13th
10 “Rules Don’t Apply”, Rules Don’t Apply

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Snowden: Herói ou Traidor

Snowden

Snowden perde um pouco de seu poder aterrorizante se você assistiu, alguns dias antes, o documentário Zero Days, sobre como os EUA invadiram e desestabilizaram vários sistemas operacionais no Irã e podem e fazem o mesmo com você. Mas a história do homem que revelou o Big Brother da vida real patrocinado pela “América” ainda tem seu lado fascinante. A grande questão é que, na intenção de colocar Edward Snowden como herói solitário, posto com o qual certamente deve se identificar, Oliver Stone realiza uma biografia burocrática do “inimigo íntimo” número um da terra que elegeu Donald Trump.

Ainda que use uma montagem não-linear para dar mais dinâmica ao filme, Stone sempre esbarra em tentativas didáticas de mostrar os embates éticos do personagem. Joseph Gordon Levitt está correto como protagonista, a não ser pela incômoda ideia de emular o sotaque de Snowden, o que deixa cenas dramáticas quase engraçadas. Na ânsia de fazer um retrato fiel, Stone parece não estar muito disposto a experiências visuais, o que faz bastante diferença diante da história de um mestre dos computadores. A fotografia, geralmente acomodada, ajuda a passar esta impressão de frieza ao filme.

Há poucos momentos inspirados. O melhor deles é quando Snowden é confrontado por seu chefe numa sala de reuniões. Os dois falam por um telão, mas Stone gigantifica o personagem de Rhys Ifans, como se o embate homem contra sistema acontecesse diante de nossos olhos. A meia hora final funciona porque a tensão finalmente é adicionada ao filme e a reprodução das cenas do documentário Citizenfour ganham agilidade. O resto é clichê de um Oliver Stone sempre fadado a se repetir.

Snowden: Herói ou Traidor EstrelinhaEstrelinha½
[Snowden, Oliver Stone, 2016]

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Martírio

Martírio

É muito provável e muito lamentável que Martírio nunca seja lançado no circuito comercial. Provável porque o documentário indigenista de Vincent Carelli é um filme grande (cerca de duas horas e quarenta minutos de registros de massacres de tribos no Mato Grosso) e, principalmente, porque é um filme imenso, muito além de méritos estritamente cinematográficos. Em sua investigação histórico-social do tratamento dispensado aos Guarani-Kaiowás pelos fazendeiros, políticos e autoridades brasileiras nos últimos 40 anos, Carelli monta um panorama vasto, detalhado e complexo para mostrar como o preconceito e a caça aos índios são movidos por interesses econômicos seculares e já estão completamente introjetados na sociedade brasileira.

Como Um Dia na Vida, de Eduardo Coutinho, filme-mosaico da programação televisiva do país, Carelli utiliza muitas imagens de TV, registros de encontros, palestras e manifestações públicas e ataca frontalmente políticos e líderes nacionais, como a ex-ministra Kátia Abreu, a partir de seus próprios discursos. Um dos pontos mais grotescos capturados pela montagem do documentário é o depoimento do governador de Mato Grosso no Congresso, onde ele classifica os índios como assassinos selvagens que querem impedir que o homem branco, trabalhador, trabalhe.

No filme que resume sua vida, seu trabalho junto à causa indígena, Carelli remonta a historiografia do massacre do primeiro brasileiro, seu choro, sua luta. Há muitos momentos emocionantes no filme, mas dois são particularmente especiais: um é quando a câmera do diretor encontra o rosto de uma velhinha guarani-kaiowá que não consegue parar de chorar. Por um ou alguns minutos, é possível experimentar um pouco da dor daquele povo, expulso de sua própria terra, através das lágrimas daquela mulher.

O segundo momento é uma cena que faz desmoronar um dos pensamentos mais comuns e oportunistas contra o direito do índio, o de que a população indígena já está suficientemente mesclada à sociedade do homem branco, a de que o índio já está aculturado, perdeu sua pureza e com ela seu direito. Um entendimento que, por pouco não foi parar na Constituição, quando foi proposto que índios “aculturados” não deveriam estar aptos a ter terras demarcadas, por exemplo, como se tivessem atingido seu ápice civilizatório sendo brasileiros. A imagem que desmonta esse discurso é a de um índio, de terno e gravata, no microfone da Câmara Federal, explicando sua origem, enquanto pinta seu rosto de preto. Uma imagem para nunca esquecer.

Se tivesse apenas estas duas imagens, Martírio já seria grande, mas a obra de Vincent Carelli vai muito além do cinema. Seus méritos são muito mais humanistas do que necessariamente cinematográficos. Pelo filme único e inimitável que é, pelo fato de que nunca se poderá copiá-lo ou refazê-lo, Martírio é um marco histórico não apenas no documentário nacional ou no cinema brasileiro, mas na história do humanismo.

Martírio ★★★★½
[Vincent Carelli, 2016]

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Através da Sombra

Através da Sombra

Através da Sombra parecia um projeto perfeito para Walter Lima Jr. Um filme que poderia facilmente morar no intervalo entre o clássico de Menino de Engenho e o devaneio de A Lira do Delírio. Mas o cineasta de tantos êxitos parece não conseguir dar amarras a esta adaptação da mesma novela de Henry James que inspirou Os Inocentes, de Jack Clayton. Se o filme de 1961 nunca se entregava completamente ao espectador, criando um efeito complexo de suspensão da realidade, a versão tropical de A Outra Volta do Parafuso, transposta pelo próprio Lima Jr com diálogos de Adriana Falcão para o Brasil dos anos 1930, parece domesticada, explicadinha e incapaz de instaurar o clima de terror que o texto pede. O roteiro tenta acrescentar tanto um subtexto político quanto elementos de tensão sexual à história, mas eles ficam dispersos e nunca se desenvolvem propriamente.

É perceptível o esforço de Virginia Cavendish, que também produziu o filme, para colocar a protagonista num limbo entre o terror e a alucinação, mas sua histeria nunca realmente convence. A dupla de crianças com quem contracena não ajuda: podem ser bons atores de novela, mas não conseguem chegar a uma segunda camada, menos superficial, como pede a história. Curiosamente, apesar da equipe experiente, nem a fotografia nem a direção de arte funcionam plenamente em Através da Sombra. A câmera é bastante preguiçosa: nunca procura um ângulo sequer mais inventivo, raramente tenta acompanhar o delírio da personagem principal. Os figurinos são um dos pontos mais incômodos porque os atores parecem, praticamente em todas as cenas, vestirem fantasias, o que reforça a sensação de estarem apenas caminhando num cenário.

As cenas no trem, por exemplo, parecem querer projetar um certo distanciamento da realidade, mas soam somente artificiais – e com atores muito mal dirigidos. Falta rigor e uma mão mais forte em praticamente quase todos os aspectos do filme, o que deixa a história frouxa e o que sobra, sem rédea. É realmente uma pena porque o talento de Walter Lima Jr poderia ajudar a dar elegância e corpo ao cinema de gênero brasileiro que parece ganhar cada vez mais novos adeptos entre os cineastas recentes. O mestre ficou devendo desta vez.

Através da Sombra ★★
[Walter Lima Jr, 2015]

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Pequeno Segredo

Pequeno Segredo

A escolha de Pequeno Segredo para representar o Brasil na disputa pelo Oscar de filme estrangeiro selou a sina do longa de David Schurmann: o drama familiar dirigido pelo velejador virou inimigo público número um da democracia por ter tirado a vaga de Aquarius do ringue hollywoodiano. Natural. O filme estrelado por Sonia Braga que se transformou em símbolo da luta contra o impeachment de Dilma Roussef seria, na visão de grande parte da população, o candidato natural ao pleito, enquanto o segundo trabalho de Schurmann sequer havia sido visto por alguém. Pequeno Segredo foi julgado, condenado e apedrejado com a mesma intolerância com que um homossexual ou uma mulher adúltera encontra em países regidos por fundamentalistas. Sequer foi visto, já era considerado execrável.

As coisas mudam a partir de agora, quando o filme finalmente chega aos cinemas. A avaliação, desta vez, é baseada em fatos reais, assim como a história do longa, que anuncia sua nobre origem já em seus créditos iniciais, com um lettering que cruza a tela seguido por uma marca d’água que repete a frase numa espécie de caligrafia clonada, como se Schurmann quisesse deixar claro, desde o começo, o lado humano da história. “Baseado em fatos reais” tem cada vez mais sido usado como referendo para qualquer tipo de obras, especialmente filmes, como se o fato de aquela história que está sendo contada fosse mais importante do que uma trama original. Em Pequeno Segredo, o carimbo ajuda a amaciar a inexperiência do diretor na ficção. Seu primeiro longa, Desaparecidos, que pode ser encontrado na íntegra no YouTube, não traz um exemplo muito eficiente de talento dramático.

Mas o novo filme parece um passo além. Pelo menos na maquiagem das inconsistências. Schurmann se cercou por colaboradores mais experientes, alguns até vencedores do Oscar; recrutou atores conhecidos, como Julia Lemmertz e Marcello Anthony, além de chamar Fionula Flanagan para uma participação especial; e parece realmente incumbido de contar uma história de maneira poética. A questão que seu senso de poesia, desde a marca d’água dos créditos, parece bastante questionável, seja visualmente quanto nos diálogos e no desenho dos personagens. O filme é cheio de imagens-clichê como a borboletinha virtual que dá suas caras aqui e ali, que só não incomodam mais do que a cena em que a personagem de Julia Lemmertz confronta a de Flanagan (que parece caçoar do espectador com sua vilã caricata), perguntando “o que é o amor?”.

O texto, coescrito por Marcos Bernstein, um dos autores de Central do Brasil, parece poesia ruim de aluno da quarta série. Sua incompetência falha quando a intenção é emocionar e só facilita o trabalho dos críticos, que não é tão simples, diante de uma história bonita de altruísmo e dedicação. O mais complexo na análise de um filme como Pequeno Segredo é que ele transborda boas intenções em cada cena. Schurmann dedica o filme a sua mãe e a sua irmã, o que é bastante coerente com o fato de que as duas são as protagonistas absolutas do longa. Num esforço de talvez tentar manter algum distanciamento da trama que está contando, uma história tão próxima dele, o diretor praticamente elimina a si mesmo e a seus irmãos como personagens do filme. Eles aparecem em algumas cenas, mas sem ser nominados, o que causa no mínimo um certo desconforto.

A fragilidade do filme revolta mais do que seu bom mocismo. Este parece ser um panfleto ideal para os tempos de hoje: seu visual envernizado serve para encobrir a falta de criatividade; sua armadura sentimental ajuda a esconder as inconsistências e a incapacidade de flexão dramática; e sua assinatura, “baseado em fatos reais”, é um escudo que protege tanto a falta de textura quanto o maniqueísmo de uma história que se pretende inspiradora. A comissão do Oscar estava certa mesmo: Pequeno Segredo é o representante natural para o Brasil neste momento obtuso em que vivemos.

Pequeno Segredo ★½
[David Schurmann, 2016]

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Oscar 2017: os estrangeiros

A Academia anunciou a lista final de filmes que disputam uma vaga na corrida pelo Oscar de língua estrangeira e o recorde de número de inscritos foi batido mais uma vez. Oitenta e nove países selecionaram seus candidatos oficiais, mas apenas 85 aparecem na lista da Academia (quatro a mais do que no ano passado). Os motivos para os cortes ainda não foram revelados (nem sabemos se serão), mas geralmente eles passam pela real nacionalidade de um filme e pela quantidade de diálogos que ele tem na língua do país que o indicou. Saíram da disputa:

Afeganistão: Parting, Navid Mahmoudi
Armênia: Earthquake, Sarik Andreasyan
Camarões: Yahan Ameena Bikti Hai, Kumar Raj
Tunísia: As I Open My Eyes, Leyla Bouzid

A tendência natural dos países é privilegiar filmes que estrearam em grandes festivais, como a Itália, que elegeu o Urso de Ouro no Festival de Berlim, Fogo no Mar; a Venezuela, cuja escolha foi o vencedor de Veneza no ano passado, De Longe Te Observo; e ainda Alemanha, França, Espanha, Romênia e Canadá, que elegeram seus filmes em Cannes, só para citar alguns exemplos. Diretores reconhecidos estão na disputa deste ano: Paul Verhoeven, Danis Tanovic, Hany Abu-Assad, Andrzej Wajda, morto recentemente, e Andrei Konchalovsky, todos ou já premiados ou já indicados na categoria. O Brasil decidiu seguir uma estratégia diferente. Em vez do prestigiado Aquarius, celebrado em Cannes e que agora chega aos cinemas franceses elogiadíssimo pela Cahiers du Cinema, preferiu o obscuro Pequeno Segredo, de David Schurmann, sob o pretexto de ser “a cara do Oscar”.

Vejam os 85 filmes confirmados:

África do Sul: Call Me Thief, Daryne Joshua
Albânia: Chromium, Bujar Alimani
Alemanha: Toni Erdmann EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Maren Ade
Arábia Saudita: Barakah Meets Barakah, Mahmoud Sabbagh
Argélia: The Well, Lotfi Bouchouchi
Argentina: O Cidadão Ilustre, Mariano Cohn e Gastón Duprat
Austrália: Tanna EstrelinhaEstrelinha½, Martin Butler & Bentley Dean
Áustria: Stefan Zweig: Farewell to Europe, Maria Schrader
Bangladesh: The Unnamed, Tauquir Ahmed
Bélgica: The Ardennes, Robin Pront
Bolívia: Sealed Cargo, Julia Vargas-Weise
Bósnia Herzegovina: Morte em Sarajevo EstrelinhaEstrelinha, Danis Tanovic
Brasil: Pequeno Segredo Estrelinha½, David Schurmann
Bulgária: Losers, Ivaylo Hristov
Camboja: Before the Fall, Ian White
Canadá: É Apenas o Fim do Mundo, Xavier Dolan
Cazaquistão: Amanat, Satybaldy Narymbetov
Chile: Neruda, Pablo Larrain
China: Xuan Zang, Huo Jianqi
Colômbia: Alias Maria, José Luis Rugeles Gracia
Coreia do Sul: The Age of Shadows, Kim Jee-Woon
Costa Rica: Entonces Nosotros, Hernán Jiménez
Croácia: On the Other Side, de Zrinko Ogresta
Cuba: El Acompañante, Pavel Giroud
Dinamarca: Land of Mine, Martin Zandvliet
Egito: Clash, Mohamed Diab
Eslováquia: Eva Nová, Marko Škop
Eslovênia: Houston, We Have a Problem!, Žiga Virc
Equador: Sin Muertos no Hay Carnaval, Sebastián Cordero
Espanha: Julieta EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, de Pedro Almodóvar
Estônia: Mother, Kadri Kõusaare
Filipinas: Ma’ Rosa EstrelinhaEstrelinha½, Brillante Mendoza
Finlândia: O Dia Mais Feliz na Vida de Olli Mäki EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Juho Kuosmanen
França: Elle EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Paul Verhoeven
Geórgia: House of Others, Russudan Glurjidze
Grécia: Chevalier, Athina Rachel Tsangari
Holanda: Tonio, Paula van der Oest
Hong Kong: Port of Call, Philip Yung
Hungria: Kills on Wheels, Atilla Till
Iêmen: I Am Nojoom, Age 10 and Divorced, Khadija Al-Salami
Índia: Visaranai, Vetrimaaran
Indonésia: Letters from Prague, Angga Dwimas Sasongko
Irã: O Apartamento EstrelinhaEstrelinha, Asghar Farhadi
Iraque: El Clásico, Halkawt Mustafa
Islândia: Pardais EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Rúnar Rúnarsson
Israel: Sand Storm, Elite Zexer
Itália: Fogo no Mar EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Gianfranco Rosi
Japão: Nagasaki: Memories of my Son, Yôji Yamada
Jordânia: 3000 Nights, Mai Masri
Kosovo: Home Sweet Home, Faton Bajraktari
Letônia: Dawn, Laila Pakalniņa
Líbano: Very Big Shot, Mir-Jean Bou Chaaya
Lituânia: Seneca’s Day, Kristijonas Vildziunas
Luxemburgo: Voices from Chernobyl, Pol Cruchten
Macedônia: The Liberation of Skopje, Rade Šerbedžija, Danilo Šerbedžija
Malásia: Beautiful Pain, Tunku Mona Riza
Marrocos: A Mile in My Shoes, Said Khallaf
México: Deserto, Jonás Cuarón
Montenegro: The Black Pin, Ivan Marinovic
Nepal: The Black Hen, Min Bahadur Bham
Noruega: The King’s Choice, Erik Poppe
Nova Zelândia: A Flickering Truth, Pietra Brettkelly
Palestina: O Ídolo, Hany Abu-Assad
Panamá: Salsipuedes, Ricardo Aguilar Navarro & Manuel Rodríguez
Paquistão: Mah e Mir, Anjum Shahzad
Peru: Videophilia (and Other Viral Syndromes), Juan Daniel Fernández
Polônia: Afterimage, Andrzej Wajda
Portugal: Cartas da Guerra, Ivo M. Ferreira
Quirguistão: A Father’s Will, Bakyt Mukul, Dastan Japar Uulu
Reino Unido: Sob as Sombras EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Babak Anvari
República Dominicana: Flor de Azucar, Fernando Baez
República Tcheca: Lost in Munich, Petr Zelenka
Romênia: Sieranevada EstrelinhaEstrelinhaEstrelinhaEstrelinha½, Cristi Puiu
Rússia: Paradise, Andrei Konchalovsky
Sérvia: O Diário de um Maquinista EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Miloš Radović
Singapura: Apprentice, Boo Junfeng
Suécia: A Man Called Ove, Hannes Holm
Suíça: My Life as a Courgette, Claude Barras
Tailândia: Karma, Kanittha Kwanyu
Taiwan: Hang in There, Kids!, Laha Mebow
Turquia: Cold of Kalandar, Mustafa Kara
Ucrânia: Ukrainian Sheriffs, Roman Bondarchuk
Uruguai: Breadcrumbs, Manane Rodriguez
Venezuela: De Longe Te Observo EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha, Lorenzo Vigas
Vietnã: Yellow Flowers on the Green Grass, Victor Wu

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Meu Rei

Meu Rei

Políssia, embora tivesse algumas simplificações e soluções fáceis de roteiro, era um filme-painel ágil e bem interessante sobre a divisão da polícia francesa de proteção a crianças, com um elenco grande e bem dirigido pela atriz-que-virou-cineasta, Maïwenn. Mas o trabalho seguinte da francesa, seu quarto longa como diretora, tem resultados bem mais contraditórios. Se de um lado, busca retratar com o máximo de realidade possível os bastidores de um casamento conturbado, o filme não raramente invade os limites do histriônico e assume algumas posturas próximas bem questionáveis, namorando perigosamente com a misoginia. O filme se passa em duas linhas temporais paralelas: no presente, Tony acaba de sofrer uma acidente na montanha e vai para uma clínica onde vai se recuperar de uma perna lesionada. No passado, ela reencontra Georgio, um flerte da juventude, e os dois rapidamente engatam um namoro e um casamento. Como manda o clichê, o príncipe encantado esconde defeitos que só a convivência poderia revelar e, dia a dia, Tony descobre novos problemas em seu relacionamento. O grande senão de Maïwenn é como ela administra essa mudança nas personagens. Aos poucos, a diretora transforma Tony numa mulher histérica e Georgio, num canalha natural. Os estereótipos só não viram monstros maiores porque tanto Emmanuelle Bercot, que também é cineasta, quanto Vincent Cassel são ótimos atores e estão muito bem em suas personagens quando o roteiro não os condena demais. E se Maïwenn, que foi casada com o cineasta Luc Besson quando tinha 15 anos de idade, é bastante tolerante com o personagem do marido, a diretora parece condenar a personagem da esposa, como se Georgio tivesse o comportamento de qualquer homem e se Tony não tivesse tido a força necessária para perceber e enfrentar isso.

Mon Roi EstrelinhaEstrelinha½
[Mon Roi, Maïwenn, 2015]

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Mate-me, Por Favor

Mate-me, Por Favor

Não existe um só adulto no mundo de Mate-me, Por Favor. Todos os personagens em cena são (e são interpretados por) adolescentes, sendo a única exceção o irmão mais velho de uma adolescente. Em seu primeiro longa-metragem, Anita Rocha da Silveira realiza um impressionante mergulho nesse universo teen, realmente capturando a essência do jovem brasileiro, urbano, dos dias de hoje, objeto de estudo de diversos cineastas, mas pouquíssimos conseguem traduzi-los sem maniqueísmo. Os diálogos, os movimentos, os interesses, a confusão. Tudo parece muito genuíno no cinema de Anita, que mostra um excepcional talento para administrar espaços. Mate-me, Por Favor tem uma das fotografias mais instigantes do cinema brasileiro neste ano, cheio de fotografias instigantes. Consegue transformar o Rio de Janeiro, ou melhor, a Barra da Tijuca num ambiente de desolação, que funciona muito bem para estabelecer o suspense sensorial que parece ser um objetivo para a diretora, embora o crescimento urbano, que também parece estar no alvo, não fique tão bem inserido à trama assim. No entanto, Anita é uma ótima diretora de atores. Ou de atrizes. As quatro meninas são excelentes. O que incomoda um tanto é a transformação da protagonista. Os motivos estão ali, a percepção e a sedução da morte está ali, mas os simbolismos um tanto exagerados não funcionam com tão bem assim. A questão religiosa também é um problema porque o filme opera num naturalismo que se choca com o pastiche com que a diretora retrata a discussão espiritual. Enfim, é preciso elaborar, mas a pura existência de uma mulher ensaiando um filme de terror, com tantos créditos, merece ser celebrada.

Mate-me, Por Favor EstrelinhaEstrelinhaEstrelinha
[Mate-me, Por Favor, Anita Rocha da Silveira, 2015]

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Aquarius

Aquarius

Numa cena rápida de Aquarius, Clara, a personagem de Sonia Braga, depois de visitar o túmulo do marido no cemitério, observa dois coveiros retirando os restos mortais de uma cova para desocupá-la. A imagem, que apenas exemplifica uma lógica comum aos empreendimentos funerários, dura cerca de um minuto, talvez menos, mas resume boa parte do drama da própria Clara e da essência do filme de Kleber Mendonça Filho: o que está em discussão é a troca do velho pelo novo. Ou ainda, do velho pelo novo para reforçar o velho. O olhar de estranhamento da protagonista para aquela cena tem justificativa. Clara se enxergou ali. Logo ela, que sempre foi uma mulher avançada, jornalista, uma mãe que deixou os filhos com o marido durante dois anos para morar fora do país. Logo ela, que se define como “uma mistura de velhinha com criança”. No contexto de Aquarius, essa mulher moderna, que sempre soube driblar muito bem a herança secular de um Nordeste ainda preso a vícios familiares, virou uma peça de museu.

Ela é a última moradora do prédio que batiza o filme, na praia de Boa Viagem, em Recife, a “louca” que empaca os projetos da construtora que quer demolir o edifício e que impede o progresso. Como mostram os primeiros 20 minutos de filme, o edifício Aquarius é o lugar onde Clara vive há mais de 30 anos, onde seus filhos cresceram, onde ela guarda seus discos e sua história. A memória, mais uma vez, é parte intrínseca da narrativa de um filme do cineasta pernambucano, mas depois do olhar mais cruel para o passado de O Som ao Redor, desta vez, Kleber se volta para trás com nostalgia. As paredes cheias de discos aparecem em várias cenas do filme, que é costurado por músicas que parecem fazer parte da própria história do diretor. Elas emolduram essa peça de resistência de Kleber ao sistema, ao cinema fácil, à ideia de que o progresso passa pela destruição do passado. O grande trunfo do cineasta foi saber como transformar essa manifestação política numa história cheia de humanidade. Se O Som ao Redor era mais “agressivo” enquanto discurso e em suas opções de linguagem, Aquarius trabalha com humanidades.

A presença de Sonia Braga, que há quinze anos não fazia um filme brasileiro, enche de luz o filme. Literalmente. A atriz parece apaixonada pela personagem e a defende de todas as formas possíveis. Cada cena ganha um brilho diferente por causa de sua interpretação discreta, mas sempre muito forte. A resistência de sua personagem é a mesma resistência do Ocupe Estelita, movimento que condena a venda ilegal de uma área do porto do Recife para imobiliárias. Mas Clara não é uma mulher de panfletos. Sua maior ação política é manter a integridade de sua alma, que resistiu a um câncer e a tanta história. Aquarius tem começo, meio e fim mais claros do que o longa anterior de Kleber. A narrativa é muito mais tradicional e a opção por usar um elenco totalmente profissional, ao contrário de O Som ao Redor, que tinha muitos atores amadores, provavelmente vai deixar o espectador pouco afeito a experimentações mais confortável. A memória que rege a linha narrativa também ajuda a envolver o espectador. É um filme relativamente fácil de acompanhar, sem mensagens cifradas, onde o grande talento foi trazer suas discussões para o primeiro plano, de maneira direta, que convida quem assiste ao filme à ocupação.

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Portanto, boa parte da polêmica em torno de Aquarius não se justifica. A discussão em torno do longa parece ter se resumido ao protesto contra o afastamento da presidenta Dilma Rousseff que a equipe do filme fez antes de sua sessão de gala no Festival de Cannes, onde o longa brasileiro participou da seleção principal, coisa que não acontecia havia oito anos. E, afinal, conseguir ser incluído num festival de renome significa ser um bom filme? Afinal, o que faz um bom filme? Sua capacidade de comunicação com o espectador, a qualidade técnica de sua produção ou os desafios que ele propõe para quem o assiste, sejam temáticas, de formato ou de linguagem? A resposta é que não existe resposta. Ou “todas as alternativas acima”. E outras tantas.

Para muitos detratores, a análise da obra começou a passar necessariamente pela postura política “do projeto” fora da tela, como se o trabalho de Kleber já não fosse suficientemente político dentro dela, uma predisposição que o diretor já demonstrava em grande parte de seus curtas e, principalmente, em seu longa anterior. O Som ao Redor lança ou afirma algumas de suas temáticas favoritas: a desordem na ocupação das grandes cidades, a especulação imobiliária, o resquício do coronelismo secular nordestino nos dias de hoje. Em Aquarius, ele apenas vai mais longe. O cinema de Kleber é um cinema político por natureza. Chamar atenção para a atitude política das ações dele e de sua equipe, como se desta vez ele tivesse ultrapassado os limites, é até ingênuo, porque ele sempre fez isso. Se a questão é fazer um filme de cunho político em vez de se centrar na “arte de contar uma história” e estes blábláblás, é preciso dar uma estudada e assistir mais filmes, sobretudo daqueles diretores que construíram carreiras de um cinema iminentemente político, como Costa-Gavras, Marco Bellocchio, Ken Loach, Spike Lee e Jafar Panahi. E tantos outros.

Arte e política são intrínsecas. Pode parecer novidade, mas todo filme tem uma postura política, desde os documentários mais engajados e literais, como O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer, que tem um alvo bem claro (o governo indonésio), até as comédias aparentemente mais simples, como Sócios no Amor, de Ernst Lubitsch, que em plenos anos de 1930 dá girl power para as mulheres, fala de relacionamentos a três, impõe a revolução nos mínimos detalhes. A obra de arte é um dos maiores e melhores palcos para qualquer manifestação política há mais ou menos 120 anos. Um pouco mais, talvez. Aquarius é extremamente político e crítico a um status quo pernambucano, nordestino, brasileiro e a um estado de espírito contaminado por velhas verdades e muitas dependências. Todos os envolvidos estão extremamente cientes desta postura, mas em nenhum momento a necessidade de discurso se sobrepõe à expressão artística. O filme levanta o cartaz para quem quiser ver porque tem direito de fazer isto. E Kleber Mendonça Filho soube levantar esse cartaz como poucos. Política e arte andam juntas no mundo e no cinema. E, em Aquarius, elas vivem um longo e intenso triângulo amoroso com Sonia Braga.

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[Aquarius, Kleber Mendonça Filho, 2016]

* texto escrito originalmente para o UOL

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Francofonia: Louvre Sob Ocupação

Francofonia

Aleksandr Sokurov aumentou o intervalo entre seus filmes de ficção. Se antes lançava novos trabalhos a cada um ou dois anos, nos últimos tempos passou a esperar pelo menos quatro para lançar o ótimo Fausto e agora Francofonia. No filme, produzido e estrelado pelo Museu do Louvre, o cineasta russo exercita tanto sua faceta documental, que sempre foi bastante forte em sua filmografia, e a ficção propriamente dita, mas num formato bem mais convencional do que estamos acostumados a receber. Nada dos ensaios poéticos sobre arte, vida e história que permeavam Arca Russa, nem os retratos de época barrocos que ele fez em Moloch e Taurus. Arca Russa, por sinal e pela lógica, deveria ser o filme-irmão deste novo projeto, mas Francofonia se afasta da obra-prima de Sokurov em absolutamente todos os prismas. Se o filme de 2002 dava vida à história a partir do local que a preserva, o museu Hermitage, agora outro museu, o mais famoso do mundo, o Louvre, não é apenas ponto de partida, mas quase um local de clausura para a história que tenta contar. O Hermitage era um “protagonista” muito mais generoso, que abria espaço para que seus coadjuvantes dividissem consigo mesmo as atenções no filme. O Louvre está mais para um ator com ego elástico, que tenta fazer do longa um veículo para si mesmo. Desta vez, Sokurov utiliza uma dramatização bem tradicional para falar sobre a aliança entre o diretor do museu, Jacques Jaujard, e o general nazista Conde Wolff-Metternich, que ajudou a preservar o Louvre durante a invasão alemã em Paris na Segunda Guerra. Por outro lado, a parte documental é bem quadrada, utilizando imagens de arquivo da maneira mais clássica possível para contar a história e não avança muito em dar uma dimensão mais poética ao assunto. Faltou arte a um filme que esta falando essencialmente de um dos redutos mais clássicos de arte.

Francofonia: Louvre Sob Ocupação EstrelinhaEstrelinha
[Francofonia, Aleksandr Sokurov, 2015]

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